Os diretores podem
adicionar sua marca registrada nos filmes que fazem. O mesmo acontece com
atores, alguns roteiristas, cenógrafos e figurinistas. Mas pouquíssimos
coreógrafos conseguiram adicionar uma marca registrada aos filmes em que
trabalharam. Eu consigo pensar em apenas um que conseguiu fazer isso, e criar
um estilo fácil de reconhecer: Busby Berkeley.
Directors can add their
touch to the films they work in. The same happens to actors, some
screenwriters, set designers and costume designers. But very few choreographers
were able to add an indelible touch to the films they worked in. I can think
about only one who was able to do that, and create a recognizable style: Busby
Berkeley.
Sempre que pensamos em
Busby Berkeley, pensamos em preto e branco. Seus filmes mais conhecidos foram
feitos no começo dos anos 30, durante a era pre-Code, nos estúdios Warner Bros.
Entretanto, ele também levou suas danças caleidoscópicas para filmes em cores,
antes e depois do auge de sua carreira. E o efeito foi impressionante como de
costume – e talvez até um pouco mais surpreendente.
Whenever we think about
Busby Berkeley, we think in black and white. His most famous movies were made
in the early 1930s, during the pre-Code era, at the Warner Bros Studios.
However, he also worked, with his kaleidoscopic routines, in color films before
and after his heyday. And the effect was as impressive as always – if not more.
O primeiro filme em que
Busby Berkeley trabalhou foi “Whoopee!”, de 1930, produzido pelo próprio Florez
Ziegfeld e Samuel Goldwyn. As estrelas são Eddie Cantor, Paul Gregory e Eleanor
Hunt. A maioria do elenco e equipe veio da montagem da peça na Broadway – os
direitos da peça foram vendidos por Ziegfeld para Goldwyn logo após a quebra da
bolsa de valores de 1929.
Busby Berkeley’s first film
was 1930’s “Whoopee!”, a film produced by Florenz Ziegfeld – the man himself –
and Samuel Goldwyn. It stars Eddie Cantor, Paul Gregory and Eleanor Hunt. Most
of the cast and crew came from the Broadway production of the play, whose
rights were sold from Ziegfeld to Goldwyn after the 1929 stock market crash.
Em “Whoopee!” lemos os
créditos ‘danças e coro coreografados por Busby Berkeley’. Temos de esperar
apenas três minutos para uma sequência de canto e dança, e aí já nos
encontramos em território familiar: é o mesmo Busby Berkeley que conhecemos e amamos,
com as formas geométricas criadas pelos dançarinos e capturadas por uma câmera
suspensa. A única diferença é que a sequência é em cores – em two-strip
Technicolor.
In “Whoopee!” we read the
credits ‘dances and ensembles staged by Busby Berkeley’. We have to wait only
three minutes to have a song and dance sequence, and we find ourselves in
familiar territory: it’s the same Busby Berkeley style we know and love, with
geometric shapes created by the dancers and captured by the camera from above.
The only difference is that it’s in color – two-strip Technicolor.
Este primeiro número de
dança é o que mais se aproxima do trabalho posterior de Berkeley – os outros
números são muito tímidos e contidos. Perto do fim temos também uma pequena
formação em caleidoscópio com índias. E estes são os destaques de um filme
muito divertido que tem alguns momentos vergonhosos para manchar sua reputação
– uma palavra: blackface.
This first dance sequence is
the closest we have from Berkeley’s later work – other ensemble numbers in the
film look too timid in comparison. Near the end we also have a small
kaleidoscopic formation with Indian girls. These are the highlights of a funny
and enjoyable film that has a few shameful moments to stain its reputation –
one word: blackface.
Eu adoro o Technicolor
primitivo (chamado também de two-strip Technicolor). Como as cores principais
neste processo são vermelho e verde, o resultado final é um filme
predominantemente bege e cheio de detalhes rosados – destaque para as bochechas
e as roupas das dançarinas. O efeito não é psicodélico, mas sim delicado – e
não podemos nos esquecer de que a cópia de “Whoopee!” que temos hoje já se
desgastou e tem uma aparência diferente da que tinha em 1930, quando o filme
foi um sucesso de bilheteria.
I love two-strip Technicolor
– probably more than I should. Because red and green were the main colors
recorded in the process, the final result was a beige-ish film full of rosy
details – like the chorus girls’ cheeks and clothes. The effect is not psychedelic,
but delicate – and we shall not forget that the copy of “Whoopee!” we have
today has faded in comparison to what it looked like in 1930, when “Whoopee!”
was a box-office hit.
