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domingo, 16 de dezembro de 2018

It might as well be Spring (Byington)


Ela podia ser a vizinha enxerida porém amável. Ela podia ser uma amiga carinhosa. Ela podia ser uma duquesa ou uma dama – ou mesmo uma empregada. Ela podia ser a forte e cuidadosa matriarca – um papel que ela interpretou várias vezes, e que encantava o público. O que mais pode fazer alguém chamada Spring (primavera) que não seja encantar? Assim como a estação, sua persona cinematográfica era sempre alegre, às vezes cômica, raramente odiosa. Estereotipada, talvez, talentosa, com certeza.

She could be the nosy yet lovely neighbor. She could be a supporting friend. She could be a duchess or a lady – or even a servant. She could be the strong and caring matriarch – a role she played over and over, and one that the audiences adored. What else can come from someone named Spring? As the season, her screen persona was always cheerful, sometimes comic, rarely enraging. Typecasted, maybe, talented, for sure.

“Pode soar banal, mas eu sou atriz apenas porque eu gosto de fazer isso – e porque eu não sei fazer mais nada muito bem.”

It may sound trite but I’m an actress strictly because I enjoy it - and because I can’t do anything else very well.

"Do Mundo Nada Se Leva / You Can't Take it With You" (1938)
Spring Dell Byington nasceu em 1886 no Colorado. Ela sempre amou atuar e começou um tour com uma companhia de teatro ainda na juventude. Entre 1903 e 1916, ela viajou pela América do Sul, representando em espanhol e em português. Em 1909, ela se casou com o gerente da companhia de teatro, Roy Chandler, e com ele teve duas filhas. Eles se divorciaram em 1920.

Spring Dell Byington was born in 1886 in Colorado. She always loved acting and started touring with acting company in her youth. Between 1903 and 1916, she toured through South America, performing in both Spanish and Portuguese. In 1909, she married the theater company manager Roy Chandler, and had two daughters with him. They divorced in 1920.


Ela fez sua primeira peça na Broadway quando tinha 28 anos. Seu primeiro filme, fez aos 34. Talvez fosse velha demais para explorar novos horizontes? Não, ela não era. Em uma coincidência curiosa, ela interpretou uma mãe em seu primeiro filme, o curta-metragem “Papa’s Slay Ride” (1930). Seu próximo papel no cinema foi como a matriarca da família March em “Quatro Destinos” (1933).

Her first Broadway credit came when she was 28. Her first film credit, when she was 34. Maybe too old to explore new horizons? Not for Spring. In a curious coincidence, she played a mother in her first film, the short subject “Papa’s Slay Ride” (1930). Her next film role was as the March family matriarch in “Little Women” (1933).


A partir de 1936, Spring Byington estrelou uma série de filmes de baixo orçamento, com 60 minutos ou menos, sobre a família Jones. O primeiro de um total de 17 filmes foi “Every Saturday Night), e o último foi “On their Own”, que estreou em 1940. Byington interpretava a senhora John Jones, enquanto Jed Prouty interpretava John Jones, Florence Roberts era a vovó Jones e os quatro filhos foram interpretados por vários atores diferentes. Dois dos filmes da família Jones foram escritos por Buster Keaton.

Starting in 1936, Spring Byington starred in a series of low-budget family films with 60 minutes or less about the Jones family. The first film of a total of 17 was “Every Saturday Night”, and the last was “On their Own”, release in 1940. Byington played Mrs John Jones, while Jed Prouty played John Jones, Florence Roberts was Granny Jones and the four children were played by several different actors. Two of the Jones family movies were written by Buster Keaton.


