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sábado, 21 de dezembro de 2013

Quem vai ficar com Ty?

Um dos atores mais bonitos e cobiçados dos anos 40 é disputado por duas das maiores estrelas da época, igualmente lindas e desejadas. Tudo isso em meio a intrigas, fama, sangue e areia. E em Technicolor!
Em “Sangue e Areia” (1941), Tyrone Power é Juan Gallardo, um famoso toureiro espanhol que abraçou a profissão do pai, morto na arena dos touros. Ele decide seguir essa carreira após ouvir o crítico Natalio Curro (Laird Cregar) dizer que seu pai não tinha talento. Juan prova que o sangue de toureiro corre em suas veias e alcança o sucesso em Madrid, voltando à sua cidadezinha para casar-se com seu amor de infância, Carmen Espinosa (Linda Darnell) e dar uma vida mais confortável para a mãe (Alla Nazimova) e a irmã (Lynn Bari).
Toureiro em dúvida
Se por um lado a simplicidade de sua cidade natal e de Carmen são importantes para ele, por outro há a excitação da nova vida que abre as portas apenas para os mais famosos toureiros, com a pompa e circunstância das festas e das casas de arquitetura ultrapassada. Quem personifica este estilo de vida é Doña Sol des Muires (Rita Hayworth), linda ruiva que um dia se encanta com Juan em uma tourada e decide fazer dele seu novo “boy toy”.
O filme foi um ponto decisivo na carreira das mulheres envolvidas. Foi a primeira vez em que Linda Darnell recebeu um número realmente expressivo de críticas positivas, embora ela mesma acreditasse que esse era o momento em que o público se cansava de suas heroínas sofredoras e boazinhas. “Sangue e Areia” foi o primeiro filme em cores de Rita Hayworth, que pela primeira vez interpreta a mulher que enlouquece (literalmente) um homem, em um prelúdio do que ela faria mais tarde em “Gilda” (1946). Alla Nazimova, que já havia perdido há tempos seu status de protagonista, faz uma de suas últimas participações.  
E como a vida imita a arte, Tyrone Power teve seus momentos de Juan Gallardo. Mas antes de prosseguir vamos estudar o nome do personagem criado por Vicente Blasco Ibáñez em seu romance “Sangre y Arena”, publicado em 1909. Juan lembra-nos imediatamente de Don Juan, o famoso conquistador. E Gallardo, apesar de significar “valente” em espanhol, é muito próximo do português “galhardo”. Segundo o dicionário, “galhardia” é a qualidade de quem é elegante e cortês. Por aí já descobrimos um pouco sobre o personagem: ele é um conquistador nobre.
Voltando a Tyrone Power: ele também seguiu a carreira do pai, também chamado Tyrone Power, que morreu enquanto trabalhava. Power Sr. teve um ataque cardíaco no teatro em 1931 e faleceu nos braços do filho, que em cinco anos seria uma estrela mundialmente conhecida. Ao deixar sua marca no cimento em frente ao Grauman’s Chinese Theater em 1937, ele fez questão de escrever que estava “seguindo os passos de meu pai”. Ty também foi um homem de muitas mulheres. Foram três casamentos e vários affairs, nem todos comprovados, que agitaram sua vida pessoal.
E a corrente continuou para as atrizes, que em outros filmes também duelaram por um homem. Linda Darnell batalha com Jeanne Crain pelo amor de um francês em “Noites de Verão / Centennial Summer” (1946), e Jeanne, por sua vez, havia lutado com Gene Tierney em “Amar foi a minha ruína / Leave her to Heaven” um ano antes... Mas continuemos antes que a corrente vá longe demais.
Em 1916, o próprio autor Ibáñez decidiu ser cineasta e filmar a história de seu livro. Seis anos depois, em 1922, o material foi usado por quem realmente entendia de cinema e o filme hollywoodiano “Sangue e Areia” teve Rudolph Valentino como Juan, Lila Lee interpretando Carmen e Nita Naldi no papel de Doña Sol. Em 1932 houve a proposta de fazer uma nova versão com Cary Grant e Talullah Bankhead. Uma pena que o projeto nunca se concretizou. Quem não adoraria ver Cary Grant vestido de toureiro?    
O diretor Rouben Mamoulian sempre esteve à frente de projetos ousados e inovadores, embora hoje não esteja na lista dos grandes de Hollywood. Mais uma vez ele dirige um filme espetacular, e muito desse espetáculo vem das cores, inspiradas em pinturas de Goya, El Greco e Velázquez. Em muitas ocasiões, Mamoulian andava pelo set com sprays de tinta e, ao invés de modificar a iluminação para criar uma determinada sombra, ele mesmo pintava parte do cenário para criar o efeito desejado.
Outra atração é um jovem Anthony Quinn no papel do “outro toureiro”. Quinn voltaria a antagonizar com Tyrone Power no ano seguinte, em “Cisne Negro”. E por falar em juventude, é em Technicolor que Linda Darnell surpreende: ela tinha APENAS 18 anos quando o filme foi rodado. E, de fato, com tantas cores e, surpreendentemente, pouco sangue nas touradas (o próprio Tyrone se sentiu mal ao ver uma tourada de verdade), “Sangue e Areia” merece ser visto em toda sua beleza.   


