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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Lembranças de Hollywood, de Dulce Damasceno de Brito

Quando “A ponte do rio Kwai” ganhou sete Oscars, ela estava lá. Quando Elizabeth Taylor deixou as marcas de suas mãos no cimento, ela estava lá. Quando Carmen Miranda, Marilyn Monroe, Clark Gable e James Dean morreram, ela estava lá. Quando Walt Disney deu um Oscar em forma de Mickey Mouse a James Mason, ela estava lá. E, assim como eu e muitos outros dos leitores desse blog, ela era brasileira.
Foto de Raquel Stecher
Dulce Damasceno de Brito é digna de nossa inveja. Hoje temos “apenas” os filmes para estabelecer contato com uma outra época, e ela viveu essa época, tendo entrevistado os astros que ainda admiramos. Dulce foi correspondente da revista O Cruzeiro durante as décadas de 1950 e 1960 e relembra essa época e as impressões dos ídolos que conheceu na memória publicada pela Imprensa do Estado de São Paulo, “Lembrança de Hollywood”, livro organizado por Alfredo Sternheim, ex-diretor de pornochanchadas.
Quem leu minha primeira resenha de um livro sobre cinema para o blog, Vocês ainda não ouviram nada, sabe que eu sou muito detalhista. E “Lembrança de Hollywood” também peca nos detalhes, a começar pela própria idade da autora. Não é falado especificamente o ano em que Dulce nasceu, mas ela se lembra de sua primeira vez no cinema aos quatro anos, vendo “Anna Karenina” (1935), o que mostraria que Dulce nasceu em 1931. Entretanto, as páginas sbre ela na Internet datam seu nascimento em 1926 ou 1927, uma vez que ela faleceu aos 82 anos em 2008. Em outras ocasiões a memória traiu Dulce, mas um erro crasso esta na página de Peter Ustinov. Logo após dizer que ele ganhou dois Oscars de Ator Coadjuvante, o livro cita três vitórias.
Meu grande problema foi a lista interminável de personalidades homossexuais, como se isso fosse importante para admirar o trabalho deles. Além de haver um pequeno capítulo só sobre o tema, é quase impossível passar uma página sem um desses boatos. E um boato quente se apresenta para nós quando Dulce admite que teve um affair com seu ator favorito, Fredric March.
Com John Wayne e Carmen Miranda

Insatisfações à parte, fico com inveja das oportunidades que Dulce teve e que, como ela mesma descreve, foram deliciosas. Em uma época com menos burocracia para se entrar no estúdio, ela conversou com pessoas que só de pensar me emocionam, e vez ou outra ainda encontrava-as em sua vizinhança, longe dos holofotes. Infelizmente, Dulce não conheceu todos os atores sobre os quais eu gostaria de ter lido. Quando ela chegou a Hollywood, o cinema mudo era passado distante e Jean Harlow, Carole Lombard e Leslie Howard já estavam mortos. De outros eu realmente senti falta, e adoraria ler a impressão que eles deixaram na jornalista. Mas sem precisar saber a orientação sexual deles.
Uma exposição completíssima da revista O Cruzeiro passou pelas sedes do Instituto Moreira Salles em São Paulo, Rio de Janeiro e acabou de sair de Poços de Caldas. As fotos abaixo mostram as capas dedicadas às estrelas de cinema. Infelizmente, nenhuma das reportagens em exibição era de autoria de Dulce. As que estavam lá tinham tons de fofoca e mídia sensacionalista. Meu outro contato com o tratamento que a imprensa brasileira dava ao cinema foi quando folheei uma revista Cinelândia e fiquei confusa. Algumas matérias e notas começavam em uma página e terminavam espremidas dezenas de páginas depois. Outras histórias tinham jeito de fanfic, licença poética com a vida do ator e atriz, como a que acompanhava Greer Garson cuidando de crianças no campo e se sentindo aliviada por estar longe de Hollywood e do fracasso de seu primeiro casamento.
O grande tesouro do livro são de fato as imagens. Além de várias fotos de Dulce durante as entrevistas, com direitos a muitos astros com seus belos figurinos, porém mais à vontade; há também belas imagens de arquivo. Aprendi também muita coisa, e o que mais me impressionou foi o fato de Yul Brynner ter gravado um comercial sobre os perigos do cigarro ao descobrir que tinha um câncer incurável, e ter exigido que tal comercial fosse exibido logo depois do anúncio de sua morte na televisão. Ao mesmo tempo, fiquei impressionada com a crônica de como Joan Crawford fingiu já conhecer Dulce na primeira vez em que foram apresentadas.

Sendo parte da Coleção Aplauso Especial, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, a impressão é de grande qualidade. O preço varia muito, e eu tive a sorte de comprar uma edição por apenas 18 reais na Feira do Livro de 2010. Mas, afinal de contas, um mergulho no passado não tem preço.

13 comentários:

Marcelo C,M disse...

