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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Os pequenos tesouros de 2012

E chegamos ao último post do ano. Foi um ano um pouco mais calmo no blog que ano passado: 64 postagens, contra 75 de 2011. De fato, foram um ou dois artigos por semana, ao contrário de um ano que teve até três assuntos comentados em menos de sete dias. Engana-se quem pensa que isso significou menos trabalho para mim: em 2012 me engajei no lançamento de mais um livro e somei à minha coluna quinzenal no Leia Literatura uma coluna semanal no Antes que Ordinárias e outra mensal no Filmes e Games, além de uma participação interrompida no Red Apple Pin-Ups, que eu espero que volte com força total em 2013. E aproveito para agradecer a todos que apreciam meu blog e votaram por ele no Top Blog. Foi uma grata surpresa ficar entre o Top 100, o que mostra que eu estou no caminho certo!
Mas como Reveillon não é Dia de Ação de Graças, não vou ficar enumerando as coisas boas de 2012, mas sim relembrar, com a ajuda da fiel agenda em que anoto os filmes vistos, algumas produções maravilhosas. Alerto que deixo de lado excelentes escolhas como “Tarde Demais / The Heiress” (1948) e “A montanha dos sete abutres / Ace in the Hole” (1951) porque são filmes “óbvios”. Cito aqui algumas pérolas que, se eu não tivesse curiosidade e tempo livre, poderia ter deixado de assistir, uma vez que não são filmes essenciais ou muito comentados.
Onde eu anotei os filmes de 2012
Começo confessando que entre minhas resoluções de Ano Novo estava assistir a mais faroestes e filmes mudos. Não consegui matar dois coelhos com um tiro só e assistir a faroestes mudos, embora saiba que eles existam. Mesmo assim, creio que me saí bem: vi 17 filmes silenciosos, incluindo a restauração de “The White Shadow” (1924). Entre os filmes mudos, tenho de destacar “O último comando” (1928), uma maravilhosa produção com Emil Jannings, Evelyn Brent e William Powell sobre um velho comandante das tropas do czar que, após a Revolução Russa, vai trabalhar em Hollywood como extra e reencontra um homem que ele havia torturado e agora é diretor de cinema. Simplesmente um espetáculo comovente, que foi escolhido um dos 100 melhores filmes da história pela revista Time.
Os faroestes foram em maior número: 26. Preciso destacar “Nas Trilhas da Aventura / The Hallelujah Trail (1965), “El Dorado” (1966) e “O Rio da Aventura / The Big Sky” (1952). Como se não bastasse, vi quatro filmes com Sherlock Holmes no papel principal e três com 007.
Outro hábito que adquiri em 2012 foi assistir a filmes nacionais, contando com uma ajudinha da TV Justiça, que todas as sextas exibe a Sessão Cinemateca na faixa das 21 horas. Foi através dessa sessão que fiquei íntima de Oscarito e apreciei o talento de Grande Otelo. No entanto, o filme que mais me chamou a atenção foi “Na Senda do Crime” (1954), que em muito lembra o policial “Força do Mal”, feito seis anos antes e estrelado por John Garfield. Mais um filme nacional interessante, esse uma dica para os amantes de história, é “Rebelião em Vila Rica” (1957), que retrata um movimento estudantil muito semelhante à Inconfidência Mineira.
Alguns filmes de chorar de rir foram “Anáguas à Bordo / Operation Petticoat” (1959), “A corrida do século / The Great Race” (1965), “O Magnífico” (1973) e “O irmão mais esperto de Sherlock Holmes / The adventure of Sherlock Holmes’s Smarter Brother” (1975). Bergman me surpreendeu com sua curiosa comédia “Para não falar de todas essas mulheres” (1964) e Truffaut, com os adoráveis “O quarto verde” (1978) e “Domicílio Conjugal” (1973). Como nem tudo é diversão, vi também filmes de terror, como “A Múmia” (1932) e “O homem invisível” (1933), curiosos mas não muito assustadores.
Reconhece Claude Rains em "O Homem Invisível"?
As cinebiografias, que muito me agradam, estiveram presentes em títulos como “O segredo de Beethoven / Copying Beethoven” (2006), um tanto fantasiosa; “As aventuras de Omar Khayyam / The life, loves and adventures of Omar Khayyam” (1957) e “Tico-tico no fubá” (1952), sobre o compositor Zequinha de Abreu.      
2012 foi o ano em que eu passei a dar maior atenção a Barbara Stanwyck, Tyrone Power, Harold Lloyd, Jack Lemmon, Montgomery Clift, Claude Rains, James Mason e Lon Chaney. O ano em que conheci pessoas muito bacanas no Twitter, Tumblr e Facebook que, não importa há quanto tempo são fãs de cinema clássico, sempre têm um bom filme desconhecido a indicar. Ufa! 2012 foi um ano cheio de trabalho, bons filmes e bons momentos. 2013 já começará com novidades aqui no blog. Conto com vocês, leitores, para fazermos mais um ano inesquecível para a comunidade do cinema clássico. Aguardem! 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

