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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Variações sobre o mesmo tema: Anna e o Rei do Sião (1946) e O Rei e Eu (1956)

Embora Reginald Johnson, tutor do último imperador da China, tenha tido uma papel semelhante na história e tenha sido também eternizado no cinema por Peter O’Toole em “O Último Imperador” (1989), Anna Leonowens continua como a mais famosa educadora ocidental no oriente. Essa premissa já se mostra falsa ao descobrirmos que Anna nascera na Índia, mas esta é apenas uma das muitas licenças cinematográficas sobre a vida da mulher que serviu ao rei do Sião e cuja história foi contada em dois filmes inesquecíveis.
Anna Leonowens (Irene Dunne em 1946 e Deborah Kerr em 1956) é uma viúva inglesa que viaja ao Sião com o filho, pois foi contratada para ser tutora dos filhos do rei Mongkut (Rex Harrison e Yul Brynner). Não demora para que Oriente e Ocidente entrem em conflito e choques culturais aconteçam. Para começar, Anna se surpreende com a poligamia e com as centenas de filhos do rei. Depois, vossa majestade instala a tutora no palácio, e não em uma casa própria, como ele havia prometido. A situação fica realmente crítica quando chega a escrava birmanesa Tuptim (Linda Darnell e Rita Moreno), a nova esposa do rei que não quer se casar de jeito de nenhum, porque tem outro amor.
O rei do Sião passou para a história como um dos monarcas mais hilários que já existiu, graças à visão sempre eurocêntrica com a qual é retratado. Rex Harrison, em seu primeiro trabalho no cinema americano, está bem magro, excessivamente maquiado e bastante divertido. A vontade de obter mais conhecimento e o descompasso entre as tradições inglesa e siamesa fica mais latente na versão de 1946. Dez anos depois, o traço maior de fome de saber do rei é a música “A Puzzlement”, a única cantada pelo personagem.
Os originais
Anna é explorada mais a fundo na versão de 1946. Ela passa por momentos de raiva, compaixão, admiração e divertimento com o rei. Ela se envolve com os problemas das muitas esposas, de Tuptim em especial. Ela é mais incisiva em suas vontades e em suas lições tanto para as crianças quanto para o rei. Talvez o fato de Irene Dunne já ser uma grande estrela na época tenha direcionado o foco dessa versão mais para Anna, enquanto o musical foca bastante no rei. Não que Deborah Kerr esteja mal: dublada em suas canções por Marni Nixon, ela expressa saudades do marido falecido e o amor pelas crianças.
A Anna de Irene é mais maternal, e o filme de 1946 dá bastante espaço para Louis (Richard Lyon e Rex Thompson), o filho de Anna, que inclusive se torna amigo do príncipe Chulalongkorn (Tito Renaldo e Patrick Adiarte) e cujo destino é bastante fantasioso neste filme. Ambas as versões ocultam um fato: Anna não tinha um, mas dois filhos: além de Louis, ela levou também ao Sião a filha mais velha, Avis. A Anna de Deborah Kerr não era nem para ter existido: a ideia inicial era que Gerturde Lawrence fizesse o mesmo papel que fazia ao lado de Yul na Broadway. Entretanto, ela faleceu antes do início das filmagens e começou a cruzada para arranjar uma substituta. Kerr não foi a primeira opção, pois Maureen O’Hara, cujo potencial como cantora quase nunca é reconhecido, foi recusada. Além do mais, Dunne é uma confidente do rei, enquanto a relação de Kerr com o soberano tem um lado mais amoroso, pois ele sente ciúmes dela e a música “Shall We Dance” mostra toda a tensão sexual entre eles.
A disputa é acirrada quando se trata do rei. Não é possível negar que este é o papel mais comumente associado a Yul Brynner, um tipo exótico que sem o rei do Sião dificilmente conseguiria trabalho em Hollywood. Brynner deu vida a Mongkut desde a estreia do musical em 1951 na Broadway, e continuou protagonizando novas temporadas dele até sua morte em 1985, além de interpretar o rei na televisão em 1972. Rex Harrison, por sua vez, tem outros personagens memoráveis, entre eles o protagonista de “O Fantasma Apaixonado \ The Ghost and Mrs Muir” (1947) e o professor Higgins em “My Fair Lady” (1964), pelo qual ganhou o Oscar. “O Rei e Eu” foi o responsável por dar o Oscar de Melhor Ator a Yul Brynner, e aqui tenha minha opinião: quem merecia o prêmio na ocasião era Kirk Douglas por interpretar Van Gogh em “Sedede Viver \ Lust for Life”. 
Todas as obras referentes a Anna e o rei do Sião são baseadas nas memórias de Anna e também no livro escrito por Margaret Landon em 1944. Ambas eram feministas, e por isso deram bastante ênfase à misoginia com que as várias mulheres da corte eram tratadas. Em 1946, o rei surge como uma figura mais engraçada, pois sua busca por sabedoria muitas vezes se mostra ingênua, enquanto em 1956 e na própria peça de teatro de Rodgers & Hammerstein ele é uma figura mais tirânica. O reflexo dessa caracterização foi óbvio: na Tailândia, antigo Sião, a versão de 1956 foi banida, enquanto a de 1946 pode ser exibida. Mesmo assim, a primeira provocou reação: dois intelectuais tailandeses escreveram em 1948 um livro com sua versão sobre o rei do Sião.

