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sexta-feira, 28 de junho de 2013

“Jejum de Amor / His girl Friday”: Rosalind Russell em seu melhor momento

Melhor que uma boa comediante, só uma boa atriz dramática que também atua em excelentes comédias. Exemplos não faltam: Barbara Stanwyck, Katharine Hepburn, Sophia Loren ou mesmo Myrna Loy e Carole Lombard, que começaram com papéis mais sérios. A exemplo de suas duas colegas da década de 1930, Rosalind Russell também fez dramas, mas se destacou em comédias. “Jejum de Amor / His Girl Friday” (1940) talvez seja a melhor delas.
Hildegarde ‘Hildy’ Johnson (Russell) é uma intrépida repórter e ex-esposa do chefe do jornal, Walter Burns (Cary Grant). Após o divórcio e alguns meses de férias, ela está de volta apenas par avisar que não voltará. Ela decidiu levar uma vida normal, de dona de casa, se casando com o pacato vendedor de seguros Bruce Baldwin (Ralph Bellamy). Hildy chega com a notícia no dia em que a redação do jornal está em polvorosa devido ao iminente enforcamento de Earl Wlliams, um cidadão qua, ao ver-se desempregado, atirou em um policial. Isso seria corriqueiro se muitos interesses políticos não estivessem por trás do enforcamento.
Foi inevitável minha sensação de déja vù: o roteiro é baseado na peça “The Front Page”, e já foi levado às telas em outras duas ocasiões. Novamente, esses remakes não fariam diferença não fosse o fato de o diretor Howard Harks ter feito uma mudança crucial: no original, Hildy é um homem. Enquanto fazia testes, Hawks pediu que sua secretária lesse as falas de Hildy para ele acompanhar e acabou gostando da ideia de adicionar um toque de romance ao filme. Entretanto, essa mudança repentina foi seguida de várias negativas de grandes comediantes, como Jean Arthur, Carole Lombard, Ginger Rogers, Claudette Colbert e Irene Dunne. Rosalind, aparecendo para fazer o teste logo após um mergulho na piscina, ficou um pouco chateada por não ter sido a primeira opção.
Catherine Rosalind Russell nasceu em 1907 e começou no cinema em 1934. Seu primeiro passo para o estrelato em comédias foi em “As Mulheres / The Women” (1939), em que rouba a cena ao morder Paulette Goddard. Durante as filmagens de “Jejum de Amor / His Girl Friday”, Rosalind acreditava que suas falas não eram muito engraçadas, e por isso contratou um publicitário para criar frases espirituosas. Como Howard Hawks permitia que seus atores improvisassem, Roz usou vários desses gracejos. Emprestada pela MGM para a Columbia, além de um papel excelente, Roz também conseguiu um marido através das filmagens: foi seu colega Cary Grant que a apresentou ao produtor Frederick Brisson, o pai de seu único filho, com quem ficou por 35 anos.