As três noites de Eva / The Lady Eve (1941)

Em 1941, aos 36 anos, Henry Fonda exibia sua melhor forma. De fato, ele nunca esteve tão bonito quanto neste filme. Não é de se espantar que várias mulheres estejam atrás dele, como Barbara Stanwyck narra, vendo a cena através do reflexo de um espelho. Apesar disso, apenas duas mulheres, que na verdade são uma só, duelam por seu amor nesta deliciosa comédia.
Charles Pike (Fonda) é um biólogo apelidado de “chopinho” (“hopsy” no original) devido aos negócios do pai, sócio de uma cervejaria e muito rico. Ele é um dos primeiros nerds do cinema, inteligente porém desajeitado. Assim, torna-se presa fácil para os golpistas “Colonel” Harry Harrington (Charles Coburn) e sua filha Jean (Stanwyck), que pretendem roubar o dinheiro dele no jogo de cartas. Ninguém esperava que ele se apaixonasse por Jean, mas quando Charles descobre quais eram as intenções dela, ele a abandona no navio e segue seu rumo.
Em uma festa na mansão dos Pike, Stanwyck reaparece, agora como Lady Eve Sidwich. Embora a semelhança com Jean faça Charles desconfiar, ela logo usa sua perspicácia para enganá-lo novamente, dizendo que ela e Jean são filhas do mesmo pai. Mais uma vez Charles se apaixona por ela, embora seu secretário Mugsy (William Demarest) tente impedir que eles se casem, usando sua frase de efeito: “é a mesma umazinha!” (“she’s the same dame!”).
Preston Sturges, um mestre da comédia romântica, escreveu o roteiro baseando-se em um conto de 19 páginas já existente nos arquivos da Paramount. Com muita esperteza, ele conseguiu inserir cenas e diálogos picantes demais para a época, sem contudo ter problemas com o Código Hays. Trabalhar com o diretor foi uma alegria para Barbara e Henry. Usando roupas extravagantes para ser facilmente encontrado no set de filmagem em meio à numerosa equipe técnica, Preston fazia de tudo para deixar seus colegas de trabalho à vontade.          
Charles está saindo da Amazônia com uma cobra rara. No navio é possível ver até cartazes escritos em português. Apesar disso, as cenas anteriores, que mostram Charles na floresta, foram gravadas em Los Angeles. Com ou sem floresta, o certo é que este filme foi um ponto de virada nas carreiras do belíssimo Henry e também de Barbara, uma atriz versátil que até então nunca havia feito uma comédia, apenas dramas e westerns. O filme ainda traz referências ao mito de Adão e Eva, incluindo a cobra e a maçã que aparecem junto aos créditos, numa adorável sequência animada.
Mas quais as diferenças entre Jean e Eve? Vejamos:

Jean Harrington:                                                                  
Estilo: cabelos soltos, roupas mais modernas, salto alto, blusa curta.
Esporte: jogar cartas.
Técnica de sedução: fazer o pretendente tropeçar sem querer, coçar a cabeça dele enquanto diz palavras doces e frases provocantes.
Por que Charles não ficaria com ela: é uma vigarista que vive de tirar dinheiro de milionários.

