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Wednesday, June 22, 2022

Lost in Translation: odd classic film titles in Portuguese – Billy Wilder edition

 

Ah, Billy Wilder. A master, a genius, a legend. He was born in Austria-Hungary, where it is Poland now, and wanted to be a lawyer, but found everlasting fame working behind the scenes in Hollywood. Coming from Berlin to the US in 1933, without knowing how to speak English, Wilder and his roommate, Peter Lorre, ended up making it big in Hollywood. Wilder started as a screenwriter and later became a director. A fantastic director: he rarely made a bad movie. To honor him in the “Lost in Translation” series, I present some curious titles his films received in Brazil. The titles not mentioned in this article were translated verbatim.

“That Certain Age” (1938) became “Dangerous Age” (Idade Perigosa”)

“What a Life” (1939) received the title “Life Begins at 14” (“A Vida Começa aos 14”)

“Hold Back the Dawn” (1942) is here “The Golden Door” (“A Porta de Ouro”)

“The Major and the Minor” (1942) was released as “The Incredible Suzana” (“A Incrível Suzana”)

“Double Indemnity” (1944) is here “Blood Pact” (“Pacto de Sangue”)

“The Lost Weekend” (1945) became “Human Rag” (“Farrapo Humano”)

“The Bishop’s Wife” (1947) received the title “An Angel Fell from Heaven” (“Um Anjo Caiu do Céu”)

“Sunset Boulevard” (1950) is known as “Dawn of the Gods” (“Crepúsculo dos Deuses”)

“Ace in the Hole” (1951) is here “The Mountain of the 7 Vultures” (“A Montanha dos Sete Abutres”)

“Stalag 17” (1953) received the title “Hell Number 17” (“O Inferno Nº 17”)

“The Seven-Year Itch” (1955) is known as “Sin Lives Next Door” (“O Pecado Mora ao Lado”)

“The Spirit of St Louis” (1957) became “Lonely Eagle” (“Águia Solitária”)

“Some Like It Hot” (1959) is known as “The Hotter, the Better” (“Quanto Mais Quente Melhor”)

“The Apartment” (1960) was retitled as “If my Apartment Could Talk” (“Se meu Apartmento Falasse”)

“One, Two, Three” (1961) is here “Cupid has no Flag” (“Cupido não tem Bandeira”)

“The Fortune Cookie” (1966) was retitled as “A Blonde for a Million” (“Uma Loura por um Milhão”)

Sunday, June 12, 2022

A Arca de Noé (1928) / Noah’s Ark (1928)

 

Às vezes temos uma grata surpresa com um filme ou alguns filmes. Isso acontece quando um filme épico, cuja narrativa é ambientada no passado, mostra paralelos com o presente. Este é o caso do magnífico “Os Dez Mandamentos” de DeMille de 1923 - melhor que o remake sonoro de 1956, na minha opinião. Nele, há a história de Moisés seguida por uma história sobre os perigos de não se seguir os Dez Mandamentos neste mundo moderno e louco. Outro filme mudo que é um épico religioso mas faz comparações com o presente é “A Arca de Noé” (1928).  

Sometimes we’re pleasantly surprised by a movie or a couple of movies. This happens to me when an epic film, whose story is set in the past, shows parallels to the present. This is the case of DeMille’s magnificent “The Ten Commandments” from 1923 - better than the 1956 sound remake, in my opinion. In it, there is the Moses story followed by a story about the dangers of not following the Ten Commandments even in this modern, crazy world. Another silent movie that is a religious epic but draws comparisons with the present is “Noah’s Ark” (1928).

Nos primeiros minutos de projeção, as cartelas de texto, retiradas diretamente da Bíblia, nos contam sobre a construção da Torre de Babel e a adoração do Bezerro de Ouro. Corta para os tempos modernos, e as pessoas ainda estão adorando o dinheiro em bolsas de valores - lembre-se, este filme foi feito um ano antes da quebra da bolsa de Wall Street em 1929. Mas a história moderna que veremos começa antes, em 1914.

In the first minutes of projection, the title cards, taken directly from the Bible, tell us about the building of the Tower of Babel and the worship of the Golden Calf. Cut to modern times, and people are still worshipping money in stock markets - remember, this movie was made one year before the 1929 crash of Wall Street. But the modern story we’re following starts earlier, in 1914.

Um grupo de pessoas muito diferentes está viajando no Expresso do Oriente. Um pastor (Paul McAllister) está lendo a Bíblia na viagem e chama a atenção das pessoas ao seu redor. Todos zombam dele, dizendo que Deus não existe. De repente, um raio atinge e destrói uma ponte, causando um acidente com o trem. Muitos descrentes morrem no local, mas o norte-americano Travis (George O’Brien) e seu amigo Al (Guinn Williams) sobrevivem e ajudam uma garota alemã chamada Marie (Dolores Costello) a encontrar abrigo numa taverna.

