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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Estudando cinema... sem sair de casa!

Três anos atrás, em 2010, na roda-viva do fim do ensino médio, tive de fazer uma redação sobre educação em casa (homeschooling) e educação a distância. Eu fui a única da classe a defender ambas, dissertando com entusiasmo sobre os cursos que podemos acessar sem sair de casa. Logo em seguida eu entrei nesse mundo de cursos online. Hoje estou cada vez mais apaixonada pelos MOOCs (Massive Open Online Courses, ou Cursos Online Abertos em Massa), aquelas pérolas oferecidas por grandes universidades, totalmente grátis. Um dos melhores MOOCs que eu fiz foi sobre, adivinha o quê? Cinema. 
O curso “The Language of Hollywood: Storytelling, Sound and Color” chamou minha atenção por sua proposta de analisar as mudanças causadas pela chegada do som e da cor através de filmes-chave, e nem sempre as películas escolhidas eram as mais óbvias. O curso, oferecido pela Wesleyan University de Connecticut, teve duração de seis semanas que passaram rápido demais para um assunto tão interessante.
Com o curso pude ver filmes que há muito estavam na minha lista, como “Scarface”(1932), e também assisti a outros que não conhecia, mas que se tornaram favoritos logo nos primeiros minutos, a exemplo de “Aplauso / Applause” (1929) e “A Filha do Bosque Maldito / The Trail of the Lonesome Pine” (1936), que também é conhecido como "Amor e Ódio na Floresta". Pude prestar atenção a detalhes que em geral passariam despercebidos, graças às lições longas mas proveitosas do professor Scott Higgins, sempre divertido e claro em suas explicações. No escritório do professor, aliás, é possível uma imagem de Judy Garland em “O Mágico de Oz” enfeitando uma estante.
As análises dos filmes, durando geralmente mais de meia hora, me deram uma nova percepção deles. Como gosto de escrever e criar histórias, é geralmente no roteiro que presto atenção. Pergunto-me se a história é convincente, bem elaborada e se é desenvolvida com maestria. Raramente outros detalhes chamam a minha atenção, a não ser nos raros casos em que eles são demasiado exóticos (ex.: roupas de Carmem Miranda). Observando cenas congeladas, foi possível ver muito além do roteiro, e percebi como tudo é milimetricamente pensado no cinema: às vezes um assobio ou um risco em um mapa dão dicas valiosas para o andamento e desfecho do filme. Cada segundo do rolo de filme é precioso, por isso cada imagem deve ser escolhida com uma finalidade. E foi assim que também passei a dar mais importância às pessoas que ganham o Oscar de Melhor Direção de Arte (categoria que até 1946 era chamada de Melhor Decoração de Interiores).
George Raft e Ann Dvorak em Scarface
Os grandes temas do curso eram o som e a cor, e como a chegada dessas novas tecnologias sacudiu o mundo do cinema. Assim foram analisados alguns dos últimos e melhores filmes mudos (“Anjo das Ruas / Street Angel” e “Docas de Nova York”, ambos de 1928) e os primeiros filmes falados de qualidade. Aliás, algo que eu já sabia, o silêncio é excelente recurso para criar os mais diversos efeitos. E se há alguém que entende de silêncio, é Harpo Marx. Por isso um dos filmes analisados foi “Os Quatro Batutas / Monkey Businnes” (1931), sobre o qual eu aprendi muito.
Muitas anotações... e Groucho Marx
E quem disse que todos os cenários eram construídos em estúdio? Eles podiam ser reaproveitados (como em “O Navio Fantasma / The Ghost Ship”, 1941) ou mesmo pintados em vidro e fotografados pelas câmeras (como em “Tudo que o céu permite / All that heaven allows”, 1957). E as filmagens em locação também podem criar maravilhas, como em “Trail of the Lonesome Pine”, em que vemos Sylvia Sidney, Henry Fonda e Fred MacMurray jovens e lindos, no início de suas carreiras e sempre usando roupas que condizem com suas mudanças de humor.
Com o curso descobri o que é “motif” (para quem não sabe, é um elemento simbólico que se repete ao longo do filme, como uma música, um gesto ou objeto), o que é o “Borzagian shot” (veja a pose de Janet Gaynor e Charles Farrell abaixo) e percebi alguns temas recorrentes nas filmografias de Henry Hathaway e Val Lewton. A avaliação foi muito fácil, com algumas perguntas para recapitular o conteúdo no final de cada vídeo e um teste final com 20 perguntas que podia ser refeito até 100 vezes. Assim como eu, outros estudantes ficaram animados e sugeriram outros cursos online sobre cinema, incluindo temas como noir, cinema mudo, musicais, Hitchcock e Truffaut. Uma coisa é certa: se houver outro MOOC sobre cinema, eu estarei lá!  

