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Sunday, August 9, 2020

Pavor nos Bastidores (1950) / Stage Fright (1950)

Primeiro, vemos nossos protagonistas fugindo da polícia. Seria ele mais um dos “homens errados” de Hitchcock, um cara sendo perseguido por causa de um crime que ele não cometeu? Talvez. Talvez não. No mundo de Hitchcock, nada é o que parece e, embora seja considerado um filme menor na filmografia do diretor, “Pavor nos Bastidores” merece ser analisado.

We first see our leads as hey are running away from the police. Is he another of Hitchcock's “wrong men”, a guy being pursued because of a crime he didn't commit? Maybe. Maybe not. In Hitchcock’s world, nothing is what it seems, and although it’s considered a lesser entry in the director’s filmography, “Stage Fright” is a film worth analyzing.

Num flashback, vemos como a atriz Charlotte (Marlene Dietrich) foi atrás do amante Jonathan (Richard Rodd) logo após matar acidentalmente o marido durante uma discussão. Ele a aconselha a ir para o teatro onde ela trabalha e agir como se nada tivesse acontecido até que alguém encontre o corpo. Mas, para ela fazer isso, ela não pode estar usando um vestido branco manchado de sangue.

In a flashback, we see how the actress Charlotte (Marlene Dietric) went to see her lover Jonathan (Richard Todd) after accidentaly killing her husband during a heated argument. He advises her to go the theater where she works and act as nothing happened until someone finds the body. But, for her to do that, she can't be wearing a white dress stained with blood.

Jonathan vai ao apartamento dela para pegar um vestido limpo. Lá, ele tenta fazer com que o lugar pareça ter sido invadido por um ladrão que também matou o marido de Charlotte, mas o plano de Joanathan falha quando a empregada Nelle (Kay Walsh) chega, encontra o corpo e vê Jonathan saindo depressa. Depois que Charlotte deixa a casa de Jonathan, a polícia chega – porque Nellie o reconheceu – e ele foge deles, levando consigo o vestido manchado de sangue.

Jonathan goes to her apartment to get a clean dress. There, he tries to make it appear like the place was invaded by a thief who then killed Charlotte's husband, but Jonathan's plan fails quickly as the maid Nellie (Kay Walsh) arrives, finds the body and sees Jonathan leaving in a hurry. After Charlotte leaves Jonathan's place, the police arrive – as Nellie has recognized him – and he runs away from them, taking the blood stained dress with him.

Jonathan então vai até a Real Academia de Arte Dramática para pedir ajuda à sua velha amiga Eve (Jane Wyman). Fica claro que ela está apaixonada por ele, e naturalmente ela o ajuda a fugir. Estamos agora de volta ao começo, com ambos no carro. Eve leva Jonathan para a casa do pai dela. Ele, o Comandante Gill (Alastair Sim) rapidamente percebe que o vestido foi manchado propositalmente de sangue – não foi apenas resultado de sangue espirrando por todos os lados. Charlotte pode estar querendo incriminar Jonathan.

Jonathan then goes to the Royal Academy of Dramatic Art to ask his old friend Eve (Jane Wyman) for help. It's crystal clear that she is in love with him, so she naturally helps him escape. We're now back to the beginning, with the two in the car. Eve takes Jonathan to her father's house. He, Commodore Gill (Alastair Sim), quickly notices that the stain in the dress was deliberately put there – it was not just blood splashing all over. Charlotte might have wanted to incriminate Jonathan.

Enxerida e apaixonada, Eve decide confrontar Charlotte. Para isso, ela bola um plano ela dirá a Nellie, a empregada, que ela é uma repórter escrevendo uma matéria sobre o caso e convencerá Nellie a deixá-la tomar seu lugar como empregada de Charlotte. Nellie aceita a ideia – e um pouco de dinheiro – mas as coisas se dificultarão porque Eve acabou de fazer amizade com o detetive do caso, Wilfred Smith (Michael Wilding), e ele sabe tudo sobre ela, como bom detetive que é.

Nosy and in love, Eve decides to confront Charlotte. For this, she develops a plan: she'll tell Nellie, the maid, that she is a reporter writing a story about the case and will convince Nellie to let her take her place as Charlotte's maid. Nellie accepts the idea – and some money – but things will be made difficult because Eve has just made an acquaintance with the detective of the case, Wilfred Smith (Michael Wilding), and he knows everything about her, as any good detective would do.

O figurino de Marlene Dietrich foi feito por Christian Dior, que não recebeu créditos no filme. Quando ela chega ao apartamento de Jonathan, seu vestido é branco e tem uma chamativa mancha de sangue, e Jonathan pega um vestido quase idêntico, porém preto, para ela se trocar. É uma escolha óbvia que mostra o lado sombrio dos dois personagens. Uma troca de roupa semelhante porém mais sutil aconteceria em “Psicose” (1960), com Marion Crane mudando a cor de seus sutiãs, também de branco para preto, para mostrar que ela mudou de ideia e decidiu ficar com os 40 mil dólares que estava transportando.

Marlene Dietrich's outfits were provided by Christian Dior, uncredited. When she arrives at Jonathan's place, her dress is white and has a prominent blood stain, and Jonathan gets a nearly identical black dress for her to change. It's an obivous choice to show the real darkness of both characters. A similar but more subtle wardrobe change would be found in Hitchcock's “Psycho” (1960), with Marion Crane changing the color of her bras, also from white to black, to show the change of heart of the character when she decides to keep the 40,000 dollars she was transporting.

