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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

There's One Born Every Minute (1942)


Em qualquer carreira, é raro começar no topo. No cinema, em especial, é raro começar como protagonista de um filme. A maioria, se não todas, as lendas do cinema começaram em papéis secundários, alguns até sem fala. Elizabeth Taylor também começou pequena – de ambas as maneiras: ela tinha apenas 10 anos quando fez seu primeiro filme, “There’s One Born every Minute”, que é um exemplo perfeito de filme B.

You rarely get to start on top in any career. In film, especially, it's rare to start as the star of a big picture. Most, if not all, film legends started in secondary roles, some of them as extras, others as walk-on roles. Elizabeth Taylor also started small – in both meanings: she was only 10 when she did her first film, and this film, “There's One Born Every Minute”, is a perfect example of a B-picture.
Curiosamente, a personagem de Elizabeth, Gloria, diz a primeira frase do filme: “Este cara engraçado é meu tataravô Claudius?”. Ela se refere a uma pintura que sua mãe, Minerva (Catherine Doucet) está pendurando na parede. A pintura está ali para inspirar grandeza, porque o pai de Gloria, Lemuel Twine (High Herbert), se candidatou ao cargo de prefeito da cidade de Witumpka Falls.

Curiously, Elizabeth's character, Gloria, says the very first sentence in the movie: “Is that funny-looking bloke (=man) my great-great-grandfather Claudius?”. She is referring to the painting her mother, Minerva (Catherine Doucet) is hanging on the wall. The painting is there to evoke greatness, because Gloria's father, Lemuel Twine (Hugh Herbert), is running for the position of mayor of the city of Witumpka Falls.
Gloria é a filha mais nova. Sua irmã mais velha Helen Barbara (Peggy Moran) é uma adolescente e seu irmão Junior (Carl ‘Alfalfa’ Switzer) é pouco mais velho que ela. O papai Lemuel ganha dinheiro fazendo pó para preparo de pudim – e age como um cientista maluco enquanto mistura os ingredientes, em busca do pudim perfeito. O pudim perfeito pode não existir, mas pode ser anunciado – e é isso que o marketeiro de Lemuel, Jimmy Hanagan (Tom Brown) faz: ele inventa uma nova vitamina, chamada Zumf, que é extremamente benéfica e que só é encontrada nos pudins de Lemuel.

Gloria is the youngest kid. Her older sister Helen Barbara (Peggy Moran) is a teenager and her brother Junior (Carl 'Alfalfa' Switzer) is just a little older than her. Daddy Lemuel makes pudding powder for a living – acting like a mad scientist while mixing the ingredients in search of a perfect pudding. The perfect pudding may not exist, but you can certainly advertise it – and that's what Lemuel's advertising assistant, Jimmy Hanagan (Tom Brown) does: he makes up a new vitamin, called Zumf, that is extremely beneficial and can only be found at Lemuel's puddings.
As vendas do pó para pudim aumentam vertiginosamente – e a popularidade de Lemuel também. O rico vendedor Lester Cadwalader (Guy Kibbee) não fica feliz com isso, porque ele está do lado do atual e estúpido perfeito, e precisa arranjar um jeito de sabotar a campanha de Lemuel. Lemuel não é um homem muito esperto, e deverá contar com a ajuda de seus ancestrais para fugir da sabotagem e continuar a ter chance na eleição.

The sales of pudding powder skyrocket – and so does Lemuel's popularity. Rich shop owner Lester Cadwalader (Guy Kibbee) is not happy with it, because he is supporting the current stupid mayor for re-election and must find a way of sabotaging Lemuel's campaign. Lemuel is not a very bright man, and must count with the help of his ancestors to escape the sabotage and compete fairly in the election.
Por causa do tema da eleição, podemos dizer que “There’s One Born Every Minute” é como uma versão pobre de “Herói de Mentira” – se “Herói de Mentira” estivesse drogado. É um filme engraçado, com um final muito machista e diversos momentos esquisitos.

By the election theme, you can say “There's One Born Every Minute” is like a poor version of “Hail the Conquering Hero” - if “Hail the Conquering Hero” was in an acid trip. It's a humorous film, with a very sexist ending and many weird moments.

Elizabeth Taylor não tem muito que fazer. Ela é a irmã levada, que vive correndo e importunando o irmão. Ela é fofa e divertida, e nada mais. De fato, seu primeiro empregador, Universal Pictures, não sabia o que fazer com ela – um diretor de elenco disse que ela tinha “olhos velhos demais para uma criança” e Elizabeth achava que ela intimidava os adultos no set – e após apenas um filme o estúdio a dispensou.

Elizabeth Taylor doesn't do much. She is the brat sister, running around and teasing her brother. She is cute and funny, and nothing else. Yet, she is wasted in this film. Indeed, her first studio, Universal Pictures, didn’t know what to do with her – one casting director said she had “eyes too old for a child” and Elizabeth thought she intimidated the adults on set – and after only one film they let her go.
Elizabeth era perfeita para ser uma estrela de cinema desde a infância: com cabelos pretos e olhos violeta, ela era uma criança que se parecia com um anjo único e exclusivo. Seu pai, Francis, era dono de uma galeria de arte. Sua mãe, Sara Sothern, foi atriz da Broadway e deixou os palcos quando se casou. Ambos os pais eram americanos, mas Elizabeth e seu irmão mais velho nasceram em Londres. A família voltou para os EUA em abril de 1939, devido ao clima político tenso na Europa. Dois anos depois, Elizabeth deu início a sua carreira no cinema.

