} Crítica Retrô: No País das Amazonas (1922)

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Friday, February 28, 2025

No País das Amazonas (1922)

 

O primeiro documentário de longa-metragem - de cinco ou mais rolos de filme - foi “Nanook, o Esquimó” de 1922, certo? ERRADO. Quatro anos antes, um longa documentário foi gravado no Brasil, “Amazonas - O maior rio do mundo”, por um português chamado Silvino Santos, que teve seu filme roubado pelo distribuidor europeu, que passou a declarar que o filme era seu. E no mesmo ano em que obtivemos Nanook, Santos mais uma vez filmou o Amazonas, maior estado do Brasil.

The first feature-length - five reels or more of film - documentary was 1922’s “Nanook of the North”, right? WRONG. Four years prior a feature-length documentary was shot in Brazil, “Amazonas - The biggest river in the world”, by a Portuguese man named Silvino Santos, who had his film stolen by its distributors in Europe, who then claimed the movie was their own. And in the same year that gave us Nanook, Santos once again filmed the Amazonas, the biggest state in Brazil.

A capital do estado, Manaus, é ostensivamente mostrada no começo. Muitas atrações turísticas desfilam diante de nossos olhos e, como eu ainda não estive em Manaus, não tenho ideia de quantas ainda estão de pé. O Theatro Amazonas (abaixo), entretanto, é uma atração que eu sei que ainda está aqui.

The capital of the state, Manaus, is ostensibly shown in the beginning. Many tourist attractions parade before our eyes and, since I haven’t been there yet, I have no idea how many still stand. The Amazonas Theater (below), however, is an attraction I know is still there.

A natureza tem um papel importante no documentário. Vemos uma onça, um tamanduá, preguiças, lontras, jacarés, macacos, aves, peixes, borboletas - “o Amazonas é o paraizo (sic) das borboletas”, uma cartela de texto nos conta - e até alguns infelizmente mortos peixes-boi - na verdade, nos ensinam a pescar estes animais majestosos. A pesca do peixe-boi também foi exibida no documentário de 1918 e teve consequências: o peixe-boi da Amazônia é hoje considerado uma espécie vulnerável. Outro animal ameaçado, a tartaruga, é brevemente mostrado botando ovos, com pessoas mais tarde recolhendo os ovos para consumo próprio, o que acelerou o declínio da espécie. A retirada de penas de garças é condenada no filme, o que não acontece com os outros crimes ambientais.

Nature plays a big role in the documentary. We spot a jaguar, an anteater, sloths, otters, alligators, monkeys, birds, fish, butterflies - “the Amazonas is the paradise of butterflies”, a title card tells us - and even some unfortunately dead manatees - in fact, we’re taught how to hunt these majestic animals. The hunt of the manatee was also exhibited in the 1918 documentary and had its consequences: the manatee from the Amazon is today considered a vulnerable species. Another threatened animal, the turtle, is briefly shown laying eggs, with people then harvesting the eggs for consumption, which accelerated the species’s decline. The extraction of the feathers in herons is condemned by the movie, but not these other environmental crimes.

Todas as atividades econômicas do Amazonas têm um bom tempo de tela: a caça e a pesca, extração de castanhas, borracha e madeira, plantação de guaraná, criação de gado. É bacana notar que muitas mulheres são empregadas nessas atividades, especialmente descascando castanhas e a fruta do guaraná.

All the economic activities of the Amazonas are given a good amount of screen time: hunting and fishing, nut, rubber and wood extraction, guaraná plantation, cattle. It’s worth noting that many women are employed in these activities, especially taking the nuts out of their shells and peeling the guaraná fruit.

Há índios, tratados com o já esperado exotismo. O interesse ainda é atual, pelos índios “não-civilizados”. Rituais indígenas também são de interesse para os documentaristas, e há até um aviso sobre “índias bastante decoradas”. Em tempos recentes, os índios do Amazonas vêm sendo ameaçados de ficar sem casa - ou melhor, sem terra - por causa do absurdo Marco Temporal.

