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sábado, 13 de dezembro de 2014

Resenha: Joan Crawford – Uma Homenagem, de Walter Machado

Uma bíblia sobre Joan Crawford: esta foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando peguei aquele livro com 750 páginas, mais de 200 figuras, pesando dois quilos (sim, eu coloquei na balança). Nunca havia visto uma obra tão ambiciosa sobre uma personalidade do cinema. Toda uma vida e carreira esmiuçadas por um fã determinado, que também fazia as vezes de desenhista na juventude e retratava as divas do cinema com papel, lápis e carvão (com exceção da foto de Joan Crawford com um belíssimo vestido, todas as imagens que ilustram este post são desenhos de Walter Machado). Mas ele deveria ter ficado só com os desenhos, pois a escrita não era seu forte.

Se há algo que aprendemos com o livro, é que um fã ardoroso jamais deveria escrever uma biografia de seu ídolo. Pode haver admiração do biógrafo com relação ao biografado, mas jamais uma idolatria cega. Além de cometer o terrível erro de não ver os defeitos de Joan, Walter ainda se dá ao trabalho de menosprezar todas as contemporâneas da estrela. Para ele, Garbo não tinha talento, Norma Shearer era uma víbora (nessas exatas palavras), Katharine Hepburn mereceu ser chamada de veneno de bilheteria e Bette Davis era a criatura mais odiosa e egoísta da terra. Joan, ao contrário, era uma santa. Ajudava todas as pessoas ao seu redor, nunca reclamava, estava sempre sorrindo e fazia tudo com boas intenções.

Outro grande problema são os erros. Walter Machado era professor de arquitetura na UFMG, e espanta que uma universidade tenha empregado um professor que escreva tão mal. Ele usa palavras rebuscadas, é verdade, mas escorrega muitas vezes na gramática (sério, “ponhem” foi a pior escorregada). Ele e algum parente (alguém com o mesmo sobrenome, talvez uma filha) foram os responsáveis pela revisão, e não é raro que o próprio autor, por conhecer o que está escrito, passe os olhos pelo texto rápido demais, ignorando alguns erros. Ah, e ele repete alguns termos de modo cansativo. Entre as expressões vazias repetidas estão “a maior lenda do cinema” e “dançarina de Black Bottom e Charleston em Nova York”, ambas qualidades de Crawford.
Mas os erros factuais são imperdoáveis. Alguns chegam até a ser repetidos e reforçados por artigos de revista, provando que a crítica cinematográfica, considerada “jornalismo fácil”, também é capaz de errar quando feita por maus profissionais. Outra coisa que percebemos é que o tempo é o melhor crítico de cinema, e obras criticadas duramente na época de estreia são consideradas hoje obras-primas.

Claro que nem tudo é negativo. O trabalho por si só merece ser aplaudido de pé, ainda mais se considerarmos que Walter fez toda esta pesquisa em uma época sem internet, em que os arquivos eram a principal fonte de informação. Foi assim que ele conseguiu descobrir, por exemplo, que Joan Crawford tinha família no Brasil, devido a um parente comum em um galho distante da árvore genealógica da família Le Sueur da França (o nome verdadeiro de Joan é Lucille Le Sueur).
Crawford e Garbo 
Além de uma homenagem, é uma tese de defesa: Walter lista TODAS as contradições de “Mamãezinha Querida”, o livro venenoso de memórias escrito por Christina Crawford, filha de Joan. Aqui o autor apresenta uma hipótese bem interessante: ao escrever o livro, Christina ao mesmo tempo conseguiu destruir a imagem da mãe para o grande público e também recuperou financeiramente o que havia perdido quando foi retirada do testamento de Joan.
Para começar e terminar o livro, Walter Machado faz um pequeno balanço de sua vida, sempre permeada por Joan (ele chegou a conhecer a estrela nos anos 60) e descobrimos que dois grandes brasileiros o apoiaram neste projeto jumbo: Carlos Drummond de Andrade (também fã de Crawford) e Chico Xavier, que Walter conheceu por um amigo em comum. O início e o fim do livro têm tom de memória (sério, como o autor lembra tão bem acontecimentos da infância?), gerando praticamente duas obras em uma: a biografia e seu making-off.
Afinal, com tantos erros e defeitos, o livro vale a pena ser lido? Sim. Será um bom exercício de jogo dos sete erros e também de desconfiança: lembre-se de que não dá para confiar cegamente no autor, mas é possível apreciar a obra e descobrir muito com ela (especialmente se lida junto com uma pesquisa básica no IMDb). Aprecie com moderação.
Várias Crawfords e Sylvia Sidney

4 comentários:

Pedrita disse...

deve ser maravilhoso. beijos, pedrita

Iza disse...

Ai livros com erros ortográficos perdem todo o encanto né? Mesmo que não falem sobre ficção. Joan é uma estrela de cinema interessante, diferentemente da Bette Davis, para mim ela não tinha uma cara de má - deve ser por causa de Mildred Pierce. Mas, eu prefiro a Bette Davis...
Não assisti Mommie Dearest ainda, mas acho que a filha de Joan não inventaria isso né?
Beijos<3

Jefferson C. Vendrame disse...

Oi Lê! Quanto tempo não? Esse ano para mim foi muito corrido pois, além do trabalho, eu estive cursando o último ano da graduação, portanto, tempo foi o que mais me faltou, porém estamos de volta, firme e forte, assim espero! Seu blog como sempre, impecável. Aos poucos vou colocando a leitura em dia! Não conhecia a existência desse livro, como não sou muito fã de Crawford, confesso que também não faço muita questão de conhecer, ainda mais levando em consideração os erros ortográficos e a "babação" do autor fanático. Parabéns pelo texto! Feliz Natal, ótimo ano novo e até breve!

vintagepri disse...

Oi Lê!! Passando para desejar um Feliz Natal!! =)

Beijos, Pri ♡
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