A cena com Eve tentando se disfarçar é muito engraçada. Em seu quarto, ela muda o penteado, as roupas, coloca um chapei e óculos de lentes grossas. Mas ela não passa no teste principal: a mãe de Eve ainda é capaz de reconhecê-la! Ao se dar conta de que Charlotte nunca a viu, Eve não se disfarça, apenas se apresenta como Doris, prima de Nellie. Se você assistiu a alguns filmes de Hitchcock, já deve ter percebido que eles têm um lado cômico. Os personagens mais engraçados de “Pavor nos Bastidores” são os pais de Eve, interpretados por Alastair Sim, mais conhecido por “Um Conto de Natal” (1951), e Sybil Thorndike, uma conhecida atriz de cinema e teatro.

The scene with Eve trying a disguise is very funny. In her bedroom, she changes her hair, her clothes, puts on a hat and thick glasses. But she doesn't pass the main test: Eve's mother still can recognize her! Realizing that Charlotte has never seen her, Eve goes as she is, only presents herself as Doris, Nellie's cousin. If you have watched a few of Hitchcock's movies, you might have seen that they had a humorous side. The funniest characters in “Stage Fright” are Eve's parents, played by Alastair Sim, from “A Christmas' Carol” (1951) fame, and Sybil Thorndike, a celebrated stage and film actress.

Uma novata em um papel pequeno chama nossa atenção: ela é Patricia Hitchcock, filha de Alfred Hitchcock e Alma Reville. Patricia, em sua estreia no cinema, interpreta Chubby Bannister, atriz e amiga de Eve. Ela já havia feito algumas peças em Nova York e estava enão estudando na Real Academia de Arte Dramática. Patricia aparece apenas na segunda metade do filme, mas foi dublê de Jane Wyman em algumas sequências dirigindo. Algumas pessoas, como o crítico de cinema Stephen Whitty, chegam mesmo a chamar Wyman de uma “Patricia glamourizada”.

A newcomer playing a small part calls our attention: she’s Patricia Hitchcock, Alfred Hitchcock’s and Alma Reville’s daughter. Patricia, in her film debut, plays Chubby Bannister, an actress and Eve’s friend. She had already made a couple of plays in New York and was by then actually studying at the Royal Academy of Dramatic Art. Patricia only appears by the second half of the film, but served as a stand-in for Jane Wyman in some driving sequences. Some people like film critic Stephen Whitty even go as far as calling Wyman a glamourized Patricia.

O roteiro foi escrito por Alma Reville e Whitfield Cook, autor de uma peça na qual Patricia atutou. Segundo Patrick McGilligan, autor do livro “Alfred Hitchcock: A Life in Darkness and Light”, Alma e Whitfield passaram alguns meses trabalhando juntos em 1947 e tiveram um caso neste período, de acordo com os diários de Whitfield. Nenhuma outra fonte sustenta esta ideia, e a dupla trabalhou em dois roteiros adaptados para Hitchcock:   “Pacto Sinistro” (1951) e este “Pavor nos Bastidores”, baseado em um romance publicado de forma seriada numa revista. “Pavor nos Bastidores” foi o último filme em que Alma foi creditada.

The screenplay was written by Alma Reville and Whitfield Cook, who was the author of a play in which Patricia Hitchcock appeared on stage. According to Patrick McGilligan, author of the book “Alfred Hitchcock: A Life in Darkness and Light”, Alma and Whitfield spent some months working together in 1947 and had an affair in this period, based on Whitfield’s diaries. No other sources support this claim, and the duo worked in two adapted screenplays for Hitchcock: “Strangers on a Train” (1951) and this “Stage Fright”, based on a novel originally published serialized in a magazine. “Stage Fright” was the last time Alma Reville was credited for her work in a film.

Hitch and Alma

Hitchcock disse que “Pavor nos Bastidores” deu a ele a chance de explorar criticamente o trabalho do ator. Por isso, é interessante que, para Eve, atuar seja fingir ser outra pessoa – e ainda mais interessante é o fato de encontrarmos essa análise num filme feito por um diretor que dizia que “atores são como gado”. Há várias evidências de Hitchcock usando essa frase desde 1940, e quando Patricia se tornou atriz ele até disse que “Pat é o mais adorável gado que eu já vi”. Para François Truffaut, Hitchcock deu mais de uma explicação sobre a frase, mas ela permanece uma controvérsia no mundo hitchcockiano.

Hitchcock said that “Stage Fright” gave him the chance to explore critically the acting craft. So, it’s interesting that, for Eve, acting is pretending to be someone else – and even more interesting that we can find this in a film made by a director who told that “actors are cattle”. There is a lot of evidence from Hitchcock using this quote as early as 1940, and when Patricia became an actress he even said that “Pat is the nicest cattle I’ve ever seen”. For François Truffaut, Hitchcock gave more than one explanation for the quote, but it still remains a controversy in the Hitchcockian world. 

O comandante Gill analisa a situação objetivamente: Eve está tratando tudo como se fosse uma peça de teatro. “Tudo parece uma peça de teatro quando você está apaixonada pelos palcos”, ele diz. Na “Alfred Hitchcock Encycloped”, Stephen Whitty comenta que “Pavor nos Bastidores” é um dos muitos filmes de Hitchcock com sequências crucias em teatros, e chega à mórbida conclusão de que, para o diretor”, “a vida é um espetáculo, mas a maioria de nós somos espectadores simples que ficaram com os piores lugares”.

Commodore Gill analyzes the situation objectively: Eve is treating it like a play. “Everything looks like a play when you're stage struck”, he says. At the “Alfred Hitchcock Encycloped”, Stephen Whitty notices that “Stage Fright” is one of many Hitchcock films with crucial sequences happening in theaters, and reaches the morbid conclusion that, for the director, “life is a show, but most of us are simply ticketholders stuck in the cheap seats”. 