This is my contribution for the 3rd Annual Dueling Divas Blogathon, hosting by Lara, a diva herself, at Backlots. Fasten your seatbelts!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Variações sobre um mesmo tema: Um Conto de Natal (1935 e 1951)

Variations on the same theme: Scrooge (1935) and A Christmas Carol (1951)

Para os cristãos, o Natal é o dia de se comemorar o nascimento de Jesus, e todo o mês de dezembro acaba entrando na órbita da festa natalina. Mesmo as pessoas de outra religião acabam sendo contagiadas pelo espírito de Natal e acontecem as confraternizações, trocas de presentes e todos ficam com o coração mais mole, ajudando uns aos outros e desejando o bem do próximo (pelo menos é isso que eu gostaria que acontecesse). Todos, menos Ebenezer Scrooge, personagem criado por Charles Dickens que se tornou o símbolo do Natal inglês - e da avareza.

For christians, Christmas is the date to celebrate Jesus's birthday, and the whole month of December enters the Christmas spirit. Even people from other religions are contaminated by Christmas spirit and we have parties, gifts and all people become more lovable, helping each other and wishing only the best (at least that's what I wish that happened). All people, except Ebenexer Scrooge, a character created by Charles Dickens and one who became the symbol of the English Christmas – and of greed.
Ebenezer Scrooge (Seymour Hicks em 1935 e Alastair Sim em 1951) é o rabugento sócio da companhia Scrooge & Marley. Jacob Marley, o co-proprietário, morreu na véspera de Natal, sete anos antes do começo da história. Mas não é esse o motivo de Scrooge detestar o Natal: o tempo e a ganância fizeram dele uma pessoa amarga, que não gosta de nada. Ele vê o Natal como uma perda de tempo para os negócios e uma desculpa para que as instituições de caridade peçam dinheiro. Por isso Scrooge se recusa a ajudar dois representantes de uma instituição e também não dá folga para seu funcionário Bob Cratchit no dia de Natal.

Ebenezer Scrooge (Seymour Hicks in 1935 and Alastair Sim in 1951) is the grumpy partner in the company Scrooge & Marley. Jacob Marley, the other partner, died on Christmas Eve, seven years before our story begins. But it's not because of this fact that Scrooge hates Christmas: time and greed turned him into a bitter person, one who lieks absolutely nothing. He sees Christmas as a waste of time for business and an excuse for charity institutions to beg for donations. That's why Scrooge refuses to help two men from a charity institution, and he also refuses to give a day off to his employee Bob Cratchit on Christmas Day.
Naquela noite, Scrooge é visitado pelo fantasma de seu sócio, que o aconselha a mudar seu comportamento. Para ver a importância desta mudança, serão mandados três espíritos de Natal para Scrooge ao longo da noite: o espírito dos Natais passados, o do Natal presente e o do Natal futuro. Através da viagem com esses espíritos pelo tempo e espaço, Scrooge verá não apenas fatos importantes da sua vida que mostram sua amargura, mas também conhecerá melhor aqueles que o rodeiam.

That night, Scrooge is visited by the ghost of his partner, and he is advised to change his behavior. To show the important of this change, three spirits will be sent to Scrooge throughout the night: the spirit of Christmas Past, the spirit of Christmas Present and the spirit of Christmas Yet to Come. During the trip with these spirits through space and time, Scrooge will see not only important facts of his life – that ones that shaped his grumpiness – but he'll also get to know better the people around him.
Ambas as versões são bem fiéis ao livro. A de 1935 (“Scrooge”) tem várias falas retiradas diretamente da obra de Dickens, mas é limitada quanto aos efeitos dos fantasmas - apenas o espírito do Natal presente aparece por completo, os demais são apenas vozes e sombras. A de 1951 (“A Christmas Carol”) esbanja tecnologia: o intérprete do fantasma de Marley não pôde gravar as cenas com Alastair Sim, por isso gravou-as sozinho e sua imagem foi sobreposta às cenas de Alastair, ficando assim mais fantasmagórica. Entretanto, esta versão toma algumas liberdades e acrescenta cenas, deixando-a mais longa, mas também mais emocionante.

Both versions foloow the book closely. “Scrooge”, from 1935, has a lot of quotes taken directly from Dickens's work, but it uses limited technology to portray the ghosts – only thte spirit of Christmas Present is fully shown, the others are only voices and shadows. “A Christmas Carol”, from 1951, is very technological: the actor who portrays Marley's ghost wasn't able to shoot the scenes with Alastair Sim, só he shot them alone and his image was superposed to Alastair's scenes, giving a more fantasmagoric tone to it. However, this version takes on some liberties and adds some scenes, that's why it's longer, but also more moving.
Seymour Hicks já havia interpretado Scrooge em 1913, em uma das primeiras versões cinematográficas da história. Ele também interpretava o personagem no teatro desde 1901, que, por coincidência, foi o ano em que surgiu a primeira adaptação para o cinema do conto escrito por Dickens em 1843. Seymour pode ter tradição, mas foi Alastair que eternizou o personagem. De fato, Ebenezer Scrooge definiu sua carreira. As expressões faciais de Alastair são excelentes, em especial no fim - adoro a cena “I need to stand on my head!”. Alastair voltaria a encarnar o personagem em desenho animado, pois foi o dublador de Scrooge em um curta-metragem ganhador do Oscar em 1971.  

Seymour Hicks had already played Scrooge in 1913, in one of the first screen adaptations of the story. He also played the character on stage since 1901, the year in which Dickens's story, written in 1843, was first adapted to film. Seymour may have had the tradition on his side, but it was Alastair who personified Scrooge. Indeed, the character Scrooge defined his career. Alastair's facial expressions are priceless, especially in the end – I love the scene “I need to stand on my head!”. Alastari once more played Scrooge in a cartoon: he dubbed Scrooge in an Osdcar-winning animated short in 1971.
Já disse que a versão de 1951 é mais emocionante, certo? Isso acontece porque as mudanças na história original foram feitas para justificar sempre as ações de Scrooge, fazendo dele uma vítima de seu mentor, Mr Jorkin (Jack Warner). Surpreendentemente, nos Estados Unidos o filme não foi bem recebido, tendo estreado no Halloween e gerado pouco interesse no público.

