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sexta-feira, 31 de março de 2017

Jack Lemmon Blogathon - Day 2

This is a consensus among classic film fans: Jack Lemmon was a sweet guy (ha! See what I did there?) and a fantastic actor. His most famous work ended with the line "nobody's perfect", but we firmly believe that Mr Lemmon was close to perfection.
He could play any role and make it believable and human - that's why we're here together to celebrate his impressive body of work.
Day 1 of the blogathon was hosted by my friend and co-host Rich at Wide Screen World.
A fictional representation of Rich and me, agreeing on doing this blogathon


Now, without further ado, here are the links for Day 2:

Real Weegie Midget

Silver Screenings

Cinema Cities
Days of Wine and Roses (1962)

Old Hollywood Films
The Odd Couple (1968)

Cary Grant Won't Eat You
The Fortune Cookie (1966

Whimsically Classic
Some Like It Hot (1959)  

A Shroud of Thoughts
The Apartment (1960) 

Wide Screen World
The Out-of-Towners (1970)

Thank you to all who have made this event possible!

quinta-feira, 30 de março de 2017

Variações sobre um mesmo tema: 12 Homens e uma Sentença (1957 e 1997)

Variations on the same theme: 12 Angry Men (1957 & 1997)

Quando os remakes são necessários? Eu costumava achar que remakes nunca eram necessários – até ver o filme feito para a TV “12 Homens e uma Sentença”, de 1997. Sim, é exatamente igual ao filme de 1957, e Jack Lemmon era basicamente minha única razaão para vê-lo. Mas ver este filme me deu a reposta para minha questão inicial: remakes são necessários para contar grandes histórias para as novas gerações.

When are remakes necessary? I used to think that remakes are never necessary – until I saw the 1997 TV movie “12 Angry Men”. Sure, it is exactly like the 1957 movie, and Jack Lemmon was basically my only reason to see it. But it made gave me an answer for my initial quesiton: remakes are necessary to tell great stories to younger generations.
O próprio filme de 1957 é um remake de um filme para a TV feito  em 1954. Isto significa que a versão de 1997 significou apenas que a história voltou às origens – mas, desde vez, a cores. E as cores são, de fato, o elemento principal aqui.

The 1957 film is itself a remake of a 1954 TV attraction. It means that the 1997 version is only the story coming back to its origins – but, this time, in color. And color is, indeed, the main element here.
A trama se desenrola em um único ambiente – a sala em que os jurados estão reunidos para decidir o veredicto – e a exigência principal é que nós, enquanto espectadores, sintamos como o lugar é claustrofóbico. Neste sentido, a versão de 1957 funciona melhor: o suor em preto e branco fica mais evidente, e todo o ambiente parece mais opressivo que em 1997.

The story unfolds in only one environment – the room in which the jury is left to decide the verdict – and a main exigence is that we, as viewers, must feel how claustrophobic the place is. In this sense, the 1957 version works better: sweat in black and white appears better, and the whole environment seems more oppressive than it did in 1997.
E então chegamos à cor da pele. Na versão de 1997 temos quatro jurados negros, entre jovens e velhos. Na de 1957, você pode adivinhar: não há nenhum. E tem mais: em 1997  o próprio acusado é negro. Em 1957 ele apenas vem de um bairro pobre, e é de origem filipina.

And then we come to skin color. In the 1997 version, there are four black jurors, old and young. In the 1957 version, you guessed: not even one. And there is more: in the 1997 version the accused is himself black. In the 1957 one he only comes from the slums and is Filipino.
Ainda mais interessante que o componente racial é a idade, especificamente na versão de 1997. Nesta, a idade dos jurados varia muito, enquanto na de 1957 eles parecem regular em idade. Na versão mais recente, temos Hume cronyn como o jurado mais velho, Jurado nº 9, e ele é abertamente desrespeitado. Ele é quase careca e usa uma bengala – e também é sempre interrompido quando tenta dar sua opinião na primeira meia hora do filme. É preciso que Jack Lemmon, como o Jurado nº 8, o defenda e exija que os outros o deixem falar. E aí é formada uma conexão instantânea entre eles.

Even more interesting than the race component is the age, especifically in the 1997 version. In it, the jurors' age vary a lot, while in the 1957 version they looked basically the same age. In the most recent version, we have Hume Cronyn as the oldest juror, Juror #9, and he is by far the most disrespected. He is nearly bald and walks with a cane – and is also interrupted whenever he tries to give his opinion in the first half an hour or so. It takes Jack Lemmon, as Juror #8, to stand for him and ask the others to let him talk. A connection is then instantly formed between the two.
O jurado que aparenta menos idade é o que mais desrespeita os outros, incluindo o nº 8: ele desconsidera as ideias de Jack Lemmon e tenta confrontá-lo no banheiro. Era de se esperar que os jurados mais jovens tivessem a mente mais aberta, e é o oposto que ocorre. É mais fácil para os jurados mais velhos serem empáticos com o acusado, com uma exceção: George C. Scott como o Jurado nº 3 será difícil de convencer porque ele está julgando o caso de maneira emocional.