Vindo depois de quarto fracassos de bilheteria consecutivos – e a lista inclui o hoje cultuado “Festim Diabólico” (1948) – “Pavor nos Bastidores” foi chamado por Stephen Whitty de “um intervalo” na filmografia de Hitchcock. Em “Pavor nos Bastidores”, ele teve grandes atores coadjuvantes, filmou uma bela cena perto do final com destaque para os olhos de Jane Wyman e Richard Todd e também enganou o público ao quebrar uma regra crucial e subentendida dos flashbacks. Felizmente, o público perdoou Hitchcock por essa traição e, após “Pavor nos Bastidores”, ele faria alguns de seus melhores filmes.

Coming after four consecutive box-office disasters – and the list includes the now cult “Rope” (1948) – “Stage Fright” was called by Stephen Whitty as an “intermission” in Hitchcock’s body of work. In “Stage Fright”, he managed to have great supporting actors, he shot a beautiful scene near the end with Wyman’s and Todd’s eyes highlighted and he also deceived his audience by breaking a crucial unwritten rule on flashbacks. Fortunately, the public forgave Hitchcock for this deception, and, after “Stage Fright”, he’d make some of his best movies.

This is my contribution to the 4th Alfred Hitchcock blogathon, hosted by Maddy at Maddy Loves Her Classic Films.

Saturday, August 8, 2020

Festa Brava (1947) / Fiesta (1947)


ESTA CRÍTICA TEM SPOILERS

THIS ARTICLE HAS SPOILERS

É sempre interessante ver filmes clássicos subvertendo os papéis de gênero. Os resultados são mistos: algumas vezes eles são divertidos, às vezes são vergonhosos e apenas em raras ocasiões são revolucionários. “Festa Brava” (1947) é um destes filmes que têm uma premissa boa – Esther Williams como toureira, fingindo ser seu irmão gêmeo, interpretado por Ricardo Montalban – e infelizmente é outro filme que derrapa na execução da premissa.

It’s always interesting to see classic films subverting gender roles. The results are mixed: sometimes they are fun, often they are cringe-worthy and only in rare occasions they are revolutionary. “Fiesta” (1947) is one of those films that present a good premise – Esther Williams as a bullfighter, pretending to be her twin brother, played by Ricardo Montalban – and unfortunately it’s another movie that falls flat in the execution of the premise.

Antonio Morales (Fortunio Bonanova) é um “matador” que tem filhos gêmeos: Maria e Mario. Ele espera que Mario se torne um toureiro, seguindo seus passos, e... não espera muito de Maria – é como as coisas “deveriam” ser. Mas as coisas raramente são como “deveriam” ser, e Antonio, vê, com horror, seus filhos escolhendo carreiras opostas quando crescem: Mario (Ricardo Montalben) decide se tornar músico, enquanto Maria (Esther Williams) se encanta pelas touradas.

Antonio Morales (Fortunio Bonanova) is a matador who has twin children: Maria and Mario. He expects Mario to become a bullfighter, following his footsteps, and… doesn’t really expect a lot from Maria – as things “should” be. But things rarely are what they “should” be, and Antonio sees, with horror, their children choosing opposite careers when they grow up: Mario (Ricardo Montalban) decides to become a musician, while Maria (Esther Williams) is passionate about bullfights.

É difícil ver, no começo do filme, Antonio chegando após sua esposa dar à luz e oferecendo um brinde ao filho – para logo depois ser informado de que o bebê é menina. Um de seus amigos, Chato Vasquez (Akim Tamiroff) diz que isso é uma desgraça e pergunta: “o que ele vai fazer com uma menina?”. Numa feliz mudança, outro bebê nasce e desta vez é um menino. Antonio apresenta seu filho aos amigos e esquece sua filha recém-nascida nos braços de Chato – o homem que não vê nenhuma utilidade para uma menina. 

It’s painful to see, in the beginning of the film, Antonio arriving after his wife has given birth and offering a toast to his son – only to be informed that the baby is a girl. One of his friends, Chato Vasquez (Akim Tamiroff) says this is a disgrace and asks: “what will he do with a girl?” In a fortunate twist, another baby is born and this time it’s a boy. Antonio presents his son to his friends and forgets his newborn daughter in the arms of Chato – the man who doesn’t see any use for a girl.

Na infância, Mario aprende a enfrentar touros, mas fica óbvio que ele não tem muito foco para se tornar profissional. Enquanto isso, do lado de fora da arena, Maria imita os movimentos que seu pai faz com a capa. Mario está muito mais interessado em criar suas próprias composições no piano. A mãe de Maria e Mario, Señora Morales (Mary Astor) entende que a música é a verdadeira paixão de Mario.

As a kid, Mario is trained to fight bulls, but it’s clear he lacks the focus to become a professional. Meanwhile, outside the arena, Maria mimics the movements her father makes with his cape. Mario is much more interested in creating his own compositions by the piano. Maria and Mario’s mother, Señora Morales (Mary Astor) understands that music is Mario’s true passion.

No 21º aniversário deles, Mario enfrenta seu primeiro touro na frente do público. Entretanto, o namorado de Maria, Pepe (John Carroll), enviou algumas composições de Mario para um maestro, e o maestro Maximino Contreras (Hugo Haas) decide convidar Mario para estudar música na Cidade do México. Infelizmente, Antonio encontra o maestro e diz que Mario não pode ir para a Cidade do México no momento, e assim esconde a proposta do maestro para o filho.

When their 21st birthday arrives, Mario is booked to fight his first bull in front of an audience. However, Maria’s boyfriend Pepe (John Carroll) has sent some of Mario’s compositions to a maestro, and the maestro Maximino Contreras (Hugo Haas) decides to invite Mario to study music in Mexico City. Unfortunately, Antonio meets the maestro first and says Mario can’t go to Mexico City right now, hiding the proposition from his son.