I told you all that the 1951 version is more moving, right? This happens because changes in the original story were made to always justify Scrooge's actions, in a sense  that he was a victim of his mentor, Mr Jorkin (Jack Warner). Surprisingly, in the US the film was not well-received because it premiered on Halloween and few people went to see it.
Além das várias adaptações (o IMDb lista 95) , a obra de Dickens deixou outros legados. “Scrooge” se tornou sinônimo de “avarento, sovina” nos países de língua inglesa. Esse significado serviu para batizar um personagem da Disney: o tio Patinhas, ou Uncle ScroogeMcDuck. A exclamação de Scrooge logo ao início (“bah... Humbug!”), que infelizmente é dita apenas uma vez na versão de 1951, ressuscitou recentemente graças a um dos gatos mais famosos da internet: Grumpy Cat. 

Besides the many adaptations (IMDb lists 95 of them), Dickens's work left other legacies. 'Scrooge' became a synonym of 'stingy' in English-speaking countries. This meaning was taken in consideration to baptize a Disney character: Uncle Scrooge McDuck. Scrooge's exclamation right in the beginning (“bah...Humbug!”), unfortunately said only once in the 1951 version, was resurrected thanks to one of internet's most famous felines: Grumpy Cat. 
A primeira vez em que Scrooge apareceu no cinema foi em 1901, em um curta surpreendentemente bom, apesar de os fantasmas serem atores com lençóis na cabeça. Claro que Thomas Edison não poderia ficar para trás e fez sua versão em 1910. Apesar de o silêncio prejudicar um pouco a história, precisamos destacar a qualidade dos efeitos especiais criados. No rádio a história também foi bastante popular, e quem fazia o papel de Scrooge era Lionel Barrymore. Na televisão, há que se destacar a versão de 1949, narrada pela bela voz de Vincent Price.

Scrooge's film debut was in 1901, in a surprisingly good short film, even though we have here ghosts that were actors with sheets on their heads. Thomas Edison, of course, had to make his own version in 1910. The silence may be bad for the overall quality of the movies, but we must point that the special effects are outstanding. In radio the story was also very popular, and who played Scrooge was Lionel Barrymore. In television, we must point out the 1949 version, narrated by Vincent Price's beautiful voice.

Clique nas palavras e números em negrito para ver os filmes completos!

Click the words and numbers in bold to watch the full movies!

This is my contribution to the Christmas Movie Blogathon, hosted by Chris and Family Friendly Reviews. Ho, ho, ho!

Eu volto antes do Natal, mas deixo vocês com uma foto da minha árvore inspirada no cinema (cliquem para ver melhor os detalhes)!

I'll be back before Christmas, but for now you can see my film-inspired Christmas tree (click to see all the details)!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Jeanne Crain: adorável sofredora

Jeanne Crain: the lovely sufferer


Até o final de novembro, Jeanne Crain era apenas um nome e um rosto bonito que eu tinha em mente. A primeira semana de dezembro foi recheada com três filmes dela e, seguindo a lógica, todos os sábados do mês pertenceram a Jeanne no Telecine Cult. Quem escolheu a programação deve ser muito fã da moça. Se isso não for uma enorme coincidência, será uma bela forma de homenagear Jeanne Crain, que nos deixou há 10 anos. Que tal descobrir mais sobre ela?

Until the end of November, Jeanne Crain was only a name and a pretty face I vaguely knew. The first week of December was full of her films and, following the pattern, all Saturdays of the month belonged to Jeanne Crain at the Brazilian TV channel Telecine Cult. Whoever made the schedule should be a massive fan of hers. If it wasn't an enormous coincidence, it'll be a beautiful way to pay a tribute to Jeanne Crain, who left us 10 years ago. How about discovering more about her?


Jeanne Elizabeth Crain nasceu em 25 de maio de 1925. No Ensino Médio teve sua primeira experiência como atriz ao ser convidada para fazer um teste com Orson Welles. Jeanne não passou, mas decidiu que atuar seria sua profissão. Aos 18 anos estreou como extra em “Entre a Loura e a Morena / The Gang’s All Here” (1943) e conseguiu papéis de maior importância nos anos seguintes. No último dia de 1945, ela se casou com Paul Brooks (nome artístico de Paul Brinkman, um ator de pequenos papéis) e com ele teve sete filhos. Jeanne faleceu em 14 de dezembro de 2003, dois meses após a morte do marido, com quem nem sempre foi feliz.


Jeanne Elizabeth Crain was born on May 25th 1925. At high school she had her first experience as an actress when she was invited to a screen test with Orson Welles. Jeanne wasn't chosen, but she decided that acting would be her profession. At 18 she made her debut as an extra in “The Gang's All Here” (1943) and in the following year she got juicier roles. On New Year's Eve 1945, she married Paul Brooks (a bit-part actor whose real name was Paul Brinkman) and with him she had seven children. Jeanne passed away on December 14 2003, two months after her husband died – and with him she was not always happy.

