Tradutor / Translator / Traductor / Übersetzer / Traduttore / Traducteur / 翻訳者 / переводчик

Saturday, November 21, 2020

Redescobrindo Marcel Perez / Rediscovering Marcel Perez

 

Marcel Perez. Robinet. Marcel Fabre. Michel Fabre. Fernandea Perez. Tweedledum. Twede Dan. Tweedy. Todos estes nomes se referem à mesma pessoa: o comediante Marcel Perez. Você pode não ter ouvido falar dele, mas Marcel já foi uma superestrela. Você já deve ter ouvido que Max Linder foi a primeira estrela de cinema internacional, e Chaplin foi a segunda. Entre eles, houve o quase esquecido Marcel Perez, um artista espanhol que foi bem-sucedido nos muitos países em que trabalhou.

Marcel Perez. Robinet. Marcel Fabre. Michel Fabre. Fernandea Perez. Tweedledum. Twede Dan. Tweedy. All those names refer to the same person: comedian Marcel Perez. You may not have heard about him, but once Marcel was a superstar. You may have heard that Max Linder was the first international film star, and Chaplin was the second. In the middle of them, there was the nearly forgotten Marcel Perez, a Spanish performer who found success in the many countries he worked in. 

Nascido na Espanha em 1884 como Marcel Fernández Perez, ele começou sua carreira no show business como palhaço de circo. Seu mais antigo – e muito ousado – filme de que se tem notícia é de 1907: o curta-metragem metragem francês The Short-Sighted Cyclist” (ou “The Near-Sighted Cyclist”), embora haja evidências de que ele já estivesse trabalhando no cinema desde 1900 para companhias como Pathé e Gaumont.

Born in Spain in 1884 as Marcel Fernández Perez, he started his show business career in as a circus clown. His earliest – and one his most daring – known screen appearance dates from 1907, in the French film “The Short-Sighted Cyclist” (or “The Near-Sighted Cyclist”), although there is evidence that he had been in films since 1900, working for companies such as Pathé and Gaumont. 

Em 1910, ele se mudou para a Itália e rapidamente fez enorme sucesso interpretando o personagem Robinet para os estúdios Ambrosio. Em mais de 100 filmes de meio rolo – de cerca de cinco minutos de duração – feitos em um período de cinco anos, Robinet, por vezes com sua esposa Robinette (Nilde Baracchi), vive pequenas aventuras que iam desde um ataque de ciúmes com consequências doloridas, passando pela tentativa de aprender a dirigir mesmo sendo extremamente míope, até várias tentativas de manter limpo seu novíssimo terno branco. Nos EUA, o personagem Robinet era conhecido como Tweedledum.

In 1910, he moved to Italy and quickly found enormous success playing the character Robinet at the Ambrosio studios. In over a hundred split-reel shorts - about five minutes long - made in a period of five years, Robinet, sometimes paired with his wife Robinette (Nilde Baracchi), lives little adventures that could consist in a bout of jealousy with painful consequences, learning how to drive a car despite being extremely nearsighted  or several attempts to keep his brand new white suit clean. In the USA, the character Robinet was known as Tweedledum.

 

Já que estamos falando de aventuras, o longa-metragem “Viagens Maravilhosas de Saturnino Fanrandola” (1913) traz Marcel Perez em oito aventuras diferentes contadas em menos de 60 minutos. Resgatado quando criança de um naufrágio, Saturnino foi criado por macacos, resgatado novamente por marinheiros e lutou contra piratas, cientistas, gorilas, leões e vilões ambiciosos. É um filme estranho, incrível e bastante surpreendente.

Since we’re talking about adventures, the feature “The Extraordinary Adventures of Saturnino Farandola” (1913) brings Marcel Perez in eight different adventures told in less than 60 minutes. Rescued from a sinking ship as a baby, Saturnino was raised by monkeys, rescued again by sailors and fought pirates, scientists, gorillas, lions and greedy villains. It’s a weird, amazing and extremely surprising film.

Em 1915, com a Primeira Guerra Mundial impactando a indústria do cinema na Itália, Perez mudou-se para os Estados Unidos. Em sua breve passagem por Jacksonville, Flórida, ele trabalhou nos estúdios Vim e fez quatro curtas-metragens como o personagem Bungles, contracenando com Oliver Hardy, então creditado como Babe Hardy. Perez dirigiu os quatro filmes e foi creditado, enquanto ator, como Fernandea Perez. Enquanto diretor, ele sempre foi creditado como Marcel Perez.

