} Crítica Retrô: Technicolor

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Saturday, November 9, 2024

Uma Mulher do Outro Mundo (1945) / Blithe Spirit (1945)

 Uma discussão recente causou frisson entre os cinéfilos do Twitter porque um usuário disse que filmes antigos eram displicentes quanto ao uso das cores. Esta pessoa poderia mudar sua visão caso assistisse a qualquer filme em Technicolor feito na Inglaterra nos anos 1940 – os mais notáveis exemplos sendo os filmes de Powell e Pressburger “Narciso Negro” (1947) e “Os Sapatinhos Vermelhos” (1948). De 1945 vem outra maravilha do Technicolor: “Uma Mulher do Outro Mundo”, baseado na obra de Noël Coward.  

A recent discussion caused frisson on Film Twitter because an user said that old movies didn’t put an effort when the issue was color. This person could have his/her mind changed if he/she watched any Technicolor marvel made in 1940s England – the most notorious examples being Powell and Pressburger’s movies such as “Black Narcissus” (1946) and “The Red Shoes” (1948). From 1945 comes another Technicolor marvel: Noël Coward’s “Blithe Spirit”.

Charles Condomine (Rex Harrison) é um autor prestes a iniciar a escrita de seu novo livro – mas primeiro ele precisa fazer uma pesquisa. Ele e a esposa Ruth (Constance Cummings) convidam para jantar um casal de amigos e também uma médium chamada Madame Arcati (Margaret Rutherford). O objetivo é ver que o transe da Madame não passa de charlatanismo, mas algo acontece: a primeira esposa de Charles, Elvira (Kay Hammond), que havia morrido sete anos antes, é invocada. Mas apenas Charles pode vê-la e ouvi-la!

Charles Condomine (Rex Harrison) is a writer ready to start his new book – but first he needs to do some research. He and his wife Ruth (Constance Cummings) invite over for dinner a couple of friends and also a psychic named Madame Arcati (Margaret Rutherford). The goal was to see how Madame’s trance was nothing but charlatanism, but something happens: Charles’ first wife, Elvira (Kay Hammond), who died seven years before, is summoned. But only Charles can see and hear her!

A materialização de Elvira, obviamente, traz todo tipo de problema. Ao falar com ela, é como se Charles dissesse ofensas para Ruth. Quando Elvira começa a interagir com os objetos da casa, Ruth se apavora, como seria esperado na presença de um fantasma. E que fantasma: com pele pálida e unhas e lábios de um vermelho vivo, Elvira deveria aparecer em todas as listas de mais memoráveis fantasmas do cinema.

Elvira’s materialization, of course, brings all sorts of troubles. When talking to her, Charles is perceived as saying offenses to Ruth. When Elvira starts interacting with the things in the house, Ruth freaks out, as one does in the presence of a ghost. And what a ghost: with pale skin and bright red lispstick and nail polish, Elvira should figure in all the lists of most memorable ghosts of cinema.

É interessante notar que muito do diálogo entre Charles e Ruth acontece ao redor da mesa, conforme consomem suas refeições. Isto destaca as origens teatrais de “Uma Mulher do Outro Mundo” e também adiciona a empregada Edith (Jacqueline Clarke) à ação.

It’s interesting to notice that much of Ruth and Charles’ dialogue happens around the table where they are sharing meals. This highlights the theatrical origins of “Blithe Spirit” while also adding the maid Edith (Jacqueline Clarke) to the action.

O visual de Elvira foi criado misturando roupas e maquiagem verde-fluorescente com truques de iluminação – e os efeitos especiais ganharam um Oscar. Kay Hammond literalmente brilha como Elvira, um papel que foi pensado para Myrna Loy – e ela escreveu que havia “nascido para interpretar o papel” – mas a atriz não foi emprestada pela MGM. Filha dos atores Guy Standing e Dorothy Hammond, Kay encontrou sucesso no teatro, onde deu origem à personagem Elvira em 1941, e fez 38 filmes entre 1930 e 1961.

Elvira’s look was created by a mix of fluorescent green clothes and make-up and lighting tricks – and the special effects won an Oscar. Kay Hammond literally shines as Elvira, a role that was intended for Myrna Loy – and one she said she was “born to play” – but the actress wasn’t loaned by MGM. The daughter of actors Guy Standing and Dorothy Hammond, Kay found success in the theater, where she originated the role of Elvira in 1941, and made 28 movies between 1930 and 1961.