Duas semanas depois, na sua estreia na grande arena, Mario finalmente encontra o maestro e, ao descobrir que seu pai escondeu a verdade, ele abandona a tourada e a família. Quando os jornais começam a chamar Mario de covarde, Maria decide se vestir como seu irmão e ir para a arena, para redimir o nome dele e fazê-lo voltar para casa.

Two weeks later, in his big arena debut, Mario finally meets the maestro and, upon learning that his father has hidden the proposition, he leaves bullfighting and his family. When newspapers start calling Mario a coward, Maria decides to disguise as her brother and hit the arena, to both redeem his name and make Mario come home.

As cenas de tourada se parecem com a da maioria das produções de Hollywood, e podemos ver sequências semelhantes em “Sangue e Areia” (1941) e “O Sol Também se Levanta” (1959). Um elemento presente em “Festa Brava” e nestes outros filmes é a religiosidade dos toureiros. A representação dos latinos e da cultura latino-americana neste e nos outros filmes é simpática, e em “Festa Brava” ela é diretamente influenciada pela Política da Boa Vizinhança da Segunda Guerra Mundial e pelo fato de a América Latina ser então um enorme mercado em que Hollywood estava focando.

The bullfighting scenes look like most Hollywood productions and we can see similar sequences in “Blood and Sand” (1941) and “The Sun Also Rises” (1959). An element present in “Fiesta” and these other films is the religiosity of bullfighters. The portrayal of Latinos and Latin culture in this and the other films is sympathetic, and in “Fiesta” it is directly influenced by the Good Neighbor Policy from the Second World War and the fact that Latin America was then a huge market Hollywood was focusing on.

Quem se lembra de Ricardo Montalban da série de TV “Ilha da Fantasia” (1977-1984) se surpreenderá com sua estreia em Hollywood – pois ele já havia feito 13 filmes no seu país natal, o México. Montalban mostra em “Festa Brava” que ele era um grande dançarino – e sua companheira de dança é ainda melhor: Cyd Charisse, no papel de Conchita, o nome mexicano mais estereotipado de todos os tempos.

Those who are only familiar with Ricardo Montalban from the TV series “Fantasy Island” (1977-1984) will be very impressed by his Hollywood film debut – as he had already made 13 films in his native Mexico. Montalban shows in “Fiesta” that he was a great dancer – and his dance partner is an even greater dancer: Cyd Charisse, playing the role of Conchita, the most stereotyped Mexican name ever.

Na cena em que Mario ouve sua composição no rádio pela primeira vez e decide tocá-la no piano para acompanhar, o rosto de Montalban se ilumina com orgulho e felicidade. É uma linda cena, melhorada por ótima música, e é nela que Montalban mais se destaca, embora ele não diga uma palavra!

In the scene when Mario listens to his composition in the radio for the first time and decides to also play it in the piano, Montalban’s face illuminates with pride and happiness. It’s a beautiful scene, enhanced by the wonderful music, and the one where Montalban shines the most, even though he doesn’t say a word!

Esther Williams nada brevemente em “Festa Brava”, mas nunca esteve tão bonita quanto na cena em que se veste de toureira – o que prova minha teoria de que todo mundo fica bem vestido de toureiro, e sei disso porque me vesti assim num Carnaval quando era criança. A edição das sequências de touradas de Maria é veloz, furiosa e muito boa. Alternando rapidamente entre close-ups de Esther Williams e tomadas longas com dublês, as sequências se tornam tensas e emocionantes.

Esther Williams swims very briefly in “Fiesta”, but she never looked as stunning as she does dressed as a bullfighter – which proves my theory that everybody looks great dressed as a bullfighter, and I know that because I dressed as one in Carnival once when I was a kid. The editing of Maria’s bullfighting sequences are fast, furious and very good. Alternating quickly between close-ups of Esther Williams and long-shots with stunts, the sequences become tense and engaging.

A personagem de Mary Astor sequer tem nome próprio, mas é muito interessante. Quando Maria e Mario estão prestes a completar 21 anos, ela pergunta a Antonio se ele a perdoou por ter dado primeiro uma filha a ele. Antonio diz que a perdoou porque ela consertou o “erro” logo depois – o que a faz rir, e nós ficamos com um gosto amargo na boca. Mais tarde, quando Mario sai de casa, ela diz que Antonio é o culpado e que ela está muito aliviada porque seu filho não enfrentará a morte constantemente na arena, como seu marido fazia. Ela até mesmo diz que chorou lágrimas de alegria quando Antonio foi ferido, pois isso significou o fim da carreira dele. Hoje, infelizmente, ainda há muitos pais como Antonio, que desprezam suas filhas – ou pior, querem ter uma filha primeiro para ela cuidar dos outros filhos, o que significa que o homem não quer uma filha, mas uma babá grátis – e eu espero que todos que têm pais como Antonio tenham mães compreensivas como a Señora Morales ou mesmo alguém como Chato, que serve como figura paterna para Maria.

Mary Astor’s character may not even have a first name, but she’s very interesting. With Maria and Mario about to turn 21, she asks Antonio if he ever forgave her for giving him a daughter first. Antonio says he did forgive her because she fixed the “mistake” right after – to which she laughs, and we’re left with a bitter taste in our mouths. Later, when Mario leaves, she says Antonio is to blame and she’s very relieved her son won’t face death constantly at the arena, as her husband did. She even says she cried tears of joy when Antonio was injured, because that meant that he wouldn’t fight bulls again. Today, unfortunately, there are still many fathers like Antonio, who despise their daughters – or worse, want a daughter first for her to take care of the other children, which means the man doesn’t want a daughter, but an unpaid nanny – and I hope everybody whose father is like Antonio has a comprehensive and supportive mother like Señora Morales or even someone like Chato, who is a kind of father figure for Maria.

