Por maior que seja o
número de filmes que um cinéfilo veja, sempre haverá algo por descobrir. No meu
caso, uma das lacunas que faltavam é referente à obra do grande comediante do
cinema mudo Harold Lloyd. Para descobri-lo, precisei do incentivo de Kate do
Tumblr TheFilmWriter, uma grande fã do cinema silencioso, e também da Laura do
blog Laura’s Miscellaneous Musings, que fez uma lista de 10 clássicos que ela
verá pela primeira vez em 2013. “Safety Last!” é o primeiro da lista, e ela
incentivou outros blogueiros a acompanhá-la nessa descoberta e depois
escreverem o que acharam dessa empreitada.
Ah, se você ficou curioso
ao ver “A invenção de Hugo Cabret / Hugo” e quer saber por que aquele homem de
chapéu estava pendurado em um relógio no filme que Hugo e Isabelle viam, aqui
está a resposta.
De Harold Llloyd,
tinha assisido apenas ao curta “Just Neighbors”, de 1919, que também tem no
elenco Bebe Daniels. Por essa pequena experiência já pude perceber como Harold
é inventivo e tem o dom de fazer rir.
Um garoto (Harold)
vai para a cidade grande em busca de uma vida melhor e também de dinheiro
suficiente para se casar com sua namorada (Mildred Davis). Desde o começo temos
surpresas, pois a maneira como a estação de trem é filmada, junto com o texto
dos intertítulos, nos dá a impressão de que o personagem está preso e pronto
para ser enforcado. Cena muito semelhante abre o curta “O Enrascado / Cops”,
feito um ano antes e estrelado por Buster Keaton. Em menos de vinte minutos de
filme, Keaton tenta transportar uma mobília logo depois de ser dispensado pela
filha do prefeito, e acaba virando alvo de uma perseguição. Nada muito
criativo, ao contrário do filme de Lloyd.
O único trabalho que
o garoto consegue é o de vendedor de tecidos em uma loja de departamento,
ocupação cansativa e até perigosa, em especial nos dias de liquidação. No
entanto, ele escreve para sua garota dizendo que está muito bem e ganhando
muito dinheiro. Isso a incentiva a fazer-lhe uma visita surpresa. Tendo de se
passar por gerente, ele enfrenta vários problemas, sempre arquitetando as mais
criativas saídas. Quando ouve seu chefe dizer que daria mil dólares para quem
tivesse uma ideia para atrair mais compradores para a loja, o garoto encontra
sua grande oportunidade.
A ideia é justamente
escalar o prédio da loja sem nenhum equipamento de segurança, atraindo uma
grande multidão de curiosos. Quem faria essa proeza seria o colega de quarto do
garoto (Bill Strother), pois a ideia veio exatamente de uma escalada similar,
em que o amigo literalmente subiu pelas paredes para fugir de um policial.
Lloyd também teve a ideia não somente para a escalada, mas para todo o filme,
ao ver Bill fazer tal ato enquanto dublê. Harold ficou escondido, com medo de
que Strother caísse, mas ao vê-lo são e salvo, logo lhe propôs a parceria para
o filme.
Ora, se Harold fica
pendurado no relógio é porque ele escalou o prédio! Na verdade, o policial
volta a perseguir o amigo, restando a Lloyd a tarefa de cumprir com a promessa e
atrair o público. Por muito tempo se especulou como a escalada foi filmada e
muitos acreditaram que de fato Harold Lloyd desafiou a morte em frente às
câmeras. Só depois de seu falecimento que os truques foram revelados: embora o
ator tivesse feito ele mesmo a maior parte das cenas, em alguns momentos ele
contou com a ajuda de um dublê, como quando o personagem fica sacudindo a perna
para um rato sair de sua calça.
Para a famosa cena do
relógio, tudo foi filmado com ângulos sensacionais que davam a impressão de
altura. Mesmo sem grande perigo, Harold testou a resistência dos ponteiros com
um boneco que se estatelou no chão. O próprio astro se dependurou, após os
devidos acertos, e segurou os ponteiros com apenas oito dedos: em 1919, um
acidente com uma bomba que deveria ser cenográfica decepou os dedos polegar e
indicador da mão direita do ator e ele passou a usar luvas que dessem a
impressão de uma mão perfeita nas telas.