Lady Eve Sidwich:
Estilo: cabelo preso, roupas elegantes (como lindos vestidos longos desenhados especialmente por Edith Head), roupas de montaria.
Esporte: andar a cavalo.
Técnica de sedução: Simplesmente deixar os homens caírem de amor por ela. Literalmente.   
Por que Charles não ficaria com ela: teve muitos relacionamentos íntimos antes de se casar.

E você, ficaria com Jean ou Lady Eve? Ou com Barbara Stanwyck?

This is my entry for the Second Dueling Divas Blogathon, hosted by Lara at Backlots. Don’t forget to read the other entries and... 

Feliz Natal!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Dupla Dinâmica: Werner Herzog e Klaus Kinski


Alguns dos melhores filmes do cinema alemão surgiram através da colaboração entre o director Werner Herzog e o ator Klaus Kinski. Além de geniais e geniosos, eles formavam uma dupla literalmente explosiva. Para se ter uma ideia, durante as filmagens de “Aguirre – A cólera dos deuses” (1972), Herzog fez um acordo com uma tribo peruana para que Kinski fosse morto e teve de desfazer o trato apenas porque, quando a data do assassinato chegou, ainda faltavam cenas para gravar.
A morte encomendada de Kinski não foi o único fato curioso das filmagens de Aguirre: como o feitiço normalmente vira contra o feiticeiro, Werner esteve à beira da morte. Seu voo, o LANSA Flight 508, foi destruído após ser atingido por um raio. No entanto, o diretor havia desistido de embarcar no último minuto. Outra situação de perigo enfrentada por Herzog foi durante uma entrevista, poucos dias depois de ter ajudado Joaquin Phoenix com seu carro quebrado na estrada. Enquanto falava para a BBC, Herzog foi baleado, mas continuou a entrevista e mostrou seu ferimento, dizendo que a bala não era nada.    
Herzog foi excêntrico o bastante para prometer que, se o cineasta Errol Morris conseguisse terminar seu filme, ele comeria o próprio sapato. Com a estreia de “Gates of Heaven” em 1987, Werner cozinhou e comeu publicamente o calçado, dizendo que seu ato servia de estímulo àqueles que desejam levar um projeto adiante.
Seus filmes conseguem ser tão interessantes quanto sua vida nada comum. Ele costuma trabalhar com uma equipe fiel de produtores, editores e compositores que o acompanham em diversas produções. No campo da atuação, sua parceria com Klaus Kinski é a que merece mais destaque, rendendo cinco filmes e um documentário.    
Nascido na Polônia, Kinski participou da Segunda Guerra Mundial do lado alemão. Capturado pelos ingleses em 1945, desertou, mas foi recapturado e julgado. Segundo o próprio Klaus, ele conseguiu escapar de uma condenação de morte. Ficou prisioneiro dos ingleses mesmo depois do fim do conflito e, sabendo que os presos doentes seriam os primeiros a voltar para casa, tentou adoecer ficando nu, bebendo urina e comendo cigarros. Tudo isso foi em vão. Saudável, voltou para casa em 1946, e soube que seus pais haviam perecido na guerra. Seu pai, aliás, foi um cantor de ópera mal-sucedido, uma curiosa coincidência, pois em “Fitzcarraldo” (1982) Kinski interpreta um empresário maluco por ópera, que também é uma das paixões de Herzog.
Um ator de difícil convivência, porém talentoso e autodidata, Kinski apareceu em vários filmes a partir de 1948, incluindo os sucessos “Doutor Jivago / Doctor Zhivago” (1965) e “Por uns dólares a mais / For a feel dolars more” (1965). No entanto, foi sua parceria com Herzog, a partir de 1972, que lhe trouxe fama internacional. A história deles havia começado 17 anos antes, em Berlim, quando as famílias de Herzog e Kinski dividiram um apartamento com outras famílias. De colegas de quarto a colegas de profissão, foi um longo caminho.
As declarações de Herzog sobre o trabalho com Kinski são cheias de humor. Ele diz que todos seus cabelos brancos surgiram dos problemas que teve com o ator, uma besta que teve de ser domesticada, mas que ambos se respeitavam muito, embora tenham planejado o assassinato um do outro.
A autobiografia de Klaus Kinski, que saiu em 1986 com o título “All I Need is Love” é um tanto travessa. Herzog e Kinski se juntaram para escrever sobre a parceria e inventaram boa parte do conteúdo. O livro causou a ira de uma das filhas de Klaus, a também atriz Nastassja Kinski. Para piorar, uma editora mandou retirar de circulação o livro porque houve uma quebra de contrato. A autobiografia voltou a ser vendida no fim dos anos 90 sob o título “Kinski: Uncut”.
Klaus era 16 anos mais velho que Herzog e faleceu em 1990 de ataque cardíaco. Nove anos depois, o diretor prestou sua homenagem ao colaborador frequente, sem o qual algumas de suas obras mais significativas não seriam as mesmas: o documentário “Meu melhor inimigo / My best fiend” é sobre a relação dos dois. Herzog mostra um lado mais humano de Kinski e elogia como, apesar de ou mesmo devido ao seu temperamento explosivo, o ator conseguiu dar vida a alguns dos maiores anti-heróis do cinema alemão.  

