} Crítica Retrô: 1974

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Thursday, December 18, 2025

Banzé no Oeste (1974) / Blazing Saddles (1974)

 

Quando foi exibido pela primeira vez na TV, assisti à animação “O Lendário Cão Guerreiro” (2022), sobre um cão que quer se tornar samurai numa terra onde só há gatos. Fiquei surpresa ao ver o nome de Mel Brooks como produtor executivo, mas não deveria me surpreender: a premissa da animação é a mesma de seu clássico “Banzé no Oeste” (1974). Vejamos como a ideia foi executada originalmente.

When it was first shown on TV, I watched the animation “Paws of Fury: The Legend of Hank” (2022), about a dog who wants to become a samurai in a land where there are only cats. I was surprised to see Mel Brooks’ name as executive producer, but I shouldn’t have been: the premise of the animation is the same as his classic “Blazing Saddles” (1974). Let’s take a look at the original idea.

Os créditos surgem por cima da imagem de um deserto, com os nomes mudando conforme um chicote estala. O filme começa com a construção de uma estrada de ferro que deve cruzar a cidade de Rock Ridge, o que alimenta a ambição do advogado e assistente do governador, Hedley Lamarr (Harvey Corman).

The credits appear over the image of a desert, with the names changing at the noise of a whip. The movie begins with the building of a railroad that shall cross the town of Rock Ridge, something that feeds the ambition of attorney and assistant to governor, Hedley Lamarr (Harvey Corman).

Rock Ridge está tomada pela criminalidade. A população clama por um novo xerife que deve ser mandado pelo governador, interpretado por Mel Brooks. O governador passa a missão para Hedley que, querendo tirar vantagem, escolhe o pior xerife possível, um homem negro chamado Bart (Cleavon Little).

Rock Ridge is taken by criminality. The population asks for a new sheriff to be sent by the governor, played by Mel Brooks. The governor gives the mission to Hedley who, wanting to take advantage, chooses the worst possible sheriff, a black man named Bart (Cleavon Little).

A cidade, habitada totalmente por pessoas brancas, fica horrorizada com a chegada do novo xerife. Enquanto eles desmontam a festa de boas-vindas que organizaram e escrevem cartas iradas para o governador, Bart fica amigo de um preso chamado Jim (Gene Wilder), mas anteriormente conhecido como Waco Kid. Jim diz que “eu devo ter matado mais pessoas que Cecil B. DeMille” - uma frase que me fez rir alto. Bart e Jim se tornam parceiros. 

The all-white town is horrified when the new sheriff arrives. While they dismantle the welcome party they organized and write irate letters to the governor, Bart befriends a prisoner named Jim (Gene Wilder), but formerly known as Waco Kid. Jim says “I must have killed more men than Cecil B. DeMille” - a sentence that made me laugh out loud. Bart and Jim become partners.

Para desmoralizar Bart e esvaziar a cidade, Hedley manda o troglodita Mongo (Alex Karras), mas o novo xerife consegue prender o homem. Já que a Fera falhou, é hora de tentar com a Bela. Hedley recruta a cantora e dançarina Lili von Shtupp (Madeline Kahn) para seduzir Bart.    

To demoralize Bart and empty the city, Hedley sends the troglodyte Mongo (Alex Karras), but the new sheriff manages to arrest the man. Since the Beast failed, it’s time to try with the Beauty. Hedley recruits the singer and dancer Lili von Shtupp (Madeline Kahn) to seduce Bart.

Mel Brooks dirige, escreve, tem dois papéis e escreve as letras das músicas de “Banzé no Oeste”. Na época, ele já havia ajudado a criar uma das minhas séries de TV favoritas, “Agente 86”, e feito grandes filmes como “Primavera para Hitler” (1967). Naquele mesmo ano ele também faria “O Jovem Frankenstein”. Com dois clássicos estreando no mesmo ano, Brooks cimentou sua reputação como mestre da comédia. 

Mel Brooks directs, writes, has two roles and writes the lyrics for the songs in “Blazing Saddles”. At the time, he had already helped create one of my favorite TV shows, “Get Smart”, and done great movies such as “The Producers” (1967). That same year he’d also make “Young Frankenstein”. With two classics releasing in the same year, Brooks cemented his reputation as a master in comedy.

Há piadas flatulentas, gags visuais, trocadilhos, uso cômico de músicas, muitos jogos e palavras que infelizmente se perdem na tradução - como o desejo de dar ao novo xerife “a Laurel and a Hardy handshake”. Há até mesmo uma piada com a Ku Klux Klan, quando Bart e Jim se vestem como membros da KKK e entram numa fila de bandidos. Quando eles precisam falar de suas experiências na vilania, eles dizem que já provocaram “um estouro da boiada… no Vaticano!” 