De fato, um dos atores mais engraçados do cinema é Cary Grant, e seu mérito é nunca ter sido considerado primeiramente um comediante, como acontecia com Groucho Marx, W. C. Fields, Harold Lloyd ou Charles Chaplin. Assim, Grant empresta parte de seu charme e graça às suas protagonistas, como acontece aqui com Rosalind. Outros exemplos notáveis são as parcerias com Ann Sothern em “A noiva era ele / I was a male war bride” (1949), com Leslie Caron em “Papai Ganso / Father Goose” (1955) e com Audrey Hepburn em “Charada” (1963), além dos quatro inesquecíveis filmes com Katharine Hepburn de 1934 a 1940.
Novamente Grant se coloca entre a ex-esposa e um pretendente, tentando sabotar o relacionamento, como faz seu personagem em “Cupido é moleque teimoso / The awful truth” (1937). Neste filme Grant também atrapalhou as intenções amorosas de Ralph Bellamy (indicado então ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) com sua ex-esposa, aqui interpretada por Irene Dunne. Durante "His girl Friday", em uma das vezes em que o personagem de Ralph vai preso, Cary Grant liga para a delegacia e descreve-o como "parecendo-se com aquele ator, Ralph Bellamy", em uma das melhores piadas do filme. 
“The Front Page” estreou na Broadway em 1928, com Osgood Perkins (pai de Anthony Perkins) no papel de Walter e Lee Tracy como Hildy. Os autores haviam sido jornalistas em Chicago. A peça foi adaptada para cinema em 1930, com Pat O’Brien e Adolphe Menjou, e em 1974, com Jack Lemmon e Walter Matthau (e dirigida por Bill Wilder), sendo esta última a versão responsável por meu déja vù. Pode soar estranho o final, em que (SPOILER) Lemmon desiste do casamento para voltar a trabalhar com Matthau, mas tendo em consideração a histórica parceria da dupla, relevei o fato e até considerei o final justo. Em “Jejum de Amor / His girl Friday”, obviamente o final soa bem melhor e, apesar de previsível, é providencial e delicioso. Hawks acertou mais uma vez com sua pequena mudança. Aliás, o título enigmático original, "His Girl Friday", é bem mais perspicaz do que o original "The Front Page". No livro Robinson Crusoé, de William Defoe, o náufrago protagonista encontra ajuda no índio sexta-feira (Friday), de onde surge a expressão "his man Friday", que significa "o braço direito", "o maior ajudante" de alguém. Como Hildy é de Walter. 
Em 1988, novamente Hildy virou mulher, interpretada por Kathleen Turner em "Troca de Maridos / Changing Channels", ao lado de Burt Reynolds. Novamente, uma conexão: Kathleen Turner é a narradora do documentário: "Life is a banquet: The life of Rosalind Russell", feito em 2009.
Ainda com alguns jornalistas em busca de furos, mas sem atos inescrupulosos como em outros filmes sobre o tema ("A montanha dos sete abutres / Ace in the hole", de 1951 sendo talvez o mais emblemático), este filme de diálogos frenéticos e muito divertidos, este filme não seria o mesmo sem a excelente e divertida Rosalind Russell, ganhadora de cinco Globos de Ouro e uma das mais notáveis atrizes de Hollywood.
 "Jejum de Amor / His girl Friday" está disponível no YouTube e no Internet Archive. Abaixo, uma versão com legendas em português.