The juror who looks the youngest is the most disrespectful towards the others, including #8: he takes Jack Lemmon's ideas for granted and tries to confront him in the bathroom. We were expecting the youngest jurors to be more open-minded, and the opposite happens. It's easy for the older jurors to feel empathy for the accused, withone exception: George C. Scott as Juror #3 will be difficult to convince because he's using his emotions to judge the case.
Com remakes focados só em mulheres, como o remake de “Ghostbusters” de 2016 e o futuro remake de “11 Homens e um Segredo”, eu não pude parar de pensar em uma nova versão da história: o filme “12 Mulheres e uma Sentença”. Bem, o próprio título não é muito bacana, porque soa como uma comédia misógina. Mas o sexismo vai mais fundo aqui: eu acho que nunca haverá uma versão toda feminina do filme porque nem na vida real as pessoas aceitariam bem um júri só de mulheres – exceto em casos em que isto é uma estratégia da defesa ou da acusação. Em outros casos haveria protestos, e pessoas dizendo algo estúpido como “mulheres sozinhas não podem julgar um caso porque elas serão guiadas pela emoção e não pela razão”.

With the many women-focused remakes, like the “Ghostbusters” one in 2016 and the upcoming “Ocean’s Eleven”, I couldn’t stop thinking about a new version of the story: a “12 Angry Women” film. Well, the title itself is not encouraging, because it sounds like a stupid misogynistic comedy. But the sexism is even deeper here: I think there will never be an all-female version of the movie because not even in real life people would accept an all-female jury – except when it's part of the defense's or the prosecution's strategy. In other cases there would be protest, with people saying something stupid like “women alone can’t judge a case because they’d be driven by emotion and not reason”. 
Jack Lemmon foi, sem dúvida, a alma do filme – assim como Fonda foi da versão de 1957. Ele não é um herói perfeito: ele vota em “inocente” não porque ele acredita na inocência do réu, mas sim porque não está convencido de sua culpa. Ele acredita que o caso deve ser analisado com cuidado, afinal, eles estão decidindo se um jovem vai ou não receber a pena de morte! Ele é apenas justo, ele é apenas humano – e o faro de que um personagem assim seja considerado um herói e uma inspiração nos diz muito sobre a corrupção já enraizada na sociedade.

Jack Lemmon was, without a doubt, the heart and soul of this movie – just like Fonda was in the 1957 version. He is not a flawless hero: he votes “not guilty” not because he is sure of the  innocence of the accused, but because he is not either sure of his guilt. He thinks the case must be thought over, after all, they could be sending a young man to the death row! He is only fair, he is only human – and yet the fact that such a character is considered a hero and an inspiration tells a lot about how corrupt society is becoming in its roots.
No ano seguinte à estreia do telefilme, este esteve no centro de um momento inesquecível na história do Globo de Ouro. Na categoria de Melhor Ator em Minissérie Filme para TV, Ving Rhames ganhou o prêmio. Chocado, durante seu discurso ele disse que não merecia o prêmio e chamou Jack Lemmon para o palco – e simplesmente deu a estatueta a Lemmon. Houve muito burburinho e mal-estar ao redor do evento. Ambos os atores foram aplaudidos de pé, e Rhames não quis receber a estatueta de volta. Mais tarde, a Hollywood Foreign Press Association, entidade responsável pelo prêmio, deu uma cópia da estatueta a Rhames.

The year after the TV movie was released, it was in the center of an unforgettable moment in Golden Globes history. In the Best Actor in a TV Movie or Miniseries category, Ving Rhames won the award. In awe, during his speech, he said he didn't deserve the award and called Jack Lemmon to the stage – and simply gave the trophy to Lemmon. There was a lot of buzz and a good deal of awkwardness surrounding the event. Both actors received an standing ovation, and Rhames didn't accept the trophy back. Later, the Hollywood Foreign Press Association, the entity responsible for the Golden Globes, gave Rhames a duplicate of the trophy.
Jack Lemmon fez tudo ser melhor – comédias, dramas, remakes e até premiações!

Jack Lemmon made everything better – comedies, dramas, remakes and even award shows!