Busby Berkeley
trabalharia novamente em um filme a cores apenas nos anos 40. Ele havia sido
‘emprestado’ para a 20th
Century Fox para criar alguns números de dança hipnóticos para “Entre a Loura e
a Morena” (1943). Além de criar estes efeitos incríveis com luzes coloridas,
Busby teve seu momento mais ousado e psicodélico com o número ‘The Lady in the
Tutti Frutti Hat’. Frutas gigantes foram parte da coreografia e a extravagante
Carmen Miranda se mostrou a peça perfeita para ficar no centro do caleidoscópio
de Busby Berkeley.
Busby Berkeley would only
work in color films again in the 1940s. He was working as a loan to 20th
Century Fox when he developed some hypnotic dance numbers for “The Gang’s All
Here” (1943). Besides creating some amazing effects with colorful lights, Busby
had his most daring and psychedelic moment in the number ‘The Lady in the Tutti
Frutti Hat’. Giant fruits were part of the choreography and extravagant Carmen
Miranda showed she was a perfect piece to be in the center of Berkeley’s
kaleidoscope.
De volta à MGM, Busby
Berkeley trabalhou em “Romance em Alto Mar” (1948) e “A Bela Ditadora” (1949).
Ambos os filmes têm números de dança com uma profusão de cores, mas nada que se
compare ao trabalho pregresso de Berkeley. Há sequências charmosas e com boa
coreografia, mas está faltando o toque de Berkeley.
Back at MGM, Busby Berkeley
worked at “Romance on the high Seas” (1948) and “Take Me Out to the Ballgame”
(1949). Both are films with colorful dance sequences, but nowhere as bold as
Berkeley used to do. There are charming, well-choreographed sequences, but not
the Berkeley touch.
Berkeley teve mais uma
chance de mostrar seu talento para criar coreografias geométricas – e fez isso
dentro d’água: o filme foi “A Rainha do Mar” (1952). Este é um aqua-musical e
também a cinebiografia da nadadora e estrela de cinema Annette Kellermann. A
estrela do filme é Esther Williams, e os números criados por Berkeley são de
tirar o fôlego. Somos capazes de reconhecer o estilo dele quando centenas de
homens e mulheres que mergulham, nadam e criam formas geométricas em piscinas
enormes. Berkeley e Esther Williams trabalharam juntos novamente no ano
seguinte em “Fácil de Amar”.
Berkeley had one more chance
to showcase his talent for creating geometric choreographies – and he did it at
the water: the film was “Million Dollar Mermaid” (1952). It is an acqua-musical
and also the biopic of swimmer and film star Annette Kellermann. The star of
the movie is Esther Williams, and the numbers staged by Berkeley are just
breathtaking. You can recognize his style as hundreds of girls and men dive, swim
and create geometric shapes in huge pools. Berkeley and Esther Williams worked
together again the following year in “Easy to Love”.
O último filme de Busby
Berkeley foi “A Mais Querida do Mundo” (1962). Ele faleceu 14 anos depois, aos
80 anos. Embora seus trabalhos mais conhecidos possam ser vistos apenas em
preto e branco, ele felizmente trabalhou também em filmes em cores, e teve a
chance de fazer seu talento brilhar em Technicolor. Estes filmes em cores são o
que temos de mais próximo do trabalho de Busby Berkeley nos palcos da Broadway,
e devemos agradecer pela oportunidade de ter Berkeley imortalizado em película
também em cores.
Busby Berkeley’s last film
was “Billy Rose’s Jumbo” (1962). He died 14 years later, in 1976, when he was
80. Although his most famous work can only be seen in black and white, he
luckily also worked in color films, and was able to make his talent shine in
Technicolor. These colorful films are the closest we’ll have from Busby Berkeley’s
work on the Broadway stage, and we must be thankful for the opportunity to have
Berkeley immortalized on celluloid also in color.
O século XX foi de rápidas mudanças em diversas áreas. Uma delas foi a moda. Dos vestidos longuíssimos e ternos sisudos aos shorts, camisetas e looks despojados. Isso tudo em meros cem anos. De fundamental importância foi o cinema para ditar a moda, uma vez que era a mais popular forma de arte. O endeusamento de suas estrelas fez milhões de espectadoras sonharem com os figurinos pomposos que viam nas telas. Muitas delas foram atrás dessas roupas, copiando no dia-a-dia o visual das estrelas.
Ainda hoje as roupas dos filmes clássicos continuam a encantar. O comentado e atualíssimo figurino de Audrey Hepbrun em “Bonequinha de Luxo / Breakfast at Tiffany´s” acaba de completar, quem diria, 50 anos! Audrey, aliás, é um ícone fashion da sétima arte.
Mas não é dela que vou falar hoje. É de alguém com muito menos roupa. (!) Esther Williams, a sereia da MGM, foi também influente para a moda nas praias e piscinas do mundo todo. Nascida em 1921, a mais nova de cinco filhos, Esther foi campeã de natação e modelo antes de estrear nos cinemas. Antes dela, ninguém teve a grande sacada de glamourizar ainda mais o musical usando números aquáticos. E, por isso mesmo, ninguém tinha experiência para desenvolver maiôs para serem usados nas filmagens.