Não podemos falar da história das cores no cinema sem mencionar a supervisora de Technicolor Natalie Kalmus. De acordo com o IMDb, ela é creditada em quase 400 filmes feitos entre 1928 e 1950, com dezenas de créditos todos os anos. Esposa de Herbert T. Kalmus, inventor do processo Technicolor, Natalie contribuiu com a invenção e era inserida nos sets de filmagem para supervisionar o uso das câmeras de Tehcnicolor, que eram sensíveis e caras, e decidir as melhores cores para cenários e figurinos. Problemas com as cores fizeram com que as filmagens de “Uma Mulher do Outro Mundo” se prolongassem, e no final Margaret Rutherford estava reclamando que as filmagens duraram seis meses e não as doze semanas previstas.

We can’t talk about the history of color in film without mentioning Technicolor supervisor Natalie Kalmus. According to IMDb, she is credited in almost 400 movies made between 1928 and 1950, with dozens of credits every year. The wife of Herbert T. Kalmus, the inventor of the Technicolor process, Natalie contributed to the invention and was put in film sets to oversee the use of Technicolor cameras, that were both sensitive and expensive, and to decide the colors in sets and clothes. Issues with color made the production of “Blithe Spirit” drag, and in the end Margaret Rutherford was complaining that they were shooting for six months instead of the twelve weeks planned. 

A peça de Noël Coward foi escrita em 1945 e o autor – também produtor do filme – não vendeu os direitos para Hollywood porque as adaptações de seu trabalho feitas por norte-americanos não haviam lhe agradado. Mesmo assim, com as mudanças feitas pelo roteirista e diretor David Lean – que incluíram mudar o final, impossível nos palcos – Coward declarou que a melhor peça que ele havia escrito foi arruinada.

Noël Coward’s play was written in 1941 and the author – also producer of the movie – didn’t sell the rights to Hollywood because he disliked the adaptations of his work made by North Americans until then. Nevertheless, with the changes made by screenwriter and director David Lean – including changing the end, adding one that would be impossible on stage –, Coward declared that they ruined the best play he’d ever written.


Nós, como humanos, amiúde pensamos e imaginamos o que acontece depois que morremos. Há um Paraíso ou uma vida após a morte? O cinema tentou responder à questão de muitas maneiras e em muitas ocasiões. Elvira volta do além mas conta pouco do que acontece por lá. Temos visões mais elaboradas da próxima vida em filmes como “Neste Mundo e no Outro” (1946), da já mencionada dupla Powell e Pressburger. O assunto é tão presente e pertinente que não apenas filmes sobre isso são sucesso mas também médiuns como a Madame Arcati têm sua clientela para conversar com o além.

We, as humans, often think and imagine what happens after we die. Is there a Heaven or an afterlife? Cinema tried to answer the question in many ways and occasions. Elvira comes back from beyond but tells little about what happens there. Wa have more elaborate views of the next life in films such as “A Matter of Life and Death” (1946), by the aforementioned duo Powell and Pressburger. The issue is so present and pertinent that not only movies about it are a success but also psychics such as Madame Arcati have their clientele to talk to the beyond.

“Uma Mulher do Outro Mundo” foi um fracasso de bilheteria, por causa de erros na escalação de elenco, de acordo com o roteirista Anthony Havellock-Allan. Ele disse que precisavam de um homem de meia-idade – e não Rex Harrison – e uma primeira esposa atraente – Constance Cummings era mais bonita que Kay Hammond, Anthony declarou. Mesmo assim, o filme sobreviveu ao teste do tempo e agora é considerado um clássico, e um clássico muito divertido!

“Blith Spirit” was a box-office failure, due to a mistaken casting, according to screenwriter Anthony Havellock-Allan. He said the need was for a middle-aged man – not Rex Harrison – and an attractive first wife – Constance Cummings was more attractive than Kay Hammond, Anthony noticed. Nevertheless, the film stood the test of time and now is righteously considered a classic, and a very enjoyable one!

 

This is my contribution to A Haunting Blogathon: In the Afterlife, by the Classic Movie Blog Association.

Friday, October 19, 2018

Carmen (1948) / The loves of Carmen (1948)


Quando falamos sobre Rita Hayworth e Glenn Ford, pensamos na dupla que protagoniza “Gilda”, de 1946. Mas eles fizeram outros filmes juntos, incluindo “Carmen”, produzido e dirigido por Charles Vidor – também diretor de “Gilda” – e filmado num belo Technicolor que ressaltou a beleza de ambos os astros.

