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sexta-feira, 6 de julho de 2012

De repente, num domingo / Vivement dimanche! (1983)

Se houve um diretor que coletou mais influências ao longo de sua vida e carreira também como espectador, este foi sem dúvida François Truffaut. Como se esquecer de seu alter-ego, o diretor Ferrand de “A Noite Americana / Day for Night / La Nuit Americaine” (1973), que coloca diversos livros sobre as obras de diretores que admirava sobre uma mesa, a fim de lê-las para obter inspiração?
Um dos que mais o influenciou foi Alfred Hitchcock, que acabou dando uma série de entrevistas a Truffaut que mais tade se transformariam em um livro. Por isso não é de se espantar que o realizador francês tenha feito várias referências e homenagens à obra de Hitchcock em seus próprios filmes. Prova disso são os thrillers “Atire no pianista!” (1960) e “A noiva estava de preto” (1968). Seu último filme também não deixa de ser incrivelmente hitchcockiano. Em cada país “Vivement dimanche!” ficou conhecido por um nome: aqui no Brasil é “De repente, num domingo”, o que não é muito correto, enquanto nos países de língua inglesa é “Confidentially Yours”, denunciando um subtexto romântico. A melhor tradução do francês, no entanto, seria “finalmente domingo!”
A trama gira em torno de Julien Vercel (Jean-Louis Trintignant), um corretor de imóveis acusado de uma série de assassinatos. A protagonista é, no entanto, Barbara (Fanny Ardant), a secretária de Julien que passa a investigar os crimes. Todos se relacionam com a mulher dele, Marie-Christine, cujo comportamento promíscuo era desconhecido pelo marido.
O filme tem todo um clima de filme noir, principalmente por ser em preto-e-branco, mas também pelo mistério, os locais insólitos de investigação e os ambientes fumacentos a serem explorados no meio da noite. A década de 1940 é evocada, mesmo sendo esta a época dos filmes considerados mais fracos dentro da obra de Hitch. Truffaut não faz nenhuma referência explícita aos filmes de Hitch, mas há algo de voyeurismo na pequena janela do escritório em que Barbara e Julien podem ver os pés das pessoas que passam na rua. A única referência ao cinema americano é a sessão no cinema de “Glória feita de sangue / Paths of Glory” (1957), dirigido por outro ídolo de Truffaut, Stanley Kubrick.
Outro ponto de convergência é a ideia de um homem ser acusado injustamente. Aqui não sabemos se ele é ou não culpado, como acontece nos filmes de Hitchcock em que o protagonista é claramente inocente, como “Intriga Internacional / North by Northwest” (1959). E mais uma conexão (que pode ser um exagero de minha parte) é a parte cômica em que Barbara sai de um ensaio da peça “O corcunda de Notre Dame” e vai investigar o caso vestida com o figurino da produção. Repito que posso estar exagerando, mas isso me lembrou do filme “Os 39 degraus / The 39 steps” (1935), em que a situação ridícula é o fato de os dois protagonistas (Robert Donat e Madeleine Caroll) estarem presos um ao outro por por algemas (uma metáfora do casamento).
Algo interessante é que Truffaut, ao contrário de Hitchcock, geralmente tem mulheres no papel principal de seus filmes de suspense. Para Hitch, quem investiga o caso é James Stewart, Cary Grant, Henry Fonda ou outro no mesmo estilo bom moço. Para Truffaut, é uma de suas musas, como Jeanne Moreau ou a própria Fanny, com quem ele teve uma filha. Mas isso não quer dizer que o mestre do suspense não tenha tido suas “musas”: vale citar Grace Kelly, Tippi Hedren (um caso controverso, é verdade) e Ingrid Bergman, por quem Hitch teria se apaixonado sem ser correspondido. 
Sem dúvida a cena que mais lembra a obra de Hitch é o breve momento em que Barbara está dirigindo. Seu rosto é focalizado, nenhuma palavra é pronunciada e ela teme estar sendo seguida. Acrescente uma trilha sonora de suspense e voilà: imitamos a fuga de carro de Marion Crane (Janet Leigh) em “Psicose / Psycho”!
Como a maioria dos cineastas, Truffaut não sabia que este seria seu último filme. Ele tinha o plano de dirigir 30 produções e então se aposentar para escrever livros. Mas ele adoeceu e faleceu precocemente em 1984, aos 52 anos, vítima de um tumor cerebral. Mais divertido do que sombrio em seu final, “De repente, num domingo” nos deixa com a certeza de que Truffaut foi um romântico e um intelectual. Afinal, não somos todos?

