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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Os pequenos tesouros de 2012

E chegamos ao último post do ano. Foi um ano um pouco mais calmo no blog que ano passado: 64 postagens, contra 75 de 2011. De fato, foram um ou dois artigos por semana, ao contrário de um ano que teve até três assuntos comentados em menos de sete dias. Engana-se quem pensa que isso significou menos trabalho para mim: em 2012 me engajei no lançamento de mais um livro e somei à minha coluna quinzenal no Leia Literatura uma coluna semanal no Antes que Ordinárias e outra mensal no Filmes e Games, além de uma participação interrompida no Red Apple Pin-Ups, que eu espero que volte com força total em 2013. E aproveito para agradecer a todos que apreciam meu blog e votaram por ele no Top Blog. Foi uma grata surpresa ficar entre o Top 100, o que mostra que eu estou no caminho certo!
Mas como Reveillon não é Dia de Ação de Graças, não vou ficar enumerando as coisas boas de 2012, mas sim relembrar, com a ajuda da fiel agenda em que anoto os filmes vistos, algumas produções maravilhosas. Alerto que deixo de lado excelentes escolhas como “Tarde Demais / The Heiress” (1948) e “A montanha dos sete abutres / Ace in the Hole” (1951) porque são filmes “óbvios”. Cito aqui algumas pérolas que, se eu não tivesse curiosidade e tempo livre, poderia ter deixado de assistir, uma vez que não são filmes essenciais ou muito comentados.
Onde eu anotei os filmes de 2012
Começo confessando que entre minhas resoluções de Ano Novo estava assistir a mais faroestes e filmes mudos. Não consegui matar dois coelhos com um tiro só e assistir a faroestes mudos, embora saiba que eles existam. Mesmo assim, creio que me saí bem: vi 17 filmes silenciosos, incluindo a restauração de “The White Shadow” (1924). Entre os filmes mudos, tenho de destacar “O último comando” (1928), uma maravilhosa produção com Emil Jannings, Evelyn Brent e William Powell sobre um velho comandante das tropas do czar que, após a Revolução Russa, vai trabalhar em Hollywood como extra e reencontra um homem que ele havia torturado e agora é diretor de cinema. Simplesmente um espetáculo comovente, que foi escolhido um dos 100 melhores filmes da história pela revista Time.
Os faroestes foram em maior número: 26. Preciso destacar “Nas Trilhas da Aventura / The Hallelujah Trail (1965), “El Dorado” (1966) e “O Rio da Aventura / The Big Sky” (1952). Como se não bastasse, vi quatro filmes com Sherlock Holmes no papel principal e três com 007.
Outro hábito que adquiri em 2012 foi assistir a filmes nacionais, contando com uma ajudinha da TV Justiça, que todas as sextas exibe a Sessão Cinemateca na faixa das 21 horas. Foi através dessa sessão que fiquei íntima de Oscarito e apreciei o talento de Grande Otelo. No entanto, o filme que mais me chamou a atenção foi “Na Senda do Crime” (1954), que em muito lembra o policial “Força do Mal”, feito seis anos antes e estrelado por John Garfield. Mais um filme nacional interessante, esse uma dica para os amantes de história, é “Rebelião em Vila Rica” (1957), que retrata um movimento estudantil muito semelhante à Inconfidência Mineira.
Alguns filmes de chorar de rir foram “Anáguas à Bordo / Operation Petticoat” (1959), “A corrida do século / The Great Race” (1965), “O Magnífico” (1973) e “O irmão mais esperto de Sherlock Holmes / The adventure of Sherlock Holmes’s Smarter Brother” (1975). Bergman me surpreendeu com sua curiosa comédia “Para não falar de todas essas mulheres” (1964) e Truffaut, com os adoráveis “O quarto verde” (1978) e “Domicílio Conjugal” (1973). Como nem tudo é diversão, vi também filmes de terror, como “A Múmia” (1932) e “O homem invisível” (1933), curiosos mas não muito assustadores.
Reconhece Claude Rains em "O Homem Invisível"?
As cinebiografias, que muito me agradam, estiveram presentes em títulos como “O segredo de Beethoven / Copying Beethoven” (2006), um tanto fantasiosa; “As aventuras de Omar Khayyam / The life, loves and adventures of Omar Khayyam” (1957) e “Tico-tico no fubá” (1952), sobre o compositor Zequinha de Abreu.      
2012 foi o ano em que eu passei a dar maior atenção a Barbara Stanwyck, Tyrone Power, Harold Lloyd, Jack Lemmon, Montgomery Clift, Claude Rains, James Mason e Lon Chaney. O ano em que conheci pessoas muito bacanas no Twitter, Tumblr e Facebook que, não importa há quanto tempo são fãs de cinema clássico, sempre têm um bom filme desconhecido a indicar. Ufa! 2012 foi um ano cheio de trabalho, bons filmes e bons momentos. 2013 já começará com novidades aqui no blog. Conto com vocês, leitores, para fazermos mais um ano inesquecível para a comunidade do cinema clássico. Aguardem! 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