When we talk about Rita Hayworth and Glenn Ford, we think of the duo in 1946’s Gilda. But they starred together in more movies together, including “The loves of Carmen”, produced and directed by Charles Vidor – also the director of Gilda – and shot in ravishing Technicolor that highlighted both their beauties.


Don Jose (Ford) é um novato vindo de Navarra. Ele chegou a Andaluzia para ser um soldado da guarda, e a primeira pessoa que ele conhece em seu primeiro dia é a provocante cigana Carmen (Hayworth). Assim como todos os ciganos, Carmen é desprezada pelos “cidadãos de bem” do local.

Don Jose (Ford) is a newcomer from Navarra. He has arrived in Andalucía in order to serve the guard, and the first person he meets in his first day is the provocative gypsy Carmen (Hayworth). Like all gypsies, Carmen is despised by the “good citizens” of the town.


Ela provoca Jose e ele fica caidinho por ela. Entretanto, ela não aceita o amor dele por causa de uma previsão de má sorte revelada nas cartas. Mas ela muda de ideia e faz com que Jose mate seu comandante em um duelo – sendo agora um fora da lei, resta a Jose seguir com Carmen e um grupo de ladrões rumo às montanhas, onde ele conhece o líder do grupo, García (Victor Jory), um homem que acaba de sair da prisão... e que por acaso é marido de Carmen.

She teases Jose and he falls for her. However, she won’t accept his love because of a bad omen revealed in the cards for her. But she changes her mind and arranges a duel for Jose to kill his commander - now an outlaw, Jose can only follow Carmen and her group of thieves to the mountains, where he meets the group leader, García (Victor Jory), a man who has just been released from prison... and who happens to be Carmen’s husband.


Antes da fuga, vamos a cidade espanhola recriada no estúdio sendo fotografada de maneira pouco inspirada, não tendo nada a ver com outros cenários europeus feitos em estúdio. Esta primeira metade do filme nos lembra de “Sangue e Areia” (1941), no qual um toureiro interpretado por Tyrone Power é seduzido por ninguém menos que Rita Hayworth. Em Hollywood, cidades espanholas e vilas latino-americanas são muito parecidas.

Before they run away, we see the Spanish city recreated in studio is photographed in an uninspired way, unlike other European sets built in studio. This first half of the movie reminds us of “Blood and Sand” (1941), in which a toreador played by Tyrone Power is seduced by none other than Rita Hayworth. In Hollywood, Spanish towns and Latin American villas are very much alike.


Na segunda metade, conforme o grupo foge pelas montanhas, temos a sensação de estarmos assistindo a um faroeste, com armadilhas, recompensas por um foragido, tropas perseguindo o grupo e muitos tiros disparados. Jose trocou de lado completamente e agora está roubando carruagens e se tornando mais violento a cada dia – não porque ele queira, mas porque precisa.

In the second half, as the group escapes through the mountains, we get the feeling that we are now watching a western, with traps, rewards for an outlaw, troops coming for our group and a lot of shootings. Jose traded places completely and is now stealing from stagecoaches and becoming more violent each day- not because he wants to, but because he has to.


É uma delícia ver Rita Hayworth cantando e dançando músicas folclóricas neste filme. Quando garota, sob seu nome verdadeiro, Rita Cansino, ela dançava profissionalmente, em uma dupla com o pai, Eduardo Cansino, que inclusive trabalhou em “Carmen” como coreógrafo. Ela dançava coreografias como as do filme desde pequena. O único ponto negativo é que ela é dublada ao cantar. A voz dela é dublada por Anita Ellis, que também a dublou em “Gilda”.

It’s delightful to see Rita Hayworth singing and dancing folk songs in this film. As a young girl, under her real name Rita Cansino, she danced for a living, making a duo with her father, Eduardo, who even worked here in “The loves of Carmen” as a choreographer. She had been performing dances like the ones in the film since a very early age. The only downside is that she is dubbed in the songs. Her singing voice is dubbed by Anita Ellis, who also dubbed her in “Gilda”.


Para o povo, Carmen é nojenta. Para a elite, ela é fonte de entretenimento, pois dança nas festas. Isso significa que ela é uma curiosidade para a sociedade, e nada mais. É um comportamento bem hipócrita. Carmen não é apenas uma excluída porque faz parte de um grupo nômade – os ciganos – ela também é vítima de preconceito porque é uma mulher livre que não pode “pertencer” a um homem só.