Eu já falei demais sobre Spring Byington. Vou deixar que ela – ou melhor, as personagens que ela interpretou – fale por si mesma. Veja o humor e o calor nas frases abaixo:

Enough of me talking about Spring Byington. I’ll let her – or rather, the characters she played – talk for herself. Notice the humor and the warmth in the quotes below:


“Agora, Coronel, você está me deixando tão lisonjeada quando o querido Lorde Melbourne me deixou uma vez quando nos sentamos lado a lado em um banquete insuportável. “Lady Warrenton”, ele disse”, “você tem o poder de enlouquecer os homens.”” – Como Lady Octavia Warrenton em “A Carga da Brigada Ligeira”, 1936

“Now, Colonel, you’re flattering me just as dear Lord Melbourne did once when we sat next to each other at an intolerable meal call banquet. “Lady Warrenton”, he said, “you have the power to drive men mad.”” – As Lady Octavia Warrenton in “The Charge of the Light Brigade”, 1936


“Ei, ei. Não briguem, crianças. Pelo menos esperem para brigar depois do casamento.” – Como tia Ella em “Somos do Amor”, 1937

“Now, now. Don’t fight, children. At least until after you’re happily married” – As Aunt Ella in “It’s Love I’m After”,1937


“É o que você sempre diz, Mytyl, que você sente muito. Mas no dia seguinte você faz a mesma coisa, tudo de novo.” – Como Mamãe Tyl em “O Pássaro Azul”, 1940

“That’s what you always say, Mytyl, that you’re sorry. But the next day you do the same thing right over again.” – As Mummy Tyl in “The Blue Bird”, 1940


“Seu coração sempre foi maior do que a carteira do seu pai.” – Como Bertha Van Cleve em “O Diabo Disse Não”, 1943

“Your heart’s always bigger than your father’s pocketbook” – As Bertha Van Cleve in “Heaven Can Wait”, 1943


“Você fala como se astrologia fosse algo de que se envergonhar, como bruxaria ou ser Democrata.” – Como Nancy Potter em “Um Rival nas Alturas”, 1944

 “You talk as if astrology is something to be ashamed of, like witchcraft or being a Democrat.” – As Nancy Potter in “The Heavenly Body”, 1944


“Você não deve me levar a sério, senhorita. Ninguém me leva.” – Como Magda em “O Solar de Dragonwyck”, 1946

“You mustn’t take me seriously, Miss. No one ever does.” – As Magda in “Dragonwyck”, 1946


“Eu não te conheço tão bem quanto conhecia quando você era criança, mas você foi uma das crianças mais burras que eu já conheci!” – Como Suzie Robinson, falando com sua filha, em “Já Fomos Tão Felizes”, 1960

 “I don’t know you as well as I did when you were a child, but you were one of the dumbest children I ever met!” – As Suzie Robinson, saying to her daughter, in “Please, don’t eat the daisies”, 1960


Spring Byington apareceu em diversos filmes B e em fracassos de bilheteria. Entre 1954 e 1959, entretanto, ela teve seu próprio programa de TV, “December Bride”. A série teve origem no rádio, onde Spring também fazia o papel, e a companhia Desilu a escolheu para ser transposta para o novo meio. Durante a temporada de 1956-157, “December Bride” foi a quinta atração mais popular da televisão.

Spring Byington was in several B-movies and box-office failures. From 1954 to 1959, however, she starred in her own TV show, “December Bride”. The series was originated in the radio, where Spring also starred, and picked by the Desilu production company for the new medium. During the 1956-1957 season, “December Bride” was the fifth most popular show on TV.


Embora ela interpretasse esposas e mães com tanta frequência, em uma época em que a maioria das mulheres só podia aspirar a ser esposa e mãe, Spring Byington desafiou as expectativas. Divorciada com 24 anos de idade, ela nunca se casou, e dedicou toda sua energia à sua carreira. Ela foi ousada e sábia, e eu deixei exatamente sua frase mais sábia, de “Ver-te-ei Outra Vez” (1944), para fechar esta homenagem:

Although she played a wife and mother so often, in a time when most women could online aspire to be wives and mothers, Spring Byington defied the expectations. Divorced at 24, she never remarried, and dedicated all her energy to her work. She was bold and wise, and I left exactly her wisest quote, from “I’ll Be Seeing You” (1944), to finish this tribute:

"A maioria dos sonhos é [impossível]. É o ato de sonhar que vale."