Elizabeth was tailor-made (HA!) to be a movie star since childhood: with black hair and violet eyes, she was a kid that resembled an unusual angel. Her father, Francis, was an art dealer and gallery owner. Her mother, Sara Sothern, was a Broadway actress who left the stage after getting married. Both were Americans, but Elizabeth and her older brother were born in London. The family left for the US in April 1939, because of the tense political situation in Europe. Two years later, Elizabeth started her screen career.
Elizabeth, mother Sara and brother Howard 
Em 1943, já contratada pela MGM, a pequena Elizabeth apareceria, mais uma vez sem receber créditos, em “Jane Eyre” como uma garota sofredora no orfanato, e como Priscilla em “A força do coração”. Seu maior sucesso viria no ano seguinte. Elizabeth Taylor dizia que sua infância acabou quando ela se tornou uma estrela, e ela com certeza sofreu um bocado durante a carreira – mas isto é uma história a ser contada em outra ocasião.

In 1943, already signed by MGM, little Elizabeth would appear, once again uncredited, in “Jane Eyre” as an ill-fated girl at the orphanage, and as Priscilla in “Lassie Come Home”. Her biggest success yet would come the following year. Elizabeth Taylor said that her childhood ended when she became a star, she certainly suffered during her career – but that’s another story.

This is my contribution to the Elizabeth Taylor blogathon, hosted by Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

The trouble with thrillers


Para mim, é difícil escolher um gênero cinematográfico favorito. Mas se eu tivesse que fazer esta escolha, certamente os filmes de suspense entrariam no TOP 3. Um bom suspense é capaz de prender sua atenção, fazer você refletir, surpreendê-lo e deixá-lo sem fôlego – e eu amo todas estas sensações. Infelizmente, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas não concorda comigo. Esta distinta instituição é a responsável pelo Oscar, e pela pequena quantidade de filmes que suspense que ganharam o prêmio nos últimos 90 anos, parece que a Academia tem algo contra o gênero.

It's difficult for me to choose my favorite movie genre, but if I really had to, thrillers probably would be in the TOP 3. A good thriller catches your attention, makes you think, surprises you, and leaves you on the edge of your seat – and I love all these sensations. Unfortunately, the Academy of Motion Picture Arts and Sciences doesn't agree with me. This distinguished institution is the one responsible for awarding the Oscars, and by the little amount of thrillers that have got the prize in the last 90 years, it looks like the Academy has some trouble with thrillers.
Vamos começar com um dos maiores esnobados do Oscar: Alfred Hitchcock. O celebrado diretor nunca ganhou uma estatueta competitiva, e apenas seu primeiro filme norte-americano, “Rebecca” (1940), ganhou como Melhor Filme. E sejamos francos: “Rebecca” é mais influenciado pelo estilo do produtor Selznick do que pelo diretor Hitchcock. O próprio Hitch foi indicado a melhor Diretor cinco vezes – por “Rebecca”, “Um Barco e Nove Destinos”, “Quando Fala o Coração”, “Janela Indiscreta” e “Psicose”, perdendo, respectivamente, para John Ford, Leo McCarey, Billy Wilder, Elia Kazan e novamente Billy Wilder. Nada mal.

Let's start with one of the most blatant Oscar snubs ever: Alfred Hitchcock. The celebrated director never won a competitive Oscar, and only his first American film, “Rebecca” (1940), won the Best Picture prize – and let us be frank: “Rebecca” has more of the Selznick trademark than of the Hitchcock touch. Hitch himself was nominated five times – for “Rebecca”, “Lifeboat”, “Spellbound”, “Rear Window” and “Psycho”, losing the awards, respectively, to John Ford, Leo McCarey, Billy Wilder, Elia Kazan and Billy Wilder once again. Not bad.
E o filme que hoje é considerado o melhor de todos os tempos – ao menos de acordo com a revista Sight and Sound – é um suspense, dirigido por Hitchcock e não foi indicado a um Oscar sequer. Estamos falando de “Um Corpo que Cai”, que estreou em 1958 e foi recebido de maneira fria pelos críticos da época. Olhando em retrospecto, a obra poderia ter sido indicada em diversas categorias: Filme, Diretor, Ator, Atriz e, em especial, Fotografia. Tudo isso em um ano dominado por “Gigi”, musical da MGM. O tempo foi bom para “Um Corpo que Cai”, e provou que a Academia estava errada mais uma vez.

And the film that is now considered the best ever made – at least according to the Sight and Sound poll – is a thriller, directed by Hitchcock and it was not nominated for a single Oscar. We're talking about “Vertigo”, released in 1958 and received with mixed reactions by critics then. Looking in retrospect, it could have been nominated in several categories: Picture, Director, Actor, Actress and, in special, cinematography. All this in a year dominated by the MGM musical “Gigi”. Time has been kind to “Vertigo”, and it proved the Academy wrong once more.
This scene inspired La La Land!
Obviamente, Hitchcock é o primeiro diretor em que pensamos quando falamos de suspense – afinal, ele é o mestre do suspense. Mas muitos outros diretores fizeram filmes de suspense antes e depois de Hitchcock, e tirando duas exceções, estes filmes foram ignorados pela Academia. As duas exceções são os vencedores do prêmio de melhor filme “O Silêncio dos Inocentes” (1991) e “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007).

