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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Bizarrices do espaço sideral: ficção científica nos anos 50

A primeira coisa que aparece no Google quando digitamos “worst 1950” é “worst 1950s sci fi movies”. E isso faz sentido. A década de 50 viu o boom dos filmes de ficção científica, muitos deles ótimos e inesquecíveis. Mas também foram produzidos filmes sofríveis, horrorosos e sem sentido, que são um verdadeiro atentado à inteligência humana. É sobre estes filmes que falarei.
                              
Os filmes ruins de ficção científica têm características em comum: pouco mais de uma hora de duração, baixo orçamento, efeitos especiais estranhos, atores desconhecidos e um problema que demora 50 minutos para se desenrolar, mas é resolvida em cinco minutos. Eles também geralmente são escritos e dirigidos pela mesma pessoa: Cy Roth, Dwain Esper (mestre dos filmes estranhos dos anos 30) e, óbvio, Ed Wood.

Os anos 50 foram povoados por grandes filmes como “O dia em que a Terra parou / The Day Earth stood still” (1951), “Guerra dos Mundos / War of the Worlds” (1953), “Vampiros de Almas / Invasion of the Body Snatchers” (1956) e “O incrível homem que encolheu / The incredible shrinking man” (1957). Mas na mesma década surgiram também coisas estranhas como “O robô alienígena / Robot Monster” (1953, o filme mais bizarro que eu já vi) e... “Plano 9 do Espaço Sideral / Plan 9 from Outer Space” (1959). Mas vamos falar de uma produção que, perto desses, é um poço de bom gosto: “Fire Maidens from Outer Space” (1956), que, traduzido para o português, seria algo como “Solteiras Fogosas do Espaço Sideral”.

Uma tripulação totalmente masculina parte rumo à 13ª lua de Júpiter. Eles têm a previsão de chegar lá em três semanas, mas após uma chuva de meteoros são puxados pela força gravitacional de um corpo celeste que mais tarde descobrimos ser Nova Atlantis, lugar que conta com um único homem, Prasus (Owen Berry), o governante e também único sobrevivente do sexo masculino da velha Atlantis. Como em toda sociedade estranha do cinema, aqui a tradição também é oferecer uma virgem aos visitantes, e a escolhida é Hestia (Susan Shaw), a filha de Prasus, que é oferecida ao astronauta Luther Blair (Anthony Dexter), o homem do nome ridículo. Luther completa: “If she is his daughter, I’m Genghis Khan!” Mas Prasus não tem como filha apenas Hestia, mas sim um pequeno exército de mulheres vestidas como sacerdotisas safadas.

Como um usuário do YouTube comentou, este filme apresenta “uma fantasia sexual imatura dos anos 50”. As mulheres de Nova Atlantis são ingênuas e submissas. Assim que o conhece, Hestia já quer largar tudo para fugir com Luther. E, é claro, a ordem é quebrada por uma rebelião de mulheres ciumentas. A visão machista é algo que os filmes de ficção científica, bons ou ruins, compartilham. Não é raro que corpos celestes sejam habitados por mulheres malucas, como acontece em “Cat-Women of the Moon” (1953), em que se descobre que um grupo de mulheres sedutoras e perigosas habita uma cratera da lua.

É normal que os filmes de ficção científica apresentem roupas e ferramentas tecnológicas que viram sonho de consumo dos espectadores. Eu, por exemplo, adoraria ter Robby, o robô, ou as joias e roupas de Anne Francis em “Planeta Proibido” (1956). Bem, as roupas das habitantes de Nova Atlantis não deixam de ser adoráveis, e lembram bastante as sacerdotisas gregas e romanas (as saias são mais curtas, é verdade). Outra boa surpresa, além do figurino, é trilha sonora de “Fire Maidens from Outer Space”: os créditos aparecem conforme toca uma bela música instrumental, e a única melodia conhecida em Nova Atlantis é “Strangers in Paradise”, uma de minhas favoritas.

Mas... por que esse tipo de filme era feito, em primeiro lugar? Bem, muitos deles apareceram como novidades do cinema 3D, como “Robot Monster” e “Cat-Women from the Moon” (ambos os filmes têm a trilha sonora assinada por Elmer Bernstein, no começo da carreira). E outro fator entra em cena: quem não quer fazer parte do maravilhoso mundo do cinema?