A Victoria do blog Girls Do Film está fazendo uma resenha de cada filme analisado no curso, destacando os pontos importantes de cada um. Veja no blog!

sábado, 23 de novembro de 2013

Hollywood, judeus e a polêmica de Harvard

Um livro foi publicado pela Universidade de Harvard. Nenhuma novidade nesse fato. O livro é sobre história do cinema. Também não é novidade, mas o fato já passa ser mais interessante. O autor do livro, judeu, defende a tese de que os magnatas de Hollywood colaboraram com o nazismo. Agora, sim, está criada a confusão. Em meio a elogios de leigos e críticas de especialistas, “The Collaboration: Hollywood’s Pact with Hitler” se tornou um dos livros mais debatidos recentemente.
A Alemanha era um mercado importante para o cinema americano e, por causa disso, na década de 1930, os estúdios decidiram cortar qualquer referência contrária à doutrina nazista e exterminar os personagens judeus. Isso é o que afirma o autor Ben Urwand. E ele solta uma bomba: a bordo de um navio, um mês depois do Dia D, magnatas de Hollywood e nazistas se reuniram para fazer negócio. Essas acusações geraram uma batalha na imprensa, sendo que uma das guerreiras mais atuantes na defesa de Hollywood é Alicia Mayer, sobrinha-neta de Louis B. Mayer. Não, Alicia não tem nenhum interesse financeiro na MGM: ela trabalha como editora e vive na Austrália. Mas está comprometida com a verdade e com a honra de sua família.
Ser judeu não era fácil. Mesmo para chegar ao estrelato em Hollywood, Julius Garfinkle teve de mudar seu nome para John Garfield, Bernard Schwartz virou Tony Curtis e Issur Danielovitch, quem diria, adotou o nome de Kirk Douglas. Mesmo assim, eles alcançaram o sucesso em uma indústria criada por judeus: não é preciso muita pesquisa para saber que os fundadores dos principais estúdios eram imigrantes judeus de vida difícil que triunfaram. Esse tópico é bem explorado no livro “An Empire of their Own: How the Jews invented Hollywood”, de Neal Gabler, publicado em 1988. Sim, esses magnatas eram forasteiros nos Estados Unidos, e mesmo os judeus americanos sofreram preconceito (veja “A luz é para todos / Gentlemen’s Agreement”, de 1948, para entender melhor o que estou dizendo), mas isso não os levaria a ficar do lado de um regime que pregava o extermínio dos seus semelhantes.     
Hoje sabemos que Hitler foi, usando um dos adjetivos mais leves, um monstro. Mas o povo da época não sabia. Para os alemães desesperados, desempregados e sem perspectiva, ele era a única saída. Para os ultraconservadores (sempre errados, não importa a situação), o discurso dele vinha de encontro aos seus pensamentos. Para quem via tudo de fora, era melhor não se intrometer para não acabar com uma guerra como a que terminara em 1918.
Muitas das resenhas favoráveis foram escritas por pessoas usando um tom de “eu já imaginava”, como se nada além do lucro cego fosse buscado em Hollywood. Provavelmente são leigos em história do cinema ou pessoas que jamais gastarão seu tempo vendo um filme feito na década de 1930. Porque quem realmente ama o cinema antigo sabe que não era só lucro que circulava em Hollywood: eram também sonhos. Os mesmos sonhos produzidos há mais de 70 anos ainda ecoam.
Muitos judeus que trabalhavam na Alemanha foram parar em Hollywood fugindo do nazismo e construíram uma carreira sólida por lá. Só para citar alguns, temos Curt Siodmak, Peter Lorre e Fritz Lang. Se os magnatas de Hollywood tinham um pacto com os nazistas, por que acolheram estes imigrantes, já que era certo que seus filmes não entrariam no mercado alemão, por mais cinéfilo que tenha sido Hitler? (As anedotas contam que o ditador ganhou uma série de filmes do Mickey no Natal de 1937, presente de Goebbels, e também que ele ofereceu uma recompensa par quem capturasse seu ídolo Clark Gable na guerra).
Não é preciso ver centenas de filmes ou explorar arquivos do mundo todo para encontrar películas que contradigam a tese de Urwand. Basta apenas uma, profética e surpreendente: “E o mundo marcha / The world moves on”, de 1934. O filme conta a saga de duas famílias, sócias no comércio de algodão desde o século XIX, que enfrentam as reviravoltas que começam com a Primeira Guerra Mundial e passam pela quebra da bolsa de Nova York, chegando em 1934 com espaço para prever o futuro. Entre os perigos que estão por vir, podemos encontrar cenas de desfiles inundados de suásticas e multidões cumprimentando o Führer.
Não adianta argumentar que “Confessions of a Nazi Spy”, de 1939, foi o primeiro a tratar do nazismo de modo crítico ou que na realidade foi “Tempestades D’Alma / The Mortal Storm” (1940) que alertou Hollywood sobre a ameaça nazista, pois esta pérola esquecida de 1934, dirigida pelo sempre ótimo John Ford e produzida pela Fox (William Fox, fundador e presidente da empresa na época, nasceu na Hungria e era filho de judeus alemães), está aí para provar seu pioneirismo. “O Grande Ditador” (1940), “Ser ou não Ser” (1942) e “Um barco e nove destinos / Lifeboat” (1944) atacaram a Alemanha nazista com a guerra já em andamento, “E o mundo marcha” o fez cinco anos antes de o conflito começar, logo no momento em que, segundo Urwand, Hollywood estaria colaborando com o nazismo. E detalhe: “E o mundo marcha” foi o primeiro filme aprovado pelo Hays Code, prova de que tudo que o filme mostra estava de acordo com a lei e o pensamento da época. 
E se Ben Urwand não passou nem perto de “E o mundo marcha”, ele também não contava com uma descoberta também referente ao ano de 1934: foi encontrado em setembro o primeiríssimo filme americano antinazista: “Hitler’s Reign of Terror”, que estreou em 34 com grande sucesso, mas ficou esquecido em um arquivo da Bélgica por pelo menos 40 anos. Quando eu fiquei a par do acontecimento, com certeza tive a mesma surpresa de Urwand quando este fez sua “descoberta” acerca da reunião no navio. 
Cena de "I Was a Captive of Nazi Germany", de 1936
P.S.: Não escrevo este texto apenas porque sou amiga de Alicia Mayer no twitter (e foi aí que eu conheci toda a polêmica), mas porque, como historiadora, tenho um compromisso com a verdade (e não é porque essa não é uma ciência exata que não precisamos de provas para as teorias, quaisquer que sejam). Não li o livro de Ben Urwand, mas afirmo que, nesta ocasião, Harvard cometeu um erro crasso. E parte desse erro foi, justamente, usar termos tão fortes e equivocados como “colaboração” e “pacto” no título do livro mais controverso do ano.     