A história de Anna e o rei do Sião também virou desenho, em 1999, e mais um filme, no mesmo ano, com Jodie Foster e Yun-Fat Chow. Com alguns exageros e outros detalhes surpreendentes (o rei realmente escreveu para o presidente dos Estados Unidos oferecendo-lhe uma manada de elefantes, o que Abraham Lincoln recusou educadamente), a história dessas duas pessoas tão diferentes merece ser conhecida, não importa a qual versão você assista. Et cetera, et cetera, et cetera : ) 

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sábado, 24 de agosto de 2013

Top 10: as melhores performances de Clark Gable

A ideia original era fazer um ranking com os dez melhores filmes que eu já vi com Clark Gable, mas descobri um problema: eu SÓ vi 10 filmes com Clark Gable (que vergonha!). Então, por ordem de preferência, aqui estão as performances de Gable, um dia proclamado Rei de Hollywood, nesses dez ótimos filmes:

10- Saratoga(1937): Falta alguma coisa neste que foi o último filme da carreira de Jean Harlow. Sem sua companheira de cena e grande amiga na vida real, Gable parece perdido nos últimos trinta minutos, embora o destaque seja dado a ele, pois uma dublê gravou as cenas que faltavam de Jean. O romance previsível em meio às corridas de cavalo tem como coadjuvantes Walter Pidgeon e John Barrymore, ambos com ótimas cenas ao lado de Gable.
9- Começou em Nápoles / It started in Naples (1960): Sophia Loren ganharia no ano seguinte o Oscar de Melhor Atriz, mas aqui já brilha mais que Gable. Este é o penúltimo filme do ator, que já apresenta marcas de esgotamento. Brigando com Sophia pela guarda do sobrinho de ambos, é óbvio que o personagem de Gable vai se apaixonar pela voluptuosa italiana, nesta simpática comédia.
8- O aventureiro de Hong Kong / Soldier of Fortune (1955): Este filme não pertence a Gable, mas sim a sua companheira de cena, Susan Hayward. Ela é uma americana cujo marido fotógrafo está preso sob a custódia da máfia chinesa. Com muita coragem, ela vai pedir ajuda a um poderoso e perigoso chefe das docas, Hank Lee (Gable). Nas poucas cenas em que ele aparece, seu charme maduro é ressaltado pelas cores e o exotismo de Hong Kong.
7- Mares da China / China Seas (1935): Dentro de um navio nos mares chineses, o capitão Alan Gaskell (Gable) tem de lidar com a ex-namorada China Doll (Jean Harlow) que o importuna, sabendo que ele decide mudar de vida por ter se apaixonado por uma socialite inglesa (Rosalind Russell). O companheiro de China Doll para fazer o mal é Jamesey MacArdle (Wallace Beery, que não gostava de Gable), que facilita a entrada de piratas no navio... O ponto alto do filme são as cenas de Jean e Clark.
6- Mogambo (1953): Só Gable é capaz de repetir um papel de Gable. Por isso, em uma rara ocasião, ele foi escalado para o mesmo papel no original e no remake. A segunda versão de “Terra de Paixões / Red Dust” (1932) tem como cenário a África e como rivais no amor de Gable as lindas Ava Gardner e Grace Kelly (eram Jean Harlow e Mary Astor no original). Dirigido por John Ford, esse belo filme é prova de que Gable continuou irresistível com o tempo.