For the people, Carmen is disgusting. For the elite, she is source of entertainment when she dances at parties. That means that she is a curiosity for society, and nothing else. It’s a very hypocritical behavior. Not only Carmen is an outcast because she is part of a nomad group – the gypsies – she is also frown upon because she is a free woman that can’t “belong” to one man.


Um texto inicial cheio de preconceitos, chamando os ciganos de “uma raça infeliz”, mostra o pensamento que foi responsável pela perseguição de milhões de ciganos durante o Holocausto – ou melhor, o “Porajmos”. Sim, os ciganos rom têm seu próprio termo para a perseguição que sofreram dos nazistas – não há números oficiais, alguns historiadores estimam que 200 mil ciganos foram mortos em campos de concentração, e outros colocam a estimativa em 1,5 milhão. Hollywood não estava fazendo um favor a estas pessoas três anos após a queda de Hitler com tanto preconceito.

An opening text full of prejudice, calling the gypsies “an unhappy breed”, shows the mindset that was responsible for the persecution of millions of gypsies during the Holocaust – or better, the “Porajmos”. Yes, the Romani gypsies have their own word for the persecution they suffered under the Nazis – there are no official numbers, some historians estimate 200000 gypsies were killed in concentration camps, and other put the number up to 1,5 million. Hollywood wasn’t doing a favor to those people three years after Hitler’s fall with so much prejudice.


Se refletirmos um pouco, “Carmen” tem algumas coisas em comum com “Gilda”: a protagonista sedutora, o protagonista que é bobo no começo mas fica mais durão e ciumento por causa de uma mulher, muitas traições, o fatalismo que paira sempre no ar. “Carmen” só se difere por causa do cenário e do Technicolor, os elementos da história são os mesmos. Eu não estou falando que “Carmen” é um filme noir: eu estou dizendo que as histórias do noir bebem de uma fonte universal.

If we think a little, “The loves of Carmen” has some things in common with “Gilda”: the seductive leading lady, the leading man who is at first silly then becomes tougher and more jealous because of a woman, the many betrayals, and the fatalism that is all over. “The loves of Carmen” is different only for its setting and the Technicolor, the story elements are the same. I’m not saying that this film is noir: I’m saying that the noir stories drink from a universal fountain.


“Carmen” certamente se beneficia da química entre os protagonistas. Entretanto, não é tão interessante quanto outras versões da mesma história, como “Carmen Jones”, de 1954. Mas pelo menos podemos ver Glenn Ford mais bonito que nunca e Rita Hayworth dançando danças espanholas.

“The loves of Carmen” certainly profits from the chemistry the two leads have. However, it’s not as interesting as other versions of the same story, like “Carmen Jones”, from 1954. But at least we are able to see Glenn Ford more handsome than ever and Rita Hayworth dancing Spanish songs.  

This is my contribution to the 100 Years of Rita Hayworth blogathon, hosted by Michaela at Love Letters to Old Hollywood.

Sunday, January 28, 2018

Busby Berkeley em cores / Busby Berkeley in color

Os diretores podem adicionar sua marca registrada nos filmes que fazem. O mesmo acontece com atores, alguns roteiristas, cenógrafos e figurinistas. Mas pouquíssimos coreógrafos conseguiram adicionar uma marca registrada aos filmes em que trabalharam. Eu consigo pensar em apenas um que conseguiu fazer isso, e criar um estilo fácil de reconhecer: Busby Berkeley.

Directors can add their touch to the films they work in. The same happens to actors, some screenwriters, set designers and costume designers. But very few choreographers were able to add an indelible touch to the films they worked in. I can think about only one who was able to do that, and create a recognizable style: Busby Berkeley.
Sempre que pensamos em Busby Berkeley, pensamos em preto e branco. Seus filmes mais conhecidos foram feitos no começo dos anos 30, durante a era pre-Code, nos estúdios Warner Bros. Entretanto, ele também levou suas danças caleidoscópicas para filmes em cores, antes e depois do auge de sua carreira. E o efeito foi impressionante como de costume – e talvez até um pouco mais surpreendente.

Whenever we think about Busby Berkeley, we think in black and white. His most famous movies were made in the early 1930s, during the pre-Code era, at the Warner Bros Studios. However, he also worked, with his kaleidoscopic routines, in color films before and after his heyday. And the effect was as impressive as always – if not more.
O primeiro filme em que Busby Berkeley trabalhou foi “Whoopee!”, de 1930, produzido pelo próprio Florez Ziegfeld e Samuel Goldwyn. As estrelas são Eddie Cantor, Paul Gregory e Eleanor Hunt. A maioria do elenco e equipe veio da montagem da peça na Broadway – os direitos da peça foram vendidos por Ziegfeld para Goldwyn logo após a quebra da bolsa de valores de 1929.