This is my contribution for the "Funny Lady Blogathon", hosted by Movies, Silently, one of the most amazing blogs I've discovered lately. 
Marion Davies

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Cabiria (1914)

Uma única frase resumiria o filme Cabiria, de 1914: não é fácil. Não foi fácil fazê-lo, há quase cem anos, e não são todos os espectadores, nem mesmo todos os cinéfilos, que apreciariam este filme. Com uma trama dividida em cinco episódios e passado no terceiro século antes de Cristo, este, que é um dos primeiros épicos do cinema, tem sua carga de patriotismo, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, e muitas referências históricas.

Cabiria é uma jovem princesa da Sicília, interpretada durante metade do filme por Carolina Catena, atriz infantil que atuou até 1910 e cuja biografia é tão obscura quanto um buraco negro. Quando ocorre uma erupção do vulcão Etna, ela está com sua babá, Croessa (Gina Marangoni), que faz de tudo para salvar a própria vida e a vida da menina. Junto com outros serviçais, Croessa e Cabiria escapam, mas chegam perto demais de um barco e são capturadas e levadas para Cartago para serem vendidas como escravas.

Cabiria e outras 99 crianças escravas são escolhidas como oferenda a um deus, e, portanto, devem ser queimadas na boca de uma imensa estátua em um templo igualmente impressionante. Croessa pede ajuda ao romano disfarçado Fulvius Axilla (Umberto Mozato) e ao escravo dele, Maciste (Bartolomeo Pagano), para resgatar Cabiria. Enquanto tudo isso acontece com as pessoas normais, um ataque a Roma vem sendo planejado por Aníbal (Emilio Vardanes), que aparece cruzando os Alpes, e Asdrúbal (Edoardo Davesnes), pai da princesa Sofonisba (Italia Almirante), cobiçada por muitos.
Fulvius e Maciste
Cabiria dá o nome ao filme, mas serve apenas de elo para a história. Ela liga os personagens e as situações reais, como as Guerras Púnicas (Roma contra Cartago). Mal se vê o rosto dela quando menina, e já moça, interpretada por Lidia Quaranta, também não está presente na tela durante muito tempo. Dependendo da origem do filme (como acontece na versão do YouTube), a atriz aparece creditada como Letizia Quaranta, irmã de Lidia.
Uma escada humana
Muitos dos personagens representados aqui são figuras históricas verdadeiras, como todos os reis, cônsules e princesas envolvidos na guerra. Até o intelectual Arquimedes faz uma ilustre participação, criando uma engenhoca que destrói os navios romanos em uma sequência impressionante, difícil de imaginar que tenha sido filmada há quase cem anos (e tenha sido posta em prática há mais de dois mil anos!).

Italia Almirante (também creditada como Italia Almirante-Manzini), intérprete da rainha Sofonisba, provavelmente a personagem feminina mais importante no enredo, tem ares de Theda Bara e não há palavras suficientes para elogiar sua atuação. Tinha como primos três atores e um diretor de cinema, e seus pais trabalhavam no teatro, mas traçou sua carreira de sucesso sem nepotismo. “Cabiria” consolidou sua carreira e transformou-a em diva do cinema mudo italiano. Aposeantando-se após apenas um filme falado, em 1934, Italia fez uma turnê pela América do Sul, vindo a falecer em São Paulo em 1941, vítima de uma picada de inseto.

O personagem Maciste teve vida longa, apesar de um dos intertítulos do filme prever que ele não escaparia com vida. Em 1915, seguindo o sucesso do coadjuvante no épico, o diretor Giovanni Pastrone produziu um filme em que ele era o protagonista, dando origem a uma série de 26 filmes muito loucos estrelando Maciste e, por consequência, Bartolomeo Pagano. Nestas películas, o personagem foi sonâmbulo, policial, turista e atleta. Ele poderia aparecer em qualquer época e lugar. Nessas odisseias também ficamos sabendo que Pagano era um ator branco que era maquiado para parecer negro. O absurdo só aumentou com o tempo e, com o renascimento de Maciste nos anos 50 e 60 (quase todos os filmes do período estão disponíveis na Internet), somos informado de que ele se materializa em qualquer lugar que seja necessário a partir de pedras. Segundo Gabriele D’Anunzio, que colaborou no roteiro de “Cabiria”, Maciste é um dos nomes do herói Hércules, daí a força descomunal do personagem que, por sinal, nunca conquistava a protagonista. Mas nem tudo é bobagem no mundo do personagem: foi o filme “Maciste no Inferno”, de 1925, que influenciou Fellini a tornar-se cineasta. 
  
Prefiro os filmes da década de 1920 aos da década de 1910, e com esse não foi diferente. Se por um lado o enredo é bastante denso, devido ao excesso de detalhes históricos, as inovações que maravilharam D. W. Griffith e o inspiraram a filmar “Intolerância” (1916) são dignas de nota. O diretor Giovanni Pastrone cria cenas surpreendentes, aglomera multidões em frente às câmeras, comanda cenas perigosas até mesmo para dublês, reconstitui um passado distante e luxuoso e não dispensou muita ação, sendo pioneiro no uso de luzes artificiais e da movimentação de câmera (travelling).   
O custo de dois milhões de liras (250 mil dólares na época) compensou. Além do sucesso internacional, “Cabiria” conquistou a honra de ser o primeiro filme a ser exibido na Casa Branca. Vindo de uma série recém-nascida de épicos, como Quo Vadis? e “Os últimos dias de Pompeia”, ambos de 1913, este filme consolidou o gênero, sendo suficiente para Scorsese afirmar que Pastrone inventou o gênero épico. E não foi à toa que os melhores épicos foram filmados justamente na Itália, ou melhor, na Cinecittà.