"Ninguém consegue exatamente o que quer na vida." 
This is my contribution to the Seventh What a Character! Blogathon, hosted by Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Revisitando o “Inimigo Público” (1931) / Revisiting “The Public Enemy” (1931)


ESTE ARTIGO TEM SPOILERS
THIS ARTICLE HAS SPOILERS

Assim como a maioria dos adolescentes, eu era rebelde e nem sempre me dava bem com a minha família. Ao contrário da maioria dos adolescentes, cinema clássico era minha válvula de escape. A história que contarei hoje começa em janeiro de 2010, quando eu briguei com a minha família por causa de uma sobremesa que eu havia preparado – uma “brevidade” que ficou dura demais. Eu estava com raiva e fui ao shopping naquela tarde. Quando eu cheguei em casa, era tarde demais para ver minha sitcom favorita, “The Big Bang Theory”, no horário das oito. Eu teria de esperar pela reprise à meia-noite. Para a hora passar, eu decidi ver um filme que estava começando: “Inimigo Público”. De certa maneira, este filme mudou minha vida.

Like most teenagers, I was rebellious and not always got along with my family. Unlike most teenagers, classic films were my escape. The story I'll tell today starts in January 2010, after I argued with my family over one dessert I had backed – a cake called “brevidade” that actually ended up too hard. I was sour and spent the evening at the mall. When I arrived home, it was too late to catch my favorite sitcom, “The Big Bang Theory”, at the 8 P.M. showing time. I had to wait for the rerun at midnight. Until then, I decided to watch a film that was starting: “The Public Enemy”. In a sense, this film changed my life.


Eu decidi assistir ao filme por causa de Jean Harlow. Eu já tinha ouvido falar sobre ela, que morreu com apenas 26 anos, mas nunca a tinha visto em um filme. No final, Jean esteve OK, mas James Cagney foi quem me surpreendeu e impressionou. Eu apreciei tanto sua performance e a trama do filme que, naquele mesmo ano, eu vi “Inimigo Público” mais duas vezes. E por oito anos eu não o revi – e aqui estão minhas impressões depois de revisitar meu querido filme de gângster.

I decided to watch it because of Jean Harlow. I had heard about her, who had died at only 26, but never had seen her in anything. In the end, Jean was OK, but James Cagney was the one that surprised and amazed me. I enjoyed his performance and the overall plot so much that, in that same year, I rewatched “The Public Enemy” twice. And for eight years I haven't rewatched it – and here are my impressions after revisiting my beloved gangster flick.


Eu me lembro bem dos créditos iniciais. Eu amo estes créditos dos pre-Codes com a imagem de cada ator e o nome do personagem. Eu me lembro perfeitamente de Cagney socando o ar e Harlow sorrindo nestes créditos iniciais. Eu também amo o realismo que a Warner tentou imprimir nestes filmes com os textos sobre como tudo era baseado em histórias reais...

I remember the opening credits well. I love those pre-Code credits with each actor and their character's name. I vividly remember Cagney punching the air and Harlow smiling in these opening credits. I also love the realism Warner tried to imprint their films with as they added those texts about how the facts here presented are happening right now...


O “Inimigo Público” é Tom Powers (Cagney), alguém que nasceu para se meter em encrencas. Eu me lembrava pouco das cenas da infância dos personagens, mas não entendo como Tom pôde crescer tanto, indo de pré-adolescente até a fase James Cagney, em apenas seis anos. A partir de 1915 na linha do tempo do filme, já podemos ver Cagney.

“The Public Enemy” is Tom Powers (Cagney), a natural-born troublemaker. I remembered a little of his childhood phase as shown in the movie, but I don't understand how Tom could grow from his pre-teen phase to the James Cagney stage in only six years. By 1915 in the film's timeline, Cagney can already be seen.