Busby Berkeley’s first film was 1930’s “Whoopee!”, a film produced by Florenz Ziegfeld – the man himself – and Samuel Goldwyn. It stars Eddie Cantor, Paul Gregory and Eleanor Hunt. Most of the cast and crew came from the Broadway production of the play, whose rights were sold from Ziegfeld to Goldwyn after the 1929 stock market crash.
Em “Whoopee!” lemos os créditos ‘danças e coro coreografados por Busby Berkeley’. Temos de esperar apenas três minutos para uma sequência de canto e dança, e aí já nos encontramos em território familiar: é o mesmo Busby Berkeley que conhecemos e amamos, com as formas geométricas criadas pelos dançarinos e capturadas por uma câmera suspensa. A única diferença é que a sequência é em cores – em two-strip Technicolor.

In “Whoopee!” we read the credits ‘dances and ensembles staged by Busby Berkeley’. We have to wait only three minutes to have a song and dance sequence, and we find ourselves in familiar territory: it’s the same Busby Berkeley style we know and love, with geometric shapes created by the dancers and captured by the camera from above. The only difference is that it’s in color – two-strip Technicolor.
Este primeiro número de dança é o que mais se aproxima do trabalho posterior de Berkeley – os outros números são muito tímidos e contidos. Perto do fim temos também uma pequena formação em caleidoscópio com índias. E estes são os destaques de um filme muito divertido que tem alguns momentos vergonhosos para manchar sua reputação – uma palavra: blackface.

This first dance sequence is the closest we have from Berkeley’s later work – other ensemble numbers in the film look too timid in comparison. Near the end we also have a small kaleidoscopic formation with Indian girls. These are the highlights of a funny and enjoyable film that has a few shameful moments to stain its reputation – one word: blackface.
Eu adoro o Technicolor primitivo (chamado também de two-strip Technicolor). Como as cores principais neste processo são vermelho e verde, o resultado final é um filme predominantemente bege e cheio de detalhes rosados – destaque para as bochechas e as roupas das dançarinas. O efeito não é psicodélico, mas sim delicado – e não podemos nos esquecer de que a cópia de “Whoopee!” que temos hoje já se desgastou e tem uma aparência diferente da que tinha em 1930, quando o filme foi um sucesso de bilheteria.

I love two-strip Technicolor – probably more than I should. Because red and green were the main colors recorded in the process, the final result was a beige-ish film full of rosy details – like the chorus girls’ cheeks and clothes. The effect is not psychedelic, but delicate – and we shall not forget that the copy of “Whoopee!” we have today has faded in comparison to what it looked like in 1930, when “Whoopee!” was a box-office hit.
Busby Berkeley trabalharia novamente em um filme a cores apenas nos anos 40. Ele havia sido ‘emprestado’ para a 20th Century Fox para criar alguns números de dança hipnóticos para “Entre a Loura e a Morena” (1943). Além de criar estes efeitos incríveis com luzes coloridas, Busby teve seu momento mais ousado e psicodélico com o número ‘The Lady in the Tutti Frutti Hat’. Frutas gigantes foram parte da coreografia e a extravagante Carmen Miranda se mostrou a peça perfeita para ficar no centro do caleidoscópio de Busby Berkeley.

Busby Berkeley would only work in color films again in the 1940s. He was working as a loan to 20th Century Fox when he developed some hypnotic dance numbers for “The Gang’s All Here” (1943). Besides creating some amazing effects with colorful lights, Busby had his most daring and psychedelic moment in the number ‘The Lady in the Tutti Frutti Hat’. Giant fruits were part of the choreography and extravagant Carmen Miranda showed she was a perfect piece to be in the center of Berkeley’s kaleidoscope.
De volta à MGM, Busby Berkeley trabalhou em “Romance em Alto Mar” (1948) e “A Bela Ditadora” (1949). Ambos os filmes têm números de dança com uma profusão de cores, mas nada que se compare ao trabalho pregresso de Berkeley. Há sequências charmosas e com boa coreografia, mas está faltando o toque de Berkeley.