“Cabiria” (1914) está disponível no YouTube e no Internet Archive (neste, sem trilha sonora).

This is my second contribution to the Italian Film Culture Blogathon, hosted by the Nitrate Diva. In the banner, Italia Almirante and Anna Magnani.



P.S.: Deixem nos comentários a opinião geral de vocês sobre os filmes mudos. Ela será usada como pesquisa para um futuro post. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Marlon Brando: fatos rápidos

  • Marlon Brando Jr. nasceu em 1924 em Omaha, Nebraska, e faleceu em 2004 vítima de insuficiência respiratória.
  • Seu pai era especialista em pesticidas e fotógrafo amador. Sua mãe, bastante moderna para a época, tinha sido atriz e era administradora de teatro, tendo ajudado o jovem Henry Fonda a começar a carreira. Infelizmente, a senhora Brando também era alcoólatra.
  • Reza a lenda que Marlon começou a atuar imitando os vizinhos e os bichos da fazenda para chamar a atenção da mãe quando ela bebia demais.

  • Brando tinha duas irmãs mais velhas: Jocelyn e Frances. Jocelyn foi a primeira a seguir carreira artística, e Marlon seguiu as duas meninas quando elas foram para Nova York.
  • Ele foi dispensado do serviço na Segunda Guerra Mundial por ter uma lesão no joelho e da Guerra da Coreia por fazer amizade com um psiquiatra enquanto se preparava para seu primeiro filme, “Espíritos Indômitos / The Men” (1950).
  • Um dos mais conhecidos frutos do Actor’s Studio, Brando odiava a maneira como Lee Strasberg queria ganhar crédito por ter moldado seu talento. Mesmo assim, gostava das aulas de Stella Adler.
    Teste para o cinema em 1947
  • Seu maior sucesso na Broadway foi “Uma rua chamada pecado / A streetcar named desire”, produzida em 1947 e dirigida por Elia Kazan, o mesmo diretor do filme, que consagraria Brando em 1951. O ator foi pessoalmente à casa de Tennessee Williams para conseguir o papel. Mesmo assim, Brando nunca ficou feliz com sua própria performance, pois não conseguiu trazer humor a Stanley Kowalski.
  • Brando foi o único do elenco de “Uma rua chamada pecado” a não ganhar o Oscar. Ele tinha um forte concorrente, Humphrey Bogart em “Um aventura na África / The African Queen”. Dois anos depois, Brando derrotou Bogart e levou o Oscar por “Sindicato de Ladrões / On the Waterfront” (1954).
  • Em 1967, Brando aceitou o prêmio de Melhor Atriz dos Críticos de Cinema de Nova York em nome da amiga Elizabeth Taylor, que estava na África a trabalho e não foi à cerimônia. Brando viajou ao encontro de Liz para entregar a estatueta pessoalmente.
  • Seu segundo Oscar veio com “O Poderoso Chefão / The Godfather” (1972). Na histórica ocasião, ele enviou uma atriz mexicana vestida de índia para fazer um discurso sobre a maneira como os índios eram retratados no cinema e na televisão.