Of course, Hitchcock is the main director we think about when we talk about thrillers – after all, he is the Master of Suspense. But many other directors made thrillers before and after Hitchcock, and with two exceptions, these movies were ignored by the Academy. The two exceptions are Best Picture winners “Silence of the Lambs” (1991) and “No Country for Old Men” (2007).
Aliás, algum filme noir teve sucesso no Oscar? Toda uma nova discussão poderia ter início aqui – afinal, noir é um gênero, um subgênero do suspense ou um movimento? Mas não podemos negar que noirs e thrillers têm muitas coisas em comum. Filmes como “O Falcão Maltês” (1941), “A Curva do Destino” (1945), “Gilda” (1946), “A Dama de Xangai” (1947), “O Segredo das Joias” (1951) e “A Marca da Maldade” (1958) também não se deram bem no Oscar.

By the way, as any noir been successful at the Oscars? A whole new discussion could begin debating whether noir is a genre, a thriller sub-genre or a movement, but we can't deny that many noir movies share characteristics with thrillers. Films like “The Maltese Falcon” (1941), “Detour” (1945), “Gilda” (1946), “The Lady from Shanghai” (1947), “The Asphalt Jungle” (1951) and “Touch of Evil” (1958) didn't fare well at the Oscars at all.
Não nos esqueçamos que um bom filme de suspense é geralmente feito de boas performances. E os atores e atrizes nos thrillers, mesmo maravilhando o público, nem sempre conquistam a simpatia da Academia. Um exemplo recente foi a performance de Isabelle Huppert como protagonista de “Elle”(2016) – um filme surpreendente que só foi memorável graças à presença e atuação dela. Isabelle perdeu o prêmio para Emma Stone, a estrela de musical que não canta nem dança.

Let's not forget that a good thriller is usually made of good performances. And the actors and actresses in thrillers, even mesmerizing the audience, didn't always conquest the Academy's sympathy. One recent example was Isabelle Huppert's performance as the lead of “Elle” (2016) – a suspenseful film that was only memorable because of Huppert's performance. She lost the award to Emma Stone, the musical star who can't sing or dance.  
Qual é o problema com o suspense, afinal? Quase todos os gêneros podem encontrar um lugar ao sol no Oscar, incluindo os prestigiados dramas, as charmosas comédias e os extravagantes musicais, mas o suspense fica de lado. Primeiro, muitos filmes de suspense têm baixo orçamento. No passado, os filmes de estúdios mais pobres nem tinham chance no Oscar. Hoje, é raro, mas filmes de relativo baixo orçamento podem obter indicações. “Corra” (2017), por exemplo, estreou em fevereiro, longe da temporada de premiações, custou apenas 4,5 milhões de dólares e foi tão poderoso que ficou marcado na mente dos votantes e foi indicado a quatro categorias.

What is the trouble with thrillers, after all? Almost all genres can have a place in the sun at the Oscars, including the prestige drama, the charming comedy and the lavish musical, but thrillers are left aside. For starts, many thrillers are made with a low budget. In the past, “poverty row” movies wouldn't even get near the Oscar. Today, it's rare, but low-budget movies can get nominations. “Get Out” (2017), for instance, was released in February, far away from the Oscar season, cost only US$ 4,5 millions, but was so powerful that it remained in the minds of voters and got four nominations.
Talvez os filmes de suspense sejam como um bom vinho: eles ficam melhores com o tempo. Quando os anos passam, podemos ver estes filmes de outra maneira e só ao apreciar a profundidade, potencial, influência e brilhantismo. Talvez a maneira de votar no Oscar seja contida, conservadora e apressada, e os votantes acabem escolhendo os filmes pela pressão e não pelos méritos. Ou talvez os críticos de cinema e os cinéfilos sejam as únicas pessoas sensatas neste planeta e isso significa que devemos fundar nossa própria Academia e termos nossa própria premiação – cheia de suspense, é claro.

Maybe thrillers are like fine wine: they get better with time. When more time passes, we can look at these movies and truly appreciate their depth, potential, influence, brilliance. Maybe the Oscar’s way of voting is tight, narrow-minded and too quick, and voters end up voting for movies and performances because of the hype, not because of their merits. Or maybe film critics and cinephiles are the only sane people in the world and we should start our own Academy. It’d be a thrill!

This is my contribution to the 31 Days of Oscar blogathon, hosted by Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O Vilão Ainda a Perseguia (1940): Buster Keaton e a paródia

The Villain Still Pursued Her (1940): Buster Keaton and parody

Ainda bem que os valores mudam. Na minha opinião, há progreso quando  há cada vez menos conservadorismo e condenação dos atos. A sociedade progride quando ela se leva menos a sério, e o comportamento das pessoas não precisa ser moldado e condenado por fortes e trágicas lições de moral. É fácil ver um sinal desta mudança: quando uma obra reverenciada, com muito drama e carga moral, é resgatada anos após seu sucesso inicial e parodiada.