A group of very different people is travelling aboard the Orient Express. A Minister (Paul McAllister) is reading the Bible while travelling and calls the attention of people around him. Everybody mocks him, saying there is no God. Suddenly, a thunder strikes and destroys a bridge, causing an accident with the train. Many non-believers die on the spot, but the American Travis (George O’Brien) and his friend Al (Guinn Williams) survive and help a German girl named Marie (Dolores Costello) to reach shelter in a tavern.

A guerra é declarada naquela noite, e Marie tem de fugir do local por ser alemã. Durante algum tempo, Al, Travis e Marie vivem felizes em Paris, intocados pela guerra. Quando os EUA declaram guerra, Al decide se alistar e Travis o segue, mesmo não querendo lutar contra os alemães por causa de Marie. Marie, que é artista, se junta a um grupo para entreter as tropas. Adivinha quem mais está neste grupo? Myrna Loy!  

War is declared that night, and Marie has to flee the place because she’s German. For a while, Al, Travis and Marie live happily in Paris, untouched by the war. When the United States declares war, Al decides to enlist and Travis follows him, even though he didn’t want to fight the Germans because of Marie. When the two boys are gone, Marie, who is an artist, joins a group to entertain the troops. Guess who else is there in the group? Myrna Loy!

E quando a arca de Noé entra na história, você deve estar se perguntando. Com quase 60 minutos de projeção, quando os personagens estão em uma situação muito difícil, nosso velho amigo pastor conta a velha história e diz que a guerra, assim como o dilúvio, veio para exterminar o ódio e o mal no mundo - se ele soubesse que uma guerra ainda pior estava para acontecer! A história bíblica então se desenrola em frente aos nossos olhos, com os mesmos atores da história principal interpretando os papéis, por exemplo: Paul McAllister como Noé, George O’Brien como Japheth, filho de Noé, e Dolores Costello como Miriam, criada de Noé e apaixonada por Japheth.

And when does Noah’s Ark enter the story, you might be asking. At almost the 60 minute mark, when the characters are in a very difficult situation, our old friend the Minister tells the ages-old story and says that the war, like the flood, came to end hate and wickedness in the world - if only he knew a worse war was coming! The Biblical story then unfolds in front of our eyes, with the same actors from the main story playing the parts, for instance: Paul McAllister as Noah, George O’Brien as Japheth, Noah’s son, and Dolores Costello as Miriam, Noah’s handmaid in love with Japheth.

“A Arca de Noé” é um destes curiosos filmes parcialmente falados que estrearam pouco depois de “O Cantor de Jazz” (1927). Há efeitos sonoros, canções e até mesmo alguns diálogos no filme. Como você deve imaginar, isso acontece porque o filme foi planejado como uma produção silenciosa, mas o cinema falado surgiu e houve uma mudança de planos. Com 135 minutos em sua estreia, “A Arca de Noé” sofreu diversos cortes, com muitas sequências com diálogos que não funcionavam bem sendo cortadas, e agora a única versão disponível tem 105 minutos de duração.

“Noah’s Ark” is one of those odd part-talkies released a little while after “The Jazz Singer” (1927). There are sound effects, songs and even some spoken dialogue in the film. As you might have imagined, this happens because the movie was planned to be a silent production, but sound came and the plans changed. Running 135 minutes in its release, “Noah’s Ark” suffered several cuts, with many talking sequences that didn’t work well being cut, and now the only version available is 105 minutes long.

As estrelas deste filme parcialmente falado tiveram experiências variadas com o cinema sonoro. Dolores Costello fez apenas alguns filmes falados, porque ela se casou com John Barrymore no mesmo ano em que “A Arca de Noé” foi feito. Eles se divorciaram em 1935, quando Dolores voltou para o cinema para fazer mais nove filmes antes de se aposentar definitivamente. George O’Brien, mais conhecido hoje como o protagonista de “Aurora” (1927), teve uma longa carreira na era sonora, se aposentando apenas em 1964.

The stars of this part-talkie had varied experiences with sound films. Dolores Costello made only a handful of them, because she got married to John Barrymore the same year “Noah’s Ark” was made. They divorced in 1935, when Dolores went back to cinema to make nine more movies before retiring for good. George O’Brien, better known today as the lead of “Sunrise” (1927), had a long career in the sound era, retiring only in 1964.