O título, seja em inglês. português ou espanhol, se justifica
pela sequência final. Embora o termo “homem-mosca” exista em outras línguas e possa
ser traduzido como “human fly “para o inglês, significando alguém com a habilidade
de escalar paredes, eu acredito que seria bem melhor o termo “homem-lagartixa”,
réptil habilidoso que, além de subir pelas paredes, tem a capacidade de
assustar minha avó. Saindo dessa reflexão, preciso ressaltar que Mildred Davis,
estrela feminina do filme, casou-se com Lloyd ainda em 1923, abandonando o
cinema e ficando ao lado do ator até que a morte os separasse, em 1969. Eles tiveram
um casal de filhos e adotaram mais uma menina.
E o que tudo isso,
mostrado em apenas uma hora e treze minutos de filme representaram para alguém
que vê um longa-metragem de Harold Lloyd pela primeira vez? Só posso dizer que,
embora a escalada seja o clímax, todo o caminho construído para chegar lá é
muito feliz, cheio de excelentes momentos cômicos para fazer qualquer um
gargalhar. O que mais posso dizer? Três vivas para Harold Lloyd!
“O Homem-Mosca /
Safety Last!” está disponível no YouTube.




13 comentários:
Aplausos! Gostei muito de seu comentario sobre Safety Last. E obrigado pelo el YouTube link!
Leticia, I'm delighted that you joined me in watching SAFETY LAST! this month. How wonderful to think that Harold Lloyd was enjoyed by another classic film fan who lives so far away. I love that the Internet makes the world smaller so we could each enjoy Harold Lloyd and share our thoughts with each other this month. I loved you calling him a "man lizard"!
Thank you for participating!
Best wishes,
Laura
Um grande filme, sem dúvida, e que este ano completa 90 anos sem cair no esquecimento.
A cena da escalada, não importa quantas vezes eu assista, ainda me dá calafrios.
Tive a sorte de, há muitos anos, ver na TV um especial Harold Lloyd, que durante alguns dias passou muitos dos seus filmes. Tornou-se um dos meus ídolos. As soluções atléticas, e fugas imaginativas, sempre cheias de humor tornaram-se clássicos. Mesmo hoje é difícil fazer melhor.
Oh, I am so glad you love the wonderful Harold Lloyd! Safety Last is genius and the thing about Harold is that is just so darn funny!! Wonderful post!
Eu amo seu blog estou sempre acompanhando.
A invenção de Hugo Cabret é um filme maravilhoso. Gosto muito. Com certeza assistirei Safety Last. Adorei o post.
Beijos <3
P.S: Um filme de 90 anos? O mais velho que assisti é de 1927. Você já assistiu O Nascimento de Uma Nação? Eu to ensaiando pra ver, mas sei lá....
Olá, Lê.Mais uma vez nos brindando com mais uma des suas preciosidades. A imagem do homem, postado em seu blogger, dependurado faz muito lembra "Hugo Cabret". A verdade é que sempre que passo aqui percebo que preciso, urgentemente, mergulhar nos universo dos Clássicos. No mais uma abraço...
Eu simplesmente adoro os filmes do Harold Lloyd, divertidíssimos, adoro filmes antigos, mas da década de 20 conheço poucos e me limito mais a Harold Lloyd e Chaplin. Bom domingo.
Também tenho uma dívida com o cinema mudo. Conheço poucos filmes, a maioria deles do Chaplin. Abraços.
Fofurissima Lê,
Adorei o texto.
Cena do relógio é um clássico né?
Assim, como vc e muitos tbm sou fã do cinema mudo.
Um beijo grande
Patt
Tem meme pra você lá no blog *.*
Taí, preciso ver alguma coisa do Harold Lloyd. Dica anotada ;)
bjo
Postar um comentário