Back at MGM, Busby Berkeley worked at “Romance on the high Seas” (1948) and “Take Me Out to the Ballgame” (1949). Both are films with colorful dance sequences, but nowhere as bold as Berkeley used to do. There are charming, well-choreographed sequences, but not the Berkeley touch.
Berkeley teve mais uma chance de mostrar seu talento para criar coreografias geométricas – e fez isso dentro d’água: o filme foi “A Rainha do Mar” (1952). Este é um aqua-musical e também a cinebiografia da nadadora e estrela de cinema Annette Kellermann. A estrela do filme é Esther Williams, e os números criados por Berkeley são de tirar o fôlego. Somos capazes de reconhecer o estilo dele quando centenas de homens e mulheres que mergulham, nadam e criam formas geométricas em piscinas enormes. Berkeley e Esther Williams trabalharam juntos novamente no ano seguinte em “Fácil de Amar”.

Berkeley had one more chance to showcase his talent for creating geometric choreographies – and he did it at the water: the film was “Million Dollar Mermaid” (1952). It is an acqua-musical and also the biopic of swimmer and film star Annette Kellermann. The star of the movie is Esther Williams, and the numbers staged by Berkeley are just breathtaking. You can recognize his style as hundreds of girls and men dive, swim and create geometric shapes in huge pools. Berkeley and Esther Williams worked together again the following year in “Easy to Love”. 
O último filme de Busby Berkeley foi “A Mais Querida do Mundo” (1962). Ele faleceu 14 anos depois, aos 80 anos. Embora seus trabalhos mais conhecidos possam ser vistos apenas em preto e branco, ele felizmente trabalhou também em filmes em cores, e teve a chance de fazer seu talento brilhar em Technicolor. Estes filmes em cores são o que temos de mais próximo do trabalho de Busby Berkeley nos palcos da Broadway, e devemos agradecer pela oportunidade de ter Berkeley imortalizado em película também em cores.

Busby Berkeley’s last film was “Billy Rose’s Jumbo” (1962). He died 14 years later, in 1976, when he was 80. Although his most famous work can only be seen in black and white, he luckily also worked in color films, and was able to make his talent shine in Technicolor. These colorful films are the closest we’ll have from Busby Berkeley’s work on the Broadway stage, and we must be thankful for the opportunity to have Berkeley immortalized on celluloid also in color. 

This is my contribution to the Busby Berkeley blogathon, hosted by Hometowns to Hollywood.

Friday, August 5, 2016

Neste Mundo e no Outro (1946) / A Matter of Life and Death (aka Stairway to Heaven, 1946)

Eu nunca vou me esquecer da emoção que senti quando vi “Os Sapatinhos Vermelhos” (1948) pela primeira vez. Uma verdade pouco repetida é que a cor é algo muito poderoso a ser usado no cinema, e com este musical os ingleses Michael Powell e Emeric Pressburger atingiram seu auge de criação e execução técnicas. Mas Powell e Pressburger fizeram outros belos filmes antes de contar a jornada da bailarina em 1948. Escolhi um deles, “Neste mundo e no outro” (1946) como um dos 12 clássicos que quero ver em 2016. E é curioso que em um filme em que as cores são tão importantes, a primeira pergunta feita é: “seria possível se apaixonar por uma voz?”.

I’ll never forget the emotion I felt the first time I saw “The Red Shoes” (1948). A truth not often told if that color is a very powerful element in the cinema, and with this musical the English gentlemen Michael Powell and Emeric Pressburger had their greatest technical achievement. But Powell and Pressburger made other wonderful movies before telling the ballerina’s journey in 1948. I chose one of them, “A Matter of Life and Death” (1946) as one of the 12 classic films I want to see in 2016. And it is curious that a movie in which colors are so important begins with the question: “can someone fall in love with a voice”?


Logo na sequência inicial, o avião de Peter Carter (David Niven) está em chamas, e seu rosto é iluminado apenas pelo fogo. Ele estabelece contato com a base aérea, e dita para a controladora June (Kim Hunter) um telegrama que ela deve enviar para a mãe dele. Ele quer tão somente que a mãe saiba que ele a amava. E, anotando o recado, June tem seus olhos cobertos, a boca e o microfone iluminados, e fica em choque com a tranquilidade de Peter, que está prestes a pular do avião sem paraquedas.

In the opening sequence, Peter Carter’s (David Niven) plane is on fire, and his face is lightened only by fire. He is able to contact the aerial base, and dictates to American WAC June (Kim Hunter) a telegram she is supposed to send his mother. He only wants his mother to know how much he loved her. And, taking the note, June has her eyes covered by darkness, the mouth and the microphone lightened, and is disturbed by Peter’s calm, after all, he is about to jump without a parachute.