“Festa Brava” acaba sendo datado, mas tem alguns momentos divertidos – quando Hugo Haas e especialmente Akim Tamiroff roubam a cena – e alguns bons momentos musicais. Certamente faltou ousadia, mas não charme, no filme – pois Maria se torna toureira apenas para trazer seu irmão de volta, e não tem intenção de seguir na carreira. Para Ricardo Montalban, foi um ponto de virada: nascia uma estrela.

Fiesta” ends up being dated, but with some fun moments – when Hugo Haas and especially Akim Tamiroff steal the scene – and some fine musical moments with authentic Mexican music. It certainly lacked boldness, but not charm – as Maria becomes a bullfighter only to bring her brother back, and has no intention to follow the career. And, for Ricardo Montalban, it’s a turning point: at “Fiesta”, a star was born.

Some of the images were taken from the website Blonde at the Film.

This is my contribution to the Esther Williams blogathon, hosted by Michaela at Love Letters to Old Hollywood.

Thursday, July 16, 2020

A Mulher Miraculosa (1931) / The Miracle Woman (1931)

Nas últimas semanas, minhas noites de domingo têm sido dedicadas ao reboot de “Perry Mason” exibido na HBO. Embora Mason seja um personagem conhecido e o protagonista da série, desde o começo a personagem que me chamou a atenção foi a Irmã Alice, interpretada por Tatiana Maslany. Quando eu a vi pregando no trailer da série, só consegui pensar numa coisa: ela é exatamente igual à Barbara Stanwyck em “A Mulher Miraculosa” (1931), um filme subestimado de Frank Capra no qual, na minha opinião, Stanwyck tem uma de suas melhores performances.

In the last few weeks, my Sunday nights have been occupied by the HBO reboot of “Perry Mason”. Although Mason is a well-known character and the lead of the show, since the beginning the character who called my attention was Sister Alice, played by Tatiana Maslany. When I saw her preaching in the trailer, I could only think about one thing: she was exactly like Barbara Stanwyck in “The Miracle Woman” (1931), an underrated Frank Capra film in which Stanwyck delivers, in my opinion, one of her best performances.

Em “A Mulher Miraculosa”, Stanwyck interpreta Florence Fallon, a filha de um pastor. Os serviços de seu pai não são mais necessários na igreja, e ele morre antes de fazer seu último sermão para os fiéis. Florence é incumbida de ler o último sermão, mas entra em colapso no meio da leitura e começa a dizer algumas verdades inconvenientes para os fiéis, que abandonaram o pai dela quando ele ficou doente e agora ele nem pode ter um enterro decente. Ela chama os fiéis de hipócritas e pecadores e todos eles deixam o recinto porque não aguentam ouvir a verdade.

In “The Miracle Woman”, Stanwyck plays Florence Fallon, the daughter of a preacher. Her father’s services are no longer needed by the church, and he dies before addressing his people for the last time. Florence receives the mission to read his final speech, but she breaks in the middle of it and starts telling inconvenient truths to the churchgoers, who abandoned her father when he got ill and now he can’t even have a decent burial. She calls the churchgoers hypocrites and sinners and they all leave because they can’t handle the truth.

Um homem chamado Bob Hornsby (Sam Hardy) estava de passagem pela igreja naquele dia e, depois que o ataque de fúria de Florence termina, ele oferece uma parceria: com a administração dele e os conhecimentos que ela tem da Bíblia, eles podem criar uma nova igreja. Sem nada a perder, Florence aceita a oferta e o Templo da Felicidade surge.

A man called Bob Hornsby (Sam Hardy) happened to be at the church that day and, after Florence’s rage is over, he offers her a business partnership: with his management and her knowledge of the Bible, they can create a new church. Without anything to lose, Florence accepts the offer and the Temple of Happiness is born.

Em pouco tempo o templo está cheio e as pregações dela estão sendo transmitidas pelo rádio. Um dia, um homem cego ouve uma dessas pregações através do rádio da vizinha e muda de ideia sobre seu suicídio iminente. O homem é John Carson (David Manners), um ex-aviador e atualmente músico desempregado. As palavras de Florence – ou da Irmã Fallon – dão a ele esperança e ele decide não apenas continuar perseguindo o sucesso, mas também que deve conhecer a pregadora.

Soon her temple is full and her addresses are being broadcasted in the radio. One day, a blind man listens to one of these addresses through his neighbor’s radio and changes his mind about committing suicide. The man is John Carson (David Manners), a former aviator and currently unemployed musician. Florence’s – or Sister Fallon’s – words give him hope in the future and he decides not only to keep going after success, but also to meet the preacher.

A proprietária do apartamento de John, Senhora Higgins (Beryl Mercer), o leva ao templo logo no dia em que a Irmã Fallon está fazendo um showzinho dentro de uma jaula com leões. John se oferece para entrar na jaula quando Florence garante que aqueles que acreditam em Deus não serão atacados pelos leões. Ela usa o fato de John ser cego na performance e promete que ele voltará a ver – mas não diz quando – porque ele é um homem de fé.

John’s landlady Mrs Higgins (Beryl Mercer) takes him to the temple and they happen to go on the day Sister Fallon is performing a stunt inside a cage full of lions. John volunteers to enter the cage when Florence guarantees that people who believe in God won’t be attacked by the lions. She uses the fact that John is blind in her performance and promises that he shall see again – but doesn’t give him a date – because he is a faithful man.

Em seguida vemos Bob, o braço direito de Florence, dando bronca em algumas pessoas que ele contratou para participar de alguns milagres, incluindo dois homens que deveriam interpretar paralíticos mas que estavam com problemas para “entrar no personagem”. É então que Florence descobre que John não era mais um ator contratado por Bob, mas um homem cego de verdade que realmente acreditou nela. Ela já demonstra insatisfação com a maneira como Bob está conduzindo os negócios.