Na capa da Life, 1945 /
On the cover of Life, 1945
Em “Amar Foi a Minha Ruína / Leave Her to Heaven” (1945), Jeanne interpreta Ruth, a irmã de criação da possessiva Ellen (Gene Tierney), e precisa enfrentar o ódio quando começa a passar tempo demais com o cunhado, Richard (Cornel Wilde). O filme pertence a Tierney e sua beleza estupenda e loucura convincente. Mas Jeanne está lá, sofrendo e ganhando nossa simpatia a cada cena.

In “Leave Her to Heaven” (1945), Jeanne plays Ruth, the foster sister to possessive Ellen (Gene Tierney), and she has to face hate when she starts spending too much time with her brother-in-law, Richard (Cornel Wilde). The film belongs to Tierney, her stupendous beauty and her convincent role. But Jeanne is there, suffering and receiving our sympathy in each scene she is in.


Em “Noites de Verão / Centennial Summer” (1946), filme que eu queria muito ver, Jeanne é Julia, uma moça tímida e inteligente que se encanta pelo francês Philippe (novamente Cornel Wilde), que está na Filadélfia organizando uma exposição em comemoração do centenário da independência americana. Novamente Jeanne deve disputar um homem com a irmã, mas desta vez é Linda Darnell que interpreta a caprichosa Edith. Edith quer apenas mostrar sua habilidade para conquistar qualquer homem, uma vez que está noiva, mas mesmo assim arma uma intriga para ficar com Philippe. Outro triângulo amoroso no filme é formado pelos veteranos Dorothy Gish, Walter Brennan e Constance Bennett.   

In “Centennial Summer” (1946), a film that was in my watchlist, Jeanne is Julia, a shy and smart girl who falls in love with Frenchman Philippe (Cornel Wilde again), a man who is in Philadelphia organizing a fair to celebrate the US independence centennial. Once again Jeanne must compete with her sister for a man, but this time the sister is the capricious Edith, played by Linda Darnell. Edith only wants to show her skill to conquer any man, because she is already engaged, so she plots a plan to get Philippe. Another love triangle in the film is formed by screen veterans Dorothy Gish, Walter Brennan and Constance Bennett.  


Jeanne finalmente consegue conquistar um homem, mas tem seu casamento ameaçado em “Quem é o Infiel? / A Letter to Three Wives” (1949). Ela é Deborah Bishop, a jovem esposa de um militar que acaba de chegar a uma cidadezinha cheia de fofocas. A moça mais perigosa da cidade é Addie Ross, que em um piquenique envia a mesma carta a três mulheres avisando que fugiu da cidade com o marido de uma delas. As outras duas destinatárias da carta são Lora Mae (de novo Linda Darnell), casada com um homem rude que tirou ela e a mãe da pobreza, e Rita (Ann Sothern), uma produtora de rádio casada com o professor de música George (Kirk Douglas), um homem pouco convencional e muito perspicaz.

Jeanne finally gets a man, but has her marriage threatened in “A Letter to Three Wives” (1949). She is Deborah Bishop, the young wife to a military man who just arrived to a little town full of gossips. The most dangerous lady in town in Addie Ross who, during a picnic, sends the same letter to three women telling that she ran away with the husband of one of them. The two other women who receive the letter are Lora Mae (Linda Darnell again), married to a brute man who took her and her mother out of poverty, and Rita (Ann Sothern), a radio producer married to music teacher George (Kirk Douglas), an unconventional and very perceptive man.


No mesmo ano de 1949 Jeanne deixou de sofrer pelo sexo masculino, mas desempenhou seu melhor papel ainda com sofrimento em “O que a Carne Herda / Pinky”. A história de Pinky Johnson mostra como o racismo ainda era presente no pós-Segunda Guerra e deixa a qualquer espectador indignado. Pinky é uma moça de pele clara, recém-formada em enfermagem, que volta a morar com a avó negra, Dicey Johnson (Ethel Waters). O preconceito e as tentativas de violência contra a moça são várias, mas a situação toma outra dimensão quando ela recebe a herança de Miss Em (Ethel Barrymore), viúva de quem ela cuidou, e é impedida de desfrutar do que ganhou porque é acusada de ter influenciado na escrita do testamento. Pinky é hostilizada, mas vai ao tribunal com toda sua coragem. Esta interpretação fez com que Jeanne fosse indicada ao Oscar de Melhor Atriz, mas perdeu o prêmio para Olivia de Havilland.

In the same year of 1949, Jeanne stopped suffering because of the opposite sex, but played her best role still with suffering in “Pinky”. Pinky Johnson's story shows how racism was still strong right after the Second World War and it leaves any viewer furious. Pinky is a fair-skinned girl, who just finished her degree to become a nurse, and she comes back to live with her black grandmother, Dicey Johnson (Ethel Waters). The girl suffers prejudice and even violent attacks are attempted, but the situation changes when she receives an inheritage from Miss Em (Ethel Barrymore), a widow Pinky took care of. Pinkycan't receive the money because she is accused of having influenced the old woman to rewrite her will. Pinky faces hostile people, but she bravely goes to court to reclaim what is hers. This performance made Jeanne be nominated for the Best Actress Oscar, but she lost the award to Olivia de Havilland. 


Chega 1950 e Jeanne é agora a filha mais velha do casal Frank e Lillian Gilbreth (Clifton Webb e Myrna Loy) que, em 1920, cuidam de seus 12 filhos com disciplina em “Papai Batuta / Cheaper by the Dozen”. Frank quer otimizar o uso do tempo, e para isso faz algumas coisas bizarras, como uma operação de amídalas em massa. Pouco a pouco seus filhos começam a contestar o modo de vida imposto pelos pais, em especial Ann, personagem de Jeanne.