Peter deveria chegar ao céu. Deveria. O céu é todo em preto e branco, muito organizado, um lugar onde não há mais hierarquia militar: no céu, todos são irmãos. Mas Peter não chega ao céu por causa de um erro do Condutor 71 (Marius Goring, com muito batom), que então precisa ir até a Terra para corrigir seu erro.

Peter should go to Heaven. He should. Heaven is all in black and white, a very organized place, a place where there is no more military hierarchy: in Heaven, all men are brothers. But Peter doesn’t go to Heaven due to a mistake made by Condutor 71 (Marius Goring, with a lot of lipstick). The Conductor now must visit Earth to correct his mistake.


Peter pulou do avião, mas caiu no mar e foi levado pelas ondas até à praia. Ele estava pronto para morrer, mas vive e vai atrás de June. É amor à primeira vista. Mas a felicidade é perturbada pelas duas visitas do Condutor, e June decide pedir ajuda ao doutor Reeves (Roger Livesey), um neurologista, para tratar das “alucinações” de Peter.

Peter jumped from the airplane, but he fell at the sea and was taken by the waves to the beach. He was ready to die, but he lives and goes after June. It is love at first sight. But their happiness is disturbed by the Conductor, and June decides to ask doctor Reeves (Roger Livesey), a neurologist, for help with Peter’s “hallucinations”.


Há uma esperança: o caso de Peter será julgado no tribunal celestial, e o doutor Reeves arranja um ótimo cirurgião para fazer uma complicada cirurgia cerebral em Peter. O julgamento não será nada fácil com Abraham Farlan (Raymond Massey) na promotoria, e o caso será muito mais sobre a rivalidade entre ingleses e americanos que sobre o caráter de Peter. É muito interessante notar isso num filme inglês, feito no último grande momento de supremacia da Inglaterra como superpotência mundial.

But there is hope: Peter’s case will be judged in Heavenly court, and doctor Reeves convinces a great surgeon to operate Peter’s brain, even though it is a complicated procedure. The judgment won’t be easy with Abraham Farlan (Raymond Massey) as the prosecutor, and the case will be much more about the rivalry between the English and the American than about Peter’s character. It is very interesting to notice such a conflict in an English movie made in the last great moment of England’s world dominance.


Em um mundo em guerra, cinzento e insuportável, esperava-se que o céu ao menos fosse colorido e alegre. Mas não no caso de Peter: ao conhecer June ele voltou a ver beleza neste mundo, e o outro representa apenas a separação deles. O que a defesa de Peter precisa provar? Que ele e June se amam de verdade, e que é o amor a única coisa que constrói no mundo: uma mensagem fundamental em tempos tão sombrios.

In a world that was at war and everything was gray and sad, it was expected that at least Heaven would be colorful and bright. But not in Peter’s case: when he met June he once again saw beauty in this world, and the other world represents to him only a painful separation. What must Peter’s defense prove? That he and June truly love each other, and that love is the only thing that can build in the world: a fundamental message in somber times.


Além do uso das cores, a trilha sonora é o destaque. A música também é diferente no céu e na terra, e cada nota traduz perfeitamente as emoções dos personagens. Mas só cores, sons e a história juntos podem criar aquele que o próprio Michael Powell apontou como o favorito de seus filmes. Você ainda não viveu a magia do cinema se não viu “Neste mundo e no outro”.

Besides the use of colors, the soundtrack is also outstanding. The music is different for Heaven and Earth, and each not translates perfectly what the characters are feeling. But only colors, sounds and the story put together could create the movie appointed by Michael Powell himself as the favorite of his filmography. You haven’t lived true cinematic magic if you haven’t watched “A matter of life and death”.

This is my contribution to the 3rd Annual British Invaders Blogathon, hosted by my friend Terence at A Shroud of Thoughts.