There are fart jokes, visual gags, puns, funny musical clues, varied plays with words that unfortunately are lost in translation - such as giving the new sheriff “a Laurel and a Hardy handshake”. There is even a joke about the Ku Klux Klan, when Bart and Jim dress up as members of the KKK and enter a line of bandits. When they have to talk about their experiences in villainous acts, they say “stampeding cattle… through the Vatican!”

Há uma excelente gag envolvendo música diegética e não-diegética, conceitos que talvez você não conheça. Música diegética é tocada dentro do mundo do filme, por isso os personagens também podem ouvi-la, enquanto música não-diegética é a trilha que só a plateia pode ouvir. A gag acontece quando o novo xerife está a caminho de Rock Ridge e nós ouvimos uma animada música instrumental. Conforme ele cavalga, saímos do plano detalhe para ver o corpo todo dele e depois o ambiente, quando finalmente vemos que a música está sendo tocada ao vivo por uma orquestra! 

There is a great gag involving diegetic and non-diegetic music, a concept you might not know. Diegetic music is played inside the film world, thus heard also by the characters, while non-diegetic music is the score only the audience can hear. The gag happens when the new sheriff is going to Rock Ridge and we listen to an exciting instrumental song. As he rides, we go from the focus on the details to his whole body and then the environment, when we finally see that the song is being played live by an orchestra!

O papel principal aqui é o ponto alto da carreira de Cleavon Little. Um experiente ator da Broadway, ele teve a ajuda de seu novo amigo Gene Wilder para interpretar em frente às câmeras. Ele continuaria fazendo mais peças, filmes e séries de TV, ganhando alguns prêmios numa carreira que durou 25 anos. 

This leading role is the highest point in the career of Cleavon Little. A seasoned Broadway actor, he had the help of his new friend Gene Wilder to perform in front of a camera. He would go on to appear in more plays, films and TV shows, grabbing a few awards for a career that lasted 25 years.

Mais do que uma comédia hilária, “Banzé no Oeste” é uma história sobre vencer preconceitos e o poder do trabalho em equipe. Foi, além disso, uma ótima maneira de terminar minhas resoluções de Ano Novo de 2025. Sou uma pessoa mais feliz por ter visto e me divertido com este filme.

More than a hilarious comedy, “Blazing Saddles” is a tale of overcoming prejudice and the power of team work. It was, moreover, a great way to end my 2025 New Year’s resolution. I’m a happier person for having watched and laughed with this movie.

Friday, February 23, 2024

Zardoz (1974)

 

Eu ouvi falar pela primeira vez sobre o filme “Zardoz” (2974), estrelando Sean Connery, quando foi exibido numa sessão da meia-noite no Festival de Cinema do TCM em 2017. Estas sessões da meia-noite são eventos divertidos que exibem aqueles filmes que de tão ruins, chegam a ser bons. Na ocasião, uma das cinéfilas presentes até trouxe biscoitos de Zardoz para a plateia. Eu não tinha biscoitos para comer quando assisti a Zardoz, mas certamente tive uma experiência interessante.

 

I first heard about the movie “Zardoz” (1974), starring Sean Connery, when it was shown in a midnight screening at the TCM Film Festival in 2017. These midnight screening are fun-filled events showcasing so-bad-it’s-good movies. At the occasion, a film fan even brought Zardoz cookies for the audience. I had no cookies when watching “Zardoz”, but I certainly had an interesting experience.

Um ser imortal. Um Deus falso por ocupação e um ilusionista por inclinação. Este é Arthur Frayn (Niall Buggy), que vive em uma imensa cabeça flutuante – Zardoz – que dá ordens a soldados parcialmente vestidos e depois vomita armas. Arthur é assassinado pelo exterminador Zed (Sean Connery), que então vai para o Vortex, um local mítico onde todos podem controlá-lo com um único olhar.   

 

An immortal being. A fake God by occupation and a magician by inclination. This is Arthur Frayn (Niall Buggy), living in a huge floating head – Zardoz – that gives orders to barely-dressed soldiers and then vomits guns. Arthur is killed by the exterminator Zed (Sean Connery), who then goes to the Vortex, a mythical place where everybody can control him with only one look.

No Vortex, onde as pessoas comem pão verde, Zed permanece para ser estudado por May (Sara Kestelman), que está pesquisando sobre sexualidade humana. Ele fica lá apesar dos protestos de Consuella (Charlotte Rampling), que sabe que “o monstro”, que é como se referem a Zed, causará muitos desentendimentos. A May são dados sete dias para concluir sua pesquisa, e depois disso Zeb será sacrificado. Mas ele tem uma missão muito maior a cumprir.