Thank God values change. In my opinion, progress means becoming less and less conservative and condemning. Society progresses as it takes itself less seriously, and behaviors don't have to be shaped and condemned by strong and tragic moral lessons. It's easy to see one sign of this change: when a revered work of fiction, heavy on melodrama and morality, is taken years after its initial success and parodied.
Em 1940, Buster Keaton já havia feito todos os seus maiores sucessos. Ele estreou no cinema em 1917, fez curtas e longas-metragens, deixou sua marca na comédia, teve liberdade criativa, perdeu a liberdade criativa indo para a MGM, viu a desgraça e a morte de seu amigo Roscoe 'Fatty' Arbuckle, se casou, teve dois filhos, se divorciou, fez filmes falados, perdeu dinheiro e venceu o alcoolismo. Era uma ótima hora para Buster parodiar uma peça que defendia a abstinência.

By 1940, Buster Keaton had made all his greatest hits. He started in movies in 1917, did short and feature films, left a mark in slapstick comedy, had creative freedom, had his creative freedom taken when he went to MGM, saw the disgrace and death of his friend Roscoe 'Fatty' Arbuckle, got married, had two sons, divorced, starred in talkies, lost money and battled alcoholism. It was a very good time for him to parody a play that advocated temperance.
“O Vilão Ainda a Perseguia” é uma paródia da peça “The Drunkard” (O Bêbado), que estreou em 1844 – quase um século antes de o filme ser feito. A peça foi um sucesso, e defendia a temperança – isto é, a abstinência de álcool. Este tema já era motivo de piada havia alguns anos,  quando a peça foi parodiada por W.C. Fields no filme “No Tempo do Onça” (1934). E se você ainda não está convencido de que “O Vilão Ainda a Perseguia” é uma comédia, esta é a mensagem no começo do filme:

“The Villain Still Pursued Her” is a spoof of the play “The Drunkard”, that opened in 1844 – almost one hundred years before the film was made. The play was a big hit, and advocated temperance – that is, abstinence. This theme was already laughable a few years before, when “The Drunkard” was spoofed as the W.C. Fields comedy “The Old Fashioned Way” (1934). And if you're not yet convinced of the comic nature of “The Villain Still Pursued Her”, here it is the opening message:
O filme de 1940 é sobre as atitudes vilanescas de Silas Cribbs (Alan Mowbray) para destruir a vida de Edward Middleton (Richard Cromwell). Por quê? Bem, apenas porque ele odeia Middleton. Cribbs quer levar Middleton à desgraça  ao torná-lo um ébrio. A única pessoa que pode salvar Middleton é seu amigo William (Keaton).

The plot of the 1940 movie conveys Silas Cribbs's (Alan Mowbray) villainous acts to destroy Edward Middleton's (Richard Cromwell) life.Why? Well, just because Cribbs hates Middleton. Cribbs wants to drive Middleton to disgrace by making him a drunkard. The only one who can save Middleton is his friend William (Keaton).
O título do filme vem do curta-metragem silencioso “E o Vilão Ainda a Perseguia”, de 1906, e também de uma animação de 1937 cujo vilão se aprece muito com Cribbs. Você pode esperar muitas paródias da era Eduardiana: a linguagem teatral, complexa e melodramática e os gestos exagerados, por exemplo. É interessante observar que Buster Keaton interpreta o cara sério – um papel que combina perfeitamente com seu rosto imutável.

The title of the film comes from the silent short “And the Villain Still Pursued Her”, released in 1906, and also a 1937 cartoon whose villain looks a lot like Cribbs. You can expect a lot of spoofs coming from the Edwardian era: the complex and melodramatic theater language and the exaggerated gestures, for instance. It's interesting to note that Buster Keaton plays the straight man here – a role that suits his stone face perfectly.
Os atores frequentemente olham para a câmera e dizem algo em tom confidencial para o público. Cribbs foi a inspiração para outros vilões vindos do cinema mudo: Snidely Whiplash, do desenho “Dudley Certinho”, e o professor Fate do filme “A Corrida do Século” (1965). Ao contrário do que se pensa, vilões com capas escuras e cartolas pretas que amarravam donzelas à linha do trem NÃO  eram comuns no cinema mudo.

The actors often look at the camera and say something in a confidential tone to the audience. Cribbs was the inspiration for other silent film-like villains: Snidely Whiplash, from the cartoon “Dudley Do-Right”, and Professor Fate from the movie “The Great Race” (1965). Contrary to what is wildly believed, villains with dark capes and black top hats that tied damsels to tracks were NOT common characters in silent movies.
Foi interessante perceber que Buster não menciona este filme ou sua filmagem em sua autobiografia, “My Wonderful World of Slapstick”. Ele pula direto de seu trabalho como criador de gags para a MGM para seu sucesso na televisão.

Interestingly enough, Buster doesn't mention this movie or its production in his autobiography, “My Wonderful World of Slapstick”. He jumps from his work as a gag advisor at MGM directly to his newfound success on TV.
Buster Keaton estava acostumado com paródias. Só em 1923 ele fez duas: o curta-metragem “The Frozen North”, parodiando os westerns de William S. Hart, e seu primeiro longa-metragem, “A Antiga e a Moderna”, parodiando o épico “Intolerência” (1916) de D.W. Griffith. O autor Wes Gehring vai mais além e aponta o clímax de “Amores de Estudante” (1927) como uma paródia de “The Lonely Villa” (1909), de Griffith.