This is my contribution to the Jack Lemmon blogathon, hosted by my friend Rich at Wide Screen World and moi right here at Critica Retro.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Gilda de Abreu: inigualável

Quando procuramos pelo nome de Gilda de Abreu no site da Cinemateca Brasileira, não encontramos nenhum resultado. Zero. E isso é vergonhoso. Ela pode ter dirigido apenas três longa-metragens, mas ela foi muito mais que a pioneira do cinema que merece ser celebrada no mês da mulher: Gilda foi atriz, cantora, roteirista, escritora e compositora. Ela também foi esposa do famoso cantor Vicente Celestino. Juntos, eles eram como Jeanette MacDonald e Nelson Eddy – e, ao contrário da dupla americana, eles viveram felizes para sempre.

When we look for Gilda de Abreu’s name at the Brazilian Cinémathèque website, we get no results. Zero. It’s a total shame. She may have directed only three feature films, but she was much more than the pioneer who should be celebrated all March long: she was an actress, singer, screenwriter, author and composer. She was also the wife of famous singer Vicente Celestino. Together, they were the Jeanette MacDonald and Nelson Eddy from Brazil – and, unlike the American duo, they lived happily ever after.
Nenhum dos filmes de Gilda está disponível em DVD e, obviamente, nem na Netflix. Apenas seu filme mais famoso é exibido, ainda que raramente, na sessão de meia-noite de sábado na TV Brasil. Sobre sua vida e carreira, encontrei apenas uma dissertação de mestrado escrita em 2006. Gilda está quase escquecida – e não deveria.

None of Gilda's films are on DVD nor, of course, on Netflix. Only her most famous movie is aired, in rare events, in the Saturday midnight screening on a public TV station. About her life and career I could find only a master’s dissertation written in 2006. Gilda is almost forgotten – and she shouldn’t be.
1936
Gilda de Abreu (que às vezes você encontra também como “Gilda Abreu”) nasceu em Paris em 1904. Seu pai era diplomata e sua mãe, cantora. Aos quatro anos de idade, ela veio para o Brasil. Sua mãe a ensinou a cantar, e nos anos 20 Gilda protagonizou diversas óperas. Seu primeiro disco foi lançado em 1930 e em 1933 ela se casou com Vicente Celestino.

Gilda de Abreu (sometimes referred to as “Gilda Abreu”) was born in Paris in 1904. Her father was a diplomat, her mother, a singer. At age four, she came to Brazil. Her mother trained her to be a singer, and in the 1920s Gilda starred in several operas. Her first record was released in 1930 and in 1933 she married Vicente Celestino.
O primeiro filme de Gilda foi “Bonequinha de Seda”, de 1936. Ela fez a protagonista depois que Carmen Miranda recusou o papel porque as filmagens interfeririam com outros compromissos. E a mudança foi justa – afinal, Gilda compôs a valsa que inspirou o filme! Este filme foi uma superprodução que filmou multidões como nunca antes fora feito no cinema brasileiro. O filme foi restaurado recentemente, mas ainda não saiu em DVD.

Gilda’s first film was “Bonequinha de Seda” (roughly translated as “Little Silk Doll”), from 1936. She played the lead role after Carmen Miranda couldn’t accept it due to other commitments. This was just fair – after all, Gilda had created the waltz that inspired the movie! This film was a Brazilian fancy production that used crowd scenes like it was never made before. The film was restored recently, but no DVD was released so far.
Gilda foi a terceira mulher a dirigir um filme no Brasil. A primeira a dirigir, produzir e estrelar um filme foi Cleo de Verberena, que fez o filme mudo “O Mistério do Dominó Preto” em 1931. Carmen Santos foi a outra cineasta precursora, entretanto seu complexo e problemático filme estreou somente depois de Gilda ter dirigido seu primeiro filme.

Gilda was the third woman to direct a film in Brazil. The first woman to direct, produce and star in a movie in Brazil was Cleo de Verberena, who did the silent film “O Mistério do Dominó Preto” (roughly translated as “The Mystery of the Black Tile”) in 1931. Carmen Santos was the other precursor female filmmaker, however her complex and troubled film only premiered after Gilda had made her directing debut.
Cleo de Verberena
Carmen Santos
“O Ébrio” foi a estreia de Gilda como diretora. Foi uma adaptação de uma peça escrita por Vicente Celestino, que também compôs as músicas e ficou com o papel principal. “O Ébrio” é uma história de um homem que vai da riqueza à pobreza à riqueza e à pobreza novamente. E é surpreendentemente noir.

“O Ébrio” (“The Drunkard”) was Gilda’s debut at the director’s chair. It was an adaptation of a play written by Vicente Celestino, who also composed the songs and played the lead role. Gilda adapted the play to the film language. “The Drunkard” is a story of riches to rags to riches to rags again. And it’s surprisingly noirish.
Gilberto (Celestino) está sem sorte. Sua família perdeu toda a fortuna. Seus amigos e parentes se recusaram a ajudá-lo. Ela encontra ajuda apenas na igreja. E é na música que Gilberto encontra mais uma vez esperança: ele participa de um programa de calouros na rádio, fica famoso e consegue pagar a faculdade. Ele então se torna médico.