We next see her right hand Bob lecturing some people he had hired to participate in some miracles, including two men who should play paralyzed people but are having trouble “entering into character”. That’s when Florence learns that John wasn’t another actor hired by Bob, but a real blind man who actually believed in her. She already shows disappointment by how Bob is conducting the business.

Naquela noite, em vez de ir à festa de Bob, Florence encontra John do lado de fora da igreja. Está chovendo e ela oferece uma carona até a casa dele. Ele a convida para subir para seu apartamento e ela aceita, o que inicia uma noite agradável com eles cantando, jogando cartas e com John fazendo um show com um boneco de ventríloquo – que é meio bizarro. Como Judy menciona no site Movie Classics, o boneco é uma metáfora para como Florence está sendo manipulada e manipulando outros em seus sermões, mas isso não torna a cena menos bizarra. Ao final da noite, Florence descobriu que John desistiu do suicídio após ouvi-la, John é contratado para escrever um hino religioso para Florence e eles se beijam.

That night, instead of attending Bob's wild party, Florence bumps into John outside the church. It’s raining so she offers him a ride home. He invites her to his apartment and she accepts, which leads to a pleasant evening singing, playing cards and seeing John do an act with a ventriloquist dummy – which is kind of creepy. As Judy mentions at

Um momento-chave é quando John diz que o pai de Florence deve estar orgulhoso do sucesso dela como pastora. Ela então se mostra completamente desolada com o caminho que escolheu, mas abandonar este caminho será muito difícil porque Bob começa a chantageá-la. Ela alcançará a redenção ou perecerá na tragédia?

A triggering moment happens when John says that Florence’s father must be proud of her success as a preacher. She then achieves full disappointment with her chosen path, but abandoning this path will be very difficult because Bob starts blackmailing Florence. Will she achieve redemption or perish in a tragedy?

É interessante notar que, enquanto o povo entra na igreja, a música que toca é o hino patriótico “Over There”, composto por George M. Cohan durante a Primeira Guerra Mundial. Esta mistura de religião e patriotismo para tirar dinheiro das pessoas é uma velha técnica que ainda vem sendo usada, quase 90 anos depois da estreia de “A Mulher Miraculosa”. Achamos que evoluímos - como sociedade, como humanidade - muito no último século, mas não é verdade: continuamos caindo nos mesmos velhos truques.

It’s interesting to notice that, while the people enter the church, the music playing is the patriotic hymn “Over There”, composed by George M. Cohan during World War I. This mix of religion and patriotism to take money away from people is an old technique and one that is still being used, almost 90 years after “The Miracle Woman” was made. We think we - as a society, as mankind - evolved a lot in the last century, but it’s not true: we are still falling for the same old tricks.

Como Danny do site Pre-Code.com escreveu, “A Mulher Miraculosa” nasceu de uma década de dor. Após a Primeira Guerra Mundial, o charlatanismo cresceu através de pregadores falsos e do espiritualismo – afinal, milhões de pessoas queriam entrar em contato com entes queridos que morreram na guerra ou foram vítimas da Gripe Espanhola. O filme foi baseado em uma peça chamada “Bless You, Sister”, escrita por Robert Riskin, que se tornaria um colaborador constante de Frank Capra, mas que não se envolveu na adaptação da peça para o cinema. Quando o Código Hays foi imposto, filmes como “A Mulher Miraculosa” não mais poderiam ser feitos – provando que a censura não era apenas sobre moralidade, mas também sobre política e religião.

As Danny from PreCode.com wrote, “The Miracle Woman” is born out of the fabric of a decade of pain. After World War I, charlatanism grew in the forms of fake preachers and spiritualism – after all, millions of people wanted to contact the loved ones they lost at the war or because of the Spanish flu. The film was based on a play called “Bless You, Sister”, written by Robert Riskin, who would go on to become Capra's constant collaborator, but had nothing to do with the adaptation of the play to the screen. Once the Hays Code was enforced, films like “The Miracle Woman” couldn't be made anymore – proving that the censorship wasn't only about morality, but also about politics and religion. 

Ao rever este filme, percebi que estava certa: a Irmã Alice de “Perry Mason” tem muito em comum com Florence de “A Mulher Miraculosa”. Ambas usam robes brancos esvoaçantes para parecerem puras e sobrenaturais, uma mistura de anjo e apóstolo. Ambas obedecem a pessoas mais inescrupulosas e ambiciosas que elas: Florence obedece a Bob e Alice obedece à mãe, Birdy, interpretada por Lili Taylor. Ambas fazem falsos milagres. A única diferença é a cor do cabelo! É por isso que “A Mulher Miraculosa” deve ter sido uma inspiração para “Perry Mason”, pois a série tem início na Véspera do Ano Novo de 1932 e o filme é de 1931. Uma inspiração para ambas as pregadoras fictícias é a pregadora Aimée Semple McPherson (1890-1944), uma das fundadoras da Igreja Quadrangular.

By rewatching this film, I realized I was right: Sister Alice from “Perry Mason” has a lot in common with Florence from “The Miracle Woman”. Both wear flowing white robes during their addresses, in order to look otherworldly and pure, a mix of angel and apostle. Both obey more unscrupulous and greedy people: Florence obeys Bob, while Alice obeys her mother, Birdy, played by Lili Taylor. Both perform fake miracles. Their only difference is the hair color! That’s why “The Miracle Woman” must have been an inspiration for “Perry Mason”, as the series starts on New Year’s Eve of 1932, and the film is from 1931. One inspiration for both fictional preachers is the preacher Aimée Semple McPherson (1890-1944), one of the founders of the Foursquare Church.