Tenho muita saudades de Dulce Damasceno e de suas matérias quando eram publicadas na revista SET.Quando o meu quarto ficou cheio demais de revistas SET, decidi me livrar boa parte delas, mas fiz questão de recortar e manter guardados as matérias dela.

Pedrita disse...

bons tempos, boas revistas, providencial esse post dois dias depois da bela revista bravo sair de circulação. beijos, pedrita

Gilberto Carlos disse...

Realmente Dulce Damasceno teve a oportunidade de conhecer grandes ícones do cinema, o que não é pra qualquer um. Lembro das críticas dela que eram publicadas na Revista Set. Lia com grande prazer.

Abraços.

Hugo disse...

Dulce Damasceno viveu numa época em que os jornalistas com certeza tinha acesso muito fácil com os atores e atrizes, sem todo o aparato atual de assessores e puxa-sacos que os rodeiam.

Não tive oportunidade de ler algum exemplar destas revistas antigas como o Cruzeiro, mas sobre a confusão na edição das matérias, acredito que era uma prática comum na imprensa. Já fiz várias pesquisas em jornais antigos e percebi que notícias eram divididas em páginas distintas sem muita preocupação em fazer o leitor entender.

Sobre citar quem era homossexual em Hollywood, Dulce manteve a mesma linha nas suas matérias na revista Set. Sempre havia o comentário sobre algum astro antigo.

Abraço

Jefferson C. Vendrame disse...

Lê Parabéns pelo post.
Eu já há algum tempo venho pensando em fazer no meu blog um post especial sobre DULCE DAMASCENO DE BRITO, cujo trabalho eu conheci quando a mesma ainda escrevia na extinta revista SET. Tenho dela o livro HOLLYWOOD NUA E CRUA, que consegui por míseros R$ 5,00 reais aqui em Maringá, o livro esta novinho. Repleto de fotos e detalhes saudosos da época que a correspondente vivia na Califórnia. Esse livro que você menciona em seu texto, eu não conheço, mas já me despertou interesse.

Quanto aos layouts das publicações antigas, realmente era comum as revistas e jornais apresentarem seus textos dessa forma. Tenho algumas CINELÂNDIAS em casa e também sempre visito o acervo digital de jornais dos anos 30, 40 e etc e naquela época,sabe lá Deus porque, os textos começavam em uma determinada página e terminavam em outras. Se você tiver interesse em adquirir algumas dessas revistas de cinema antigas, visite o mercado livre que lá tem diversas, até dos anos 20, como a pioneira A SCENA MUDA.

Abração

Iza disse...

Que sortuda ela! Conhecer todos esses astros e estrelas de Hollywood, numa época gloriosa para o cinema, não tem preço. Amei o post, Lê. E adoraria ir nessa exposição - que venha à Poa.
Beijão <3

Ruby disse...

Ai gente, a Dulce viveu um tempo lindo que eu gostaria de ter vivido, principalmente fazendo o que ela fazia. É digna de inveja boa mesmo!
Sou louca pra ler o livro dela, já procurei em sebos até, mas nunca achei. Tomara que eu encontre. Amei o post!
Saudades do tempo da SET, eu era assinante.

Dayane Pereira disse...

Caramba, que época boa estajornalista viveu e quantas oportunidades maravilhosas teve. Não dá pra imaginar algo assim hoje em dia, além de que a exposição é tanta, os artistas praticamente correm atrás dos holofotes, as coisas até perderam a graça.
:/

FlickChick disse...

Very interesting post, Le - I never heard of this lady, but it sounds like delicious reading!!

ClassicBecky disse...

Fasinating post, Le. I never knew about Dulce, and what a life! I'm like you, though -- I hate those gossipy things about who was gay and who was not, etc. And I REFUSE to believe that about Fredric March! Love that actor, and he had a lifelong marriage to Florence Eldridge that I always admired. Oh well, some people like to whisper and wonder, but not me. Good job!

Raquel Stecher disse...

Nunca he oido de Dulce Damsceno. Obrigado pelo post foi muito informativo e interessante! E obigrado por usar a minha foto! Eu gostei muito de ver o marcas de maos e pes em Hollywood.

galvestoon disse...

BOM DIA E SUCESSO!
INTERESSANTE É QUE NOS ANOS 50 EU OUVIA CRÔNICAS E COMENTÁRIOS DE CINEMA NA ANTIGA Rádio Globo.
confere?
gostaria,também de me indicar livros escritos por dulce.
obrigado
E-mail;
galvestoons@oi.com.br

Anônimo disse...

Sempre gostei muito das colunas de Dulce Damasceno de Brito.Acompanhava na revista Contigo e na SET.Li o livro "Hollywood nua e crua", e gostei muito.Sempre lamentei que a televisão no Brasil não soube valorizar essa grande jornalista.Ela poderia ter nos brindado com um programa sobre o mundo do cinema.Inesquecível.Deixou saudades.
(José - Três Barras - SC)

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