  • Além da questão dos índios, Brando se envolveu na luta por igualdade de Martin Luther King e chegou a apoiar financeiramente os Panteras Negras antes da radicalização do grupo. Alguns de seus filmes mostram sua militância, como “Sayonara” (1957), que trata do casamento inter-racial.
  • Brando casou-se com três atrizes: a indiana Anna Kashfi, a descendente de mexicanos Movita Castaneda e a taitiana Tarita Teriipia. Curiosamente, Movita e Tarita participaram de “O Grande Motim / Mutiny on the Bounty”. Movita esteve na versão de 1935 e Tarita, na de 1962, contracenando com Brando. 
  • Em sua autobiografia “Songs my mother taught me”, publicada em 1994, Brando não comenta sbre seus casamentos, mas diz que teve um caso com Marilyn Monroe que durou vários anos.
Telegrama de Brando para Marilyn
  • Brando teve doze filhos: um com a primeira esposa, dois com a segunda, dois com a terceira, três com a empregada Maria Christina Ruiz e mais quatro de mães não identificadas publicamente. Ele adotou os dois filhos do segundo casamento de Tarita e o filho de um amigo.
  • O depoimento de Brando no julgamento de seu filho Christian, que matou o namorado da meio-irmã Cheyenne em 1990, foi bastante polêmico porque muitos afirmaram que ele estava atuando em frente ao júri. Cheyenne suicidou-se cinco anos depois e Christian foi culpado, falecendo em 2008.
  • Embora fosse considerado difícil de trabalhar e às vezes um verdadeira pesadelo para alguns diretores, Brando não enveredou pela direção. O único filme que dirigiu, produziu e protagonizou foi “A Face Oculta / One-Eyed Jacks” (1961). A oportunidade de dirigir o filme surgiu após uma briga com Stanley Kubrick, que se desligou do projeto.
  • No final da carreira, ele se dedicou a algumas invenções. Há várias patentes de "maneiras de esticar o couro do tambor" em nome de Marlon Brando.
  • Recusou papéis em “O vermelho e o negro / Le rouge et le noir” (1954), “Lawrence da Arábia” (1962), “Butch Cassidy / Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969), “Movidos pelo ódio / The Arrangement” (1969), “Magnólia” (1999) e “A lenda do cavaleiro sem cabeça / Sleepy Hollow” (1999). Também não aceitou reprisar os papéis de Vito Corleone e Jor-El (pelo qual recebeu 3 milhões de dólares) nas sequências dos filmes. Recusou-se a voltar aos palcos para interpretar Hamlet com Laurence Olivier em 1966 e só aceitaria o papel principal em “O Grande Gatsby / The Great Gatsby” (1974) por 4 milhões de dólares.
  • Brando foi indicado ao Oscar oito vezes. Considerado um dos atores mais bonitos e talentosos do século passado, foi apontado como a quarta maior lenda do cinema pelo Instituto de Cinema Americano em 1999.
P.S.: Estou participando de um concurso muito interessante, o Publiki meu Livro. Preciso da ajuda de vocês, caros leitores: por favor, CURTAM E COMPARTILHEM esta postagem na linha do tempo do Facebook de vocês. Não custa nada, não vai enfeiar o Facebook e ainda mostrará que vocês apoiam os jovens escritores! Obrigada! :)

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Cinecittà: Hollywood vai a Roma