Aimée Semple McPherson / Sister Alice in "Perry Mason"

John sabe ler Braille, mas para se comunicar com Florence ele pede que ela escreva cartas formando as palavras com letras cortadas, uma a uma, de revistas e jornais, para que ele possa reconhecer as formas. Eu particularmente nunca havia visto nada parecido, apesar de fazer sentido. David Manners se sai bem como um homem cego, sem exagerar ou nos fazer duvidar da cegueira de John. Manners é mais conhecido por ter feito filmes de terror nos estúdios Universal. Ele se aposentou do cinema em 1936.

John knows how to read Braille, but to communicate with Florence he asks her to write letters by making the words from letters cut, one by one, from magazines and newspapers, so he can recognize the shapes. I particularly had never witnessed something like that, but it makes sense. David Manners does well as a blind man, never exaggerating or making it hard for us to believe John is blind. Manners is best known for appearing in horror movies at Universal studios. He retired from the screen in 1936.

Embora “A Mulher Miraculosa” tenha seus problemas – e eu estou, sim, falando do boneco de ventríloquo – é inegável que Barbara Stanwyck mostra uma força imensa como protagonista toda vez que ela sobe ao púlpito e se dirige aos fiéis. Florence é ambígua, por vezes confusa e irada, e muito humana. “A Mulher Miraculosa” - este excelente, pouco comentado e tão atual filme – é a prova perfeita de que o melhor ainda estava por vir para Barbara Stanwyck.

Although “The Miracle Woman” has its problems – I’m looking at you, dummy – it’s undeniable that Barbara Stanwyck shows immense strength as the lead whenever she goes to the pulpit and addresses the churchgoers. Florence is ambiguous, sometimes confused and enraged, and very human. “The Miracle Woman” - this excellent seldom mentioned and very modern movie – is the proof that the best was yet to come for Barbara Stanwyck.

This is my contribution to The Queen of Sass: Barbara Stanwyck blogathon, hosted by Gabriela at Pale Writer.

Sunday, July 5, 2020

O Amor Nasceu do Ódio (1937) / Knight Without Armour (1937)

Não é nem um pouco surpreendente assistir a um filme norte-americano ou britânico feito durante a Guerra Fria criticando a União Soviética e a Revolução Russa. Mas ver um filme com o mesmo tema feito antes da Segunda Guerra Mundial é uma experiência interessante. “O Amor Nasceu do Ódio”, uma produção britânica de 1937, mostra, quase 30 anos antes de “Doutor Jivago”, o sofrimento da nobreza com a chegada da revolução – e ainda tenta adicionar romance na trama!

It's not surprising at all to see an American or British movie made during the Cold War criticizing the Sovietic Union and the Russian Revolution. But seeing a pre-World War II film with the same theme is quite an interesting experience. “Knight Without Armour”, a British production from 1937, shows almost 30 years before “Doctor Zhivago” the suffering of the noble classes when the revolution came – and it also tries to wave romance into the plot!


O correspondente estrangeiro A.J. Fothergill (Robert Donat) tinha 48 horas para deixar a Rússia – sim, Rússia, porque a história começa em 1917, quando ainda havia um Czar. Felizmente, um amigo lhe apresenta outra opção: ele pode deixar a barba crescer, adotar uma nova identidade e se tornar espião! Fothergill aceita esta adorável oferta e começa a espionar alguns revolucionários. O desdobramento das coisas não sai como esperado e ele se torna um prisioneiro político.

Foreign correspondent A.J. Fothergill (Robert Donat) has 48 hours to leave Russia – yes, Russia, because the story begins in 1913, when there was still a Tsar. Luckily, a friend presents him with an option: he can grow a beard, adopt a new identity and become a spy! Fothergill accepts this lovely offer and starts spying on a few naughty revolutionaries. Things don't go so well and he becomes a political prisoner.

Enquanto isso, a condessa Alexandra Vladinoff (Marlene Dietrich) está de boa. Tão de boa que ela está descansando no jardim enquanto seus empregados leem jornais que os convocam a se unir à revolução. Quando a revolução acontece, os empregados vão embora e a mansão dela é invadida por uma multidão raivosa que ela enfrenta usando apenas uma camisola branca, parecendo uma deusa flutuante. A multidão saqueia a mansão e espera para decidir o que farão com Alexandra. Quem poderá salvá-la?

Meanwhile, Countess Alexandra Vladinoff (Marlene Dietrich) is chill. So chill that she is chilling in the garden while her servants read newspapers calling them to join the revolution. When the revolution is successful, her servants leave and her mansion is invaded by an angry crowd that she faces wearing only a white nightgown, looking like a floating goddess. The crowd loots her mansion and waits to decide what they'll do to her. Who will save Alexandra?

Se você respondeu Fothergill, você acertou. Depois de passar anos preso na Sibéria, ele e outros prisioneiros são libertados pelos revolucionários. O único inconveniente é que eles acham que Fothergill se chama Peter Ouronov e também é revolucionário. Agora como parte de uma missão oficial – e sem barba – Fothergill vai para a mansão Vladinoff para encontrar Alexandra e acompanhá-la até Petrogrado.

If you answered Fothergill, you're right. After spending years in a prison in Siberia, he and the other prisoners are freed by the revolutionaries. The only inconvenient is that they think his name is Peter Ouronov and he is a revolutionary as well. Now part of an official mission – and without a beard – Fothergill goes to the Vladinoff mansion to meet Alexandra and accompany her to Petrograd.

Infelizmente, não há mais trens para Petrogrado, e Fothergill tem de deixar Alexandra para trás pois o Exército Branco – os Mencheviques – se aproximam. Não nos esqueçamos de que Fothergill havia se tornado sem querer um membro do Exército Vermelho, ou Bolchevique. Claro, antes de partir Fothergill e Alexandra já haviam recitado poemas um para o outro e estavam apaixonados.