The 1950s arrive and Jeanne is now the oldest daughter of Frank and Lillian Gilbreth (Clifton Webb and Myrna Loy) who, in 1920, take care of their 12 children with a lot of discipline in “Cheaper by the Dozen”. Frank wants to optimize their use of time, that's why he does some odd stuff, like a mass tomsil operation. Little by little their children start to complain about the lifestyle their parents want, in special Ann, Jeanne's character.


Resta mais um filme de Jeanne na programação para eu assistir: “Dizem que é pecado / People will talk”, de 1951, em que ela contracena com o sempre charmoso Cary Grant. A direção é de Joseph L. Mankiewicz, que dois anos antes havia se recusado a dar o papel de Eve Harrington em “A Malvada” para Jeanne, pois a considerava uma atriz limitada. Bem, os vários filmes de Jeanne Crain estão aí para provar o contrário. 

There is one more of Jeanne's films scheduled for me to see “People Will Talk”, from 1951, in which she plays opposite the always charming Cary Grant. The director is Joseph L. Mankiewickz, who two years before had refused to give her the role of Eve Harrington in “All About Eve”, because he considered Jeanne a limited actress. Well, the several films of Jeanne Crain are here to prove him wrong.  



quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O que John Wayne e Louise Brooks têm em comum?

À primeira vista, nada. Mary Louise Brooks (1906-1985) foi uma diva do cinema mudo que teve sucesso fazendo filmes na Alemanha e cujo papel mais conhecido é o da femme-fatale de “A Caixa de Pandora”. Marion Robert Morrison (1907-1979), mais conhecido como John Wayne, conseguiu fama nos westerns e sua imagem estará para sempre associada à do cowboy destemido. Duas figuras mais diferentes, impossível. Entretanto, em 1938, os dois fizeram um filme juntos, “Overland Stage Raiders” (“Bandidos Encobertos” no Brasil). Este foi o último papel de Brooks no cinema. Já John Wayne teria sua grande chance no ano seguinte em “No Tempo das Diligências / Stagecoach”.
Um grupo rouba um pequeno carregamento de ouro que está sendo transportado em um caminhão por estradas áridas e desertas. Stony Brooke (John Wayne) chega de paraquedas para deter os bandidos e ajudar seus amigos a prendê-los e conseguir uma recompensa de mil dólares. Eles investem o dinheiro em gado e usam o lucro para tornarem-se sócios dos irmãos Beth Hoyt (Louise Brooks) e Ned Hoyt (Anthony Marsh) em uma empresa de transporte aéreo que promete levar o ouro da cidade com segurança a qualquer lugar.
O diretor George Sherman era uma constante nos filmes B que John Wayne fez em sua escalada para a fama nos anos 1930. Com menos de uma hora de duração, muitos destes filmes apresentavam o trio que aqui também está presente: “the three mesquiteers” (uma série de 51 filmes, sendo que Wayne participou de oito deles). Outra característica é muita ação e um bom tiroteio. Este filme de 1938 não deixa a desejar no quesito pólvora: são três tiroteios, cada um envolvendo um meio de transporte (cavalo, trem e avião).
Esqueça a linda Lulu. Neste filme Louise Brooks está bem diferente: com os cabelos negros na altura dos ombros, sem franja (surpresa! a testa dela é tão larga quanto a minha) e, infelizmente, com um papel pequeno e mal-desenvolvido. Não há sequer um ensaio de romance (apenas uma insinuação) entre os personagens de Louise e Wayne. Outra tristeza é ela não ter nenhum close expressivo: mesmo aos 32 anos, o que era considerado velhice em Hollywood, é possível ver que ela continua charmosa.
Depois no sucesso na Europa no final dos anos 20, Louise cometeu um erro fatal ao voltar para a América: recusou um papel em “Inimigo Público”, de 1931. Este papel ficou com Jean Harlow e poderia ter dado vida nova à carreira de Louise. Ao contrário de outras estrelas do cinema mudo, não havia nada de errado com a voz dela: podemos perceber que é uma voz forte que combina com sua persona. Este filme de 1938, que à época foi considerado sua volta às telas, na verdade foi uma despedida. Louise fez o filme porque precisava dos 300 dólares de cachê. Depois disso, mudou-se para Wichita, onde não foi bem recebida pela população local, e tempos depois pôde ser vista como vendedora em uma loja em Nova York. Saindo deste emprego, teve vários relacionamentos amorosos, escreveu excelentes artigos sobre cinema e foi redescoberta pelos jovens cinéfilos franceses na década de 1950.
O filme foi divulgado na época como uma maravilha, divertido, cheio de ação, com uma fotografia excelente e um dos melhores roteiros da série “the three Mesquiteers”. Hoje vemos que não é nada disso. De fato, se recebesse o tratamento de um grande estúdio e não fosse rodado em apenas nove dias, o filme até poderia ser ótimo. A ideia inicial é boa, as cenas de ação são cativantes e há bastante espaço para comicidade. John Ford poderia transformar o material em algo precioso. E se Louise Brooks tivesse mais cenas, então, o filme ficaria perfeito.

“Overland Stage Raiders” (1938) está disponível no YouTube com uma qualidade de imagem muito, muito, muito ruim. O filme também está disponível em BluRay, mas com boa qualidade de imagem.


This is my contribution to The Late Show Blogathon, hosted by Shadowplay. Swan songs were never so bittersweet.  

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Estudando cinema... sem sair de casa!