Gilberto (Celestino) is out of luck. His family lost all its wealth. His friends and relatives refused to help him. He only finds help in the church. And it is music that gives Gilberto hope once again: after singing on a radio show, he becomes famous and is able to pay for his college education. He then becomes a doctor.
Os toques noir vêm de todo lado: há a presença de um narrador, alguns flashbacks, uma femme fatale – e também um homme fatale. Você já viu uma trama noir começar no hospital? Bem, aqui isto ocorre.

The noir touches come from all the places: the voiceover narration, some flashbacks, the femme fatale – and also the home fatale. Have you ever seen a noir story starting in a hospital? Well, here it does.
Há uma sequência curiosa em que a consciência de Gilberto se manifesta no reflexo de um espelho, e foi este detalhe que mais me agradou na direção de Gilda. Há também alguns momentos cômicos – talvez um pouco inapropriados, mas mesmo assim bastante divertidos.

There is a curious sequence in which Gilberto’s conscience speaks with him through a mirror reflection, and this bit was what I liked the most in Gilda’s direction. There are also some comic moments – maybe a little inappropriate, but very amusing nonetheless.
Destruído, traído, sem esperança, Gilberto se torna um ébrio. Sua representação do alcoolismo é cômica em alguns momentos, mas no geral sombria. Às vezes é até melhor que a de Ray Milland em “Farrapo Humano” (1945). E então Gilberto canta a canção principal:

Destroyed, betrayed, hopeless, Gilberto becomes a drunkard. His representation of alcoholism is comic at times, but overall very dark. Sometimes it’s even better than Ray Milland’s in “The Lost Weekend” (1945). And then Gilberto sings his signature song:
“O Ébrio” se transformou em um fenômeno de bilheteria. Em algumas cidades,  foi um sucesso maior que “E o Vento Levou...” (1939)! 500 cópias do filme foram feitas para distribuição, e e é surpreendente que o negativo não tenha sido muito danificado no processo.

“The Drunkard” became a major box office hit. In some cities, it was a success at the box office much bigger than “Gone with the Wind” (1939)! 500 copies of the film were made to be distributed, and it’s surprising that the negative was still in such a good shape.
Cerca de 8 milhões de pessoas assistiram ao filme (o suficiente para colocá-lo entre os cinco maiores sucessos de bilheteria da história do cinema brasileiro) – em uma época em que a população total do Brasil era de cerca de 50 milhões, 1 em cada 6 pessoas tinha visto “O Ébrio” nos cinemas. E não era o filme planejado por Gilda. “O Ébrio” foi extremamente dilacerado na edição para se tornar menor e mais triste. Em 1998 o filme foi restaurado, e hoje tem 125 minutos de duração. A versão de 1946 tinha 87 minutos.

About 8 million people watched the movie (enough to put it in the TOP 5 in Brazilian cinema) – in a time when the whole Brazilian population was about 50 million people, 1 in 6 had seen “The Drunkard”. And it was not the movie intended by Gilda. “The Drunkard” was mercilessly cut in order to become shorter and sadder. In 1998 the film was restored, and it now runs 125 minutes. The 1946 cut ran 87 minutes.
O filme seguinte dela foi “Um Pinguinho de Gente”, de 1949. Desta vez, Vicente não fazia parte do elenco, mas em um papel coadjuvante havia um homem que se tornaria uma estrela: Anselmo Duarte, futuro galã e diretor de “O Pagador de Promessas” (1962), ganhador da Palma de Ouro em Cannes.

Her next film was 1949’s “Um Pinguinho de Gente” (a cute expression to refer to children). This time, Vicente was not part of the cast, but there was in a supporting role a man who would become a star: Anselmo Duarte, future heart-robber and director of “The Given World” (1962), winner of the Palme D’Or in Cannes.
Mas Anselmo era um mau ator na época. Se não fosse por Gilda talvez ele nunca teria se tornado um grande ídolo. Ele recorda o episódio em um livro: “Sabia que era um ator de merda, mas tinha boa estampa, o que me permitia seguir em frente... Gilda pediu que eu repassasse o diálogo antes da filmagem. Eu disse as frases de uma maneira meio mecânica e ela me deu um tabefe na cara. O tapa foi forte, mas pior que isso foi a vergonha.... Uma bofetada da diretora Gilda Abreu me transformou em ator."

But Anselmo was a lousy actor back then. If it wasn’t for Gilda, maybe he wouldn’t have become a great one. He remembers the episode in a book: “I knew I was a bad actor, but I looked good, so I had to go on acting… Gilda asked me to rehearse my dialog. I said my lines in a mechanical way and she punched me in the face. She punched me hard, but the worst thing was how ashamed I felt… A punch from Gilda de Abreu turned me into an actor”.