Para mais filmes de 1930 antinazistas, leia o artigo “The Moguls and the Dictators: Hollywood and the coming of World WarII”.


Para uma compilação de críticas ao livro de Urwand, acesse o blog deAlicia Mayer.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

The Penalty (1920)

Quando vi a cinebiografia de Lon Chaney, “O Homem de Mil Faces” (1957) fiquei muito impressionada com a sequência, recriada com perfeição pelo ator James Cagney, em que Lon grava uma cena do filme “The Miracle Man”, de 1919. Neste filme, Lon se faz passar por um aleijado que é curado por um médium ou algo do tipo. Mas uma tragédia surge: o filme está perdido. Existem apenas alguns minutos de filmagem, e nesses minutos nem é Lon que mais brilha, mas sim o garotinho que é curado:

When I saw Lon Chaney's biopic, “The Man of aThousand Faces” (1957), I was very impressed with a sequence, recreated with perfection by James Cagney, in which Lon records a scene from the film “The Miracle Man”, from 1919. In this film, Lon pretends he is a crippled man who is cured by a spiritualist. But a tragedy strikes: this film is lost. There are only a few minutes available, and in these minutes Lon isn't even the best in scene: the little boy who is cured has all the attention:

Triste com a impossibilidade de ver e escrever sobre “The Miracle Man”, escolhi um filme feito no ano seguinte, e tive uma boa surpresa. “The Penalty”, já adianto, é maravilhoso. E se eu queria um Lon Chaney aleijado, pelo menos isso eu consegui.