5- O Grande Motim / Mutiny on the Bounty (1935): Sem seu bigode característico, Gable deu vida a um personagem real, o marinheiro Fletcher Christian, principal responsável por um motim contra o severo capitão Bligh (Charles Laughton) do navio Bounty. Este fato histórico representou uma mudança nas regras da Marinha inglesa e o fim dos desmandos dos oficiais. Ninguém imaginaria que, mais de 100 anos depois, o fato daria origem a uma produção ganhadora do Oscar de Melhor Filme e com três indicados ao Oscar de Melhor Ator. Essa superprodução marítima, apesar de não ser totalmente fiel aos fatos históricos, é um espetáculo para os olhos.  
4-Vencido pela Lei / Manhattan Melodrama (1934): Myrna Loy, William Powell e Clark Gable? Esse é o trio dos sonhos de muitos cinéfilos. Dois amigos de infância com personalidades opostas se reencontram de lados opostos da lei: enquanto Jim (Powell) é policial, Blackie (Gable) é um gangster. Para piorar, ambos se apaixonam por Eleanor (Loy)... Na infância, o personagem de Gable é interpretado por Mickey Rooney. As cenas finais são emocionantes. Este foi o último filme visto pelo gangster John Dillinger antes de ser morto em uma emboscada da polícia. Uma boa película para se despedir do mundo. 
3-E o Vento Levou / Gone with the Wind (1939): Se Scarlett é a força motriz do filme, Rhett é o combustível que a faz funcionar. É por ele que ela luta quando já não pode mais tê-lo e sabe que Ashley (Leslie Howard) jamais será seu. É ele o canalha que pronuncia a frase mais célebre do cinema e que incentiva tantos a imitar seu ar blasé. Rhett é surpreendentemente nobre quando menos se espera, sabe o resultado da guerra assim que ela começa e vive de acordo com suas próprias regras. E pensar que Margaret Mitchell, quando perguntada quem deveria interpretar o papel, indicou seu ator favorito... Groucho Marx.
2- Aconteceu Naquela Noite / It happened one night (1934): O papel que deu a Gable seu único Oscar de Melhor Ator é também seu mais charmoso. O jornalista Peter Warne (Gable) a princípio não tem boas intenções, mas a viagem ao lado da jovem, bela e um pouco pudica herdeira Ellie Andrews (Claudette Colbert) o faz repensar seu modo de vida. Inclusive é interessante pensar como Gable interpretara C. K. Dexter Haven em “Núpcias de Escândalo / The Philadelphia Story” (1940), como queria Katharine Hepburn. Apesar de C. K. não ser o jornalista, ele é um personagem bem atrevido!
1-Os Desajustados / The Misfits (1960): Se eu sempre tive dúvidas sobre o real talento de Gable, uma cena de seu último filme foi suficiente para me convencer de que ele era muito talentoso. Quando seu personagem o cowboy Gay Langland, sai do bar e ouve que seus filhos não quiseram ficar para falar com ele (isto é, se os filhos realmente estavam lá e esta não foi uma mentira contada para amenizar a dor), ele simplesmente se descompõe. Grita, bate em objetos e extravasa a frustração.
Conclusão: Clark Gable mereceu a fama que teve. Embora eu não o considere o maior símbolo sexual de sua época, era um ator talentoso e com bastante charme. Preciso ver mais filmes com ele!