Buster Keaton was no stranger to parodies. In 1923 alone he did two: the two-reeler “The Frozen North”, spoofing the William S. Hart westerns, and his first feature, “The Three Ages”, spoofing D.W. Griffith's epic “Intolerance”,  from 1916. Author Wes Gehring goes further in his book “Parody as a Film Genre: 'Never Give a Saga an Even reak'”, and says that the climax of “College” (1927) is a spoof of Griffith's “The Lonely Villa” (1909).
Erich von Stroheim was also parodied 
in "The Frozen North"!
Visto for a do contexto, “The Frozen North” é uma ovelha negra na filmografia de Keaton. Ele tem um tom mais melodramático – algo que é entendido quando descobrimos que se trata de uma paródia. William S. Hart foi um astro de cinema incrivelmente popular, e em 1923 os frequentadores dos cinemas prontamente reconheceram os maneirismos dele assim que Keaton começou a imitá-lo em “The Frozen North”. Tudo grita William S Hart: o chapéu, as roupas, as armas, o tom, o cigarro sendo enrolado com uma mão só – e, claro, o choro.

Seen without context, “The Frozen North” is a very, very odd movie in Keaton's filmography. It has a more melodramatic feeling – and one that is perfectly understood when we learn that it's a spoof. William S. Hart was an incredibly popular film star, and the 1923 moviegoing audience quickly recognized his mannerisms once Keaton started imitating him in “The Frozen North”. Everything screams William S. Hart there: the hat, the clothes, the guns, the tone, the cigarette being rolled with only one hand – and, of course, the crying.
William S. Hart levava sua persona cinematográfica muito a sério, e não ficou feliz quando durante a sequência mais tensa e hilária de “The Frozen North”, Keaton parodiu o hábito do astro de chorar nas telas. Hart pensava que o choro tornava seu caubói mais humano, e não deveria ser usado para arrancar risadas. O resultado foi que Hart não falou com Buster Keaton por dois anos após o filme ser feito.

William S. Hart took himself and his screen persona seriously, and wasn't happy when, during the most tense and hilarious sequence of “The Frozen North”, Keaton spoofed his habit of crying onscreen. Hart thought this made his cowboy human, and it shouldn't be used as a source for laughs. The result is that Hart didn't speak with Keaton for two years after “The Frozen North” premiered.
Se Griffith tratou da intolerância em quatro períodos diferentes em seu épico imenso, Keaton falou de amor em três épocas em “A Antiga e a Moderna”. Apaixonar-se, paquerar e desafiar um rival na idade da pedra, na Roma antiga e nos tempos modernos tinha muitas semelhanças – incluindo uma boa quantia de comédia física e exibição atlética. Pelo que eu sei, Griffith não se zangou com esta paródia.

If Griffith dealt with Intolerance in four different time periods in his huge epic, Keaton talked about love in three different time periods in “The Three Ages”. Falling in love, courting and defying romantic rivals  in the Stone Age, Ancient Rome and in modern days had many similarities – including a good amount of physical comedy and athletic exhibition. As far as I'm concerned, Griffith didn't become sour at Keaton for spoofing his work.
É curioso notar que “A Antiga e a Moderna”, 'The Frozen North" E  “O Vilão Ainda a Perseguia” foram todos dirigidos por Edward F. Cline. Com dois veteranos do slapstick juntos, tivemos um truque gratuito no filme de 1940: uma pequena guerra de tortas – sem qualquer razão. Keaton não gostava de torta na cara, que considerava bobo e sem imaginação, e seu personagem de fato não é atingido por nenhuma torta.

Interestingly  enough, both “The Three Ages”, "The Frozen North" and “The Villain Still Pursued Her” were directed by Edward F. Cline. With two slapstick veterans working together, we have a free slapstick trick in the 1940 movie: a brief pie fight – for no reason at all. Buster Keaton didn't like pie fights, considering them cheap and stupid, and his character here is never hit by a single pie.
Como Keaton diz em sua autobiografia, você só pode parodiar sucessos – e nos livro ele usa a palavra 'burlesco' como sinônimo de 'paródia'. De fato, se você fizer piada com algo que seu público não conhece, os esforços são em vão. Além disso, uma paródia é um elogio: você só copia pessoas e obras que te inspiram. Nesse sentido, “The Frozen North”, “A Antiga e a Moderna” e “O Vilão Ainda a Possuía” são todos eficazes, cada um à sua maneira, como paródias que ora homenageiam, ora ridicularizam.

As Keaton says in his autobiography, you can only spoof successes – in the book he uses the word 'burlesque' as a sinonym of 'spoof'. Indeed, if you make fun of something your public doesn't know, all efforts fall flat. Besides that, a parody is a compliment: you often emulate people and works of art that inspire you. In this sense, “The Frozen North”, “The Three Ages” and “The Villain Still Pursued Her” are all effective, each one in its own way, as parodies that sometimes pay tribute, and sometimes are ridicule.

This is my contribution to the Fourth Annual Buster Keaton blogathon, hosted by Lea at Silent-ology.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Mary Pickford e Mack Sennett: quando os canadenses se encontram

Mary Pickford and Mack Sennett: when Canadians meet

Quando você está em um país estrangeiro, qualquer pessoa que venha do mesmo lugar que você é visto como um aliado. Sempre que brasileiros se encontram no exterior, por exemplo, há sorrisos e risadas e, se eles passam tempo suficiente juntos, tudo acaba em festa. Por isso eu imagino que encontrar outro estrangeiro tentando ganhar a vida nos primeiros tempos da indústria do cinema deve ter sido uma alegria para a jovem Mary Pickford.