Saddened by the impossibility of writing about “The Miracle Man”, I chose a film released the following year, and I had a good surprise. “The Penalty”, I already say, is superb. And, if I wanted a crippled Lon Chaney, at least this I got.
Um garotinho, não creditado, sofre um acidente de carro. O médico, Dr. Ferris (Charles Clary), erroneamente amputa as duas pernas do menino na altura dos joelhos. A vida da criança está arruinada por um erro médico. O menino cresce e, por incrível que pareça, ele se torna Blizzard (Lon Chaney), uma mente maligna que, talvez por sua incapacidade de andar, deseja se vingar dominando a cidade de San Francisco. Em sua casa, ele emprega dezenas de moças em uma manufatura de chapéus e também cria seu plano maligno com a ajuda de alguns capangas.

A little boy, uncredited, is involved in a car crsah. Doctor Ferris (Charles Clary), cuts off the boy's legs by mistake. The child's life is ruined by a mistake. The boy grows up and, as odly as it may seem, he becomes Blizzard (Lon Chaney), an evil mind who, maybe because of he is unable to walks, wants revenge by dominating the city of San Francisco. At his house, he has dozens of girls making hats, and also creates his evil plan with the help of some minions.
Quem vai investigar os negócios de Blizzard é Rose (Ethel Grey Terry), enviada pelo policial Lichtenstein (Milton Ross). Infiltrada na manufatura, ela logo se torna a favorita de Blizzard e começa seu dilema: ela deve cumprir sua missão ou deixar a compaixão pelo criminoso falar mais alto?

The person who investigates Blizzard's business is Rose (Ethel Grey Terry), sent by the police officer Lichtenstein (Milton Ross). Working undercover in the small factory, she soon becomes Blizzard's favorite, and her dilemma starts: does she have to finish her job or let her compassion for the criminal win over it?
A outra moça da história é Barbara (Claire Adams, não creditada), aspirante a escultora e filha do doutor Ferris. Um informante de Blizzard descobre que ela está procurando um modelo para sua escultura com o sugestivo nome “Satã depois da queda”. Blizzard consegue o “emprego” e vai se aproximando de Barbara, intercalando conversas sobre arte com palavras doces. O doutor Ferris, agora um médico respeitado, conseguirá salvar a filha do homem que só pensa em vingança?

The other girl in the story is Barbara (Claire Adams, uncredited), a wannabe sculptor who is also Doctor Ferris's daughter. A man paid by Blizzard finds out that she is looking for a model for her sculpture suggestively named “Satan Afther the Fall”. Blizzard gets the “job” and becomes closer to Barbara, talking about art and saying nice things to her. Could Doctor Ferris, now a well-known physician, save his daughter from the man who only thinks about revenge?
A primeira coisa a se destacar é como Lon Chaney se torna um aleijado. Com próteses nos joelhos, apoiado em muletas, ele sobe e desce rampas, degraus e inclusive senta em uma cadeira. Tudo como se realmente tivesse sido amputado. Na verdade, Chaney usava uma complexa técnica de amarrar as duas pernas e encaixar as próteses. Ele só podia ficar dez minutos assim, antes que a dor se tornasse insuportável. A expressão maligna, misto de ódio e sofrimento, em parte veio dessa grande provação. E os resultados foram duradouros, para o bem e para o mal. Para o mal, porque Chaney machucou alguns nervos permanentemente (ainda que haja controvérsias sobre esses danos). E para o bem, porque o resultado foi tão realista que foi necessário acrescentar uma cena em que Lon aparece andando normalmente, para que o público ficasse convencido de que o ator não era aleijado. Hoje esta cena se perdeu, mas creio que o público moderno sabe que Chaney tinha as duas pernas. 
  