Se houve outra fábrica de sonhos que em algum momento rivalizou com Hollywood, esta foi a Cinecittà. Na década de 1950, em especial, ela foi inclusive o destino preferido dos mestres americanos para filmar produções que marcaram a história, ou seja, ela foi até preferida em relação aos estúdios dos Estados Unidos e sua infraestrutura privilegiada. Obviamente, os custos mais baixos para se filmar na Itália foram os grandes atrativos de um lugar que tem muitas histórias, reais ou fictícias, para contar.
A Cinecittà surgiu de uma tragédia, um incêndio que em 1935 destruiu boa parte dos amiores estúdios da Itália. Em 1937, ditador fascista Benito Mussolini fez da Cinecittà parte de um plano presente em quase todos os governos totalitários: o investimento pesado em propaganda. Nada na Itália se compara aos filmes propagandistas rodados por Eisenstein na Rússia ou por Leni Riefenstahl na Alemanha (não que os filmes de ambos estejam no mesmo patamar). O arquiteto Freddi usou as influências mais modernas da época para criar um estúdio que, em seus primeiros anos, pouco funcionou e logo foi vítima da guerra. A Cinecittà foi tomada pelos alemães em 1943, com as filmagens mudando-se para Veneza, e os estúdios foram bombardeados pelos Aliados.
Um dos melhores retratos dessa época é o documentário italiano de 2009 “Hollywood às margens do Tibre” (“Hollywood sul Tevere” no original). Essa excelente produção foca as fontes italianas, em especial as reportagens com astros e estrelas que chegavam a Roma para trabalhar ou mesmo passar férias. Assim, o ponto alto do documentário é a cobertura do casamento de Tyrone Power com Linda Christian, que aconteceu na Itália em 1949 e mobilizou grande parte da elite cinematográfica. Outros astros que passaram pela Itália sem necessariamente trabalhar na Cinecittà foram Charles Chaplin e Greta Garbo, e o documentário apresenta imagens raras desses dois ícones em solo italiano.
Sem dúvida a Cinecittà está mais intimamente ligada aos épicos e a Federico Fellini. “Quo Vadis?” (1951), em que Sophia Loren atuou como figurante, Ben-Hur” (1959), “El Cid” (1961) e "São Francisco de Assis" (1961) foram todos filmados no complexo de estúdios, com a presença de milhares de extras, toneladas em figurinos e cenários e outros exageros. Aliás, enquanto “Ben-Hur” era filmado na parte principal do estúdio, Fellini usava os fundos da Cinecittà para rodar sua obra-prima “Oito e Meio” (1960). Em um dos últimos filmes de Federico, “Entrevista / Intervista” (1987) podemos ver bem o funcionamento do local conforme um grupo de jornalistas atravessa os estúdios para conversar com o grande diretor. Em outro de seus filmes, “E la nave va” (1983), Felini já apresenta, na cena final, um pouco dos truques mecânicos da Cinecittà. Hoje, aliás, há uma parte dos velhos estúdios dedicados à memória do mestre, com vários de seus pertences, além de muitos figurinos de seus filmes estarem em exibição no museu do estúdio.  
Outro grande sucesso filmado na Cinecittà foi “A princesa e o plebeu / Roman Holiday” (1953), que marcou o início do amor de Audrey Hepburn pela capital italiana. Audrey visitou várias vezes a cidade, fosse com seu primeiro marido, Mel Ferrer, com quem contracenou em “Guera e Paz” (1956), rodado na Cinecittà, ou com seu segundo marido, o psiquiatra (italiano) Andrea Dotti. Várias fotos da linda moça na capital italiana, dentro e fora da Cinecittà, aparecem no livro recém-lançado, “Audrey in Rome”.
Os sets magníficos e enormes construídos na Cinecittà podem ser bem observados em “Era uma vez no Oeste” (1968) e “Lawrence da Arábia” (1962), mesmo sendo várias cenas do último filmadas em locação na Espanha. Sergio Leone, aliás, rodou várias de seus westerns nos estúdios. A decadência da Cinecittà como paraíso americano começou com as várias confusões da multimilionária produção “Cleópatra” (1963), que, curiosamente, começou a ser filmada no inverno de Londres, mas uma pneumonia de Elizabeth Taylor obrigou a mudança de ares para Roma. Um figurante distribuindo sorvete para seus amigos na cena da triunfal apresentação de Cleópatra não apenas enfureceu o diretor Joseph L. Mankiewicz, mas mostrou como a Cinecittà começaria a ficar diferente, mais cara e menos atraente para os americanos.
Por várias vezes a Cinecittà esteve à beira da falência, afundada em dívidas. Hollywood voltou a olhar com mais carinho para ela nos últimos tempos,  com trabalhos lá filmado como "Gangues de Nova York" (2002) e o seriado "Roma". Scorsese, um cineasta cinéfilo, se mostrou muito satisfeito em filmar em um local com tanta história, onde foram rodados 48 ganhadores do Oscar. "A condessa descalça" (1954), "A pantera cor-de-rosa" (1963), "O poderoso chefão / The godfather" (1972) e "O último imperador" (1987) têm todos algo em comum: foram feitos na fábrica de sonhos italiana.
This is my first contribution to the Italian Film Culture Blogathon, hosted by the Nitrate Diva. Arrivederci!

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