This post is my entry for "The Best Hitchcock Films Hitchcock Never Made" blogathon, hosted by  Tales of the Easily Distracted and ClassicBecky's Brain Food.

15 comentários:

Iza disse...

Não conhecia ele não, mas adorei o seu post. Adoro Hitch e sou fã do Kubrick, e já que ele faz referências a esses dois diretores, com certeza vou adorar assistir seus filmes. Beijos <3

Júlio Pereira disse...

Está aí um Truffaut que desconhecia até então. Ele é mesmo fanboy do Hitchcock e o homenageia em várias obras. Aliás, quem não homenageia Hitchcock? Um verdadeiro mestre do suspense. Entretanto, acho que o diretor com maior coleção de referências em sua carreira é Martin Scorsese!

whistlingypsy disse...

An excellent contribution to the "Hitch not Hitch" blogathon, and a film unfamiliar to me. I cannot think of another director so closely connected to Hitchcock as Truffaut, and your choice is perfect. I find it interesting that Hitchcock is not generally remembered for his humor, but his silent films were often quite funny. His humor mostly grew out of the situation, and acted as comic relief. Thanks for the introduction to a new Truffaut title; I'm a big fan but I'm still discovering his films.

Mary disse...

este também me era desconhecido amiga, mas adoro hitch e se ele faz referência a ele acho que vou curtir seus filmes sim.. vamos ver o que encontro por aqui pra assistir.. brigada pela dica.. beijos mil e ótimo domingo amiga..

Glamour Vintage disse...

Adoro filmes do Truffaut, mas esse eu nunca assisti. Obrigada pela dica, vou colocar na minha lista de filmes para ver hehe!
beijos

www.glamour-vintage.blogspot.com

FlickChick disse...

Excellent post. I have not seen this film, but it sounds like something I should watch when I'm in the mood for Hitchcock.

Jefferson C. Vendrame disse...

Oi Lê, tudo bem?
Você acredita que sou Leigo em Truffaut? Só conheço dele "O Garoto Selvagem" até porque assisti na universidade em uma aula de Psicologia da educação...
Sou muito desligado do cinema Europeu mas em breve quero começar a adquirir alguns títulos, os mais aclamados para começar...

Ótimo Post, Seus textos cada vez melhores...
Adorei as informações aqui trazidas...

Grande abraço

Jefferson C. Vendrame disse...

Lê,Obrigado por seus comentários, sempre presentes,
Quanto ao seu último comentário em meu blog, no filme Mata Hari,quanto a sua crítica escrita sobre ele, eu já havia acessado seu post através de consultas ao Google, por sinal um ótimo texto...

Grande Abraço

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Desculpe-me pelo sumiço. Estava enrolado com o lançamento de dois livros.Mas já estou de volta! Amo essa homenagem de Truffaut ao mestre Hitch.

O Falcão Maltês

Rafaela disse...

Adorei!!!
Não conhecia e adorei saber mais :)
Um ótimo início de semana!
Bjus

Rafaelando

Juliana Nascimento disse...

Olá , adorei seu blog e já estou seguindo!!Pode deixar que sempre passarei por aqui !Beijão da JU !

Juliana Nascimento disse...

Olá ,adorei seu blog e já estou seguindo , pode deixar que sempre darei uma passada por aqui , muito bom!Beijos da JU !

As Tertulías disse...

Sou um eterno fa de Hitch... Esta conexao Truffaut-Hitch-Cahiers du Cinema é importantíssima (Nao devemos esquecer quer o mesmo Truffaut foi o responsável sobre a "Renascenca" de Louise Brooks... mas isto jé é mais para para manga... )
Beijos, Le! Amei!!!!!

Rubi disse...

Preciso me aprofundar nas obras de Truffaut; confesso que conheço muito pouco, tanto sobre sua vida quanto sobre sua filmografia. Mais um excelente post!

*Obrigada por me avisar sobre o filme. Assisti no domingo e fiquei encantada. Que filme maravilhoso!

Mario Salazar disse...

Me suena bien la película, me gusta Truffaut, eso sí creo que admiraba a Hitchcock pero su cine es distinto, no veo mucha semejanzas, era mucho más reflexivo y romántico pero tirando a sensual, Hitch era más superficial, dos genios eso sí. Un abrazo.

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