Left to right: Francisco Alves, Aurora Miranda, Carmen Miranda, Manuel Pinto, Gilda de Abreu, Vicente Celestino. 1933
O terceiro e último filme de Gilda como diretora foi “Coração Materno”, de 1951. Ela e Vicente estrelam o filme, que mais uma vez surgiu de uma peça escrita por Celestino.

Gilda’s third and final film as a director was “Coração Materno” (“Motherly Heart”), released in 1951. She and Vicente star in this film, once again based in a play written by Celestino.
Em “Coração Materno”, a história é toda contada em flashback. É o século XIX. Vicente interpreta Carlos, que foi abandonado em uma igreja quando bebê e criado pelo padre. Gilda interpreta Violeta, uma moça rica que desperta paixão tanto de Carlos quanto de um rico conde. O filme tem mal-entendid0s novelescos, reviravoltas, alívio cômico, muitos momentos musicais, pano de fundo religioso e muito drama.

In “Motherly Heart” the story is completely told in flashback. It’s the 19th century. Vicente plays Carlos, who was abandoned in a church as a baby and was raised by the local priest. Gilda plays Violeta, a rich woman pursued by both Carlos and a rich count. The film has misunderstandings, surprises, comic relief, many musical moments, a very religious background and a lot of drama.
Gilda mostra maturidade na direção de “Coração Materno” porque é um filme cheio de desafios: ela dirige, atua e canta em um filme que se passa nos anos 1800, e deve haver muita atenção ao detalhe e à ambientação – algo que não era tão necessário em “O Ébrio”. Há cortes inventivos, e até uma cena fundamental com efeitos especiais impressionantes.

Gilda shows how mature she was while directing “Motherly Heart” because there are a number of challenges to be faced here: she both directs, acts and sings; this is a film set in the 1800s, and there should be a lot of attention to detail – s0mething that she didn’t need in ‘the Drunkard”. There are clever cuts, and even a key scene with impressive special effects.
Infelizmente, Gilda parou de dirigir filmes após “Coração Materno”. Comédias musicais – as chanchadas – começaram a dominar o cenário cinematográfico no Brasil. A partir de então, Gilda se concentrou em escrever. Ela escreveu o roteiro de um filme sobre o músico Francisco Alves em 1955, escreveu radionovelas e transformou suas peças em livros. Ela escreveu outros livros, como “Mestiça”, publicado em 1944.

Unfortunately, Gilda stopped directing after “Motherly Heart”. Musical comedies – known as “chanchadas” – started dominating the film scene in Brazil. From then on, Gilda wrote. She wrote the screenplay for a movie about musician Francisco Alves in 1955, she wrote radio shows – in special soap operas for the radio – she adapted her plays into books. She wrote other books, like “Mestiça”, published in 1944.
Vicente Celestino morreu em 1968, aos 74 anos. Ele e Gilda não tiveram filhos. Em 1977 ela dirigiu um documentário de curta-metragem sobre o marido, e em 1979 ela faleceu. Seu livro “Minha Vida com Vicente Celestino” foi publicado apenas em 2003. Eu gosto de pensar que a profecia que o personagem de Vicente diz em “Coração Materno” se tornou realidade. Nela, ele diz: “Somos e seremos um do outro até mesmo depois da morte”.

Vicente Celestino died in 1968, at age 74. He and Gilda had no children. In 1977 she directed a short documentary about her husband, and in 1979 she died. Her book about Vicente, “My Life with Vicente Celestino”, was finally published in 2003. I like to think that the prophecy Vicente’s character does in “Motherly Heart” became true. In it, he says: “We belong to each other, and we’ll always belong, even after death”.

 Nunca houve uma mulher como Gilda de Abreu.

There has never been a woman like Gilda de Abreu.


This is my contribution to the Early Women Filmmakers blogathon, hosted by mighty Fritzi at Movies, Silently.

domingo, 26 de março de 2017

Dupla Dinâmica: Bette Davis e William Wyler / Dynamic Duo: Bette Davis and William Wyler

É difícil definir um cineasta como William Wyler. Seu filme mais famoso é a versão de 1959 de Ben-Hur, um épico bíblico masculinizado com uma boa dose de ação e drama. Entretanto, Wyler dirigiu 73 obras, entre filmes e séries de TV, de 1925 a 1970. Ele fez westerns, dramas históricos, comédias românticas, documentários. E ele trabalhou três vezes com uma atriz maravilhosa: Bette Davis.