As três noites de Eva / The Lady Eve (1941)

Em 1941, aos 36 anos, Henry Fonda exibia sua melhor forma. De fato, ele nunca esteve tão bonito quanto neste filme. Não é de se espantar que várias mulheres estejam atrás dele, como Barbara Stanwyck narra, vendo a cena através do reflexo de um espelho. Apesar disso, apenas duas mulheres, que na verdade são uma só, duelam por seu amor nesta deliciosa comédia.
Charles Pike (Fonda) é um biólogo apelidado de “chopinho” (“hopsy” no original) devido aos negócios do pai, sócio de uma cervejaria e muito rico. Ele é um dos primeiros nerds do cinema, inteligente porém desajeitado. Assim, torna-se presa fácil para os golpistas “Colonel” Harry Harrington (Charles Coburn) e sua filha Jean (Stanwyck), que pretendem roubar o dinheiro dele no jogo de cartas. Ninguém esperava que ele se apaixonasse por Jean, mas quando Charles descobre quais eram as intenções dela, ele a abandona no navio e segue seu rumo.
Em uma festa na mansão dos Pike, Stanwyck reaparece, agora como Lady Eve Sidwich. Embora a semelhança com Jean faça Charles desconfiar, ela logo usa sua perspicácia para enganá-lo novamente, dizendo que ela e Jean são filhas do mesmo pai. Mais uma vez Charles se apaixona por ela, embora seu secretário Mugsy (William Demarest) tente impedir que eles se casem, usando sua frase de efeito: “é a mesma umazinha!” (“she’s the same dame!”).
Preston Sturges, um mestre da comédia romântica, escreveu o roteiro baseando-se em um conto de 19 páginas já existente nos arquivos da Paramount. Com muita esperteza, ele conseguiu inserir cenas e diálogos picantes demais para a época, sem contudo ter problemas com o Código Hays. Trabalhar com o diretor foi uma alegria para Barbara e Henry. Usando roupas extravagantes para ser facilmente encontrado no set de filmagem em meio à numerosa equipe técnica, Preston fazia de tudo para deixar seus colegas de trabalho à vontade.          
Charles está saindo da Amazônia com uma cobra rara. No navio é possível ver até cartazes escritos em português. Apesar disso, as cenas anteriores, que mostram Charles na floresta, foram gravadas em Los Angeles. Com ou sem floresta, o certo é que este filme foi um ponto de virada nas carreiras do belíssimo Henry e também de Barbara, uma atriz versátil que até então nunca havia feito uma comédia, apenas dramas e westerns. O filme ainda traz referências ao mito de Adão e Eva, incluindo a cobra e a maçã que aparecem junto aos créditos, numa adorável sequência animada.
Mas quais as diferenças entre Jean e Eve? Vejamos:

Jean Harrington:                                                                  
Estilo: cabelos soltos, roupas mais modernas, salto alto, blusa curta.
Esporte: jogar cartas.
Técnica de sedução: fazer o pretendente tropeçar sem querer, coçar a cabeça dele enquanto diz palavras doces e frases provocantes.
Por que Charles não ficaria com ela: é uma vigarista que vive de tirar dinheiro de milionários.

Lady Eve Sidwich:
Estilo: cabelo preso, roupas elegantes (como lindos vestidos longos desenhados especialmente por Edith Head), roupas de montaria.
Esporte: andar a cavalo.
Técnica de sedução: Simplesmente deixar os homens caírem de amor por ela. Literalmente.   
Por que Charles não ficaria com ela: teve muitos relacionamentos íntimos antes de se casar.

E você, ficaria com Jean ou Lady Eve? Ou com Barbara Stanwyck?

This is my entry for the Second Dueling Divas Blogathon, hosted by Lara at Backlots. Don’t forget to read the other entries and... 

