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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Eles e Elas / Guys and Dolls (1955)

Com mil dólares, Nathan Detroit (Frank Sinatra) pode resolver todos os seus problemas, que envolvem dívidas, jogos ilegais e um noivado que já dura 14 anos. Ele vê sua grande oportunidade de conseguir o dinheiro na figura de Sky Masterson (Marlon Brando), um homem que adora fazer apostas. Maliciosamente, Nathan induz Sam a uma nova aposta: se Sky conseguir levar a missionária Sarah (Jean Simmons) para um jantar em Havana, Nathan lhe dará mil dólares. Caso contrário, Sky deverá mil dólares a Nathan.
Nathan acredita que Sky tem uma missão impossível pela frente, e portanto a aposta já está ganha. Mas Sky não desistirá com facilidade, apesar de Sarah se mostrar pouco interessada. É a possibilidade de salvar a “alma alcoólatra” de Sky que atrai Sarah: para ela Sky representa apenas negócios missionários. Para Sky, Sarah representa apenas mais uma aposta. Mas por quanto tempo eles se verão desta forma?
O nome de Sinatra é apenas o terceiro a aparecer nos créditos, depois de Brando e Simmons. Frank queria o papel principal, de Sky Masterson, e ficou muito chateado com a escolha de Marlon Brando, com quem nunca se deu bem durante as gravações. Contra a popularidade não se podia lutar: Sinatra era uma estrela mas Brando era uma super-estrela. O auge de Sinatra parecia já ter acabado, apesar de seu ressurgimento com “A Um Passo da Eternidade / From Here com Eternity”(1953), que lhe rendeu um Oscar.
Amigos?
O papel de Sky era para ser de Gene Kelly, mas a MGM não aceitou “emprestar” o ator-cantor-dançarino para o produtor Samuel Goldwyn. Outros atores considerados para interpretar Sky foram Kirk Douglas, Robert Mitchum, Burt Lancaster, Bing Crosby e Clark Gable (que queria muito o papel, caso a Paramount comprasse os direitos da peça, o que não aconteceu). Robert Alda originou o papel na Broadway, e ganhou um Tony por sua performance.
Para a noiva de Nathan, Adelaide, o diretor Joseph L. Mankiewicz vetou Marilyn Monroe. Goldwyn recusou Betty Grable. Judy Holiday foi cogitada, mas a ideia foi abandonada. A solução foi voltar às origens e chamar a atriz que interpretava Adelaide nos palcos, Vivian Blaine. O papel da missionária Sarah foi recusado por Grace Kelly e Deborah Kerr, e Jean Simmons foi a escolhida.
As canções não favorecem a voz de Sinatra. Perfeito para as big bands, o cantor de olhos azuis tem músicas pouco memoráveis no filme (a melhor delas é “The Oldest Established Permanent Floating Crap Game in New York”). Enquanto isso, somos obrigados a ouvir Marlon Brando cantando “Luck Be a Lady" (porque é ele mesmo cantando, sem dublagem), canção que se tornou icônica ao ser regravada por... Frank Sinatra. Compare as duas versões:

“Guys and Dolls” teve sua origem na Broadway, e infelizmente não se adaptou bem ao cinema. A própria sequência de dança inicial funcionaria apenas no palco, e fica esquisita na tela, até por ser coreografada pelo teatral Michael Kidd. A duração do filme também o compromete: duas horas e meia de projeção, com uma história muito simples e previsível a ser contada.
“Guys and Dolls” lembra muito outro musical longo sobre religião e ilegalidade protagonizado por Frank Sinatra: “Robin Hood de Chicago / Robin and the Seven Hoods” (1964) que, apesar de menos conhecido, é bem melhor que “Guys and Dolls”. Agora no papel principal, Frank interpreta Robbo, um gângster envolvido em várias atividades ilegais, incluindo o jogo de dados e a venda de bebidas alcoólicas. Em uma cena divertidíssima, Robbo e sua gangue transformam o cassino/bar em um local de pregação e oração para despistar os policiais, e Bing Crosby canta em seu testemunho sobre os perigos do “Mr Booze”. Sim, Bing Crosby, porque o Rat Pack todo está no filme: Peter Lawford, Sammy Davis Jr e Dean Martin (que, entre nós, seria um Sky Masterson bem mais convincente que Brando).
Bem melhor
“Guys and Dolls” não chega a ser um filme ruim. É leve, despretensioso, descompromissado, como um sonho. Deve funcionar melhor na tela grande, e melhor ainda nos palcos. Veja “Guys and Dolls” sem esperar muito. E depois corra e aprecie “Robin and the 7 Hoods”.

This is my contribution to the Sinatra Centennial Blogathon, hosted by Movie Classics and The Vintage Cameo.

sábado, 5 de dezembro de 2015

A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday (1953)

Se você gosta de filmes antigos, já deve ter passado por esta situação: na ânsia de compartilhar sua paixão com as pessoas ao seu redor, recebeu como resposta uma careta e a recusa veemente de parar para ver um filme “velho”, em preto e branco. Este preconceito com o cinema clássico é infundado e frustrante, porque quem não dá uma chance para um filme “pré-histórico” está dando as costas para um mundo maravilhoso. Então, como você, evangelizador do cinema clássico, poderia trazer mais adeptos para o modo de vida Old Hollywood? Por onde começar?