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domingo, 18 de agosto de 2013

Randolph Scott: fatos rápidos

George Randolph Scott nasceu em 23 de janeiro de 1898 e faleceu em 2 de março de 1987, vítima de problemas no coração e no pulmão que já o haviam hospitalizado muitas vezes. 
Nascido no estado da Virgina, Scott era o segundo de seis filhos de uma família de posse. Aos 19 anos, ele se alistou no exército e combateu na Primeira Guerra Mundial. Com essa experiência ele aperfeiçoou suas habilidades para andar a cavalo e atirar, traços fundamentais em cowboys.
Com Mae West
Seu objetivo era tornar-se jogador de futebol americano, mas uma lesão nas costas o impediu de realizar esse sonho. Então, Scott estudou engenharia têxtil e deixou a faculdade para trabalhar na mesma firma que o pai.
Quando o jovem decidiu ser ator, o pai de Scott enviou uma carta a um conhecido chamado Howard Hughes. Hughes deu-lhe o primeiro papel coadjuvante em 1928. Em 1929, ajudou Gary Cooper a caprichar no sotaque em “The Virginian”.

Seguindo um conselho de Cecil B. DeMille, Scott foi trabalhar no teatro e, ao voltar com mais experiência, conseguiu seu primeiro papel como protagonista em 1931.


Na Paramount, a partir de 1932, fez uma série de remakes de westerns mudos, muitos deles dirigidos por Henry Hathaway. Esses filmes eram baseados nos livros de Zane Grey, que também serviram de inspiração para alguns dos primeiros filmes de John Wayne.

Ao contrário da maioria dos atores, a carreira de Scott foi melhorando com o tempo. Ele atingiu seu auge já cinquentenário, interpretando cowboys durões.


Essa fase próspera começou quando John Wayne não pôde interpretar o papel principal em “Sete Homens sem Destino / Seven Men from Now” (1956) e indicou Scott para substitui-lo.
Randolph decidiu se aposentar no auge, ao perceber que nunca atuaria tão bem quanto no aclamado “Pistoleiros do Entardecer / Ride the High Country” (1962).
Além de ator, foi produtor de quatro de seus filmes e produtor associado de outros dez.

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Seu único papel de antagonista foi em “A indomável / The Spoilers” (1942), no qual enfrenta John Wayne em uma das brigas mais emocionantes do cinema.
Ele foi uma das opções para o papel de Ashley Wilkes em “E o vento levou” (1939).

Alguns de seus melhores amigos em Hollywood eram Fred Astaire e Cary Grant, sendo que Scott fez dois filmes com cada um deles. Na década de 1930, Scott e Grant dividiam uma casa na praia. Scott ficou arrasado quando soube da morte de Grant em 1986.


Randolph casou-se duas vezes. O primeiro casamento foi Marion DuPont, rica herdeira, de quem se divorciou três anos depois. Curiosamente, Scott havia sido o padrinho do primeiro casamento de Marion. As segundas núpcias foram com Patricia Stillman, que apareceu como extra em três filmes, e com quem ele adotou duas crianças e ficou junto por 43 anos. Além desses relacionamentos, em 1932 Lupe Vélez disse que iria se casar com Scott. O ator revelou que havia visto a sensual mexicana apenas uma vez numa corrida de cavalos.
Os pais de Scott eram bastante peculiares quanto à sua carreira. Veja o que o ator disse...
Sobre a mãe: “Ela era uma senhora conservadora do sul, que sempre pensou que os filmes não tinham vindo para ficar. Minhas irmãs levaram-na para me ver em um filme e no primeiro momento em que ela me viu na tela ela disse: ‘Oh, não! Não pode ser o Randolph. Esse homem é mais velho que o Randy e não tão bonito’”.
Sobre o pai: “Ele ia ver todos os meus filmes, mas não porque tinha um filho ator, mas porque ele achava que eu parecia com Wallace Reid, seu ator favorito”.

Randolph Scott era um dos atores favoritos do meu bisavô, José Aparecido Macedo. Mesmo assim, eu só vi três filmes com ele: além de “The Spoilers” (1942), “O Romântico Defensor / Albuquerque” (1948) e “O resgate do bandoleiro / The Tall T” (1957). Mas, ânimo! Vários filmes de Randolp0h Scott estão disponíveis no YouTube e no Internet Archive.