Três anos atrás, em 2010, na roda-viva do fim do ensino médio, tive de fazer uma redação sobre educação em casa (homeschooling) e educação a distância. Eu fui a única da classe a defender ambas, dissertando com entusiasmo sobre os cursos que podemos acessar sem sair de casa. Logo em seguida eu entrei nesse mundo de cursos online. Hoje estou cada vez mais apaixonada pelos MOOCs (Massive Open Online Courses, ou Cursos Online Abertos em Massa), aquelas pérolas oferecidas por grandes universidades, totalmente grátis. Um dos melhores MOOCs que eu fiz foi sobre, adivinha o quê? Cinema. 
O curso “The Language of Hollywood: Storytelling, Sound and Color” chamou minha atenção por sua proposta de analisar as mudanças causadas pela chegada do som e da cor através de filmes-chave, e nem sempre as películas escolhidas eram as mais óbvias. O curso, oferecido pela Wesleyan University de Connecticut, teve duração de seis semanas que passaram rápido demais para um assunto tão interessante.
Com o curso pude ver filmes que há muito estavam na minha lista, como “Scarface”(1932), e também assisti a outros que não conhecia, mas que se tornaram favoritos logo nos primeiros minutos, a exemplo de “Aplauso / Applause” (1929) e “A Filha do Bosque Maldito / The Trail of the Lonesome Pine” (1936), que também é conhecido como "Amor e Ódio na Floresta". Pude prestar atenção a detalhes que em geral passariam despercebidos, graças às lições longas mas proveitosas do professor Scott Higgins, sempre divertido e claro em suas explicações. No escritório do professor, aliás, é possível uma imagem de Judy Garland em “O Mágico de Oz” enfeitando uma estante.
As análises dos filmes, durando geralmente mais de meia hora, me deram uma nova percepção deles. Como gosto de escrever e criar histórias, é geralmente no roteiro que presto atenção. Pergunto-me se a história é convincente, bem elaborada e se é desenvolvida com maestria. Raramente outros detalhes chamam a minha atenção, a não ser nos raros casos em que eles são demasiado exóticos (ex.: roupas de Carmem Miranda). Observando cenas congeladas, foi possível ver muito além do roteiro, e percebi como tudo é milimetricamente pensado no cinema: às vezes um assobio ou um risco em um mapa dão dicas valiosas para o andamento e desfecho do filme. Cada segundo do rolo de filme é precioso, por isso cada imagem deve ser escolhida com uma finalidade. E foi assim que também passei a dar mais importância às pessoas que ganham o Oscar de Melhor Direção de Arte (categoria que até 1946 era chamada de Melhor Decoração de Interiores).
George Raft e Ann Dvorak em Scarface
Os grandes temas do curso eram o som e a cor, e como a chegada dessas novas tecnologias sacudiu o mundo do cinema. Assim foram analisados alguns dos últimos e melhores filmes mudos (“Anjo das Ruas / Street Angel” e “Docas de Nova York”, ambos de 1928) e os primeiros filmes falados de qualidade. Aliás, algo que eu já sabia, o silêncio é excelente recurso para criar os mais diversos efeitos. E se há alguém que entende de silêncio, é Harpo Marx. Por isso um dos filmes analisados foi “Os Quatro Batutas / Monkey Businnes” (1931), sobre o qual eu aprendi muito.
Muitas anotações... e Groucho Marx
E quem disse que todos os cenários eram construídos em estúdio? Eles podiam ser reaproveitados (como em “O Navio Fantasma / The Ghost Ship”, 1941) ou mesmo pintados em vidro e fotografados pelas câmeras (como em “Tudo que o céu permite / All that heaven allows”, 1957). E as filmagens em locação também podem criar maravilhas, como em “Trail of the Lonesome Pine”, em que vemos Sylvia Sidney, Henry Fonda e Fred MacMurray jovens e lindos, no início de suas carreiras e sempre usando roupas que condizem com suas mudanças de humor.
Com o curso descobri o que é “motif” (para quem não sabe, é um elemento simbólico que se repete ao longo do filme, como uma música, um gesto ou objeto), o que é o “Borzagian shot” (veja a pose de Janet Gaynor e Charles Farrell abaixo) e percebi alguns temas recorrentes nas filmografias de Henry Hathaway e Val Lewton. A avaliação foi muito fácil, com algumas perguntas para recapitular o conteúdo no final de cada vídeo e um teste final com 20 perguntas que podia ser refeito até 100 vezes. Assim como eu, outros estudantes ficaram animados e sugeriram outros cursos online sobre cinema, incluindo temas como noir, cinema mudo, musicais, Hitchcock e Truffaut. Uma coisa é certa: se houver outro MOOC sobre cinema, eu estarei lá!  

A Victoria do blog Girls Do Film está fazendo uma resenha de cada filme analisado no curso, destacando os pontos importantes de cada um. Veja no blog!

sábado, 23 de novembro de 2013

Hollywood, judeus e a polêmica de Harvard

Hollywood, Jews and the Harvard issue


Um livro foi publicado pela Universidade de Harvard. Nenhuma novidade nesse fato. O livro é sobre história do cinema. Também não é novidade, mas o fato já passa ser mais interessante. O autor do livro, judeu, defende a tese de que os magnatas de Hollywood colaboraram com o nazismo. Agora, sim, está criada a confusão. Em meio a elogios de leigos e críticas de especialistas, “The Collaboration: Hollywood’s Pact with Hitler” se tornou um dos livros mais debatidos recentemente.