 

At the Vortex, where they eat green bread, Zed stays to be studied by May (Sara Kestelman), who is researching about human sexuality. He stays despite Consuella’s (Charlotte Rampling) protests, as she knows that “the monster”, as they call Zed, will cause a lot of disagreements. May is given seven days to conclude her research, and after that Zed will be sacrificed. But he has a much bigger mission to accomplish.

Há infelicidade no Vortex porque não existe a morte. Envelhecer é uma punição e as pessoas ou ficam apáticas ou vivem como boêmios sofredores. Zed pode ser o salvador deles, fazendo uma conexão bem óbvia entre Zardoz e O Mágico de Oz.

 

There is unhappiness in the Vortex because there is no death. Aging is a punishment and the people either become apathetic or live as suffering bohemians. Zed may be their savior, as he makes a quite obvious connection between Zardoz and The Wizard of Oz.

“Zardoz” se passa no ano 2293. A ficção científica tem sido desde os anos 1950 uma área perfeita para a imaginação fluir livremente, mesmo em filmes de baixo orçamento. Na época, mais e mais pessoas se convenceram de que podiam fazer filmes, sendo diretores, atores ou acumulando funções. A paixão pelo cinema fez com que pessoas deixassem de ser meros espectadores e se tornassem cineastas – veja, por exemplo, o inesquecível Ed Wood. “Zardoz” é um descendente direto do cinema de Wood.  

 

“Zardoz” is set in the year 2293. Science fiction had been since the 1950s a perfect area for the imagination to flow freely, even in B-movies. At that time, more and more people believed they could make films, as directors, actors or multi-hyphenates. The passion for film made people stop being only spectators and converted them into filmmakers – see, for instance, the unforgettable Ed Wood. “Zardoz” is a direct descendant of Wood’s cinema.

Mas há uma coisa bacana que podemos encontrar mesmo nos piores filmes de ficção científica: geringonças legais. Em “Zardoz” todo mundo do Vortex tem um anel que fala, responde a perguntas e projeta hologramas. Descobrimos com uma simples busca no Google que companhias da área de tecnologia já estão fazendo “smart rings”, ou anéis digitais. Tais objetos servem para medir estatísticas de saúde, como padrões de sono, ritmo cardíaco, nível de estresse e temperatura corporal.

 

But one nice thing we can find even in the worst sci-fi movies are the cool gadgets. In “Zardoz” everybody in the Vortex has a ring that talks, answers questions and projects holograms. We learn from one simple Google search that tech companies are already making “smart rings”. Such gadgets serve to measure health statistics, such as sleep pattern, cardiac rhythm, stress level and body temperature.

Sean Connery teve dificuldades para encontrar bons papéis depois de anos interpretando James Bond. Aqui, ele está ou usando o uniforme ridículo dos exterminadores ou disfarçado de noiva! Sua sorte só iria mudar em meados dos anos 80, com “O Nome da Rosa” – pelo qual ele ganhou um Bafta – e “Os Intocáveis” – que lhe rendeu um Oscar. A outra protagonista de “Zardoz”, Charlotte Rampling, não estava tentando se aventurar em papéis diferentes, mas fez o filme porque se tratava de “poesia. Ele claramente declara: ame seu corpo, ame a natureza, e ame sua origem”.

  

Sean Connery had difficulty finding good roles after his James Bond years. Here, he is either wearing the ridiculous exterminator uniform or is disguised as a bride! His luck would only change in the mid-80s, with “The Name of the Rose” – for which he won a Bafta – and “The Untouchables” – that gave him an Oscar. The other “Zardoz” lead, Charlotte Rampling, was not trying to venture into different roles, but did the film because it was “poetry. It clearly states: love your body, love nature, and love what you come from”.

O filme foi escrito, produzido e dirigido por John Boorman. Ele fez grande sucesso em 1972 com “Amargo Pesadelo” e depois tentou filmar uma adaptação da saga de O Senhor dos Anéis, e foi durante a preparação para este filme cancelado que ele começou a escrever “Zardoz”. Ultraconfiante, Boorman definiu sua criação como “mais perto da melhor literatura de ficção científica que é mais metafísica. A maioria da ficção científica que dá um mau nome ao gênero é de histórias de aventuras em trajes especiais”.

 

The movie was written, produced and directed by John Boorman. He had a big hit in 1972 with “Deliverance” and then had tried to film an adaptation of the Lord of the Rings saga, and it was during the preparation for his aborted movie that he started writing “Zardoz”. Über-confident, Boorman defined his creation as “closer to the better science fiction literature which is more metaphysical. Most of the science fiction that gives the genre a bad name is adventure stories in space clothes”.