In 1915, with World War One impacting the film industry in Italy, Perez moved to the United States. In his brief passage to Jacksonville, Florida, he worked at the local Vim studios and made four short films as the character Bungles, with co-star Oliver Hardy, then billed Babe Hardy. Perez directed the four films and was billed, as an actor, Fernandea Perez. As a director, he was always billed Marcel Perez.

Nos EUA, ele trabalhou tanto como ator quanto como diretor para os estúdios e companhias Vim, Eagle, Jester, Reelcraft e Sanford. Um dos destaques de sua carreira norte-americana é “A Busy Night” (1916), em que ele interpreta todos os 16 personagens – e ainda dirige o filme! Esta é também a primeira vez que Perez dirige um curta de dois rolos – cerca de 25 minutos – como nota o historiador e pianista Ben Model.

While in the USA, he worked as both actor and director for studios and companies Vim, Eagle, Jester, Reelcraft and Sanford. One of the highlights of his American career is “A Busy Night” (1916), in which he plays all sixteen characters – and also directs! It’s also Perez’s first time directing a two-reel film – about 25 minutes long – as film historian and accompanist Ben Model notices.

"Some Hero" (1916)

Em 1920 Perez se casou com a atriz Dorothy Earle, com quem trabalhava frequentemente, e eles tiveram um filho, Marcel Perez Jr. Antes de conhecer Dorothy, a protagonista feminina dos filmes de Perez ainda era Nilde Baracchi, que também emigrou da Europa. Nos filmes feitos para a companhia Eagle, Nilde era creditada como Babette Perez, e nos filmes para a companhia Jester, como Nilde Babette. Dorothy Earle, cujo nome verdadeiro era Esther Lucille Elmendorf, após se casar com Perez ela chegou a assinar o nome como Esther Perez. Ufa! Viu como tudo pode ser bem confuso?

In 1920 Perez married his frequent co-star Dorothy Earle and they had a son, Marcel Perez Jr. Before meeting Dorothy, Perez’s female co-star was still Nilde Baracchi, who also emigrated from Europe. In films made for the Eagle company, Nilde was billed Babette Perez, and in films for the Jester company, she was billed Nilde Babette. Dorothy Earle, whose real name was Esther Lucille Elmendorf, after marrying Perez often used the name Esther Perez. Wow! See how confusing things can get?

Nilde Baracchi and Marcel Perez in "what a Day!" (1918)

Em meados dos anos 20, Perez foi diagnosticado com câncer e teve de amputar sua perna esquerda, fazendo sua última aparição no cinema em “Lash of the Law” de 1926, como um aleijado. Então ele passou a trabalhar apenas por trás das câmeras. Ele dirigiu curtas para o produtor e ator ocasional Joe Rock. Infelizmente, Marcel Perez faleceu em 1919, com apenas 44 anos.

In the mid-1920s, Perez was diagnosed with cancer and had to amputate his left leg, making his last film appearance in 1926's “Lash of the Law”, as an amputee. Then he switched entirely to behind-the-camera work. He directed short films for producer and occasional actor Joe Rock. Unfortunately, Marcel Perez passed away in 1929, at only 44. 

"The Tenderfoot" (1919)

Sim, este homem morreu há mais de 90 anos e nós ainda estamos – ou talvez finalmente estamos – falando sobre ele hoje, porque ele definitivamente merece todos os elogios. Marcel Perez era incrivelmente talentoso, criativo e atlético. Algumas de suas gags desafiam qualquer tipo de lógica, enquanto outras demandam muito fisicamente. Suas expressões faciais e gestos são sempre uma alegria para nossos olhos. Como diretor, ele mostra ser inventivo e sofisticado no uso de técnicas cinematográficas como a split screen. Entre os filmes que estão disponíveis, o mais criativo é “Amor Pedestre” (1914), uma história de amor contada apenas com os pés dos personagens. Você jamais poderia imaginar que pés podem demonstrar tanta emoção, tensão e até erotismo!    