A book was published by the Harvard University. Nothing new about this. The book is about film history. This is also nothing new, but it is more interesting. The author, a Jew, defends the thesis that Hollywood moguls collaborated with Nazism. Now the issue is created. Between compliments made by people who know nothing about the subject and critics made by experts, “The Collaboration: Hollywood's Pact with Hitler” became one of the most talked about books lately.


A Alemanha era um mercado importante para o cinema americano e, por causa disso, na década de 1930, os estúdios teriam decidido cortar qualquer referência contrária à doutrina nazista e exterminar os personagens judeus. Isso é o que afirma o autor Ben Urwand. E ele solta uma bomba: a bordo de um navio, um mês depois do Dia D, magnatas de Hollywood e nazistas se reuniram para fazer negócio. Essas acusações geraram uma batalha na imprensa, sendo que uma das guerreiras mais atuantes na defesa de Hollywood é Alicia Mayer, sobrinha-neta de Louis B. Mayer. Não, Alicia não tem nenhum interesse financeiro na MGM: ela trabalha como editora e vive na Austrália. Mas está comprometida com a verdade e com a honra de sua família.

Germany was an important market for American cinema and, because of that, in the 1930s, the studios may have decided to cut any reference against Nazism and erase all Jewish characters. This is what author Ben Urwand affirms. And he says more: aboard a ship, one month after the D-Day, Hollywood mogusl and Nazis met to negotiate. These accusations created a battle in the press, and one of the fiercest warriors defending Hollywood is Alicia Mayer, Louis B. Mayer's great-niece. No, Alicia has no financial interest in Hollywood: she lives in Australia and works as an editor. But she is committed with the truth and her family's honor.

Louis B. Mayer
Ser judeu não era fácil. Mesmo para chegar ao estrelato em Hollywood, Julius Garfinkle teve de mudar seu nome para John Garfield, Bernard Schwartz virou Tony Curtis e Issur Danielovitch, quem diria, adotou o nome de Kirk Douglas. Mesmo assim, eles alcançaram o sucesso em uma indústria criada por judeus: não é preciso muita pesquisa para saber que os fundadores dos principais estúdios eram imigrantes judeus de vida difícil que triunfaram. Esse tópico é bem explorado no livro “An Empire of their Own: How the Jews invented Hollywood”, de Neal Gabler, publicado em 1988. Sim, esses magnatas eram forasteiros nos Estados Unidos, e mesmo os judeus americanos sofreram preconceito (veja “A luz é para todos / Gentlemen’s Agreement”, de 1947, para entender melhor o que estou dizendo), mas isso não os levaria a ficar do lado de um regime que pregava o extermínio dos seus semelhantes.

Being a Jew wasn't easy. To become Hollywood stars, Julius Garfinkle had to change his name to John Garfield, Bernard Schwartz became Tony Cutis and Issur Danielovitch, who would have guesses, adopted the name Kirk Douglas. And they became successful in an industry created by Jews: we don't need to research a lot to know that the founders of the main studios were Jewish immigrants who had a difficult life and succeeded. This topic is well covered in the book “An Empire of their Own: How the Jews Invented Hollywood”, by Neal Gabler, published in 1988. Yes, these moguls were outsiders in the USA, and even American Jews suffered with prejudice (watch “Gentlemen's Agreement”, from 1947, to understand this better), but this wouldn't make them side with an ideology that wanted to exterminate them.    

"A Luz é para Todos / Gentlemen's Agreement" (1947)
Hoje sabemos que Hitler foi, usando um dos adjetivos mais leves, um monstro. Mas o povo da época não sabia. Para os alemães desesperados, desempregados e sem perspectiva, ele era a única saída. Para os ultraconservadores (sempre errados, não importa a situação), o discurso dele vinha de encontro aos seus pensamentos. Para quem via tudo de fora, era melhor não se intrometer para não acabar com uma guerra como a que terminara em 1918.

Today we know that Hitler was, to use a lighter adjective, a monster. But the people at the time didn't know. To desperate Germans, who were unemployed and hopeless, he was the only solution. To the ultraconservatives (always wrong, no matter what), his speech translated their throughts. For those who saw everything from the outside, the better thing was not to get involved and avoid another war like the one that had just ended in 1918.

German children play with money that had lost its value due to inflation

Muitas das resenhas favoráveis foram escritas por pessoas usando um tom de “eu já imaginava”, como se nada além do lucro cego fosse buscado em Hollywood. Provavelmente são leigos em história do cinema ou pessoas que jamais gastarão seu tempo vendo um filme feito na década de 1930. Porque quem realmente ama o cinema antigo sabe que não era só lucro que circulava em Hollywood: eram também sonhos. Os mesmos sonhos produzidos há mais de 70 anos ainda ecoam.

Many of the favorable reviews were written by people who used a tone of “I knew it”, as nothing but profit was sought in Hollywood. They probably know nothing about film history or people who will never spend their time watching a film made in the 1930s. Because people who really love old movies know that profit wasn't the only fuel in Hollywood: there were also dreams. The same dreams made over 70 years ago still echo.


Muitos judeus alemães foram parar em Hollywood fugindo do nazismo e construíram uma carreira sólida por lá. Só para citar alguns, temos Curt Siodmack, Peter Lorre e Fritz Lang. Se os magnatas de Hollywood tinham um pacto com os nazistas, por que acolheram estes imigrantes, já que era certo que seus filmes não entrariam no mercado alemão, por mais cinéfilo que tenha sido Hitler? (As anedotas contam que o ditador ganhou uma série de filmes do Mickey no Natal de 1937, presente de Goebbels, e também que ele ofereceu uma recompensa par quem capturasse seu ídolo Clark Gable na guerra).