When you are in a foreign country, any person who comes from the same place as you is seen as an ally. Whenever Brazilians meet abroad, for instance, there are smiles and laughs and, if they spend enough time together, also a party. That’s why I imagine finding a fellow foreigner trying to earn a living in the early days of film industry must have been a joy for young Mary Pickford.
On the left, Mary and Mack, 1911
A primitiva indústria do cinema estava cheia de estrangeiros. Muitos diretores e, em especial, produtores que alcançaram sucesso em Nova York e em Hollywood não nasceram nos Estados Unidos. Muitas estrelas de cinema também foram importadas – muitas do Canadá, país que nos deu Norma Shearer, Marie Dressler, Walter Huston e muitos outros. Na verdade, a ‘namoradinha da América’ era canadense – e o rei da comédia em Hollywood também.

The early film industry was full of foreigners. Many directors and, in special, producers who made it big in New York studios and in Hollywood were note born in the USA. Several film stars were also imported – notably from Canada, the land that gave us Norma Shearer, Marie Dressler, Walter Huston and many more. To be fair, America’s sweetheart was Canadian – and also Canadian was the King of Comedy in Hollywood.
Mary Pickford, in the middle, in Ramona, 1910
Gladys Louise Smith nasceu em Toronto em 1892. Michael Sinnott nasceu em Québec em 1880. Vinda de uma família pobre, Gladys estreou no teatro ainda criança, e viajou pelos EUA atuando e fazendo disso o sustento de sua família. Ela mudou o nome para Mary Pickford por sugestão de um produtor da Broadway em 1907. Em 1909, ela fez seu primeiro filme no estúdio Biograph, comandado por D.W. Griffith.

Gladys Louise Smith was born in Toronto in 1892. Michael Sinnott was born in Québec in 1880. Coming from a poor family, Gladys started appearing in theater plays as a kid, and touring the US in the pursuit of money. She changed her name to Mary Pickford persuaded by a Broadway producer in 1907. In 1909, she made her first film at the Biograph studio, run by D.W. Griffith.
Michael era filho de um dono de pensão. Ele vivia com conforto, mas se mudou para Connecticut quando tinha 17 anos. Quando vivia em Massachusetts, ele considerou se tornar cantor de ópera, mas fizeram-no desistir da ideia. Já em Nova York, ele começou a trabalhar para o estúdio Biograph, onde ele exercia várias funções – incluindo montagem de cenários, direção e até atuação.

Michael was the son of an innkeeper. He lived comfortably, but moved to Connecticut when he was 17. While living in Massachusetts, he thought about becoming an opera singer, but was talked out of the idea. Once in New York, he started working at Biograph studios, where he had several jobs – including set design, director and even actor.
Naqueles tempos primitivos, não havia papel pequeno demais, e todos iam para frente das câmeras vez ou outra – até o próprio Griffith estreou como ator em um curta de Edwin Porteer. Grandes estrelas eram reconhecidas, mas não creditadas – o público não sabia o nome de seus ídolos – e uma carreira poderia ser construída de forma incrivelmente rápida.

Back in those primitive times, there were no small roles, and everybody stepped in front of the camera sometimes – even Griffth himself debuted as an actor in a short film by Edwin Porter. Big stars were recognized, but not advertised – meaning the public didn’t know their names – and a career could be build incredibly quick.
Henry B. Walthall and Mary Pickford, Wilful Peggy, 1910
O site IMDb pode não ser a fonte mais confiável, mas é a mais completa a que temos acesso. De acordo com o site, Mary Pickford fez 248 filmes. Mack Sennett atuou em 363 filmes. Fazendo a interseção das filmografias – com um programa de computador, veja o resultado abaixo – eu descobri que eles apareceram juntos em 76 filmes entre 1909 e 1911. É um número impressionante, mas plausível quando consideramos que todos estes filmes eram curtas-metragens – a maioria deles de 15 minutos de duração, finalizados muito rapidamente.

IMDb may not be the most reliable source, but it is the most complete we have. According to the site, Mary Pickford appeared in 248 movies. Mack Sennett was an actor in 363. I intersected their filmographies – with a computer program, see below – and found out they appeared in 76 films together between 1909 and 1911. This sounds impressive, but plausible once we think that all of those films were shorts – most of them one-reelers that were shot very quickly.
Se a estimativa de que cerca de 75% de todos os filmes mudos estão perdidos for verdade, poderíamos esperar que 19 das colaborações entre Sennett e Pickford ainda existiriam – e todas estariam em domínio público. Eu fiquei boquiaberta quando encontrei 27 dos 76 filmes disponíveis completos no YouTube – mais os fragmentos de outros dois filmes. Eles podem ser encontrados nesta playlist.

If the estimate that roughly 75% of all silent movies are lost is true, we could expect to find 19 of the Sennett-Pickford collaborations still extant – and all of them would be in public domain. I was speechless when I found 27 of the 76 movies fully available on YouTube – plus the fragments of other two movies. They can be found in this playlist.
Mary and Mack in "An Arcadian Maid", 1910
Muitos dos filmes foram preservados pelo Museu de Cinema EYE na Holanda. Nestes curtas-metragens, é interessante notar que estrelato ainda não era um conceito bem estabelecido no cinema: em um filme, como “O Usurário” (1909), Mack Sennett tinha um papel importante, e em um filme posterior, como “Ramona” (1910), protagonizado por Pickford, ele fazia apenas uma participação como extra. Às vezes Mack também tinha uma jornada dupla ou tripla como roteirista e assistente de direção.