It’s hard to define a filmmaker like William Wyler. His most famous movie is the 1959 version of Ben-Hur, a macho biblical epic with a good amount of action and drama. However, Wyler worked on 73 movies and TV series, from 1925 until 1970. He made westerns, historical dramas, romantic comedies, documentaries. And he collaborated three times with a wonderful actress: Bette Davis.
“Jezebel”, a primeira colaboração deles, conta a história de Julie (Davis), uma garota voluntariosa do sul dos EUA que é apaixonada por Preston (Henry Fonda). Eles estão noivos, mas não necessariamente combinam. Julie é indomável demais para Preston – prova disso é quando ela escandaliza a cidade toda e vai com um vestido vermelho vivo a um baile no qual todas as outras mulheres estão usando branco. Preston rompe o noivado e sai da cidade, mas retorna um ano depois para impedir que uma epidemia de febre amarela chegue ao local.

“Jezebel”, their first collaboration, tells the story of Julie (Davis), a spoiled Southern belle that is in love with Preston (Henry Fonda). They are, actually, engaged, but Julie is too wild for him – and a proof of this happens when she scandalizes the whole town by wearing a bright red gown to a party in which all the other women wore white. Preston leaves her, but comes back in order to avoid a yellow fever epidemic to hit the town.
Wyler e Davis se conheceram em 1931. Ela era uma novata fazendo um teste para o filme “A House Divided”, que seria dirigido por Wyler. O vestido dado a Bette para o teste não serviu muito bem e o decote era muito revelador. Quando ela entrou no set, ouviu este comentário de Wyler: “O que pensar dessas garotas que só mostram os peitos e acham que vão conseguir o trabalho?”. Ela não foi escalada para o papel, e não esqueceu a humilhação. E em 1938 ela estava pronta para se recusar a trabalhar com Wyler em “Jezebel”. Felizmente, isso não aconteceu.

Wyler and Davis met in 1931. She was a newcomer doing a screen test for his film “A House Divided”. The dress given to her didn’t fit right and there was too much cleavage. When she appeared on set, Wyler made the comment: "What do you think about these dames who show their chests and think they can get jobs?" She didn’t get the job and didn’t forget the humiliation. And, in 1938, she was ready to refuse working with Wyler in “Jezebel”. Luckily, it didn’t happen.
William Wyler era um perfeccionista, e exigia que sua estrela visse com ele as cenas rodadas naquele dia, todos os dias. Foi aí Bette entendeu por que ele queria que ela repetisse sempre as cenas em busca do take perfeito. Estava funcionando: aquela era sua melhor performance até então. Ela começou a admirar Wyler – e a admiração logo se transformou em amor.

William Wyler was a perfectionist, and demanded his star to see the daily shots, every single day. It was then that Bette could understand why he pushed her to do more and to achieve the perfect take. It was working: she had never given such a fine performance. She started admiring Wyler – and soon the admiration turned into love.

Eles se envolveram romanticamente e, segundo rumores, Bette engravidou no final das filmagens de “Jezebel”, e pouco depois fez um aborto. Foi a própria Bette que contou esta história, muitos anos depois.

They started an affair and, according to rumors, Bette got pregnant at the end of the shooting of “Jezebel”, and had an abortion short after production wrapped. Bette herself told this story, later in her life.
O segundo filme juntos foi “A Carta” (1940), a película com uma das mais eletrizantes sequências de abertura da história. Nela, Leslie (Davis) atira em um homem que está saindo da casa dela numa plantação de algodão na Malásia. Ela alega que o homem a atacou, mas ele estava na verdade a chantageando: ele era amante dela, e pedia dinheiro para não entregar ao marido dela uma carta de amor que ela lhe havia escrito.

Their second collaboration was in “The Letter” (1940), a film that has one of the most thrilling opening sequences ever shot. In it, Leslie (Davis) shoots a man coming out of her house in a cotton plantation in Malaysia. She says the man attacked her, but he was actually blackmailing her: he was her lover, and wanted money in order to not give the letter she sent him to her husband.
Wyler e Bette discutiram na hora de filmar uma cena de confissão importantíssima, o que fez Bette abandonar o set. Wyler esperou que ela voltasse, e ela fez a cena do jeito que ele queria. Por mais que nós amemos Bette Davis, devemos concordar que Wyler tinha razão, e Leslie precisa olhar nos olhos do marido enquanto confessava que não o amava.

Wyler argued with Bette Davis about a key confession scene, which made Davis leave the set. Wyler just waited for her to come back, and she shot the scene the way he demanded. As much as we love Bette Davis, we’ve got to agree that Wyler was right, and Leslie had to look at her husband in the eye while saying she didn’t really love him.
A última contribuição deles foi “Pérfida” (1941). No filme, Bette Davis interpreta Regina Giddens, que quer convencer seu marido doente e distante a lhe emprestar dinheiro para que ela possa entrar numa parceria de negócios com seus irmãos. Para isso, ela manipula a todos e não vê problema em magoar a própria filha para alcançar seu objetivo.