The first thing to notice is how Lon Chaney becomes his crippled character. With prostheses in his knees, leaning on crutches, he goes up and down ramps, stairs and even sits on a chair. Everything done like a real amputee. Actually, Chaney used a complex technique that involved tying his two legs together and fitting them in the protheses. He could only stay ten minutes in this postion before pain became unbearable. His evil expression, a mix of hate and suffering, came partly from this probation. And results were lasting, for good and bad. For bad, because Lon hurt some nerves permanently (although there are controversies about these damages). And for good, because the result was só realistic that they had to add an extra scene with Lon walking normally, to convince the public that he was not really handicapped. Today this scene is lost, but I believe the modern audiences know that Lon Chaney has two legs. 
A reação de Blizzard, fazer parte do submundo do crime para se vingar do doutor Ferris e da sociedade em geral, pode até parecer exagerada, mas se olhada a fundo não é. Creio que pessoas que precisam amputar um membro sofrem até voltarem a ter uma vida normal. Mas Blizzard, além de perder as duas pernas, ainda ouve os médicos falando que a dupla amputação não era necessária, em uma cena que já imprime emoção logo no começo do filme. E devemos nos lembrar de que estamos na década de 1920, época em que ainda existia muito preconceito e “circos dos horrores” palpitavam em turnê pelo interior do país. Nada de acessibilidade, fisioterapia ou grupos de apoio a amputados: a única perspectiva de Blizzard era passar a vida trancado em casa.

Blizzard's reaction, becoming part of the underworld to seek revenge against Doctor Ferris and society as a whole, may even seem exaggerated but, looked closely, it is not. I believe that people who have to cut off a body part suffer a lot until they return to “normal life”. But Blizzard, besides losing his two legs, still hears the doctors saying that the double amputation wasn't necessary, in a scene that already adds emotion in the beginning of the film. And we must remember that these are the 1920s, a time when there was still a lot of prejudice and “freak shows” were on tour through the country. No accessibility, physical therapy or support groups for amputees: Blizzard's fate would be spending his life locked at home.
O filme surpreende a cada minuto. Por si só, o fato de haver tantos personagens em uma produção de 1920 é de se espantar, e o roteiro impede a confusão ao deixar cada personagem restrito a um ou dois ambientes. A mente de Blizzard, por sua vez, precisaria de um filme próprio para ser analisada. Uma de suas atividades favoritas é tocar piano, e para isso ele precisa de uma das funcionárias da manufatura para apertar os pedais. Ele é louco por música, e não será o último vilão do cinema com essa característica. E seu plano de dominação é incrível. Para não estragar a surpresa, digo apenas que envolve passagens secretas, um laboratório, bombas e desordem total. A sequência em que Blizzard explica seu plano, aliás, é detalhada e bem longa.

The film surprises us every single minute. The fact alone that there are so many characters in a 1920 production is surprising, and the script avoids confusion because each character is restrict to one or two scenarios. Blizzard's mind, on the other hand, would need a whole film to be studied. One of his favorite activities is to play the piano, and to do it he needs one of his employees to press the pedals. He loves music, and wouldn't be the last villain in film history with such a passion. And his domination plan is amazing. Without spoiling anything, I'll only mention that it has secret passages, a lab, bombs and chaos. The sequence in which Blizzard explains his plan is very detailed... and long.
Foi com “The Penalty” que Lon ganhou prestígio no meio cinematográfico e se consolidou como um camaleão das telas. O homem que mais tarde seria o fantasma da ópera (e olhe que em “The Penalty” o personagem faz uma curiosa menção a queimaduras com ácido...) deu frescor a um filme que se mostra produto de sua época, mas que envelheceu bem graças a Lon Chaney.

It was with “The Penalty” that Lon earned prestige in Hollywood and consolidated his image as a chameleon of the screen. The man who later played the phantom of the opera (and take a note that in “The Penalty” his character mentions acid burnings...) gave life to a movie that is a product of its time, but one that aged well thanks to Lon Chaney.

"The Penalty" pode ser assistido no YouTube ou no Internet Archive.

"The Penalty" can be watched on YouTube or Internet Archive.