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Saratoga (1937)


A razão de “Saratoga” ter sido um dos maiores sucessos de bilheteria de 1937 foi a curiosidade mórbida tão comum aos seres humanos. Seu astro, Clark Gable, poderia ser um atrativo para as plateias, mas foi a morte da atriz Jean Harlow, com apenas 26 anos, no meio das filmagens, que atraiu multidões para ver como o filme foi terminado sem sua protagonista. Fora isso, trata-se de uma produção simpática sobre corridas de cavalo com um romance previsível e dois grandes nomes, um já consagrado, outro que ainda esperava seu auge: Lionel Barrymore e Walter Pidgeon.
Duke Bradley (Gable) conhece o pai (Jonathan Hale) e o avô (Barrymore) de Carol Clayton (Harlow) todos envolvidos com criação e corridas de cavalos. Quando o pai falece durante uma corrida, Bradley, que havia se tornado sócio da fazenda, pois o pai havia lhe dado parte das terras para pagar uma dívida, resolve esquecer o acordo, devolvendo tudo ao avô. Ele e Carol não se entendem, até porque ela está noiva de Hartley Madison (Pidgeon), que Bradley insiste em ofender. Seu plano é fazer Madison apostar cada vez mais nas corridas, indo contra as apostas de Carol e enriquecendo Bradley.
Os coadjuvantes têm um papel especial e se tornam mais relevantes devido à necessidade de compensar a falta da protagonista. Barrymore, em suas poucas cenas, está muito divertido. Una Merkel está especialmente cativante como Fritzi, amiga de longa data de Bradley cujo hilário marido é dono de uma empresa de cosméticos e alérgico a cavalos. Quem também está lá é Hattie McDaniel, que voltaria a trabalhar com Gable dois anos mais tarde em “E o vento levou / Gone with the Wind”. E por falar em filmes de 1939, aqui temos a oportunidade de ver lado a lado dois atores muito importantes de “O Mágico de Oz”: Margaret Hamilton, a bruxa má do oeste, e Frank Morgan, que interpretaria o próprio mágico. Em uma viagem de trem, ele faz questão de insultar a feiura da pobre moça, que diz usar seus cremes sem obter resultados.        
Pela metade do filme, não sei se por influência dos fatos que eu já conhecia, comecei a perceber uma Jean Harlow mais inchada e não tão bonita quando focalizada de frente, porém com um perfil inalterado. Interessante notar como o filme trata de doenças, pois em muitos momentos Carol está acamada ou precisa ser examinada por um médico. Na vida real, Jean sofreu uma nefrite aguda e seus rins pararam de funcionar. Supõe-se que a causa da doença tenha sido a escarlatina que ela contraiu aos 15 anos. Numa época antes de hemodiálise e transplante de rins, ela não teve salvação.
Quando o filme completa uma hora, podemos ver que Jean foi substituída.  Como nem todas as cenas são gravadas na sequência, ainda há um momento, em uma festa, em que é ela, e não uma sósia, que conversa com Barrymore. Nos demais momentos, tudo o que vemos é uma atriz loira (Mary Dees) com algo escondendo seu rosto: um binóculo, um chapéu. Muitas vezes ela é gravada de costas e dublada por alguém com um tom de voz parecido (Paula Winslowe) com o de Jean (aliás, adoro a voz da loura platinada). Com certeza o filme teve de ser modificado devido à sua morte, com a supressão de falas, dando um maior destaque a Gable. Detalhe: não há nenhum beijo durante o filme, nem sequer no final!
A ideia inicial da MGM era regravar todas as cenas de Jean Harlow com Jean Arthur ou Virginia Bruce, no entanto muitos fãs pediram que este último trabalho da loura platinada estreasse logo. Além dessa tragédia, outro problema que aconteceu nas filmagens, só que bem menos grave, foi um acidente com Lionel Barrymore, que tropeçou em um cabo e quebrou o quadril, ficando um bom tempo numa cadeira de rodas. Curiosamente, este filme era para ser estrelado por Gable e Carole Lombard, rainha das comédias que em 1939 se tornou esposa de Clark e faleceu tragicamente em 1942 em um acidente de avião. Este foi o sexto filme em que Jean contracenou com Gable, que a chamava carinhosamente de “irmãzinha”, e a química entre eles é visível. A morte de Jean Harlow foi um choque para a indústria do cinema e em especial para seus fãs. No entanto, a garota que aos 16 anos saiu de casa para se casar e cujo sonho era formar uma família se tornou, em sua curta vida, uma estrela memorável, adorada e adorável mesmo 75 anos após sua morte.  