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Hello, gorgeous

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Catherine Deneuve: a bela de sempre

Resolvi escrever este post após ver Catherine Deneuve na foto acima, com um boneco de Mike, personagem de “Universidade Monstros”, animação na qual ela dubla uma personagem. Fiquei impressionada com sua jovialidade e elegância. Mas esses são apenas alguns dos fatores que fazem desta talentosa atriz francesa um ícone fashion.
É difícil imaginar que Catherine completa 70 anos em 2013. Filha de atores de teatro e um ano mais nova que outra atriz, Françoise Dorléac, Catherine entrou no cinema através da irmã, que a convenceu a fazer um teste em 1957. Ela provou ser mais do que um rosto bonito em 1964, ao protagonizar “Os guarda-chuvas de Cherbourg” (1964), um filme completamente cantado que refletia muito da vida pessoal da atriz, recém-separada do cineasta Roger Vadim e com um filho pequeno. Sucessos como “Repulsa ao sexo / Repulsion” (1965) e “A bela da tarde / Belle de Jour”(1967) se seguiram.
Foi com esse filme de 1967, dirigido por Luis Buñuel, que a imagem de Catherine como ícone da moda nasceu. Os figurinos da reprimida Séverine, uma mulher infeliz no casamento que decide trabalhar como garota de programa na parte da tarde, foi criado por Yves Saint-Laurent.
Ela já foi o rosto associado à Chanel nos anos 1970 e, mesmo depois de se tornar sexagenária, assinou contratos com marcas famosas mundialmente, a exemplo de Louis Vuitton e dos cosméticos Mac.
Na vida pessoal, embora seja cética quanto ao casamento, ela se relacionou com homens poderosos. Dentro da indústria do cinema, dois de seus companheiros foram François Truffaut, com quem fez dois filmes, “A sereia do Mississippi” (1969) e o excelente “O último metrô” (1981), e Marcello Mastroianni, seu companheiro de cena em cinco filmes e pai de sua filha Chiara, também atriz.
Em seus primeiros filmes, seu estilo era mais de menininha, inocente e com direito a muitos laços. Aliás, a moça que, surpresa, não é loira natural, gosta muito de acessórios na cabeça.
Ela não fez grande sucesso no cinema americano, mas felizmente também não ficou estereotipada com a idade. Por isso Catherine Deneuve é um exemplo de elegância para todas as idades.

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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Carta de uma desconhecida / Letter from an unknown woman (1948)