Many German Jews went to Hollywood to escape Nazism and build a solid career there. Only to name a few, there were Curt Siodmack, Peter Lorre and Fritz Lang. If Hollywood mogusl had a pact with the Nazis, who did they welcome those immigrants, if it was certain that their films wouldn't enter the German market, even though Hitler was a huge cinephile? (There are stories about Goebbels giving the dictator some Mickey cartoons on Christmas, 1937, and also about Hitler offering a reward for anyone who could capture his idol Clark Gable in the war).


Não é preciso ver centenas de filmes ou explorar arquivos do mundo todo para encontrar películas que contradigam a tese de Urwand. Basta apenas uma, profética e surpreendente: “E o mundo marcha / Theworld moves on”, de 1934. O filme conta a saga de duas famílias, sócias no comércio de algodão desde o século XIX, que enfrentam as reviravoltas que começam com a Primeira Guerra Mundial e passam pela quebra da bolsa de Nova York, chegando em 1934 com espaço para prever o futuro. Entre os perigos que estão por vir, podemos encontrar cenas de desfiles inundados de suásticas e multidões cumprimentando o Führer.

It's not necessary to see hundreds of films or explore archives all over the world to find movies that contradict Urwand's theses. Only one, prophetic and surprising, is enough: “TheWorld Moves On”, from 1934. The film tells the story of two families, partners in the cotton commerce since the 19th century, who face twits starting with World War I and going through the 1929 Crack, arriving in 1934 with enough space to predict the future. Among the upcoming dangers, we can find scenes of parades full of swastikas and crowds saluting the Führer.


Não adianta argumentar que “Confissões de um Espião Nazista”, de 1939, foi o primeiro a tratar do nazismo de modo crítico ou que na realidade foi “Tempestades D’Alma / The Mortal Storm” (1940) que alertou Hollywood sobre a ameaça nazista, pois esta pérola esquecida de 1934, dirigida pelo sempre ótimo John Ford e produzida pela Fox (William Fox, fundador e presidente da empresa na época, nasceu na Hungria e era filho de judeus alemães), está aí para provar seu pioneirismo. “O Grande Ditador” (1940), “Ser ou não Ser” (1942) e “Um barco e nove destinos / Lifeboat” (1944) atacaram a Alemanha nazista com a guerra já em andamento, “E o mundo marcha” o fez cinco anos antes de o conflito começar, logo no momento em que, segundo Urwand, Hollywood estaria colaborando com o nazismo. E detalhe: “E o mundo marcha” foi o primeiro filme aprovado pelo Hays Code, prova de que tudo que o filme mostra estava de acordo com a lei e o pensamento da época. 

You can't say that “Confessions of a Nazi Spy”, from 1939, was the first to talk about Nazism in a critical way or that it was “The Mortal Storm” (1940) that warned Hollywod about the Nazi menace, because this forgotten gem from 1934, directed by the always great John Ford and produced by Fox (William Fox, the founder and president of the studio at the time, was born in Hungary and was the son of German Jews), is there to show it was the first. “The Great Dictator” (1940), “to Be or Not to Be” (1942) and “Lifeboat” (1944) attacked Nazi German with the war already going on, “The World Moves On” made it five years before the war started, right in the moment when, according to Urwand, Hollywood was collaborating with Nazism. And a detail: “The World Moves On” was the very first film to be approved by the Hays Office, proving that everything that the film was showing was OK to the law and the thinking of the time. 


E se Ben Urwand não passou nem perto de “E o mundo marcha”, ele também não contava com uma descoberta também referente ao ano de 1934: foi encontrado em setembro o primeiríssimo filme americano antinazista: “Hitler’s Reign of  Terror”, que estreou em 34 com grande sucesso, mas ficou esquecido em um arquivo da Bélgica por pelo menos 40 anos. Quando eu fiquei a par do acontecimento, com certeza tive a mesma surpresa de Urwand quando este fez sua “descoberta” acerca da reunião no navio. 

And if Ben Urwand didn't even get near “The World Moves On”, he also didn't foresee a discovery also about 1934: it was found in September the very first ant-Nazi American film: “Hitler's Reign of Terror”, that premiered in 1934 and was a huge hit, but it was forgotten in a Belgian archive for at least 40 years. When I got to know about the discovery, I certainly was as surprised as Urwand when he “discovered” about the meeting on the ship.

"I Was a Captive of Nazi Germany", de 1936

P.S.: Escrevo isso porque, como historiadora, tenho um compromisso com a verdade (e não é porque essa não é uma ciência exata que não precisamos de provas para as teorias, quaisquer que sejam). Na ocasião da publicação do livro de Ben Urwand, Harvard cometeu um erro crasso. E parte desse erro foi, justamente, usar termos tão fortes e equivocados como “colaboração” e “pacto” no título do livro mais controverso do ano.    

P.S.: I write this because, as a historian, I am committed to the truth (and if History is not an exact science it does not mean that we don't need to prove our theories). In the occasion of publishing Ben Urwand's book, Harvard made a mistake. And part of this mistake was to use such strong and wrong words as “collaboration” and “pact” in the title of the most controversial book of the year.   

Para mais filmes de 1930 antinazistas, leia o artigo “The Moguls and the Dictators: Hollywood and thecoming of World War II”.

For more anti-Nazi movies of the 1930s, read the article “The Moguls and the Dictators: Hollywood and thecoming of World War II”.

Para uma compilação de críticas ao livro de Urwand, acesse o blog de Alicia Mayer.

To a list of reviews of Urwand's book, visit Alicia Mayer's blog.

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