Noah Beery, que interpreta dois papéis vilanescos, trabalhava no cinema desde 1913 e fez uma boa transição para o falado, trabalhando em todo tipo de filme até sua morte em 1946. Paul McAllister teve em “A Arca de Noé” seu melhor papel, e trabalhou quase sempre sem receber crédito na era sonora. Louise Fazenda, que tem um pequeno papel neste filme, trabalhou também nos filmes falados, mas não com o mesmo sucesso que teve no cinema mudo. Dito isto, podemos afirmar que a pessoa mais bem-sucedida nos filmes sonoros que também esteve neste filme foi Myrna Loy, que tem duas falas aqui mas que se tornou uma das mais amadas estrelas na década seguinte.

Noah Beery, who plays two villainous roles, had been working in movies since 1913 and transitioned well to talkies, working in all kinds of movies until his death in 1946. Paul McAllister had in “Noah’s Ark” his best role, and worked almost always uncredited in the sound era. Lousie Fazenda, who has a small role in this movie, worked in the sound era as well, but not with the same success she had in silents. That being said, we can affirm that the most successful person in the sound era who was also in this movie was Myrna Loy, who has a couple of lines here but went on to become one of the most beloved actresses of the following decade.

Noah Beery

Assim como a maioria dos épicos da Era de Ouro de Hollywood, “A Arca de Noé” foi muito caro. Na parte da história bíblica, há grandes multidões de pecadores, cenários imensos e até um grande livro escrito com fogo. Obviamente, a sequência do dilúvio é o ápice, e também a parte mais comentada do filme. Várias fontes dizem que três figurantes se afogaram filmando a cena, um teve que amputar a perna e quase uma dúzia quebrou costelas e sofreu outros traumas. A quantidade de água utilizada foi cerca da mesma quantidade de uma piscina olímpica.

Like most epic films from the Golden Age of Hollywood, “Noah’s Ark” was very expensive. In the Biblical story part, there are big crowds of sinners, huge sets and even a massive book written with fire. Of course, the flood sequence is the highlight, and also the most talked about part of the movie. Various sources say that three extras drowned while filming the scene, one had to have his leg amputated and almost a dozen suffered broken ribs and other injuries. The amount of water used is said to be the same of an Olympic-sized swimming pool.

Há uma sequência silenciosa muito poderosa com o exército norte-americano marchando através de Paris. Marie assiste o desfile e podemos sentir seu desconforto, afinal, aqueles homens estavam indo matar o povo dela. Travis, animado no começo, olha em volta e vê um soldado sem uma perna e mulheres em luto pela perda de seus filhos e maridos na guerra. Quando ele vê Al, Travis decide se juntar também ao exército, deixando para trás Marie de coração partido. Ao se juntar ao desfile, Travis pergunta “Para onde vamos?” e recebe como resposta “Quem sabe ou se importa?”.  

There is a very powerful silent sequence featuring the North American army marching through Paris. Marie watches the parade and we can feel her discomfort, after all, those men are about to kill her people. Travis, excited at first, looks around and sees a soldier without a leg and women mourning the loss of their sons and husbands in the war. When he sees Al, Travis decides to join the army as well, leaving behind a broken-hearted Marie. As Travis joins the parade, he asks “Where to?” and receives as an answer “Who knows or cares?”.

Além do desastre criado por Deus, o grande dilúvio, “A Arca de Noé” fala de desastres criados pelo homem que são igualmente prejudiciais. Obviamente, a guerra é o maior desastre feito pelo homem, mas há também a adoração de falsos deuses. Quando o filme compara o dilúvio divino com a guerra, ele cria um precedente muito perigoso: ele chama a guerra de vontade de Deus, praticamente inocentando os líderes mundiais que começaram a guerra ou mesmo dizendo que eles estavam seguindo as ordens de Deus. Este é um discurso extremamente nocivo que o filme infelizmente apoia.

Besides the God-made disaster of the great flood, “Noah’s Ark” talks about man-made disasters that are as harmful. Of course, the war is the biggest man-made disaster, but there is also the worshipping of fake gods. When the movie compares the divine flood with the war, it creates a very dangerous precedent: it calls the war a will of God, practically saying that the world leaders who started the war were innocent or were simply following God’s orders. This is an extremely dangerous discourse that the film unfortunately backs up.

“A Arca de Noé” foi o primeiro trabalho de Darryl F. Zanuck como produtor e, tendo apenas 26 anos de idade, ele prometeu “fazer o maior filme já feito”. Seu grande filme foi um fracasso de bilheteria e também não agradou aos críticos. Entretanto, não é um filme ruim. Considerada a primeira produção notável dirigida por Michael Curtiz em Hollywood, “A Arca de Noé” é uma surpresa agradável que mistura - embora com resultados estranhos - o passado e o presente de uma maneira quase única.