Unfortunately, there are no trains to Petrograd anymore, and Fothergill has to leave Alexandra behind as the White Army – the Mensheviks – comes near. Let's not forget that Fothergill had unwillingly become a member of the Red, or Bolshevik Army. Of course, before parting Fothergill and Alexandra have already recited poems to each other and are in love.

“O Amor Nasceu do Ódio” foi produzido por Alexander Korda – que há 20 anos já fazia filmes em sua terra natal, a então Áustria-Hungria. Ele chegou à Inglaterra no começo dos anos 30 após um breve período em Hollywood, e em 1942 se tornaria o primeiro produtor de cinema a ser nomeado cavaleiro. Embora às vezes ele também dirigisse filmes, Korda não dirigiu “O Amor Nasceu do Ódio”, pois quem o fez foi o belga Jacques Feyder.

“Knight Without Armour” was produced by Alexander Korda – who had been making films for 20 years in his native Austria-Hungary. He had arrived in England in the early 1930s after a brief period in Hollywood, and in 1942 he'd become the first film producer to be knighted. Although he sometimes also sat behind the director's chair, Korda didn't direct “Knight Without Armour”, as Belgian Jacques Feyder did it.

Alexander Korda

É estranho ver Marlene Dietrich como uma donzela em perigo. Em “O Amor Nasceu do Ódio”, ela precisa ser resgatada várias vezes por Robert Donat, cujo personagem pensa rápido e sempre se livra das dificuldades usando sua perspicácia – seus atos heroicos são críveis, mas sua relação com Marlene não é muito. Dietrich está lá apenas para parecer fabulosa com cílios enormes, mesmo depois de passar a noite escondida na floresta, sem nunca se mostrar resoluta ou sedutora. Sua Alexandra é o oposto da sua Lola-Lola de “O Anjo Azul” (1930).

It's weird to see Marlene Dietrich as a damsel in distress. In “Knight Without Armour” she needs to be rescued again and again by Robert Donat, whose character thinks quickly and always gets out of difficulties with his wit – his heroic acts are believable, but his relationship with Marlene isn't so much. Dietrich is only there looking fabulous with huge eyelashes, even after spending the night hidden in the forest, never being resolute or seductive. Her Alexandra is the opposite of her Lola-Lola from “The Blue Angel” (1930).

Robert Donat foi um dos principais cavalheiros ingleses do cinema clássico. Ele comumente interpretava personagens educados e com senso de justiça, às vezes ajudando quem precisava, como neste filme e também em “A Morada da Sexta Felicidade”, seu último filme. Entretanto, foi ele que precisou da ajuda de Marlene Dietrich no set de “O Amor Nasceu do Ódio”. De acordo com Robert Osborne, quando um ataque de asma o afastou do trabalho, Dietrich não deixou que Robert fosse demitido e cuidou dele até ele se recuperar.

Robert Donat was one of the quintessential English gentlemen of classic film. He usually played polite characters that could be a moral compass, sometimes helping others in need, like in this film and also in “The Inn of the Sixth Happiness”, his last film. However, he was the one who needed help from Dietrich on the set of “Knigh Without Armour”. According to Robert Osborne, when a bout of asthma prevented him to work, Dietrich didn't let anyone fire Donat and also nursed him back to health.

A grande roteirista Frances Marion foi responsável pela adaptação do livro para as telas, mas alguns problemas existem no produto final. O terceiro ato basicamente desperdiça a oportunidade de ter mais um perigo e suspense, e o principal problema que eu vejo na história é que Fothergill muda de lado muitas vezes, entretanto nunca deixa claro que era um inglês que se meteu numa grande confusão.

The great screenwriter Frances Marion was responsible to adapt the novel to the screen, but some issues arise in the final film. The third acts basically wastes an opportunity to have another thrill and danger, and the main problem I have with the story is that Fothergill changes sides many times, but never leaves it clear that he was an English man caught in the middle of a huge mess.

Jack Cardiff é creditado como operador de câmera em “O Amor Nasceu do Ódio”. Cardiff se tornaria um dos mais respeitados e admirados diretores de fotografia do cinema britânico, em especial por seu trabalho com Powell e Pressburger. Há um momento inspirado neste filme, quando Marlene está primeiramente fora do foco, mas dá um passo e entra em foco parecendo um ser mágico. Também devemos mencionar a presença de Miklós Rózsa, em sua estreia como compositor. 

Jack Cardiff is credited as camera operator in “Knight Without Armour”. Cardiff would go on to become one of the most respected and admired cinematographers of British cinema, in special for his work in Powell and Pressburger movies. There is a particular inspired moment in this film, when Marlene is at first out of focus, but she steps ahead and enters focus looking like a fierce magical being. It's also worth mentioning the presence of Miklós Rózsa, who debuted as a composer in this film.

“O Amor Nasceu do Ódio” é um filme que para entre o romance e a propaganda – para se ter uma ideia, o grande salvador é a Cruz Vermelha Americana. A maioria dos jornalistas norte-americanos, obviamente, elogiaram o filme, e o público também gostou. Mesmo assim, o sucesso não foi suficiente para compensar os gastos com o orçamento deste épico falho.

“Knight Without Armour” is a film stuck midway between romance and propaganda – mind you, the ultimate savior in the film is the American Red Cross. Most American journalists, of course, praised the film, and the public liked it as well. Nevertheless, the success wasn't enough to recover the expenses made in the massive budget for this flawed epic.

This is my contribution to the Robert Donat blogathon, hosted by Maddy at Maddy Loves Her Classic Films.

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