This is my contribution to the Chaney Blogathon, hosted by Fritzi at Movies,Silently and Jo at The Last Drive-In. A weekend of 1000 faces!


sábado, 9 de novembro de 2013

Hank Worden: o pobre coitado da cadeira de balanço

Alguns atores e atrizes existem apenas para roubar a cena e um lugar em nossos corações. Eles não foram protagonistas ou indicados ao Oscar e seus nomes sequer figuram acima do título. Os filmes de John Ford estão cheios de exemplos deste tipo, pois o diretor contava com uma trupe poderosa de coadjuvantes, que incluía Harry Carey, Harry Carey Jr e a bela do cinema mudo Mae Marsh. Não importava se John Wayne estava atirando, bebendo em um saloon ou brigando com Maureen O’Hara em primeiro plano, esses coadjuvantes estavam lá para garantir comicidade. Hank Worden foi um deles. 
Norton Earl Worden nasceu em 23 de julho de 1901. Embora tenha estudado engenharia, ele se tornou um cowboy, tendo crescido nos ranchos de Montana. Foi montando em touros e cavalos que ele entrou no show business ao lado de Tex Ritter, que logo se tornou um famoso ator e cantor de música country. Hank continuou em Nova York dirigindo um táxi, mas foi junto aos cowboys que ele encontrou sua grande chance: conheceu Billie Burke (a Glinda de “O Mágico de Oz”) em um rancho e ela o ajudou a chegar em Hollywood. Quando a popularidade de Tex Ritter começava a cair no cinema, Hank começava a despontar.

Era 1952 e Howard Hawks dirigiu um filme que só pode ser chamado de western porque há índios. Kirk Douglas e Dewey Martin precisam levar um carregamento de madeira rio acima em “O Rio da Aventura / The Big Sky” e uma das pessoas que eles terão na equipe será o índio Pobre Coitado (Poordevil), sem dúvida a figura mais divertida do filme.
Desde 1939 Hank participava dos filmes de John Ford. Ele esteve em “No Tempo das Diligências / Stagecoach”, sem receber créditos, como extra. Mas seria em “Rastros de Ódio / The Searchers” (1956), considerada a obra-prima de John Ford, que ele brilharia. Mose Harper existe apenas para nos fazer rir. Fosse ele um bobo da corte ou coisa do gênero, o importante é que ele está ali para desviar a atenção do fato de que John Wayne está em uma missão homicida, guiado pelo ódio. E a única ambição de Mose é ter uma cadeira de balanço, algo tão simples em contrapartida à jornada de Wayne, tão complexa, destrutiva e que, quando terminada, não lhe dará conforto.  
Mas Hank era um homem ocupado: devido ao conflito de horários entre dois filmes, algumas cenas em que seu personagem aparece de costas em “Rastros de Ódio” tiveram de ser filmadas com um dublê. Além disso, Mose foi inspirado em uma figura real, Mad Mose, um famoso pistoleiro que era meio louco e adorava cadeiras de balanço!
Mais um filme de John Ford, mais um momento para Hank brilhar, ainda que rapidamente: “Quando um homem é homem / McLintock!” (1963), que eu considero o filme mais divertido do diretor. O nome de personagem de Hank é, ironicamente, Curly (o termo em inglês significa “cacheado”, e Hank é careca. Ele apaarece logo no começo, e também tem destaque no banho de lama que é o ponto alto da loucura do filme.
Embora ele tenha começado no cinema em meados dos anos 30, com o nome Heber Snow, que ele considerava “mais mórmon”, Hank fez trabalhos como extra esporadicamente, mesmo após conseguir certa popularidade e cair nas graças de Ford e Hawks. Só com Ford, foram 12 colaborações, entre filmes e televisão. Entretanto, seu grande amigo no meio cinematográfico era John Wayne, com quem fez 17 filmes e que, segundo Hank, foi a pessoa que lhe ensinara tudo o que ele sabia.
Hank, à esquerda, em "Forte Apache" (1948)
Em seus 216 trabalhos como ator, Hank foi creditado relativamente poucas vezes. Mesmo assim, sua imagem é inconfundível. Prestando bastante atenção, é possível encontrá-lo em “A Legião Branca / So Proudly We Hail” (1944), “Duelo ao Sol / Duel in the Sun” (1946), “Céu Amarelo” (1949), “Vendedor de Ilusões / The Music Man” (1962) e “Bravura Indômita / True Grit” (1969). Além de Mose no mais famoso western de John Ford, Hank se destacou também como o garçom da série Twin Peaks, seu último trabalho. Sempre inconfundível, Hank Worden ganhou popularidade, e é realmente uma alegria vê-lo em ação.