Many of these movies were preserved at the EYE Film Museum in Netherlands. In these short films, it’s interesting to notice that stardom wasn’t something established in the film world yet: in one movie, like “The Usurer” (1909), Mack Sennett could have an important role, and in a later movie, like “Ramona” (1910), starred by Pickford, he had just a bit part. Sometimes Mack also had a double or triple journey as writer and assistant director.
The Sealed Room, 1909
Mary Pickford deixou a Biograph para se juntar ao IMP, estúdio de Carl Laemmle, em 1911. Mack Sennett continou trabalhando na Biograph, com mais e mais liberdade criativa, e em 1912 contracenou com outra grande atriz do cinema mudo, Mabel Normand. Ele e Mabel deixaram a Biograph logo depois, e Mack fundou os estúdios Keystone – onde comediantes como Charles Chaplin, Harold Lloyd, Roscoe ‘Fatty’ arbuckle e Louise Fazenda estrearam no cinema.

Mary Pickford left Biograph for IMP, Carl Laemmle’s studio, in 1911. Mack Sennett continued working at Biograph, with more and more creative freedom, and in 1912 shared the screen with another great silent actress, Mabel Normand. He and Mabel left Biograph soon after, and Mack founded Keystone Pictures Studios – where comedians like Charles Chaplin, Harold Lloyd, Roscoe ‘Fatty’ Arbuckle and Louise Fazenda debuted in films.
O estúdio que primeiro empregou Mary Pickford e Mack Sennett, a Biograph, fechou em 1915, quando os longas-metragens ganharam popularidade. Mack Sennett se tornou produtor independente de comédias em 1917. Mary Pickford trabalhou em muitos estúdios, como Famous Players e First National Pictures, e em 1919 foi uma das fundadoras da United Artists. Pickford e Sennett nunca mais trabalharam juntos de novo – mas receberam suas estrelas na Calçada da Fama no mesmo dia, oito de fevereiro de 1960, alguns meses antes da morte de Mack.

Mary Pickford’s and Mack Sennett’s first studio employer, Biograph, closed in 1915, when feature films became popular. Mack Sennett became an independent slapstick producer in 1917. Mary Pickford worked for many studios, like Famous Players and First National Pictures, and in 1919 was one of the founders of United Artists. Pickford and Sennett never worked together again – but they got their stars on the Hollywood Walk of Fame on the same day, February 8th, 1960, a few months before Mack’s passing.

This is my contribution to the O’Canada blogahon, hosted by Ruth and Kristina at Silver Screenings and Speakeasy.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Almas Rebeldes / Strange Cargo (1940)

Clark Gable e Joan Crawford fizeram oito filmes juntos. O primeiro  deles foi em 1931, e o último em 1940. “Almas Rebeldes” é este último filme da parceria, um filme que veio logo depois de muito sucesso para ambos: em 1939 Gable fez um pequeno filme chamado “E o Vento Levou...” e Crawford foi uma das estrelas de “As Mulheres”. “Almas Rebeldes” foi, para as duas estrelas, uma grande mudança em relação à pompa de seus trabalhos pregressos.

Clark Gable and Joan Crawford made eight films together. Their first pairing was in 1931, and their last in 1940. “Strange Cargo” is this last film they made together, and it came following successes from both: in 1939, Gable was in a little film called “Gone with the Wind” and Crawford was one of the many stars in “The Women”. “Strange Cargo” was a complete change from the glamour and pomp for the two stars.
Apenas pessoas esquecidas vivem na Guiana – um local que, no mundo do cinema, se parece muito com a África de “O Diabo Riu por Último” (1953). Há uma grande prisão lá, para 'homens que perderam as esperanças'. E as mulheres que trabalham no bar local são imigrantes que fariam qualquer coisa para sobreviver. Mas há uma regra: mulheres e prisioneiros não podem ser vistos juntos. É por isso que o prisioneiro Verne (Clark Gable) representa encrenca para Julie (Joan Crawford). O primeiro contato dele é mias para violento que para romântico, e ele só pensa em uma coisa: em fugir.

Only forgotten people live in Guiana – a place that, in the film world, looks a lot like the Africa we see in 1953's “Beat the Devil”. There is a big prison there, for 'men who have lost hope'. And the women who work in the local bar are immigrants who would do anything to survive. But there is a rule: women and inmates can't be seen together. That is why prisoner Verne (Clark Gable) represents trouble to Julie (Joan Crawford). His first approach is more violent than romantic, and he only thinks of one thing: escaping.
Verne tenta fugir pela primeira vez no filme depois de ir trabalhar no porto carregando e descarregando navios. Ele entra no bar de Renard, onde Julie, que ele havia visto mais cedo naquele mesmo dia, trabalha. Enquanto ele se esconde no quarto dela, Julie conta para os guardas o paradeiro de Verne. Ele é recapturado, mas Julie foi encontrada com ele, e por isso deve sair da colônia em até 12 horas.