“Noah’s Ark” was Darryl F. Zanuck’s first assignment as a producer and, being only 26 years old, he promised to “make the greatest picture ever made”. His great film was a box-office failure and didn’t please the critics either. However, it’s not a bad film. Considered to be the first notable production directed in Hollywood by Michael Curtiz, “Noah’s Ark” is a pleasant surprise that mixes - although with odd results - the past and the present in an almost unique way.

This is my contribution to the Second Disaster blogathon, hosted by Dubsism and The Pale Writer.    

Friday, June 3, 2022

Uma Pistola para Djeca (1969): faroeste à brasileira

 

Uma Pistola para Djeca (1969): western, Brazilian style

Era uma vez - em meados do século XX - quando um dos astros mais populares do cinema brasileiro era um caipira, Amácio Mazzaropi. Na verdade, ele nasceu em São Paulo, a maior cidade do Brasil, mas sua persona cinematográfica era a de um homem caipira, o “Jeca”. Em seus filmes, quase todos sucessos de bilheteria, Mazzaropi manteve seu coração no interior do Brasil, mas encontrou inspiração em outros lugares - incluindo no gênero faroeste.

Once upon a time - in the mid 20th century - one of the most popular stars in Brazilian cinema was a man of the countryside, Amácio Mazzaropi. He was actually born in São Paulo, Brazil’s biggest city, but his screen persona was of a man from the countryside, the “Jeca”. In his movies, almost always box-office hits, Mazzaropi kept his heart in the countryside, but found inspiration everywhere - including in the western genre.

Mazzaropi parodiou o faroeste em “Uma Pistola para Djeca” (1969). Neste filme, ele interpreta Gumercindo, um fazendeiro cheio de problemas que acredita que todos estes problemas iriam embora se ele tivesse uma pistola. Um dos problemas é grupal: muitos roubos de gado estão acontecendo na região, afetando vários dos amigos de Gumercindo.

Mazzaropi’s western spoof is “Uma Pistola para Djeca” (A Pistol for Djeca, 1969). In this movie, he plays Gumercindo, a farmer full of troubles who believes all his troubles will go away if he gets a pistol. One of the troubles is a group issue: many cattle robberies are happening in the region, affecting several of Gumercindo’s friends.

Outro problema é com a família: a única filha de Gumercindo, Eulália (Patrícia Mayo), foi estuprada pelo filho do latifundiário mais importante da região, o Coronel Arnaldo (Rogério Câmara). O homem nunca foi julgado por seu crime e agora o neto de Gumercindo, Paulinho (Milton Pereira), sofre na escola porque não tem pai.

Another problem is a family one: Gumercindo’s only daughter, Eulália (Patrícia Mayo), was raped many years ago by the son of the most important landowner of the region, Colonel Arnaldo (Rogério Câmara). The man was never judged by his crime and now Gumercindo’s grandson, Paulinho (Milton Pereira), is bullied at school because he doesn’t have a father.

O desejo de Gumercindo se torna realidade quando a viúva Eufrásia (Zaira Cavalcanti), que está apaixonada por ele, lhe dá uma velha pistola e Gumercindo se torna o “Djeca do sertão”, um verdadeiro justiceiro.

Gumercindo’s wish comes true when the widow Eufrásia (Zaira Cavalcanti), who is in love with him, gives him an old pistol and Gumercindo becomes the “Djeca do sertão” (Djeca of the countryside), a true vigilante.

As roupas usadas pelo Coronel e sua família mostram que o filme não é ambientado no tempo presente: é ambientado no Brasil Colônia (1500-1822), quando quase toda a população vivia em fazendas e sobrevivia com a agricultura. Outros filmes de Mazzaropi se passam neste mesmo período - ou mesmo no Brasil Império (1822-1889), quando a vida rural ainda predominava - e a época é perfeita para os tipos de histórias que Mazzaropi gostava de contar.

The clothes worn by the Colonel and his family point out that the film isn’t set in modern times: it’s set during the Colonial Period in Brazil (1500-1822), when almost everyone lived in farms and survived from agriculture. Some other movies by Mazzaropi are set in this period - and even during the Imperial Period (1822-1889), when the rural lifestyle was still predominant - and the time is perfect for the kind of stories Mazzaropi liked to tell.

Djeca é, obviamente, uma referência a Django, o personagem dos western spaghetti italianos que se tornou ultrapopular desde sua primeira aparição em 1966. Django carrega uma metralhadora dentro de um caixão e é um grande estrategista. Nosso Djeca é um homem dedicado à família, honesto - ao contrário do Coronel, que é um hipócrita - e bem menos violento que Django.