Yes, this man died over 90 years ago and we are still – or maybe finally – talking about him today, because he definitely deserves all the praise. Marcel Perez was incredibly talented, inventive and athletic. Some of his gags defy all kinds of logic, while others are very physically demanding. His facial expressions and gestures are always a delight to watch. As a director, he shows inventiveness and sophistication in his use of film techniques such as the split screen. His most creative film, out of the ones available now, is “Amor Pedestre” (1914), a love story told only with the characters’ feet. You could never imagine that feet can show so much emotion, tension and even eroticism!

O ano de 2020 foi difícil para mim e certamente também foi para muitos de vocês que estão lendo o blog. Mas foi o ano em que descobri Marcel Perez, e isso fez de 2020 um pouco melhor. Foi através da Silent Comedy Watch Party, um evento semanal de exibição ao vivo de comédias mudas, apresentado por Ben Model e pelo historiador de cinema Steve Massa. O evento exibiu, até agora, quatro filmes de Perez ─ na verdade, foi através deste evento que eu fui apresentada a Marcel Perez e não poderia estar mais grata. Antes de criar a Silent Comedy Watch Party, Ben & Steve trabalharam no lançamento de dois DVDs com filmes de Perez, e Steve escreveu um livro sobre o ator e diretor. Com este projeto de resgate, Ben & Steve inclusive conseguiram exibir os filmes para os netos de Marcel Perez e de Dorothy Earle, que até então nunca haviam visto seus avós na tela!   

This year of 2020 was difficult for me and certainly also for many of you reading this blog. But it was the year I discovered Marcel Perez, and that made 2020 a little better. It was through the Silent Comedy Watch Party, a weekly live-stream of silent shorts hosted by Ben Model and film historian Steve Massa. The Party has showed four of Perez’s films so far ─ actually, it was through the Party that I was introduced to Marcel Perez and I couldn’t be more grateful. Before creating the Party, Ben & Steve worked on the release of two DVDs of Perez’s films, and Steve wrote a book about the actor-director. With this rescue project, Ben & Steve even managed to show the films for Marcel Perez’s and Dorothy Earle’s grandchildren, who until then had never seen their grandparents on screen!

Assim como o terno branco de Robinet não conseguiu ficar limpo por muito tempo, eu sei que no final da pandemia não serei a mesma que era no começo. Mas terei certeza de que Marcel Perez foi uma das pessoas que me ajudaram a passar por este momento. Marcel ficou fora dos holofotes por muito tempo. Fico feliz por agora ele receber os elogios que merece, e estou grata porque mais e mais de seus filmes estão sendo (re)descobertos e exibidos. Rir é, de fato, o melhor remédio.    

Like Robinet’s white suit couldn’t be kept clean for long, I know I’ll not end the pandemic being the same I was before. But I’ll be sure that Marcel Perez was one of the people who helped me get through this moment. Marcel Perez was kept out of the limelight for too long. I’m happy he’s getting the praise he deserves now, and I’m grateful more and more of his films are being (re)discovered and made available. Laughter is, indeed, the best medicine.

This is my contribution to A Blogathon to Be Thankful for, hosted by Sally at 18 Cinema Lane.

Wednesday, October 28, 2020

39ª Giornate del Cinema Muto – 39th Pordenone Silent Film Festival

 

Por muito tempo, eu tinha como desejo ir um dia ao paraíso dos amantes de cinema mudo, a Giornate del Cinema Muto em Pordenone, Itália. Neste ano, por causa da pandemia, o evento foi realizado virtualmente... e eu não apenas tive a oportunidade de assistir aos filmes, mas também tive a imensa honra de participar do Collegium, uma experiência quase indescritível que reuniu 12 jovens de várias partes do mundo para discutir sobre os filmes e ouvir especialistas falando sobre restauração de filmes. Foi uma experiência enriquecedora – muito melhor do que eu poderia ter imaginado – que me fez aproveitar ainda mais este festival que, pude perceber, foi construído com contrastes este ano.

For a long time, I had in my bucket list the dream of one day attending the silent film nerd heaven aka the Giornate del Cinema Muto in Pordenone, Italy. This year, because of the pandemic, the event had to go online... and I had the opportunity not only to watch the films but also the amazing honor of being part of the Collegium, a nearly undescribable experience that reunited 12 young people from around the world to discuss the films and listen to experts on topics about film restoration. It was an enriching experience – much better than I could ever have imagined – that made me enjoy even more this festival that, I came to realize, was built with contrasts this year.

