Tradutor / Translator / Traductor / Übersetzer / Traduttore / Traducteur / 翻訳者 / переводчик

domingo, 8 de março de 2015

Eisenstein e sua trilogia “Ivan, o terrível”

Nunca falei isto aqui, mas chegou a hora de confessor: eu adoro o cinema soviético. Eisenstein, óbvio, é o expoente máximo da União Soviética, e seus filmes ficam melhores com o passar do tempo, pois descobrimos o contexto e as obrigações que permeiam cada produção. Sim, a maioria é descarada propaganda soviética, mas com a técnica de Eisenstein se tornem obras-primas, talvez não pelo conteúdo, mas pela forma. Sim, Stalin encomendou muitos dos filmes, e esta é uma grande vantagem: pela primeira vez podemos analisar a manipulação política da arte em sua mais crua manifestação. E a obra que mais nos permite esta observação é justamente a que causou mais atritos entre Eisenstein e Stalin: “Ivan, o terrível”.
O objetivo era claro: comparar Stalin, o então governante da União Soviética, com o corajoso czar Ivan, que subiu ao trono em 1547, contrariando a vontade dos boiardos, ricos proprietários de terra. Assim como Ivan, Stalin (e antes dele, Lênin) teria desafiado a elite e conquistado o apoio do povo para conseguir governar mesmo com tantas forças contrárias o pressionando.
“Ivan, o terrível” não é um filme qualquer. Quem o vê com atenção se torna cúmplice do grande transe criado por Eisenstein. As atuações são teatrais, por vezes até caricatas, mas perdoáveis. Os cenários e a quantidade de extras são assombrosos. A grandeza dos ambientes, as expressões dos personagens, os jogos de luz e sombra: tudo se junta para criar uma obra maior que a vida, sobre um homem maior que qualquer outro na história russa. Muito desta impressão vem da interpretação alucinada de Nikolai Cherkasov, de barba pontiaguda e nariz aquilino, olhar louco e gestos ameaçadores... que às vezes se parece com um camarada que todos nós conhecemos muito bem:
O primeiro filme conseguiu seu intento. E não foi só aos comunistas que o filme agradou: Chaplin teria dito que “Ivan, o terrível” era “o maior filme histórico já feito”. Entretanto, ao rodar a parte dois, Eisenstein e Stalin se desentenderam, e isso deixou tudo mais interessante. Para começar, o filme só foi lançado após a morte de ambos: Eisenstein faleceu em 1948, Stalin em 1953 e o filme estreou apenas em 1958. O czar que uniu o povo ganha uma nova faceta e ambiciona o poder a qualquer preço, não importa quantos cadáveres tiver de deixar para trás.
E o melhor de “Ivan, o terrível – Parte 2” não está no enredo: trata-se da primeira sequência colorida da história do cinema russo / soviético. As plateias da época devem ter ficado tão deslumbradas quanto eu, que via o filme e de repente tive meus olhos tomados por uma explosão de cor. As origens da tecnologia para filmar em cores são controversas: de acordo com o IMDb, trata-se do Bi-Color, um sistema semelhante ao Two-Strip Technicolor dos primitivos filmes coloridos. Já segundo o TCM, só foi possível captar imagens coloridas com equipamentos roubados dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Aqui, a origem do fator não altera o produto, e o resultado é puro e deslumbrante espetáculo.
Mas... não se trata de uma trilogia? Bem, a ideia inicial era fazer uma trilogia, mas após a polêmica da segunda parte, Stalin paralisou a produção da terceira parte e mandou destruir o que já havia sido filmado. Apenas alguns minutos de película sobreviveram:
Não é à toa que quem gosta de história geralmente gosta também de filmes antigos (ou pelo menos está mais propenso a dar uma chance a eles). Quem entende um pouco de história vê as nuances e manipulações por trás de “Ivan, o terrível”. Quem não entende, tem a oportunidade de aprender mais sobre o comunismo e a propaganda ideológica. “Ivan, o terrível” talvez não seja o melhor filme épico de todos os tempos. Talvez nem seja o melhor filme de Eisenstein. Mas é inovador, surpreendente, hipnotizante, essencial: mostra todos os poderes do cinema.

This is my first contribution to the Russia in Classic Film blogathon, hosted by comrade Fritzi at Movies, Silently.
Leia também minha crítica (em inglês) de outro filme de Eisenstein, “Old and New” (1929), AQUI.
You can also read my review (in English) of the Eisenstein flick “Old and New” (aka “The General Line”, 1929) HERE.

8 comentários:

Fritzi Kramer disse...

Thank you so much for joining in! These films are so very deep but worth the effort. I appreciated your interesting review.

Iza disse...

Cinema soviético é bem diferente do americano. Em tudo, luz, enredo, pelo menos eu acho. Stalin era muito maluco mesmo...mandou queimar uma obra prima.
Gosta dos filmes do Tarkovsky?
Beijos <3

Silver Screenings disse...

I'm starting to really like Soviet cinema, too. Some really innovative films made during that era, despite the oppressive regime in power.

Thanks for a thoughtful review. :)

Leah Williams disse...

This sounds fascinating to me! I've never seen it. I love the images comparison here:) Thank you! Leah

Caftan Woman disse...

What a tangled web of history and art. Fascinating indeed.

FlickChick disse...

Great post, my dear - I am getting such an education!

girlsdofilm disse...

I didn't realise Ivan The Terrible was commissioned by Stalin; hilarious that he identified with the character but disagreed with the depiction enough to ban it. I've only seen snippets of the first one, will certainly have to sit down and watch them properly!

Anônimo disse...

Hi Lê. I'm sorry it took me a long time to get to your post but I have been going slowly. I enjoyed your post very much. I saw the two parts many years ago on public television. It was right after my parents bought a color television. It was nice to read about the political background. Thank you for sharing with all of us. -- Joe Thompson

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...