Em 1950 as pessoas perceberam que o cinema não era mais um lugar de intocáveis. Todos podiam fazer filmes. Tudo bem que a maioria não chegaria aos pés de uma superprodução da MGM, mas não custava sonhar. Bastava um pouco de dinheiro, pessoas dispostas a aparecerem (quem não queria ser estrela de cinema, mesmo que por um dia?) e algum jeito de distribuir o filme, ainda que isso demorasse algum tempo (“Plano 9” ficou pronto em 1957, mas só conseguiu estrear dois anos depois). Todos eram um pouco Ed Wood: apaixonados pelo meio cinematográfico e dispostos a fazerem parte dele, mesmo que lhes faltasse talento. E é isso que vemos hoje de novo: através da internet, todos podem lançar livros, filmes e músicas, mas os resultados não serão sempre bons. Mas pelo menos garantirão boas risadas.


Em tempo: em “Firen Maidens from Outer Space”, os astronautas viajam para a 13ª lua de Júpiter. O filme é de 1956. A 13ª lua de Júpiter só foi descoberta em 1974. Quem disse que o cinema não pode prever o futuro?

This is my contribution to the Accidentally Hilarious Blogathon, hosted by the amazing Fritzi at Movies, Silently.

10 comentários:

Pedrita disse...

eu adoro esses filmes b de ficção científica. são surreais. beijos, pedrita

Hugo disse...

É um gênero bem legal, que influenciou muitos longas de ficção nos anos oitenta principalmente e até gerou remakes como "A Bolha Assassina".

São várias pérolas esquecidas.

Até mais

girlsdofilm disse...

'A problem that takes 50 minutes to unfold, but it is resolved in five minutes' - I think you summed up accidentally hilarious movies right there. I love the idea that (almost!) anyone could make one, that filmmaking was no longer an elite venture. Maybe the films that were produced weren't the best, but they're such an important part of film history and I wouldn't have them any other way. And after all, they're only an hour long ;)

Fritzi Kramer disse...

What a zany movie! I have to admit a fondness for the clueless "lady alien" films of the fifties. Thanks so much for the fun review and for joining the event!

Iza disse...

Adoro filmes de ficção científica, mas confesso que prefiro os de agora - tipo anos 90 pra cá, ao estilo Matrix. Porém, os clássicos são clássicos, mesmo que sendo "estranhos e horríveis".
Beijos e bom final de semana <3

Carol Caniato disse...

Lê, esse foi um dos post mais legais que li aqui! Sou apaixonada por ficção científica e tento sempre assistir essas mais antigas. Apesar de serem mais toscas, tecnicamente falando, acho que as histórias eram bem mais originais!
Vou anotar os que eu não conhecia!
Beijos!

Rafael Prata disse...

Lê, adoro esse gênero sci-fi dos anos 1950.. Inclusive tem um site muito bom que disponibiliza uma série de filmes do gênero.. Segue o link: http://cinespacemonster.blogspot.com.br/

FlickChick disse...

Yikes - I never heard of this one, but it looks like something my brothers would have loved!

Silver Screenings disse...

I'm a little late to the party, but I enjoyed your review nonetheless. ) I also liked your description of these 1950s films – 50 minutes for the problem, 5 minutes for the solution.

Great post! I really liked your analysis of these 1950s B movies.

Jefferson C. Vendrame disse...

Oi Lê Tudo Bem? Quanto tempo não é? Meu último ano na faculdade tem sido muito corrido, mas sempre que me sobra um tempo estou dando uma olhada nos blogs parceiros. Quanto a esse post em questão, mais uma vez, um ótimo texto, informativo, curioso e bem claro. Não gosto do gênero SCI-FI, nem dos filmes antigos e nem dos atuais. São raríssimas as exceções, um ou outro no máximo. Esses citados por você, envelheceram muito mal se dúvidas, e hoje, não passam de curiosidade histórica e comédia. Parabéns pela abordagem diferente. Grande Abraço!

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