Desde a infância, Tom e seu melhor amigo Matt Doyle (Eddie Woods) estavam envolvidos em atividades ilícitas, como roubos. Quando chega 1920 e a proibição da venda de bebidas alcoólicas é promulgada, eles veem uma nova oportunidade com o dono de bar Paddy (Robert O’Connor) e o grande contrabandista Nails Nathan (Leslie Fenton) – um novo trabalho que permite que Cagney intimide e cuspa cerveja no rosto de um homem.

Since childhood, Tom and his best friend Matt Doyle (Eddie Woods) have been involved in illicit activities like stealing. When they reach 1920 and the Prohibition arrives, they see a new opportunity with bar owner Paddy (Robert O’Connor) and master bootlegger Nails Nathan (Leslie Fenton) – a new job that allows Cagney to intimidate and spit beer to a man’s face.


Tom e Matt têm êxito, mas Tom não conta à sua querida mãezinha (Beryl Mercer) que ele está envolvido com atividades ilegais. Quando seu irmão Mike (Donald Cook) volta da guerra, uma briga começa: Mike acha que o que Tom faz é horrível, mas Tom também condena Mike por ter matado pessoas na guerra. Eu não me lembrava desta sequência interessante, mas a linha do tempo histórica me incomodou – quem esperaria de 1918, quando a guerra acabou, até 1920 para voltar para casa?

Tom and Matt thrive, but Tom doesn’t tell his beloved mother (Beryl Mercer) that he is involved with illegal activities. When his brother Mike (Donald Cook) comes back from the war, an argument starts: Mike thinks what Tom does is hideous, but Tom also condemns Mike for killing innocent people in the war. I didn’t remember this very interesting sequence, but the historical timeline kind of bothered me here – who waited from 1918, when the war ended, to 1920 to come home?


O que se segue é a famosa cena do grapefruit, depois que Tom confessa a Nathan que já está de saco cheio de sua namorada, Kitty (Mae Clarke, não creditada). Depois deste episódio, Matt e Tom conhecer Gwen (Jean Harlow) e dão uma carona a ela – Harlow tem uma entrada simples, mas memorável.

What follows is the famous grapefruit scene, after Tom confesses to Nathan that he is already fed up with his girl, Kitty (an uncredited Mae Murray). After the episode, Matt and Tom meet Gwen (Jean Harlow) and give her a ride – Harlow has a simple but memorable entrance.


Matt se casa com Mamie (Joan Blondell) e Tom começa a sair com Gwen. Na noite de núpcias de Matt, ele tem de deixar sua esposa e acompanhar Tom em uma missão para matar um velho conhecido. Tom age como se nada tivesse acontecido depois que o “trabalho” é feito, mas Matt fica muito perturbado com o que viu. O hábito de Tom de socar o rosto das pessoas como cumprimento também começa a incomodar sua mãe, que imita o gesto de maneira desconfortável.

Matt marries Mamie (Joan Blondell) and Tom starts dating Gwen. On Matt’s wedding night, he has to leave his wife and accompany Tom in a mission to kill an old acquaintance. Tom acts as if nothing happened after the job is done, but Matt is deeply disturbed by what he witnessed. Tom’s habit of punching people’s faces as a greeting also starts bothering his mother, who mimics the gesture once in an uncomfortable way.

Tom recebe a notícia de que Nails Nathan morreu enquanto Gwen está declarando seu amor por ele. Tom a deixa no mesmo minuto para buscar vingança – um tipo chocante de vingança, que eu nunca esqueci. Gwen fica sozinha, refletindo se ela significa para Tony o mesmo que ele significa para ela.

Tom receives the news that Nails Nathan died while Gwen was declaring all her love for him. Tom leaves her in the same minute to seek revenge – a shocking kind of revenge, one I never forgot. Gwen is left thinking if she means to Tom as much as he means to her.