Their last contribution was “The Little Foxes” (1941). In it, Bette Davis plays Regina Giddens, who wants to persuade her estranged and sick husband to lend her money so she can enter a business partnership with her brothers. To do so, she is manipulative and has no problem hurting her own daughter to achieve her goal.
Wyler insistiu que Bette fosse escolhida para o papel principal. Tallulah Bankhead havia feito o papel na Broadway, e Bette decidiu interpretar Regina de maneira completamente diferente de Tallulah: não como uma vítima, mas como uma mulher extremamente ambiciosa.

Wyler insisted on Bette being cast in the leading role. Tallulah Bankhead had originated the role on Broadway, and Bette decided to play Regina in a very different way: not as a victim, as Tallulah did, but as an overly ambitious woman.
E este foi só o começo dos problemas. Wyler e Davis não concordavam em nada, e ela abandonou as filmagens. Em seu livro “Mother Godamn: The Story of the Career of Bette Davis”, ela comenta sobre este episódio: “Foi a úncia vez na minha carreira que eu abandonei um filme que já tinha começado a filmar”, e completa: “Eu estava muito nervosa porque meu diretor favorito, o que eu mais admirava, estava brigando comigo sobre tudo o que podia... Eu simplesmente não queria continuar”. E, mais uma vez, ela voltou ao set e seguiu as ordens de Wyler.

And this was just the start of their troubles. They just couldn’t agree on anything, and she walked off the set. In her book “Mother Goddamn: The Story of the Career of Bette Davis”, she talked about this episode: "It was the only time in my career that I walked out on a film after the shooting had begun," and added: "I was a nervous wreck due to the fact that my favorite and most admired director was fighting me every inch of the way ... I just didn't want to continue." And, once again, she returned to the set and followed Wyler’s orders.
Tanto “Jezebel” quanto “A Carta” são comumente incluídos na maioria das listas de melhores filmes de Bette Davis. “Pérfida” pode não ter a mesma admiração, mas é também um ótimo filme. E todos eles são bons graças à essa mistura fantástica dos estilos de Wyler e Davis.

Both “Jezebel” and “The Letter” are often included in most Bette Davis’s top five movies lists. “The Little Foxes” may not hank as high as these two, but it is also a nice movie. They are good because of this fantastic mix of Wyler and Davis.
Numa entrevista para Charlotte Chandler no final dos anos 80, Bette disse sobre Wyler: “Ele tinha tudo que eu sempre sonhei em um homem, por isso o amor e a paixão surgiram”. Wyler então respondeu: “Ela era muito apaixonada e emotiva, com mais energia do que qualquer outra pessoa que eu conheci. Era demais para mim”.

In an interview to Charlotte Chandler in the late 1980s, Bette said about Wyler: “He was everything I ever dreamed of in a man, so love and passion soon followed.” Wyler answered back: “She was very passionate and emotional, with more energy than anyone I’d ever known. Too much for me.”
Mas não são as atrizes exageradas e exuberantes aquelas que nós mais admiramos?

But aren’t the larger than life actresses the ones we love the most?

This is my contribution to the 2nd Annual Bette Davis Blogathon, hosted by my friend Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.

quarta-feira, 22 de março de 2017

“A Gata e o Rato” e a paródia de Casablanca / Moonlighting and the Casablanca parody

Nos anos 80 e 90, era comum que as séries de TV, em especial sitcoms, tivessem “episódios de antologia”. Estes episódios não faziam a trama avançar e podiam até ser ignorados pelo público. Alguns deles eram simples coleções de clipes de episódios anteriores. Outros eram paródias de filmes famosos. Vamos falar de um episódio deste último tipo.

In the 1980s and 1990s, it was common for TV series, in special sitcoms, to have some “anthology episodes”. These episodes didn't advance the plot and could even be skipped by the public. Some of them were a collection of clips from previous episodes. Others were parodies of famous movies. We're talking about an example of the later.
Os personagens principais da série romântica / de suspense / de comédia “A Gata e o Rato” eram Madelyn ‘Maddie’ Hayes (Cybill Shepherd) e David Addison (Bruce Willis), os dois principais investigadores da agência de detetives Blue Moon, da qual Maddie é proprietária. Entre os personagens coadjuvantes recorrentes estava a secretária atrapalhada e adorável, Agnes DiPesto (Allyce Beasley).

The main characters in the romantic / thriller / comedy Moonlighting were Madelyn 'Maddie' Hayes (Cybill Shepherd) and David Addison (Bruce Willis), the two main detectives in the Blue Moon agency, that Maddie also owns. Among the recurrent characters there was the clumsy secretary with a heart of gold, Agnes DiPesto (Allyce Beasley).
O público aprendeu a amar Agnes DiPesto. Ela ganhou mais tempo em cena, um par romântico – Herbert ‘Bert’ Viola (Curtis Armstrong) – e alguns episódios focados só nela. Bem, isso aconteceu porque ela era popular, obviamente, mas também porque aconteceram alguns atrasos nas gravações quando Bruce Willis machucou o ombro e Cybill Shepherd deu à luz gêmeos. Curiosamente, os dois episódios mais marcantes para mim têm tudo a ver com filmes clássicos.

