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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O Brasil e o Oscar – ou a traumática falta dele

O Brasil pode ter muitas coisas de que se orgulhar: linda natureza, animado carnaval, povo simpático, biodiversidade incrível, cinco títulos de Copas do Mundo. Mesmo assim, o povo ainda amarga uma questão: não temos nenhum Oscar.
Há todo um clima de união quando um filme brasileiro é indicado à estatueta. De repente, toda a nação se junta em torno desse filme, que passa a ser “o Brasil no Oscar”: nossa grande esperança de mostrar que também temos cultura. Em nenhum outro país uma indicação ao Oscar é capaz de unir um povo, ou os americanos seriam o povo mais unido e contente do mundo.
Em 1960, logo após surgir o prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira (que até então era uma categoria honorária, sem concorrentes anunciados com antecedência), o Brasil chegou a ganhar o Oscar, mas não levou. Vamos explicar: o roteiro, o elenco, a música, quase tudo era brasileiro em “Orfeu Negro”, que adapta a lenda de Orfeu para a época do Carnaval. Mas o produtor e o diretor do longa-metragem eram franceses, e assim uma produção 100% tropical rendeu mais um Oscar... à França.
Quatro filmes brasileiros foram indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira: “O Pagador de Promessas” (aka “The Given Word”, 1962), “O Quatrilho” (1994), “O que é isso, companheiro?” (aka “Four Days in September”, 1998) e “Central do Brasil” (aka “Central Station”, 1998). Tínhamos a esperança de sermos indicados novamente com o tocante “Que Horas ela Volta?” (aka “The Second Mother”, 2015), mas o filme ficou de fora até mesmo da lista de pré-finalistas e, convenhamos, não tinha chance contra “O Filho de Saul”, produção húngara sobre o Holocausto.
“O Pagador de Promessas / The Given Word”, se feito na Itália, poderia ser considerado uma obra-prima do Neorrealismo. Explorando um tema universal, tem todos os ingredientes de um filme estrangeiro inesquecível, capaz de comover pessoas de qualquer nacionalidade. O vencedor daquele ano foi, entretanto, “Sundays and Cybele / Les dimanches de Ville D’Avray”, um filme pouco conhecido.
A criatividade do cinema brasileiro foi cortada brutalmente em 1964, quando ocorreu o golpe militar. Nos 21 anos seguintes, o governo censurou muitos filmes e apoiou outros sem conteúdo, como as pornochanchadas. Os filmes independentes tratavam de temas mais imediatos e políticos de forma sutil, sem grande apelo internacional.
A retomada do cinema brasileiro começa oficialmente em 1995. Em 1999, uma surpresa agradável: além de “Central do Brasil / Central Station” ter sido indicado como Filme em Língua Estrangeira, a maior atriz do país, Fernanda Montenegro, foi indicada ao prêmio de Melhor Atriz. Cate Blanchett era a favorita, mas em uma noite esquisita, foi Gwyneth Paltrow que ganhou a estatueta, gerando um ódio que muitos cinéfilos brasileiros alimentam contra ela até hoje. Quanto ao Melhor Filme em Língua Estrangeira, o prêmio ficou com ”A Vida é Bela”, e arrisco dizer que, se este comovente filme de Roberto Benigni não estivesse na competição naquele ano, teríamos um Oscar para chamar de nosso.
Em 2002, “Cidade de Deus” não foi indicado na categoria Filme em Língua Estrangeira, mas conseguiu indicações para Edição, Roteiro Adaptado, Fotografia e Diretor, iniciando uma carreira internacional para o diretor Fernando Meirelles. Lembre-se também de que outro brasileiro de sucesso no exterior é Carlos Saldanha, que trabalhou no curta-metragem ganhador do Oscar “Bunny” em 1998, criou o esquilo Scrat da franquia “A Era do Gelo” e dirigiu outro curta-metragem indicado à estatueta, “Gone Nutty” (2002).
Excluindo os indicados na categoria mais óbvia, o Brasil também já esteve na disputa nas categorias Documentário (com “Lixo Extraordinário / Waste Land”, 2010, e “O sal da Terra / The Salt of the Earth”, 2014), Canção Original (quando a animadíssima “Real in Rio” perdeu para “Man or Muppet”, uma música bem ao gosto americano) e Curta-Metragem Live-Action (com “Uma História de Futebol” em 2000). Em 2016, “O Menino e o Mundo” foi indicado na categoria Animação e fez uma grande e bem-sucedidda campanha de crowdfunding, mas é provável que o ganhador seja o favorito “Divertida Mente / Inside Out”, elogiado filme da Pixar.
Nós ainda não ganhamos o Oscar. Mas filmes importantes, provocativos e surpreendentemente sensíveis estão sendo produzidos e exportados pelo Brasil, como “Hoje eu quero voltar sozinho / The way he looks” (2014) e “Que horas ela volta? / The Second Mother” (2015). A criatividade do cinema brasileiro foi destruída durante a ditadura, mas nossos cineastas se reergueram e estamos evoluindo. Um dia ainda realizaremos o sonho da estatueta dourada – e eu quero estar lá para ver isso acontecer.

Um dia o meme vai acabar
This is my contribution to the 31 Days of Oscar Blogathon, hosted by the mighty trio Aurora, Kellee and Paula at Citizen Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.

3 comentários:

Pedrita disse...

o oscar premia o cinema americano. raramente premia algum filme que não seja americano. há uma única categoria geral para filme estrangeiro. e às vezes um ou outro filme aparece magicamente em outra categoria como nesse ano. então não entendo pq acham que o oscar seja prêmio do cinema. é só do cinema americano. o brasileiro dá muito valor ao oscar pq a mídia nunca especifica q o oscar é para o cinema americano e supervaloriza a premiação. temos ótimos festivais que premiam o nosso cinema não precisamos do prêmio americano. se vier como consolação, legal. masa não precisamos superestimar o oscar. adoro quase todos os filmes que mencionou. levei anos para ver o pagador de promessas. só passava de manhã dia de semana, vou difícil conseguir ver. comentei dele aqui http://mataharie007.blogspot.com.br/2010/03/o-pagador-de-promessas.html
beijos, pedrita

Leah Williams disse...

I'm ashamed to say that City of God was the only one mentioned that I've seen. It was, hands down, the best film I saw that year, and one of the best I've ever seen. Why then I haven't seen more of these I can't say! Thank you for giving me such a great list to get started on...

Irish Jayhawk disse...

What a great pitch for Brazilian cinema! Perfect contribution to our blogathon, Le! Thanks so much for this!

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