Mais informações sobre a vida e morte de Jean Harlow podem ser encontradas aqui.

This is my entry for The Late Film Blogathon, hosted by Shadowplay, showing some of great people’s last films. Great morbid idea! 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O que nossas preferências dizem sobre nós


Muito, mas não tudo. Eu adoro filmes de gângster. E torço para que eles sobrevivam ao final. O que isso pode significar sobre minha personalidade?
Bem, isso não vem ao caso aqui ou agora. Não sou atriz clássica para ser analisada, nem sequer investigadora da mente humana. Mas hoje resolvi analisar a intrigante personalidade de meu diretor predileto, de quem não falava já há algum tempo: o magnânimo Orson Welles. E tudo isso baseado em uma simples lista: a de seus 10 filmes preferidos.


1. Luzes da Cidade / City Lights (1931, Charles Chaplin)
2.Ouro e Maldição / Greed (1924, Erich von Stroheim)
3. Intolerância / Intolerance (1916, D.W. Griffith)
4.Nanook, o Esquimó / Nanook of the North (1922, Robert J. Flaherty)
5. Shoeshine (1946, Vittorio De Sica)
6.O Encouraçado Potemkin / Battleship Potemkin (1925, Sergei Eisenstein)
7. The Baker's Wife (1938, Marcel Pagnol)
8. Grand Illusion (1937, Jean Renoir)
9. No Tempo das Diligências / Stagecoach (1939, John Ford)
10. Ninotchka (1939, Ernst Lubitsch)