Friday, January 15, 2016

Variações sobre um mesmo tema: O Fantasma da Ópera (1925 e 1943)

Quando Gaston Leroux publicou o livro “O Fantasma da Ópera” entre 1909 e 1910, ele jamais pensou no impacto que a obra causaria: ela deu origem a um dos filmes mudos mais importantes da história, foi o ponto alto da carreira de um camaleão das telas e gerou um dos musicais mais amados de todos os tempos. Foram ao todo 32 adaptações para o cinema, segundo o IMDb, e você já deve imaginar qual a mais famosa: a de Lon Chaney, de 1925. Dezoito anos depois, outra versão chegou às telas e, apesar de pouco lembrada, é também digna de ser vista.
Em 1925, Mary Philbin é a cantora Christine Daaé, da Ópera de Paris. Ele é namorada de Raoul, visconde de Chagny (Norman Kerry). Corre o boato de que há uma perigosa criatura vivendo no subsolo da ópera, e estranhos acidentes acontecem, um deles envolvendo a prima donna, Carlota. Logo Carlota recebe um bilhete ameaçando-a: se ele não ceder seu lugar para Christine, outro acidente acontecerá.
Embora Gaston Leroux ainda estivesse vivo em 1925, não se sabe qual a opinião dele sobre a adaptação, nem sequer se ele chegou a vê-la. Entretanto, foi o próprio autor que apresentou sua obra a Carl Laemmle em Paris, e Laemmle logo comprou os direitos de adaptação já com Lon Chaney em mente para ser o protagonista. Foram necessários dois anos para que os cenários ficassem prontos e o filme começasse a ser rodado, mas a espera – e as três subsequentes re-edições das cenas – valeram a pena.
Em 1943, Lon Chaney já estava morto. A cor era cada vez mais presente nos filmes. Muitos estrangeiros circulavam por Hollywood, e um deles foi escolhido para ser o novo fantasma: o maravilhoso Claude Rains. A grande diferença é que vemos Erik, o violinista, como um homem normal no começo, nutrindo uma paixão secreta por Christine Dubois (Susanna Foster) e sofrendo ao perder o movimento dos dedos, o que o impossibilita de continuar na orquestra. Vemos seu terrível acidente com ácido, sua mudança para o subsolo e seus esforços para fazer de Christine uma estrela.
Os dois filmes utilizam os mesmos cenários, e a mais impressionante cena reproduzida em 1925 e 1943 envolve a queda de um enorme candelabro na plateia. Em ambas as produções, o espetáculo que está sendo apresentada para o público pouco importa: a ação principal se desenrola nos bastidores, no subsolo ou na parte superior do teatro, onde também encontramos Hume Cronyn na versão de 1943. A morada subterrânea do fantasma jamais é claustrofóbica, apenas labiríntica e entristecida (aliás, a cama do fantasma de 1925 foi depois usada por Norma Desmond em “Crepúsculo dos Deuses / Sunset Boulevard”).
“O Fantasma da Ópera” é dominado pelo seu protagonista. Chaney e Rains são a alma de seus respectivos filmes. O fantasma é o anti-herói mais amado das telas, porque o herói não importa. Sabemos que o fantasma não pode vencer e ser feliz para sempre com Christine, mas torcemos por ele. Ele é deformado, um pária da sociedade, mas é mais interessante que o corajoso Raoul.
Em ambos os filmes Raoul é interpretado por um ator pouco conhecido. Norman Kerry, antes mesmo de trabalhar no cinema, já era amigo de Rodolfo Valentino. Em Hollywood, trabalhou com Mary Pickford, Lillian Gish e em três oportunidades contracenou com Lon Chaney. Hoje ele é pouquíssimo lembrado. 
Em 1943, Raoul não era nem o primeiro, nem sequer o segundo personagem masculino mais importante. Nelson Eddy é o barítono Anatole Garron, criado apenas para esta versão e para exibir os dotes musicais de Eddy. Raoul, de conde em 1925, virou inspetor em 1943, e foi interpretado por Edgar Barrier que, apesar do nome francês, era americano e fez pequenos papéis no cinema, incluindo no primeiro filme de Orson Welles, “Too Much Johnson” (1938).
O poder da maquiagem
O fantasma de Claude Rains é uma figura simpática e trágica. O fantasma de Chaney é trágico e aterrorizante. No teatro de Chaney, bailarinas saltitantes se perguntam sobre a criatura que assombra o lugar. No teatro de Rains, a ópera é atração principal, e a trilha sonora ganhou até o Oscar. Em ambos os casos, ter o fantasma da ópera como tutor e admirador foi a melhor coisa que poderia ter acontecido a uma jovem cantora no começo da carreira. Mas a sorte maior é nossa: podemos ver dois grandes talentos da sétima arte em interpretações distintas e arrepiantes do fantasma mais solitário que já existiu.

This is my contribution to the Backstage blogathon, hosted by Fritzi at Movies, Silently and Janet at Sister Celluloid.

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