Tom Powers pode não ser o chefe dos gângsteres agora, mas é parte de uma briga de gangues, e não deixará que atos de violência contra seus amigos passem sem vingança. Vingança é o tema dos últimos 20 minutos do filme, quando você aprende que violência só leva a mais violência.

Tom Powers may not be the top gangster now, but he is part of a mob war, and won’t let acts of violence against his fellows pass without revenge. Revenge is the theme of the last 20 minutes of the film, when you learn that violence only leads to more violence.


E quão poderoso é o final? Eu fiquei sem fala, com os olhos arregalados, naquela noite fatídica em janeiro de 2010, quando eu vi o filme pela primeira vez. Agora, eu espero pelo final com animação. Na verdade, como eu já vi o filme antes, em muitos momentos eu pude perceber o suspense crescendo, e pude ver os muitos elementos interessantes – como o som de carvão sendo despejado de um caminhão – que foram usados para criar o suspense que culmina no clímax.

And how powerful is that ending? I was just speechless, with my eyes wide open, in that fatidic night in January 2010, when I watched the film for the first time. Now, I expect the ending with anticipation. Actually, because I had seen the film before, in many moments I could feel the suspense in a crescendo, and the many interesting elements – like the sound of coal being poured from a truck – that were used to create the suspense until the climax.


Eu me lembro de que o homem que comentava este filme na TV disse que o segredo de Cagney era energia – ele disse isso enquanto passavam cenas de Cagney andando na chuva e sorrindo. Eu concordo, mas devo acrescentar que seus momentos mais sutis, de fragilidade – como quando ele é ferido – são igualmente poderosos. E não podemos nos esquecer de Beryl Mercer interpretando a Mamãe Powers, uma personagem tão simplória que é quase patética, mas de quem gostamos e cujo sofrimento nos faz também sofrer.

I remembered that the man commenting this film on TV said that Cagney’s secret was energy – he said that while they were showing footage of Cagney walking in the rain and grinning. I agree, but I must add that his more subtle moments of fragility – like when he’s hurt – are equally powerful. And we can’t forget Beryl Mercer as Ma Powers, playing that character as such a simpleton that she is almost pathetic, but we can’t help liking her and suffering when she suffers.



Eu discordo das pessoas que dizem que “Inimigo Público” foi um produto de seu tempo, quando o som ainda era novo em Hollywood. De maneira alguma o filme é primitivo: a história é ótima, as performances são naturais e perfeitas, os cenários e os sons são muito bons. “Inimigo Público” é um filme excelente mesmo depois de todos estes anos, e depois de revê-lo eu posso dizer que ele ainda está entre meus preferidos.

I disagree when people say that “The Public Enemy” was a product of its time, when sound was still new in Hollywood. In no ways the film is primitive: the storytelling is great, the performances are natural and on point, the sets and sound are very good. William A. Wellman is truly a master of cinema. “The Public Enemy” is a terrific movie even after all those years, and after rewatching it I can say it still belongs in my top five.


Se eu não tivesse brigado com a minha família e perdido “The Big Bang Theory”, eu teria assistido a “Inimigo Público” em circunstâncias muito diferentes, e talvez eu não tivesse ficado tão hipnotizada e maravilhada com o filme. Talvez eu não gostasse tanto de filmes de gângster e de William A. Wellman – e talvez James Cagney não fosse meu ator favorito. Graças e Deus, eu fui uma adolescente rebelde – e que fazia péssimos bolos.

If I hadn't argued with my family and missed “The Big Bang Theory”, I would have watched “The Public Enemy” under very different circumstances, and maybe I wouldn't have been so amused and thrilled. Maybe then I wouldn't like gangster movies and William A. Wellman so much – and maybe James Cagney wouldn't be my favorite actor. Thank God I was a rebellious teenager – and one who baked terrible cakes.