The public learned to love Agnes DiPesto. She got more screen time, she got a romantic interest – Herbert ‘Bert’ Viola (Curtis Armstrong) – and she got some episodes focused on herself. Well, this happened because she was popular, sure, but also because there were some delays when Willis broke his shoulder and Shepherd had twins. Curiously, the two episodes I remember best have everything to do with classic movies.
Um deles é “In ‘N Outlaws” (temporada 5, episódio 11), uma espécie de “12 Homens e uma Sentença” com um toque romântico. Nele Agnes é parte de um júri e é a única que acredita na inocência do réu. Ela então conta sua teoria e narra suas experiências com a relação complicada de Maddie e David para convencer os outros jurados da inocência do réu.

One of them, “In ‘N Outlaws” (S5E11), is some kind of romantic “12 Angry Men”. In it Agnes is part of a jury and is the only one who believes in the man's innocence. She then tells her theories and her experience with the on-again off-again couple Maddie and David to convince the other jurors of his innocence.
O outro episódio também foi romântico, e lidou com a relação de Agnes e Herbert. Eles eram ambos tímidos, loucamente apaixonados um pelo outro, mas não tinham coragem para dizer o que realmente sentiam, nem para dar grandes passos e avançar o relacionamento. No episódio “Here’s Living with You, Kid” (temporada 4, episódio 13), Herbert sugere que ele e Agnes vão morar juntos. Bert meio que recebe um não como resposta, e a partir daí tem fantasias envolvendo filmes clássicos.

The other episode was romantic as well, and dealt with Agnes and Herbert's relationship. They were both shy people, madly in love with each other, but without the necessary courage neither to tell what they really felt nor to take risks in the relationship. In the episode “Here’s Living with You, Kid” (S4E13), after asking if Agnes wants to move in with him and kind of receiving “no” as an answer, Herbert has fantasies involving classic films.
Primeiro Bert fantasia com “O Sheik” (1921), provavelmente o primeiro filme da história a glorificar a síndrome de Estocolmo. O sonho acordado é um filme mudo completo, sem diálogos mas com intetítulos.

First Bert fantasizes with “The Sheik” (1921), probably the first film to glorify the Stockholm syndrome in the history of movies. The daydream is a complete silent movie without dialog and with intertitles.
Então Bert fantasia com Casablanca. Herbert é Rick, Agnes é Ilsa. De todos os bares de todas as cidades do mundo, ela teve de entrar logo no dele. Este devaneio é mais longo, e também mais divertido, pois zoa com as cenas mais famosas de Casablanca. Veja abaixo, com legendas:

Then Bert fantasizes with Casablanca. Herbert is Rick, Agnes is Ilsa. Of all the gin joints in all the towns in all the world, Agnes walks into his. This daydream sequence is longer, and also funnier, because of the way it mocks with the most famous scenes in Casablanca. See below, with Portuguese subtitles:



“A Gata e o Rato” teve cinco temporadas, de 1985 a 1989. Eu assistia às reprises no canal TCM a partir de 2011. Eu adorava a série, em especial as paródias, os momentos em que a quarta parede era quebrada e as deliciosas situações em que os personagens demonstravam que sabiam que faziam parte de um programa de TV.

Moonlighting lasted five seasons, from 1985 to 1989. I watched the reruns from 2011 onwards. I really, really loved the show, and I adored their spoofs, whenever they broke the fourth wall and the amazing tongue-in-cheek moments when the characters made clear they knew it was only a show.
Agora as séries não têm mais episódios de antologia. Agora as séries transmitidas na TV têm entre 22 e 23 episódios por temporada, enquanto as séries via streaming têm 13 ou 10 episódios ou até menos. Eu também aprecio a maneira moderna de se fazer séries, mas fico pensando: como minhas séries atuais favoritas lidariam com episódios de antologia e quais clássicos eles se atreveriam a parodiar?

Now the series have no more anthology episodes. Now the series airing on TV have about 22 or 23 episodes per season, while the ones on streaming have 13, 10 or even fewer. I like the modern model as well, but sometimes I wonder how some of my favorite series would tackle anthology episodes and which classics they could spoof.

You can watch the full “Here’s Living with You, Kid” episode on Dailymotion.

This is my contribution to the 3rd Annual Favourite TV Show Episode Blogathon, hosted by my friend Terence at A Shroud of Thoughts.
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