Welles, Welles… Quanto de você pode ser desvendado por sua lista! Algo que a maioria dos cinéfilos sabe é que Orson fez “Cidadão Kane” (1941) tendo total liberdade criativa. Depois disso, muitos de seus filmes acabaram re-editados pelos estúdios, que cortaram cenas que consideraram supérfluas para diminuir a duração dos filmes, normalmente bem longos após Welles colocar o ponto final. Já analisei este verdadeiro pecado cinematográfico no post “Orson Welles e sua megalomania”, porque para mim não existe adjetivo melhor para esse diretor que megalomaníaco (no bom sentido).
Pois bem: algumas de suas produções preferidas eram também grandes e grandiosas e até mesmo sofreram severos cortes. Segundo Lillian Gish, “Intolerância” também sofreu um imenso corte, indo de oito horas para quase três. Já“Ouro e Maldição” tinha quatro horas na versão final do diretor Erich von Stroheim, mas contava com nove horas no original. Stroheim, aliás, esteve também em “A Grande Ilusão”, desta vez como ator, pois era esta outra característica que ele compartilhava com Welles: ambos eram excelentes em frente e atrás das câmeras.
Welles gostava de contar histórias como todo diretor, mas modificava as suas (lembre-se de seu documentário-mentira de dar um nó na cabeça: “Verdades e Mentiras / F for Fake”, de 1973). Assim também fizeram Robert J. Flaherty com Nanook e Eisenstein com Potemkin. Se o russo verdadeiramente recriou fatos de 1905, Flaherty por sua vez fez uma família de esquimós atuarem no intento de reconstruir as cenas que ele havia perdido ao derrubar cinzas de cigarro em rolos de filme. Orson teve uma tentativa de fazer documentários aqui no Brasil, mas seu “Ė tudo verdade” fracassou.
Um pouco de simplicidade não faz mal a ninguém e Welles gostava de ver filmes com gente simples, como os dois meninos engraxates de “Shoeshine” ou o padeiro que, ao ser abandonado pela mulher, deixa de fazer pão e provoca o caos em uma cidadezinha em “The Baker’s Wife”. Seu raciocínio com certeza ficou ainda mais afiado com “Ninotchcka”, a charmosa e divertida sátira ao comunismo protagonizada por Garbo. E, como bom americano que também sabia inserir ação em seus filmes, Welles adorava aquela que é considerada a obra-prima do western, “No tempo das diligências”.
Por fim, uma pérola que é também uma surpresa: a comédia social “Luzes da Cidade”, tão terna e tão simples, embora ela própria estivesse quebrando regras: era um filme mudo quando o gênero já parecia descansar em paz. Orson e Charlie têm um laço importante e pouco conhecido: foi o criativo obeso que vendeu a história de “Monsieur Verdoux” (1947) a Chaplin, que mais tarde considerou esse seu melhor filme.
Welles inovou, brigou, teve sucessos e muitos fracassos. Apesar disso, entrou para a história do cinema como um dos melhores. Suas preferências mostram um pouco de seu gênio e de sua personalidade. O que seus filmes favoritos dizem sobre você?   

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Todos os homens do presidente: investigações e reflexões

O escândalo do Watergate foi responsável pela renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon nos anos 1970. Fato bem conhecido dos americanos, mas não tão famoso no Brasil. Ele é tão importante na história americana que não poderia deixar de virar filme. “Todos os homens do presidente” torna o Watergate e todo seu processo mais acessíveis aos não-americanos e também gera no espectador uma série de questionamentos e reflexões.
Bob Woodward (Rober Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman) são os dois jornalistas do Washington Post que veem no roubo de documentos da sede do comitê de reeleição algo além de um simples furto. Com algum esforço eles convencem o chefe (Jason Robards, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) a deixá-los investigar o caso, embora em muitas ocasiões o chefe se oponha a publicar as matérias deles por falta de provas concretas. Mal sabia ele que o jornal tinha nas mãos o furo do século.
Ė muito interessante observar como a investigação era feita nas redações de jornal antes da era digital. Bob fica longo tempo no telefone, consulta listas telefônicas e tenta montar uma rede de pessoas ligadas ao caso. De conversa em conversa percebe que muitos documentos de conteúdo indesejado foram sumindo. Carl, por sua vez, é um homem de ação, que sai às ruas para procurar os envolvidos, sem medo de baterem a porta em sua cara.
O trabalho de detetive dos dois é emocionante, embora hoje possamos todos nós ser um pouco detetives. Com a explosão das redes sociais e de mecanismos de busca é possível encontrarmos antigos colegas, parentes distantes ou qualquer outra pessoa de nosso interesse. Basta termos uma informação, um nome que seja, e temos acesso imediato a mais toneladas de outras informações. Hoje quase todas as pessoas usam a Internet e é praticamente impossível utilizá-la sem deixar rastros.
Woodward e Bernstein, os originais
É muito interessante ver como os dois repórteres não fazem sua investigação incógnitos. Eles sempre se apresentam como funcionários do Washington Post, seja em um encontro com um figurão ou em uma conversa telefônica. Não conheço a fundo o funcionamento das investigações jornalísticas, mas acredito que pelo menos atualmente as buscas para reportagens importantes sejam feitas com mais discrição. 
Em 2000 foi feito um making-off do filme com todos os envolvidos que ainda estavam vivos, incluindo Woodward e Bernstein, e Redford disse que se o Watergate ocorresse hoje, ele teria um desdobramento muito diferente. Com certeza o poder da mídia aumentou, mas as grandes reportagens investigativas não são comuns, aparecendo vez ou outra em programas jornalísticos ou livros escritos por jornalistas. O certo é que, independente de como é feita uma investigação, é a pressão da opinião pública que leva um político como Nixon a renunciar e, em uma época em que acompanhamos praticamente na íntegra a alguns julgamentos pela televisão, a opinião do povo deveria servir cada vez mais como um décimo terceiro jurado.
Para concluir, já que estamos tratando de assuntos virtuais, quem tem boa memória deve se lembrar de um post feito lá em meados de maio e intitulado “Hitchcock, cinema mudo, perda e restauração” que, entre outras coisas, falava sobre a redescoberta de fragmentos de um dos primeiros esforços de Hitch no cinema, “The White Shadow” (1924). Esse post foi parte de uma blogagem coletiva que deu resultado: conseguimos o suficiente para restaurar a cópia, inserir trilha sonora e, o melhor de tudo, exibir o filme! Até o dia 15 de janeiro esta pequena joia estará disponível de graça para qualquer cidadão no site do National Film Preservation. Eu já conferi e posso dizer que quase nem se nota que o filme está incompleto. Não percam essa chance que só a Internet nos proporciona!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A Bela, a Fera e o silêncio