Feliz Natal!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Dupla Dinâmica: Werner Herzog e Klaus Kinski


Alguns dos melhores filmes do cinema alemão surgiram através da colaboração entre o director Werner Herzog e o ator Klaus Kinski. Além de geniais e geniosos, eles formavam uma dupla literalmente explosiva. Para se ter uma ideia, durante as filmagens de “Aguirre – A cólera dos deuses” (1972), Herzog fez um acordo com uma tribo peruana para que Kinski fosse morto e teve de desfazer o trato apenas porque, quando a data do assassinato chegou, ainda faltavam cenas para gravar.
A morte encomendada de Kinski não foi o único fato curioso das filmagens de Aguirre: como o feitiço normalmente vira contra o feiticeiro, Werner esteve à beira da morte. Seu voo, o LANSA Flight 508, foi destruído após ser atingido por um raio. No entanto, o diretor havia desistido de embarcar no último minuto. Outra situação de perigo enfrentada por Herzog foi durante uma entrevista, poucos dias depois de ter ajudado Joaquin Phoenix com seu carro quebrado na estrada. Enquanto falava para a BBC, Herzog foi baleado, mas continuou a entrevista e mostrou seu ferimento, dizendo que a bala não era nada.    
Herzog foi excêntrico o bastante para prometer que, se o cineasta Errol Morris conseguisse terminar seu filme, ele comeria o próprio sapato. Com a estreia de “Gates of Heaven” em 1987, Werner cozinhou e comeu publicamente o calçado, dizendo que seu ato servia de estímulo àqueles que desejam levar um projeto adiante.
Seus filmes conseguem ser tão interessantes quanto sua vida nada comum. Ele costuma trabalhar com uma equipe fiel de produtores, editores e compositores que o acompanham em diversas produções. No campo da atuação, sua parceria com Klaus Kinski é a que merece mais destaque, rendendo cinco filmes e um documentário.    
Nascido na Polônia, Kinski participou da Segunda Guerra Mundial do lado alemão. Capturado pelos ingleses em 1945, desertou, mas foi recapturado e julgado. Segundo o próprio Klaus, ele conseguiu escapar de uma condenação de morte. Ficou prisioneiro dos ingleses mesmo depois do fim do conflito e, sabendo que os presos doentes seriam os primeiros a voltar para casa, tentou adoecer ficando nu, bebendo urina e comendo cigarros. Tudo isso foi em vão. Saudável, voltou para casa em 1946, e soube que seus pais haviam perecido na guerra. Seu pai, aliás, foi um cantor de ópera mal-sucedido, uma curiosa coincidência, pois em “Fitzcarraldo” (1982) Kinski interpreta um empresário maluco por ópera, que também é uma das paixões de Herzog.
Um ator de difícil convivência, porém talentoso e autodidata, Kinski apareceu em vários filmes a partir de 1948, incluindo os sucessos “Doutor Jivago / Doctor Zhivago” (1965) e “Por uns dólares a mais / For a feel dolars more” (1965). No entanto, foi sua parceria com Herzog, a partir de 1972, que lhe trouxe fama internacional. A história deles havia começado 17 anos antes, em Berlim, quando as famílias de Herzog e Kinski dividiram um apartamento com outras famílias. De colegas de quarto a colegas de profissão, foi um longo caminho.
As declarações de Herzog sobre o trabalho com Kinski são cheias de humor. Ele diz que todos seus cabelos brancos surgiram dos problemas que teve com o ator, uma besta que teve de ser domesticada, mas que ambos se respeitavam muito, embora tenham planejado o assassinato um do outro.
A autobiografia de Klaus Kinski, que saiu em 1986 com o título “All I Need is Love” é um tanto travessa. Herzog e Kinski se juntaram para escrever sobre a parceria e inventaram boa parte do conteúdo. O livro causou a ira de uma das filhas de Klaus, a também atriz Nastassja Kinski. Para piorar, uma editora mandou retirar de circulação o livro porque houve uma quebra de contrato. A autobiografia voltou a ser vendida no fim dos anos 90 sob o título “Kinski: Uncut”.
Klaus era 16 anos mais velho que Herzog e faleceu em 1990 de ataque cardíaco. Nove anos depois, o diretor prestou sua homenagem ao colaborador frequente, sem o qual algumas de suas obras mais significativas não seriam as mesmas: o documentário “Meu melhor inimigo / My best fiend” é sobre a relação dos dois. Herzog mostra um lado mais humano de Kinski e elogia como, apesar de ou mesmo devido ao seu temperamento explosivo, o ator conseguiu dar vida a alguns dos maiores anti-heróis do cinema alemão.  