Deixe-me contar um segredo: o amor pelo cinema não é genético. Embora meu bisavô tenha sido gerente de cinema, meu avô não perca um filme de John Wayne e minha avó seja fissurada por Bruce Willis e CinemaScope (não nesta ordem), o gene cinéfilo pulou uma geração. Minha mãe é uma pessoa totalmente normal, que não gosta de filmes em preto e branco. Mas ela é uma boa mãe, e por isso foi com um misto de surpresa e alegria que eu reagi quando ela aceitou assistir a “A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday” comigo. 
A princesa Ann (Audrey Hepburn) está entediada com os muitos compromissos oficiais e burocráticos de sua visita a Roma. Ela quer mesmo é se divertir, e para isso foge no meio da noite, logo encontrando o repórter Joe Bradley (Gregory Peck). A princípio, Joe não a reconhece, até que seu colega fotógrafo Irving (Eddie Albert) mostra uma foto da princesa, e é aí que começa a aventura, e também o dilema moral: Joe deve aproveitar a companhia da princesa disfarçada para conseguir um grande furo de reportagem? 

A princesa Ann se assemelha muito mais à Audrey da vida real do que a mais famosa personagem da atriz, a acompanhante de luxo Holly Golightly de “Bonequinha de Luxo / Breakfast at Tiffany’s”, de 1961. Ann é doce e aventureira, cheia de classe e divertida, bondosa e determinada, delicada e moleca. E é com adjetivos tão diferentes que podemos descrever Audrey Kathleen Ruston, a menina que nasceu na Bélgica, passou fome durante a Segunda Guerra Mundial, virou bailarina e atriz de teatro, brilhou em Hollywood e tornou-se embaixatriz da UNICEF.

Há muito mais no filme do que suspeita nossa vã filosofia: encapsulado no roteiro está uma das histórias mais importantes e indignantes de Hollywood: a do roteirista Dalton Trumbo. Em 1947, Trumbo foi acusado de ser comunista e, apesar de continuar contribuindo com bons roteiros para o cinema, não podia ser creditado. Ele então usava pseudônimos ou deixava que algum de seus amigos recebesse crédito pelo seu trabalho. O roteiro de “A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday” foi assinado por Ian MacLellan Hunter, e recebeu o Oscar de Melhor Roteiro Original (veja no vídeo abaixo). Em 1993, a viúva de Trumbo finalmente recebeu a estatueta que lhe era devida. Dez anos depois o nome de Trumbo foi adicionado aos créditos. E apenas em 2011 o Sindicato dos Roteiristas devolveu o crédito a Trumbo, após um apelo que o filho dele, o também roteirista Christopher Trumbo, fez antes de morrer.

Filmado totalmente em locação, “A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday” se torna um perfeito roteiro para férias em Roma, com destaque para todos os pontos turísticos importantes. Afinal, quem, depois de ver todas as maravilhas na tela, não quis ir ver pessoalmente os cafés italianos, as escadarias, as fontes e a carranca esculpida na pedra? Até a Via Margutta 51, endereço de Joe Bradley, realmente existe em Roma. Curiosamente, o filme foi feito em preto e branco não apenas para diminuir os custos, mas também para impedir que a bela paisagem italiana chamasse mais atenção que a história em si. Esta foi a primeira produção de Hollywood filmada totalmente em Roma.

Confissão: já imitei esta cena com o canudo
Como é possível apreciar um filme em preto e branco? Acredito que o grande trunfo do bom cinema é contar uma história tão boa que você esquece que está vendo um filme em preto e branco – a fotografia “bicromática” se torna apenas um detalhe de algo muito maior e mais significativo. Filme algum deve ter sua qualidade julgada pela presença ou ausência de cores. “Casablanca” e “Cidadão Kane” não seriam melhores se fossem coloridos, e “E o Vento Levou... / Gone With the Wind” não seria pior se fosse filmado em preto e branco.

E quanto à minha mãe, você se perguntam? Ela gostou do filme! Depois da sessão, ela destacou a beleza de Gregory e Audrey (sem contar que as roupas e o penteado da princesa são moderníssimos) e a despretensão do filme. Sem querer passar uma mensagem, o filme conquista o espectador. Sem ter de apelar para vulgaridades ou humor baixo, “A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday” dá a quem não está acostumado com os clássicos uma introdução sobre tempos mais simples – quando era possível sair do cinema com um sorriso no rosto e a alma mais leve.

This is my contribution to the “Try It, You'll Like It!” Blogathon, hosted by classic film ambassadors Fritzi at Movies, Silently and Janet at Sister Celluloid. Alert: classic film viewing may cause addiction.
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