There are Indians, treated with the expected exoticism. The interest is one that still exists, about “non-civilized” Indians. Indian rituals are also of interest to the documentarists, and there is even a warning for “female Indians very adorned”. In recent times, the Indians in Amazonas were threatened to become homeless - or rather landless - because of the absurd Marco Temporal.

Mesmo antes de o presidente Washington Luís ser eleito, seu lema “governar é construir estradas” era sentido no Amazonas. Não são mostradas apenas estradas em travelogues, mas também estradas de ferro que cruzam a selva. Os documentaristas viajam de trem, carro e navio.

Even before president Washington Luis was elected, his motto “to govern is to build roads” was felt in the Amazonas. Not only roads are shown in travelogues, but also train tracks that crossed the jungles. The documentarists travel by train, car and boat.

Recentemente vêm acontecendo conversas sobre exploração de petróleo na Amazônia. Muito do que é mostrado no documentário foi, sem dúvida, destruído nos últimos 100 anos e muito mais pode ruir com essa terrível ideia. O Greenpeace alertou que não é viável extrair petróleo da Amazônia e que a vida dos animais e das comunidades indígenas ao redor pode ser afetada e, ainda pior, destruída.

Recently there have been talks about drilling oil in the Amazon. Much of what is shown in the documentary was without a doubt destroyed in the past 100 years and much more can be destroyed with this terrible idea. Greenpeace warned that it’s not viable to drill oil in the Amazon and the lives of animals and Indian communities nearby could be affected and, even worse, destroyed.

O diretor Silvino Santos nasceu em Portugal em 1886 e faleceu em Manaus em 1970. Sua primeira experiência com cinema foi um filme feito sob encomenda para o empresário Julio Cezar Araña, que estava sendo acusado de usar trabalho escravo em sua propriedade e queria sua defesa feita pelo cinema. O filme foi rodado em 1912 mas os negativos foram perdidos num naufrágio dois anos depois. Quando seu filme de 1918 foi roubado e rebatizado de “Maravilhas da Amazônia”, Silvino tentou recriá-lo quase quadro a quadro e o resultado, um filme bem diferente, foi “No País das Amazonas”. O patrocinador do documentário, Joaquim Gonçalves de Araújo, é comumente creditado como co-diretor.

Director Silvino Santos was born in Portugal in 1886 and died in Manaus in 1970. His first experience with cinema was a film made for hire for the entrepreneur Julio Cezar Araña, who was being accused of using slaves in his property and wanted his defense to be made via cinema. The film was shot in 1912 but the negatives were lost in a shipwreck two years later. When his 1918 film was stolen and relabeled as “Wonders of the Amazon”, Silvino tried to recreate it almost frame by frame, and the result, a very different movie, was “No País das Amazonas”. The sponsor of the documentary, Joaquim Gonçalves de Araujo, is often credited as co-director.

Como aconteceu quando eu assisti à “Amazonas - O maior rio do mundo”, eu fiquei muda e hipnotizada com as imagens na real. Eu me lembrei do que minha mãe sempre diz quando assiste a filmes antigos: “todas essas pessoas já morreram, não é?”. Considerando que o documentário foi feito há mais de 100 anos, a resposta é sim. Mas esta é a beleza do cinema: as pessoas podem ser imortalizadas ao participarem de um filme. E nós podemos viajar, algumas vezes muito longe e outras dentro do nosso próprio país, sem sair de casa.

Like it happened when I watched “Amazonas - The biggest river in the world”, I was speechless and hypnotized by the images on the screen. I was reminded of what my mom always says when watching old movies: “all these people are dead, aren’t they?”. Considering that the documentary was made over 100 years ago, the answer is yes. But this is the beauty of cinema: people can be immortalized by being in a movie. And we can travel, sometimes far away and sometimes in our own country, without leaving our houses.

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