Em um de seus primeiros filmes “Paixão em Jogo / Thrill of a Romance” (1945), Esther teve de usar maiôs de flanela. Eles encharcavam e pesavam, puxando-na para o fundo da piscina. A saída era, segundo a própria atriz, descer o zíper da peça, retirá-la e voltar nua para a superfície.
Em 1948, ela passou a ser garota-propaganda da marca Cole. Feitos de látex e sem zíper, os maiôs da marca proporcionaram muito mais conforto à estrela. Em 1952, ela desenvolveu um maiô especialmente para as mulheres da Marinha americana.
Nesse mesmo ano ela filmava “A Rainha do Mar / Million Dollar Mermaid” (1952), cinebiografia da nadadora australiana Annette Kellerman. Um dos pontos altos do filme é o escândalo causado pela roupa de banho usada por Annette em 1900. De peça única, ela quase foi presa por atentado ao pudor.
Depois da aposentadoria das telas, Esther se dedicou, entre outras coisas, a criar roupas de banho com estilo retrô. Ela ainda possui essa linha. Seus maiôs certamente influenciaram uma geração de banhistas. Talvez a influência não tenha sido tão acentuada quanto foram outros ícones do cinema, mas certamente várias cinéfilas já se imaginaram nadando em uma de suas extravagantes roupas de banho.
"I can’t remember a time when I wasn’t in a swimsuit. There were all those hours and weeks and years of competitive swimming – and ‘magic movie swimming’!"
Quem
seria mais adequada para viver uma nadadora pioneira do que Esther
Williams? Nessa cinebiografia, na pele da campeã australiana Annette
Kellerman (uau, quantas letras dobradas! Só perde para Tennessee
Williams!), Esther conta a vida de uma pioneira nos trajes de banho
de uma única peça e nos filmes, sem deixar de realizar acrobacias e
nos entreter.
Who
could be a better fit than Esther Williams to portray a pioneer
swimmer? In this biopic, as the Australian champion Annette Kellerman
(wow, so many double letters! Almost as many as Tennessee Williams!),
Esther tells the life of a woman who pioneered in the bathing suits
industry and at the movies, and also did acrobatics and entertained
her public.
Com
vocês, a biografada: Annette
Marie Sarah Kellerman (1886 – 1975) foi uma nadadora australiana,
campeã juvenil, artista do Hipodrome de Nova York em seu tempo de
glória e estrela de cinema, tendo protagonizado o primeiro nu
feminino total da história da sétima arte. Tentou atravessar o
Canal da Mancha por três vezes, sem sucesso. Foi presa por atentado
ao pudor ao usar uma única peça de banho na praia.
The
subject of the biopic:
Annette Marie Sarah Kellerman (1886-1975) was an Australian swimmer,
juvenile champion, Hippodrome artist in New York at its most glorious
days, and movie star. She was the subject of the first total frontal
nude in the history of movies. She tried to cross the English Channel
three times, but didn’t succeed. She was arrested for public
indecency when she wore an one-piece bathing suit at the
beach.
Felizes
Coincidências: Esther
Williams ganhou como apelido o título desse filme (nos EUA: a sereia
de um milhão de dólares).
Tanto Williams quanto Kellerman
fabricavam suas próprias roupas de banho, pois as de suas
respectivas épocas não eram adequadas para a natação em frente às
câmeras.
Happy
coincidences:
Esther Williams got her nickname from the film’s title.
Both
Williams and Kellerman designed their own bathing suits, because the
bathing suits in their respective times weren’t good enough to swim
in front of the cameras.
ALERTA
DE SPOILER: Quando há o acidente (fictício) com o tanque,
Annette estaria gravando “A Filha de Netuno” (1914). Em 1949,
Esther Williams fez um filme com o mesmo título, cuja crítica pode
ser lida AQUI.
SPOILER
ALERT:
When
there is a (fictional) accident with the water tank, Annette was
supposed to be making “Neptune’s Daughter” (1914). In 1949,
Esther Williams made a film with the same title, whose review can be
found HERE.
A
Crítica Retrô: Nenhum
dos “aqua musicais” de Esther Williams figura como obra-prima ou
filme essencial. São, sim, bons exemplos de entretenimento e, é
claro, de uma bela mulher com força física e talento atlético. “A
Rainha do Mar” tem bons momentos de romance, um grandioso balé
aquático e um final, para mim, tenso: o que esperar quando o filme
está acabando e uma tragédia é iminente?
The
Retro Critic:
None of Esther Williams’ “aquamusicals” can be considered a
masterpiece or an essential film. They are, of course, good
entertainment and show a woman with physical strength and athletic
skills. “Million Dollar Mermaid” has nice romantic moments, a
huge underwater ballet and an ending that is, to me, tense: what can
you expect when the film is ending and a tragedy is imminent?