Difícil classificar um filme como “Carta de uma desconhecida”. Sim, ele é excessivamente dramático, mas não cai nos clichês lacrimejantes dos melodramas. Há um romance, entretanto o amor vem de um lado apenas. Noir, só na fotografia em preto e branco que é essencial ao filme. Talvez mais certo seria dizer que Max Ophüls, talentoso diretor alemão, deveria ser um gênero à parte.
Lisa Berndle (Joan Fontaine) é uma garota morando em um prédio velho de Viena que se apaixona pelo novo vizinho. Até aí o enredo parece saído de um filme de adolescentes, mas então a mágica começa. Ela se encanta primeiro pelos instrumentos dele, um famoso pianista, e depois pela sua música. Quando ela finalmente o encontra, é amor à primeira vista. Stefan Brand (Louis Jourdan), entretanto, é mais velho que ela e troca de companhia feminina noturna como quem troca de roupa.
Os anos passam, mas a paixão de Lisa não diminui. Ela se muda com a mãe e o padrasto, mas volta a Viena depois de recusar um pedido de casamento de um tenente. Mais uma vez ela observa Stefan de longe, até que m uma noite ele a nota. E essa certamente é a noite mais maravilhosa da vida de Lisa.
Fica impossível fazer um resumo sem spoilers de “Carta de uma Desconhecida” se eu for mais além no enredo. Cada minuto ocorre uma nova surpresa, quase nunca boa. Isso já deveria ser esperado de uma adaptação de um conto de Stefan Zweig, que também virou filme na França, na China e na Mongólia, e ópera na Rússia. Na história, a menina se apaixona por um escritor, não um pianista, chamado apenas de “R”. Tornar o personagem homônimo ao autor foi uma ideia que ocorreu só quando Howard Koch adaptou o conto para o cinema, com Zweig já morto. Stefan Zweig suicidou-se com a mulher em 1942, no Brasil. Outra obra de referência do autor é “Brasil, o país do futuro”, um slogan não exatamente elogioso. É impressionante como, vivendo por apenas um ano no Brasil, ele conseguiu captar tão bem a essência do país.
Na batalha das irmãs, fico com Olivia de Havilland. Os papéis mais conhecidos e Joan Fontaine deixam-na na condição de mulher indefesa, impossibilitada de reagir frente aos seus problemas e procurar a felicidade. Em “Rebecca” (1940), ela é atormentada pela lembrança constante da falecida esposa de seu marido Maxim de Winter (Laurence Olivier) e pela tortura psicológica da governanta Mrs Danver (Judith Anderson). Em “Suspeita / Suspicion” (1941), que lhe deu o Oscar de Melhor Atriz, ela é a herdeira que tem motivos para acreditar que seu marido (Cary Grant) quer matá-la. Aqui, por mais que seja difícil de acreditar nas cenas em que ela é adolescente (Joan tinha mais de 30 anos quando fez o filme), o problema da personagem é saber que a relação idealizada não se concretizará devido ao caráter de Stefan. E, como uma boa mulher do século XVIII, ela deve sofrer em silêncio.
Nos bastidores
Louis Jourdan, dez anos antes de “Gigi”, está excelente como o boêmio que sofre ao receber a carta no começo do filme e reviver a história que é contada em flashback. É impossível não se apaixonar por Jordan, lindo em seu segundo filme em Hollywood, aonde chegou logo depois de fazer parte da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Como os créditos fazem questão de frisar, ele foi emprestado para a Universal graças à bondade de David O. Selznick.
Além dos protagonistas, dois coadjuvantes saltam aos olhos: John (Art Smith), o mordomo mudo de Stefan, e Marie (Carol Yorke), a amiga de infância de Lisa. Enquanto John aparece no filme todo, Marie está na tela por poucos minutos, e é a vida de Carol Yorke que chama a atenção. Este foi o único filme da moça, então com 18 anos. Ela estava em êxtase por contracenar com Joan Fontaine, uma atriz que ela admirava. Assim como Lisa, entretanto, o sonho de Carol durou pouco. Ela nunca voltou a um estúdio, mas teve uma carreira de sucesso como colunista em jornais, além de um envolvimento com o mundo da moda. Carol faleceu no mesmo ano em que Joan se aposentou do cinema, 1967, vítima de leucemia, com apenas 38 anos. As informações surpreendentes sobre Carol Yorke foram encontradas neste fórum do IMDb.   
Carol Yorke comendo uma maçã
Só pude falar uma coisa ao final do filme: uau. Não gosto de melodramas, mas este não é nada exagerado nem ao menos cansativo. Não se vê o tempo passar, de tão envolvidos que estamos com a trajetória de Lisa. Sem dúvida, Douglas Sirk, conhecido por seus melodramas que não exatamente me agradam, se inspirou nesta obra-prima.
Os ângulos de câmera são espetaculares, em especial ao mostrar a suntuosa ópera ou, focalizando de cima para baixo, a escada do prédio onde vive Stefan. Todo esse deslumbramento, entretanto, não foi suficiente para impressionar o público americano. Embora os europeus tenham gostado do filme, este foi um fracasso de bilheteria nos Estados Unidos. Nenhuma indicação ao Oscar foi o resultado. Mas, como em outros tantos casos, este foi mais um exemplo de filme à frente do seu tempo, que foi revisto e apreciado com o passar dos anos. Joan Fontaine, apesar do fracasso inicial, considera este seu filme favorito. E com razão.

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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Lembranças de Hollywood, de Dulce Damasceno de Brito