This is my contribution to The Unexpected Blogathon, hosted by Rebecca at Taking Up Room.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Becket, o favorito do rei (1964) / Becket (1964)


Se você não cresceu na Inglaterra, a coisa mais importante que você aprendeu sobre a história inglesa – isto é, se você prestou atenção às aulas de história – foi sobre Henrique VIII e como ele rompeu sua aliança com a Igreja Católica e se tornou incrivelmente poderoso ao estabelecer uma nova religião. Este episódio foi tema de muitos filmes, como “Ana dos Mil Dias” (1969) – outro filme com o grande Richard Burton.

If you are not from England, the most important thing you learned in English history – that is, if you paid attention to history classes – was about Henry VIII and how he broke his alliance with the Catholic Church and became an über-powerful king by establishing a new religion. This episode was in the center of many films, like “Ann of the Thousand Days” (1969) – another film with the great Richard Burton.


Mas há muitos outros episódios e personagens interessantes na história da Inglaterra. Dois destes personagens são o rei Henrique II e Tomas Becket, que viveram no século XII. A história deles é contada no filme “Becket – O favorito do rei”, adaptado de uma peça, e eles são interpretados respectivamente por Peter O’Toole e Richard Burton. O filme nos dá a rara chance de saber mais sobre um período anterior da história inglesa – e nos dá a chance ainda mais rara de ver estes dois atores incrivelmente talentosos usando leggings justas.

But there are many other interesting episodes and characters in the history of England. Two of these characters are King Henry II and Thomas Becket, who lived in the 12th century. Their story is told in the film “Becket”, adapted from a play, and they are played respectively by Peter O'Toole and Richard Burton. The film gives us the rare chance to know more about an earlier period in English history – and it gives us the even rarer chance to see these two incredibly talented actors in tight leggings.


Thomas Becket (Burton) é o melhor amigo, confidente e conselheiro do egoísta, inconsequente e infantil rei Henrique II (O’Toole). Becket está sempre consertando os passos em falso dados por Henrique e evitando problemas – Becket faz coisas como impedir que dois homens se esfaqueiem durante uma guerra de comida em um banquete no palácio. É por isso que Henrique faz de seu amigo Becket um nobre, e então chanceler – e é por isso que eles conversam enquanto Henry está seminu na frente de uma tapeçaria com um leão que se parece com Groucho Marx.

Thomas Becket (Burton) is the best friend, confident and advisor to the egoist, inconsequent and childish king Henry II (O'Toole). Becket is always fixing the wrongs Henry makes and avoiding trouble – Becket does things like stopping men from stabbing each other during a food fight in a banquet at the palace. That's why Henry turns his friend Becket into a noble, then into a chancellor – and that's why they chat while Henry is half naked in front of a tapestry with a lion that looks like Groucho Marx.


Henrique está mais interessado em dormir com garotas bonitas do que se envolver em assuntos políticos. Mas às vezes ele tem de fazer isso, e Becket, que não pode dizer não ao amigo, obedece às suas ordens. É assim que Becket perde o amor de sua vida. E é assim também que Becket se torna Arcebispo de Canterbury da noite para o dia – Henrique II precisava de um aliado em Canterbury.

Henry is more interested in sleeping with hot girls than in political issues. But he sometimes has to deal with politics, and Becket, unable to say no to his friend, obeys his absurd orders. That's how Becket loses the love of his life. And that's also how Becket becomes the Archbishop of Canterbury overnight - Henry nominates him Archbishop because he needed an ally in Canterbury.


Becket é um homem dividio. Ele está dividido entre sua amizade com o rei e sua missão com a Igreja Católica, entre o prazer e a fé, entre sua origem saxônica e seu chefe normando. Quando ele precisa escolher de qual lado ficar, ele corre o risco de enfurecer o rei.

Becket is a divided man. He is divided between his friendship with the king and his duty to the Catholic Church, between pleasure and faith, between his Saxon origin and his Norman boss. When he has to choose which side he really supports, he risks infuriating the king.