Verne makes his first attempt to escape in the movie by running away after he goes to the harbor to load ships. He ends up in Renard's bar, where Julie, who he has seen earlier that day, works. While he is hiding in her room, Julie tells the guards where he is. Verne is recaptured, but Julie was found with him, and thus she must leave the colony within 12 hours.
De volta à prisão, Verne se envolve em um plano de fuga com outros oito homens. Seu inimigo, Moll (Albert Dekker), tenta impedir que ele vá com o grupo, mas Verne consegue escapar e segue um mapa à procura da liberdade prometida. Ao mesmo tempo, Julie recusa a oferta do Monsieur Pig (Peter Lorre), que quer sair da colônia com ela, mas aceita a oferta de Marfeau (Bernard Nedell) para ir embora com ele. Obviamente, Marfeau não quer ajudar – ela apenas quer o corpo de Julie só para si.

Back to the prison, Verne gets involved in a nine-men plan to escape. His nemesis, Moll (Albert Dekker), tries to prevent him from going with the group, but Verne manages to escape anyway, and follows a map in search for the promised freedom. At the same time, Julie has refused Monsieur Pig's (Peter Lorre) offer to leave the colony with him, but accepted Marfeau's (Bernard Nedell) offer to leave with him. Of course, Marfeau doesn't want to help – he only wants to have Julie's body for himself.
O agora reduzido grupo de fuga se divide em dois, e dois trios enfrentam os obstáculos da selva. É óbvio que com o tempo surjam brigas dentro dos grupos e alguns fugitivos pereçam. Neste sentido, o filme me fez lembrar o pouco conhecido filme brasileiro de aventura “Arara Vermelha” (1957), sobre um grupo que rouba um diamante e precisa atravessar a selva para escapar com a pedra.

The now reduced escape group is divided by two, and two trios face the hardships of the jungle. Of course, with time there are fights inside the group, and some of the runaways perish. In this sense, the movie reminded me of little-known Brazilian adventure film “Arara Vermelha” (1957), about a group that steals a diamond and has to cross the jungle to escape with the stone.
Os coadjuvantes são ótimos. Peter Lorre fala com uma voz suave, porém aterrorizante. Ian Hunter interpreta o misterioso e espiritualizado Crambeau. Em um espaço pequeno e apertado, a câmera foca de baixo para cima em Hessler (Paul Lukas), embora a mesma câmera focalize outros prisioneiros de frente. Com este recurso, Hessler parece mais sombrio e perigoso. É um ótimo efeito que diz muito sobre seu caráter. Aliás, nós só ficamos sabendo qual crime levou Hessler à prisão. Para os outros prisioneiros, a razão para estar lá não importa.

The supporting characters are amazing. Peter Lorre speaks with a suave yet terrifying voice. Ian Hunter plays the mysterious and spiritualized Crambeau. In a tiny, tight space, the camera looks from down to up to Hessler (Paul Lukas), even though the other inmates are shot with a more conventional camera angle. This way, Hessler looks more somber, more dangerous. It's a great effect that says a lot about his character. By the way, we only get to know Hessler's crime. For all the other inmates, the reason for being there doesn't matter.
Nenhuma palavra precisa ser dita para que saibamos que Julie é uma prostituta – aliás, a outra garota que vemos acompanhando Julie quando Joan Crawford aparece na tela pela primeira vez é interpretada pela ex-atriz de cinema mudo Betty Compson. Assim como em “Rain” (1932), Crawford é visceral e simples na interpretação de Julie, e tem alguns belos momentos nos quais seu rosto sem maquiagem é focado pela câmera. Dá para imaginar como é ter apenas o mar e o rosto de Joan Crawford na sua frente?

No word has to be said so we know that Julie is a prostitute – by the way, the other girl who is seen accompanying Julie when Crawford first appears on screen is played by former silent sweetheart Betty Compson. Like in “Rain” (1932), Crawford is raw and simple when she plays Julie, and has some beautiful moments in which her make-up free face is focused by the camera. Can you imagine having only the sea and Joan Crawford's face in front of you?
O diretor Frank Borzage tratou de espiritualidade em muitos de seus filmes. Aqui, o tema mostrou ser um problema: a Legião Católica de Decência condenou o filme, causando boicotes em muitas cidades e a completa proibição da exibição de “Almas Rebeldes” em alguns lugares. Eu não acho que o filme 'zombe da Bíblia', como a Legião alegou, pelo contrário: a maneira como o filme lida com redenção é linda e inspiradora.

Director Frank Borzage dealt with spirituality in many of his films. Here, the theme proved to be a problem: the Catholic Legion of Decendy condemned the film, causing boycotts in many cities and the complete censorship of “Strange Cargo” in some places. I don't see the film 'making fun of the Scriptures' as the Legion alleged, on the contrary: the way the film deals with redemption is beautiful and inspiring.
Crambeau (Ian Hunter)
Com uma grande direção de arte – três palavras: selva no estúdio – e muitos personagens interessantes, “Almas Rebeldes” é um filme muito bom. É uma pena que a Legião da Decência tenha impactado negativamente sua performance nas bilheteria. “Almas Rebeldes” pode não ser uma obra-prima, mas é uma mistura curiosa de aventura e espiritualidade, e um filme que merece ser conhecido por mais gente.

With a great art direction – two words: studio jungle – and so many interesting characters, “Strange Cargo” is a very good film. Too bad the Legion of Decency impacted its box office negatively. “Strange Cargo” may not be a masterpiece, but it is a curious blend of adventure and spitituality, and deserves to be better known.


This is my contribution to the Clark Gable blogathon, hosted by Michaela at Love Letter to Old Hollywood.
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