Quando “A ponte do rio Kwai” ganhou sete Oscars, ela estava lá. Quando Elizabeth Taylor deixou as marcas de suas mãos no cimento, ela estava lá. Quando Carmen Miranda, Marilyn Monroe, Clark Gable e James Dean morreram, ela estava lá. Quando Walt Disney deu um Oscar em forma de Mickey Mouse a James Mason, ela estava lá. E, assim como eu e muitos outros dos leitores desse blog, ela era brasileira.
Foto de Raquel Stecher
Dulce Damasceno de Brito é digna de nossa inveja. Hoje temos “apenas” os filmes para estabelecer contato com uma outra época, e ela viveu essa época, tendo entrevistado os astros que ainda admiramos. Dulce foi correspondente da revista O Cruzeiro durante as décadas de 1950 e 1960 e relembra essa época e as impressões dos ídolos que conheceu na memória publicada pela Imprensa do Estado de São Paulo, “Lembrança de Hollywood”, livro organizado por Alfredo Sternheim, ex-diretor de pornochanchadas.
Quem leu minha primeira resenha de um livro sobre cinema para o blog, Vocês ainda não ouviram nada, sabe que eu sou muito detalhista. E “Lembrança de Hollywood” também peca nos detalhes, a começar pela própria idade da autora. Não é falado especificamente o ano em que Dulce nasceu, mas ela se lembra de sua primeira vez no cinema aos quatro anos, vendo “Anna Karenina” (1935), o que mostraria que Dulce nasceu em 1931. Entretanto, as páginas sbre ela na Internet datam seu nascimento em 1926 ou 1927, uma vez que ela faleceu aos 82 anos em 2008. Em outras ocasiões a memória traiu Dulce, mas um erro crasso esta na página de Peter Ustinov. Logo após dizer que ele ganhou dois Oscars de Ator Coadjuvante, o livro cita três vitórias.
Meu grande problema foi a lista interminável de personalidades homossexuais, como se isso fosse importante para admirar o trabalho deles. Além de haver um pequeno capítulo só sobre o tema, é quase impossível passar uma página sem um desses boatos. E um boato quente se apresenta para nós quando Dulce admite que teve um affair com seu ator favorito, Fredric March.
Com John Wayne e Carmen Miranda

Insatisfações à parte, fico com inveja das oportunidades que Dulce teve e que, como ela mesma descreve, foram deliciosas. Em uma época com menos burocracia para se entrar no estúdio, ela conversou com pessoas que só de pensar me emocionam, e vez ou outra ainda encontrava-as em sua vizinhança, longe dos holofotes. Infelizmente, Dulce não conheceu todos os atores sobre os quais eu gostaria de ter lido. Quando ela chegou a Hollywood, o cinema mudo era passado distante e Jean Harlow, Carole Lombard e Leslie Howard já estavam mortos. De outros eu realmente senti falta, e adoraria ler a impressão que eles deixaram na jornalista. Mas sem precisar saber a orientação sexual deles.
Uma exposição completíssima da revista O Cruzeiro passou pelas sedes do Instituto Moreira Salles em São Paulo, Rio de Janeiro e acabou de sair de Poços de Caldas. As fotos abaixo mostram as capas dedicadas às estrelas de cinema. Infelizmente, nenhuma das reportagens em exibição era de autoria de Dulce. As que estavam lá tinham tons de fofoca e mídia sensacionalista. Meu outro contato com o tratamento que a imprensa brasileira dava ao cinema foi quando folheei uma revista Cinelândia e fiquei confusa. Algumas matérias e notas começavam em uma página e terminavam espremidas dezenas de páginas depois. Outras histórias tinham jeito de fanfic, licença poética com a vida do ator e atriz, como a que acompanhava Greer Garson cuidando de crianças no campo e se sentindo aliviada por estar longe de Hollywood e do fracasso de seu primeiro casamento.
O grande tesouro do livro são de fato as imagens. Além de várias fotos de Dulce durante as entrevistas, com direitos a muitos astros com seus belos figurinos, porém mais à vontade; há também belas imagens de arquivo. Aprendi também muita coisa, e o que mais me impressionou foi o fato de Yul Brynner ter gravado um comercial sobre os perigos do cigarro ao descobrir que tinha um câncer incurável, e ter exigido que tal comercial fosse exibido logo depois do anúncio de sua morte na televisão. Ao mesmo tempo, fiquei impressionada com a crônica de como Joan Crawford fingiu já conhecer Dulce na primeira vez em que foram apresentadas.

Sendo parte da Coleção Aplauso Especial, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, a impressão é de grande qualidade. O preço varia muito, e eu tive a sorte de comprar uma edição por apenas 18 reais na Feira do Livro de 2010. Mas, afinal de contas, um mergulho no passado não tem preço.
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