Djeca is, of course, a nod to Django, the character from Italian spaghetti westerns that became ultra-popular since his first film premiered in 1966. Django carries a machine gun inside a coffin and is a huge strategist. Our Djeca - being “Jeca” a not-so-sweet way to call people from the countryside in Brazil - is a family-oriented man, honest - contrary to the Colonel, who is an hypocrite - and not nearly as violent as Django.

Ao contrário da maioria dos faroestes - e pode ser meio polêmico dizer que faroestes têm tramas simples, mas muitos deles realmente têm - a trama de “Uma Pistola para Djeca” é incrivelmente complicada, podendo ser chamada inclusive de “folhetinesca”. Há muitos focos narrativos - a família de Gumercindo, os fazendeiros que foram roubados, a vida amorosa do filho do Coronel - e há também muitos plot twists, pessoas acusadas injustamente e um ajuste de contas final que não acontece num tiroteio - embora haja um tiroteio do qual até as mulheres participam.

Contrary to most westerns - and it may be quite polemic to say that westerns have simple plots, but most of them do - the plot in “Uma Pistola para Djeca” is incredibly complicated, something that can be called “feuilleton style”. There are several narrative focuses - Gumercindo’s family, the farmers who have been robbed, the Colonel’s son’s love life - and there are also many plot twists, wrongly accused people and a final settling of accounts that doesn’t happen in a shooting - even though there is a shooting, and even the women take part in it. 

Mazzaropi teve uma carreira prolífica no cinema que durou quase 30 anos. Em sua primeira década nos filmes, mais ou menos entre 1952 e 1960, ele interpretou personagens vivendo no ambiente urbano e lidando com todo tipo de problema: trabalho, família, romance. Em 1959, entretanto, ele encontrou sua mina de ouro ao interpretar “Jeca Tatu” e dali em diante ele interpretaria sempre um homem simples vivendo numa fazenda e lidando, quase sempre, com a ganância de grandes latifundiários que querem prejudicar os homens simples que plantam para sua subsistência.

Mazzaropi had a prolific career in movies that lasted almost 30 years. In his first decade at the cinema, roughly from 1952 to 1960, he played characters in urban environments dealing with all kind of trouble: work, family, love. In 1959, however, he found his gold mine by playing “Jeca Tatu” and from then on focused in rural tales. In his films as Jeca, he would always play a simple man living in a farm and dealing, usually, with the greed of more powerful landowners who want to harm the little men sowing for subsistence.

Mazzaropi mais uma vez faria uma paródia do faroeste em “O Grande Xerife” (1972). Neste filme, Mazzaropi interpreta um funcionário do correio que de repente é nomeado xerife, exatamente quando acontece um crime e um bandido chamado João Bigode precisa ser preso. Em ambos os filmes, há uma mistura de paródia cômica e musical porque - algo que acontece em todos os filmes de Mazzaropi - há números musicais entrelaçados à narrativa.

Mazzaropi would once again spoof the western in “O Grande Xerife” (The Great Sheriff, 1972). In this movie, Mazzaropi plays a man who works at the post office but is suddenly made sheriff, exactly when a crime happens and a bandit named João Bigode (John Mustache) needs to be arrested. In both movies, there is a mix of comic spoof and musical, because - something that happens in all of Mazzaropi’s movies - there are musical numbers intertwined to the plot.

Quando “Uma Pistola para Djeca” foi feito, em 1969, o Brasil era ainda um país muito rural e conservador. Hoje não é mais um país tão rural, mas infelizmente ainda é bem conservador.  Muitas pessoas podiam, em 1969, se identificar com o Gumercindo de Mazzaropi e sua luta do bem contra o mal - algo, aliás, bem comum no faroeste. As pessoas ainda podem se identificar com isto. O humor no filme é simples, por vezes até pueril, e esta é mais uma razão pela qual Mazzaropi se manteve tão popular - com ou sem paródia.

When “Uma Pistola para Djeca” was made, in 1969, Brazil was still a very rural, conservative country. It’s not such a rural country anymore, but it unfortunately remains conservative. Many people could, in 1969, relate to Mazzaropi’s Gumercindo and his fight of good against evil - something that is, by the way, very common in the western genre. People still can relate to it. The humor in the movie is simple, sometimes even childish, and it’s another reason why Mazzaropi has remained so popular - with or without a spoof.

This is my contribution to The Foreign Western blogathon, hosted by Debra at Moon in Gemini. 

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