Saber quem eram os saxões e os normandos é importante para compreender melhor o filme. Os saxões eram um povo germânico que migraram para várias partes da Europa com a queda do Império Romano do Ocidente no século V. No século XI, outras tribos invadiram a Inglaterra – ainda não unificada – lideradas pelo Duque William I da Normandia – William seria o bisavô de Henrique II. Isso significa que os melhores amigos Henrique e Becket eram de origens diferentes, inclusive rivais... mas só na peça e no filme: Becket era na verdade normando.    ¯\_()_/¯

Learning about who were the Saxons and the Normans is important to better understand the film. The Saxons were a Germanic people that migrated to various parts of Europe with the fall of the Western Roman Empire in the 5th century. In the 11th century, other tribes invaded Britain – not yet unified – led by Duke William I of Normandy – William would be Henry II’s great-grandfather. This means that BFFs Henry and Becket were from different – even rival – origins… but only in the play and movie: Becket was actually a Norman.   ¯\_()_/¯


Tanto Peter O’Toole quanto Richard Burton estão fantásticos em seus papéis contrastantes. O Henrique II de O’Toole é histriônico e mimado – uma versão anterior perfeita para o mesmo Henrique II que ele interpretaria em “O Leão no Inverno” (1968). O Becket de Burton é verdadeiramente a única pessoa santa em uma Igreja Católica envolvida em corrupção e jogos de poderes. No pequeno papel de Gwendolen, uma mulher desejada por ambos, está Siân Phillips, uma atriz galesa e esposa de O’Toole.

Both Peter O’Toole and Richard Burton are outstanding in their contrasting roles. O’Toole’s Henry II is histrionic and spoiled – a perfect earlier version of the same Henry II he would play in the superb “Lion in Winter” (1968). Burton’s Becket is truly the only holy person in a Catholic church involved in corruption and games of power. In the minor role of Gwendolen, a woman fancied by both, is Siân Phillips, Welsh actress and O’Toole’s wife.


O filme foi baseado em uma peça que estreou em 1959 em Paris e em 1960 na Broadway com Anthony Quinn como Henrique II e Laurence Olivier como Becket – também uma dupla e tanto! O’Toole iria interpretar Henrique II na produção de Londres da peça, mas teve de recusar por causa das longas filmagens de “Lawrence da Arábia” (1962) – ele foi substituído por (surpresa!) Christopher Plummer.

The film was based on a play that opened in 1959 in Paris and in 1960 on Broadway with Anthony Quinn as Henry II and Laurence Olivier as Becket – quite a duo, too! O’Toole was set to star as Henry II in the London production, but had to decline because of the long shootings of “Lawrence of Arabia” (1962) – he was replaced by (surprise!) Christopher Plummer.
 
Elizabeth Taylor and Burton backstage
A fotografia é fabulosa, e “Becket – O favorito do rei” foi indicado ao Oscar e Melhor Fotografia e em outras 11 categorias, incluindo Ator Coadjuvante para John Gielgud como o rei da França e duas indicações a Melhor Ator para O’Toole e Burton. O filme ganhou apenas o prêmio de Melhor Roteiro.

The cinematography is fabulous, and “Becket” was nominated for Oscars for best Cinematography and other 11 categories, including Supporting Actor for John Gielgud as the King of France and dual Best Actor nominations for O’Toole and Burton. The film only won the Best Screenplay award.


Com uma história contada em flashback, “Becket – O favorite do rei” é um filme fascinante, um deleite para os olhos – com cenas filmadas em locação e imensos cenários construídos em estúdio, como uma cópia da Catedral de Canterbury – e para o cérebro. Inteligente, provocador, emocionante, “Becket – O favorito do rei” é um filme sobre honra que não tem um único minuto de enrolação.

With a story told in flashback, “Becket” is a fascinating movie, a feast for the eyes – with both location sets and huge sets built in studio, like a copy of the Canterbury Cathedral – and for the brain. Smart, provocative, thrilling, “Becket” is a film about honor without one single boring minute.

This is my contribution to the Regaling about Richard Burton blogathon, hosted by Gill and Realweegiemidget Reviews.


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