This is my contribution for the What a Character! Blogathon 2o13, hosted by the trio Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.


Thank ya, thank ya kindly for reading!

domingo, 3 de novembro de 2013

Ted (1925)

Preciso confessar uma coisa: eu vi “Ted”, filme de 2012 sobre um urso de pelúcia pouco convencional. E gostei.
Mas eu gostaria mais ainda se Ted fosse um filme mudo. Como assim? Bem, eu posso sonhar, não é mesmo?

Ted (1925), o elenco

John Bennet (Mark Whalberg): Harold Lloyd
Lori Collins (Mila Kunis): Clara Bow
Tami-Lynn (Jessica Barth): Mabel Normand
Rex (Joel McHale): Lew Cody
Participação especial: Douglas Fairbanks
Ted: um urso de pelúcia, ora essa!

Já que o ano é 1925, durante a Lei Seca americana, o nosso ursinho politicamente incorreto estaria envolvido no comércio ilegal de bebida, o que causaria grandes problemas para seu dono, John. Seria impossível não sentir compaixão pelo sempre adorável Harold Lloyd, pressionado por um lado pela exigente namorada, interpretada pela linda Clara Bow, e por outro sentindo o peso de uma amizade de mais de uma década com seu ursinho.
A única moça do cinema mudo louca o suficiente para namorar um urso de pelúcia é Mabel Normand. Essa seria a volta de Mabel depois de grandes problemas na vida real, incluindo o escândalo sexual de Roscoe ‘Fatty’ Arbuckle, o assassinato de William Desmond Taylor e o caso em que o motorista de Mabel atirou em um magnata que fez um comentário maldoso sobre a atriz. Mostrando o mesmo frescor e jovialidade de seus tempos áureos na década de 1910, Mabel seria a companhia perfeita para noites selvagens com Ted.   
Lew Cody, que já havia trabalhado com Mabel no maior sucesso da moça, “Mickey” (1918), aqui seria o chefe que é apaixonado por Lori (Bow) e não vê como ela pode namorar um homem como John. Charmoso e divertidamente malvado, o personagem Rex é perfeito para fazer um contraste com o amável e simplório John. A experiência de Lew Cody em mais de dez anos no cinema seria também motivo de segurança para Clara Bow, que ainda estava para encontrar seu lugar ao sol na indústria do cinema. E uma nota da vida real adicionaria tempero no filme: se Tami-Lynn (Normand) e Rex não tem nada a ver no filme, fora das telas Mabel Normand e Lew Cody se casaram em 1926.
Além de estar no auge, Harold Lloyd seria perfeito para o papel principal que exigiria algumas cenas arriscadas, em especial quando Ted está encrencado. Ao mesmo tempo, Clara Bow, ainda antes do seu ápice em 1927, brilharia como Lori, pois mesmo aos 20 anos Clara já era um símbolo sexual da mesma maneira que Mila Kunis é hoje.
Mesmo em 1925 já havia várias técnicas de animação e efeitos especiais, e muitas poderiam ser usadas para dar vida ao urso de pelúcia Ted. Obviamente, ele não seria dublado, como o foi em 2012 por Seth MacFarlane, mas a ele caberiam os mais divertidos intertítulos e talvez até alguns problemas com a censura.
Quem viu Ted sabe que John e seu urso cresceram idolatrando Flash Gordon. Como aqui estamos na era do cinema mudo, o ídolo de Harol Lloyd e seu urso de pelúcia será ninguém mais, ninguém menos que Douglas Fairbanks, protagonista de muitas aventuras no início dos anos 1920. Para eles e certamente para milhões de espectadores da época, Doug era o herói e o exemplo a ser seguido. E tanta devoção fará com que Doug apareça para Harold e Ted em um momento crucial...
Com muitos momentos divertidos, charme e aventura, Ted teria tudo para conquistar as platéias de 1925 e os corações de todos os fãs do cinema mudo. Ou será que você ainda preferiria a versão de 2012? ; )
Ted cria problemas para Harold


This is my contribution to The Great Silent Recasting Blogathon, hosted by the amazing blog Carole & Co. 
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