The Beauty, the Beast and the silence


Tendo a honra de ser a única animação a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme, “A Bela e a Fera” tornou-se uma obra-prima dentro do universo criado pelos Estúdios Disney desde o dia em que estreou, há exatos 21 anos. A história surgiu 250 anos antes, em 1740, saindo da imaginação de Gabrielle-Suzanne Barbot, também conhecida por Madame Villeneuve. Assim como a maioria dos contos de fada, “A Bela e a Fera” teve várias versões, inclusive uma escrita por um mestre do gênero, o também francês Charles Perrault.

“Beauty and the Beast” has the honor to be the only animation film to be ever nominated for a Best Picture Oscar. Since the day it premiered, exactly 21 years ago, it became a classic inside the Disney Studios universe. The story, however, appeared 250 years before, in 1740, coming from the imagination of Gabrielle-Suzanne Barbot, also known as Madame Villeneuve. Like só many fairy tales, “Beauty and the Beast” was adapted to the screen several times. One of these versions was even written by fairy-tale master Charles Perrault! 
Uma das mais famosas versões surgiu em 1946, pelas mãos do francês Jean Cocteau. Uma série com ares modernos surgiu na televisão em 1987, com a Bela interpretada por Linda Hamilton e transformada em advogada, e a Fera vivendo no esgoto e ganhando vida através do ator Ron Perlman. A versão da Disney, que vinha sendo planejada já há algum tempo, faturou dois Oscars em 1992, de Trilha Sonora e Melhor Canção Original. Ela também deu origem a alguns especiais para a TV no final da década de 1990, focando mais em Bela. Em 2012 uma nova série baseada no conto estreou e muitas outras produções, não apenas no cinema, já usaram como base esse conto de fadas.

One of the most famous versions was released in 1946 and directed by French artist Jean Cocteau. One TV series with a modern premiered on TV in 1987. In it, Belle was a lawyer played by Linda Hamilton and the Beast lived in the sewers and was played by Ron Perlman. The Disney version, in development for some time, won two Oscars in 1992: Best Musical Score and Original Song. The animation was also the origin of some TV specials that aired in the 1990s and focused in Belle. In 2012 another TV series based on the story premiered and many other artistic works, not only movies, were based in this fairy tale.
Considerando que, por exemplo, Cinderela já havia sido adaptada para o cinema em 1914 com Mary Pickford e antes ainda em 1899 pelas mãos de Georges Méliès, “A Bela e A Fera” foi um conto que bem que poderia ter sido adaptado muito antes em Hollywood e com certeza uma versão muda da história teria sido sensacional. Mas quem interpretaria as personagens?