Faz muito sentido quando descobrimos que John Boorman confessou ter usado drogas enquanto escrevia e dirigia várias cenas do filme. Também faz sentido que o figurino hediondo tenha sido desenhado pela esposa de Boorman, Christel Kruse, e não um estilista profissional. Um filme com status de cult, mas ao qual eu não quero assistir de novo: como eu o considerei longo demais e às vezes sem sentido, estou feliz por finalmente riscar “Zardoz” da minha lista – com ou sem biscoitos.

 

It makes a lot of sense when we learn that John Boorman confessed he used drugs while writing and directing several scenes in the movie. It also makes sense that the infamous costumes were made by Boorman’s wife, Christel Kruse, not a professional stylist. A film with a cult following, but one I don’t want to watch again: as I felt it to be too long and sometimes pointless, I’m happy to say I’ve experienced “Zardoz” – with or without cookies.

 

This is my contribution to the Sixth So Bad It’s Good Blogathon, hosted by Rebecca at Taking Up Room.

Friday, September 16, 2011

Alice nas Cidades (1974)

Vamos às definições: “road movie” é um filme cujo enredo se passa “na estrada” e a viagem do (s) protagonista (s) serve de metáfora para um aprendizado.  Wim Wenders é um cineasta alemão responsável por vários filmes que tratam de questões existenciais, como “Paris, Texas” (1984), pelo qual ganhou a Palma de Ouro em Cannes.

Em meados da década de 1970, ele realizou uma trilogia de “road movies” estrelados pelo ator Rüdiger Vogler. “Alice nas Cidades” é o primeiro deles. Vogler interpreta Philip Winter, um jornalista alemão sem inspiração na América. Com um punhado de fotos tiradas por ele mesmo e nenhum assunto para escrever, ele decide voltar para a Alemanha. Isso não será tão fácil como parece: um problema no sistema aeroviário impede a viagem já planejada. No aeroporto, Philip conhece Lisa e sua filha Alice (Yella Rottländer), também prestes a ir para a Alemanha. Mais por necessidade que por afinidade, eles travam amizade e dividem um quarto de hotel. Na manhã seguinte, Philip descobre que Lisa foi embora, deixando Alice sob seus cuidados. Ela promete reeencontrá-los em Amsterdã, o que não acontece, levando homem e menina a cruzarem a Europa em busca da avó de Alice.

Se nos Estados Unidos Philip sentia-se sozinho, durante a viagem ele e Alice experimentam uma curiosa solidão a dois. Sim, estão sós, pois, mesmo perseguindo um mesmo objetivo (encontrar a avó de Alice), não iniciaram essa jornada por vontade própria. Philip não se sente confortável com a companhia da criança. Talvez sinta-se tão perdido dentro do mundo adulto que mesmo sua própria infância é incapaz de voltar-lhe à mente como algo plausível e do qual ele poderia retirar alguma simpatia para com Alice. Talvez ele esteja tão descrente que precisa das fotos (de uma documentação) para provar a si mesmo o que viu da vida.

A importância da imagem para Philip é evidente. Ele tira fotos incessantemente, mesmo elas não representando a realidade, como ele conclui e confessa. O que seria, então, uma representação do mundo melhor e mais evoluída que a fotografia? O cinema. E, talvez, a televisão. Mesmo quebrando um televisor e revoltando-se com as imagens veiculadas pelas propagandas norte-americanas, mais tarde é a TV assistida pela menina que se torna símbolo do início da mudança de Philip. E Alice, por sua vez, retoma o contato com sua identidade e com o mundo através de uma foto da casa da avó.

Aos nove anos de idade, Alice parece mais madura que seu acompanhante perdido. Ela traduz o cardápio escrito em holandês, sabe se cuidar e é a causa da mudança de Philip. Séria, porém carismática, ela não se torna jamais frágil ou dramaticamente sentimental. Procurar a avó da menina é uma metáfora para Philip se procurar, ou procurar sentido em sua vida. Quando se vê responsável por uma criança, percebe finalmente que tem de assumir novas responsabiliades típicas da idade adulta. Contagiado por Alice, ele acaba mostrando que não odeia realmente a cultura norte-americana que não o inspirou. Por fim, Alice e Philip estão se divertindo, tirando fotos em uma cabine.

Quando Alice é informada de que sua avó foi localizada, assim como sua mãe, acaba também a viagem de Philip: ele se reencontrou. Não podemos deixar de nos deliciar com a jornada comparada, de maneira ao mesmo tempo óbvia, simplória e genial, de Alice e o Chapeleiro Louco (ou seria o próprio Lewis Carroll?) e imaginar que, finalmente, Philip encontrou em Alice um assunto para sua história.

"Encontrei com Alice nas Cidades a minha própria caligrafia no cinema. Muito mais tarde, tornou-se-me claro que, nestes anos que passaram, o meu trabalho oscilara entre dois pólos: os filmes a preto e branco sobre temas pessoais e os filmes a cores, adaptações de obras literárias."
Wim Wenders

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