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Saratoga (1937)


A razão de “Saratoga” ter sido um dos maiores sucessos de bilheteria de 1937 foi a curiosidade mórbida tão comum aos seres humanos. Seu astro, Clark Gable, poderia ser um atrativo para as plateias, mas foi a morte da atriz Jean Harlow, com apenas 26 anos, no meio das filmagens, que atraiu multidões para ver como o filme foi terminado sem sua protagonista. Fora isso, trata-se de uma produção simpática sobre corridas de cavalo com um romance previsível e dois grandes nomes, um já consagrado, outro que ainda esperava seu auge: Lionel Barrymore e Walter Pidgeon.
Duke Bradley (Gable) conhece o pai (Jonathan Hale) e o avô (Barrymore) de Carol Clayton (Harlow) todos envolvidos com criação e corridas de cavalos. Quando o pai falece durante uma corrida, Bradley, que havia se tornado sócio da fazenda, pois o pai havia lhe dado parte das terras para pagar uma dívida, resolve esquecer o acordo, devolvendo tudo ao avô. Ele e Carol não se entendem, até porque ela está noiva de Hartley Madison (Pidgeon), que Bradley insiste em ofender. Seu plano é fazer Madison apostar cada vez mais nas corridas, indo contra as apostas de Carol e enriquecendo Bradley.
Os coadjuvantes têm um papel especial e se tornam mais relevantes devido à necessidade de compensar a falta da protagonista. Barrymore, em suas poucas cenas, está muito divertido. Una Merkel está especialmente cativante como Fritzi, amiga de longa data de Bradley cujo hilário marido é dono de uma empresa de cosméticos e alérgico a cavalos. Quem também está lá é Hattie McDaniel, que voltaria a trabalhar com Gable dois anos mais tarde em “E o vento levou / Gone with the Wind”. E por falar em filmes de 1939, aqui temos a oportunidade de ver lado a lado dois atores muito importantes de “O Mágico de Oz”: Margaret Hamilton, a bruxa má do oeste, e Frank Morgan, que interpretaria o próprio mágico. Em uma viagem de trem, ele faz questão de insultar a feiura da pobre moça, que diz usar seus cremes sem obter resultados.        
Pela metade do filme, não sei se por influência dos fatos que eu já conhecia, comecei a perceber uma Jean Harlow mais inchada e não tão bonita quando focalizada de frente, porém com um perfil inalterado. Interessante notar como o filme trata de doenças, pois em muitos momentos Carol está acamada ou precisa ser examinada por um médico. Na vida real, Jean sofreu uma nefrite aguda e seus rins pararam de funcionar. Supõe-se que a causa da doença tenha sido a escarlatina que ela contraiu aos 15 anos. Numa época antes de hemodiálise e transplante de rins, ela não teve salvação.
Quando o filme completa uma hora, podemos ver que Jean foi substituída.  Como nem todas as cenas são gravadas na sequência, ainda há um momento, em uma festa, em que é ela, e não uma sósia, que conversa com Barrymore. Nos demais momentos, tudo o que vemos é uma atriz loira (Mary Dees) com algo escondendo seu rosto: um binóculo, um chapéu. Muitas vezes ela é gravada de costas e dublada por alguém com um tom de voz parecido (Paula Winslowe) com o de Jean (aliás, adoro a voz da loura platinada). Com certeza o filme teve de ser modificado devido à sua morte, com a supressão de falas, dando um maior destaque a Gable. Detalhe: não há nenhum beijo durante o filme, nem sequer no final!
A ideia inicial da MGM era regravar todas as cenas de Jean Harlow com Jean Arthur ou Virginia Bruce, no entanto muitos fãs pediram que este último trabalho da loura platinada estreasse logo. Além dessa tragédia, outro problema que aconteceu nas filmagens, só que bem menos grave, foi um acidente com Lionel Barrymore, que tropeçou em um cabo e quebrou o quadril, ficando um bom tempo numa cadeira de rodas. Curiosamente, este filme era para ser estrelado por Gable e Carole Lombard, rainha das comédias que em 1939 se tornou esposa de Clark e faleceu tragicamente em 1942 em um acidente de avião. Este foi o sexto filme em que Jean contracenou com Gable, que a chamava carinhosamente de “irmãzinha”, e a química entre eles é visível. A morte de Jean Harlow foi um choque para a indústria do cinema e em especial para seus fãs. No entanto, a garota que aos 16 anos saiu de casa para se casar e cujo sonho era formar uma família se tornou, em sua curta vida, uma estrela memorável, adorada e adorável mesmo 75 anos após sua morte.  

Mais informações sobre a vida e morte de Jean Harlow podem ser encontradas aqui.

This is my entry for The Late Film Blogathon, hosted by Shadowplay, showing some of great people’s last films. Great morbid idea! 
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