Considering that, for instance, Cinderella was adapted to the screen in 1914 with Mary Pickford nad even before in 1899 by Georges Méliès, “Beauty and the Beast” could have been adapted into a Hollywood movie in the silent era in a sensational way. But who could play the characters?

A Bela: Como eu não conseguia me decidir, pedi ajuda aos leitores do blog que, por 14 votos a seis, escalaram Lillian Gish (1893-1993) para ser a Bela, uma amante de livros muito corajosa. Com sua beleza e fragilidade, Lillian era capaz de esconder a coragem que havia dentro dela, mas estava sempre pronta para usá-la para o bem de suas personagens.

Belle: Since I couldn't make up my mind, I asked my readers for help. They voted in a poll between Mary Pickford and Lillian Gish, and Lillian won with 14 votes against 6. Lillian Gish (1893-1993) is the perfect choice to play a very brave female hero who loves books. With her beauty and fragility, Lillian could hide the courage inside her, but she was always ready to use it to her character's sake.
A Fera: Quem além de Lon Chaney (1883-1930) poderia ser a Fera? Só o Homem de Mil Faces seria capaz de se transformar em uma criatura peluda e assustadora. Considerando que a Fera tem uma triste marca no passado que a deixou com a aparência de monstro, Lon destaca-se ainda mais como o cara certo para o papel.

Beast: Who eles besides Lon Chaney (1883-1930) could be the Beast? Only the Man of a Thousand Faces was able to become a hairy and scary creature. If you consider that the Beast has a sad past and a horrible event let him with the appearance of a monster, you know that Lon is indeed the right person for the role.
Gaston: O sofisticado rapaz apaixonado por bela deveria ser um galã e John Gilbert (1897-1936) mostra-se perfeito para o papel, considerando que ele até se apaixonou por Lillian Gish na vida real, sem ser correspondido. Não sei se Gilbert seria um bom vilão, mas um embate entre ele e Chaney seria épico!

Gaston: The fancy guy who is in love iwth Belle should be a swoon-worthy leading man. John Gilbert (1897-1936) is perfect for the role, because he was even in love iwth Lillian Gish in real life but his love was unrequited. I'm not sure if Gilbert would be a good villain, but a fight between him and Lon Chaney would be epic! 
Maurice (o pai da Bela): Depois de mutia reflexão, escolhi Spottiswoode Aitken (1886-1933) para ser o pai de Bela, e não apenas porque ele tem um nome interessante. Um de seus trabalhos mais famosos é como o rei da Babilônia em “Intolerância” (1916), filme que também tinha Lillian Gish no elenco. 

Maurice (Belle's father): After a lot of thought, I chose Spottiswoode Aitken (1886-1933) ot play Belle's father, and not only because he had an interesting name. One of his most famous roles was as the king of Babylon in “Intolerance” (1916), a film in which Gish also appeared.
Os objetos do castelo da Fera: Mesmo nos primórdios do cinema mudo, lá pela década de 1900, os cineastas já eram capazes de animar objetos através de efeitos especiais. Animar adoráveis xícaras, bules, relógios e armários não seria difícil, mas aqui eles certamente não seriam objetos cantantes. Nem falantes.

The objects in the Beast's castle: Even when the first movies were being made, in the 1900s, moviemakers were already able to animated objects through special effects. It wouldn't be difficult to animated lovely cups, teapots, clocks and closets, but in this version they certainly wouldn't be singing – nor talking – objects.
Os cenários dos filmes mudos nunca deixam a desejar e com certeza o castelo da Fera seria uma visão sensacional! Com a trilha sonora certa, seria um espetáculo dos primórdios do cinema! E vocês, que filme gostariam de ver transformado em película muda?

The sets in silent films are always a feast for the eyes and there is no doubt that the Beast's castle would be stunning! With the right soundtrck, it'd be a spectacle of early filmmaking! Is there any other movie you would like to see as a silent version?
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