O primeiro contraste é bastante óbvio: estamos assistindo a filmes mudos, muitos deles feitos há mais de 100 anos, em telas de computadores, smartphones e Smart TVs. As pessoas que fizeram estes filmes jamais imaginaram este tipo de tecnologia que hoje estamos usando para vê-los de qualquer lugar do mundo e para nos conectar com outros fãs de cinema mudo.

The first contrast is pretty obvious: we're watching silent movies, many of them released over 100 years ago, on computer screens, smartphones and Smart TVs. The people who made these movies could never imagine this kind of technology we're now using to see them from anywhere in the world and to connect to other silent film fans.

Lady the dog in "Toodles, Tom and Trouble" (1916) 

Começamos com um sentimento compartilhado: a vontade de viajar, explorada numa série de nove travelogues, ou filmes de viagens. Os filmes datam de 1911 a 1939, indo de um giro por Nova York até um verão em Trieste com gente feliz aproveitando o tempo livre, sem saber que uma guerra terrível estava para começar. Nós, os espectadores, temos o benefício do tempo e sabemos o que estava por vir. Neste ponto do catálogo, o diretor artístico do festival, Jay Weissberg, destaca algo que eu sempre procuro ter em mente quando vejo e pesquiso sobre filmes antigos: os perigos da nostalgia quando destacada da memória histórica. Se queremos ter uma visão completa do mundo, a história é a nossa arma.

We started with a shared feeling: the urge to travel, explored in a series of nine travelogues. The travelogues date from 1911 to 1939, going from a tour around New York to a summer in Trieste with happy people enjoying their time off, not knowing that a terrible war was about to start. We, the viewers, have the benefit of time and know what was about to happen. At this point in the catalogue, the festival's artistic director, Jay Weissberg, highlights something I always have in mind while watching and researching old films: the dangers of nostalgia when unaccompanied by historical memory. If we want a complete view of the world, history is our best weapon. 

O magnífico travelogue / desfile de moda em Pathécolor “Un Voyage au Caire” (“Uma Viagem ao Cairo”), de 1928, é outro curta-metragem de contrastes: na viagem ao Cairo, dois artistas da Comédie-Française se hospedam em um hotel chique que hoje é a residência presidencial e um símbolo da terrível ditadura de Mubarack. No deserto, eles descem de um carro moderno e a mulher mostra um talento natural para andar de camelo, mesmo estando com roupas bem inadequadas para a aventura.

The magnificent travelogue / fashion show in Pathécolor “A Trip to Cairo”, from 1928, is another little film of contrasts: in their trip to Cairo, two French performers from the Comédie-Française stay at a fancy hotel that now is the presidential residence and a symbol of Mubarack's terrible dicatorship. In the desert, they get off their modern car and the woman shows her natural talent to ride a camel, even though her clothes couldn’t be more inadequate for the adventure.

O filme “As Aventuras de Chiquinho / Penrod and Sam”, de William Beaudine, traz três pré-adolescentes bem diferentes: o protagonista Penrod, o garoto nerd George que deve passar por uma humilhante “iniciação” para entrar no clube de Penrod, e o rico e mimado Roddy, cujo pai compra o lote de terra em que Penrod e seus amigos brincam. Um contraste que poderíamos esperar considerando a época, felizmente, não existe: os dois meninos negros não são tratados de um jeito diferente pelos outros meninos e nem são usados para piadas estúpidas baseadas em estereótipos.

William Beaudine's “Penrod and Sam” brings three very different pre-teen boys: the lead Penrod, the nerd boy George who must go through a humiliating “initiation” to enter Penrod’s club, and the rich and spoiled boy Roddy, whose father buys the lot where Penrod and his friends play. A contrast we could expect from the time period, luckily, is not there: the two African-American boys are not treated differently by the other boys and are not used for cheap, stereotype-based laughs.

O contraste entre Oriente e Ocidente é central para dois filmes: a produção de Hollywood de 1921, “Onde as Luzes são Baixas / Where Lights are Low”, e o filme chinês de 1935 “Costumes Nacionais / Guofeng”. Obviamente, a maneira como as diferenças são exploradas são únicas em cada filme.

The contrast between East and West is central in two films: the 1921 Hollywood production “Where Lights are Low” and the 1935 Chinese film “National Customs”. Obviously, the way the differences are explored are unique in each one.

Em “Onde as Luzes são Baixas”, o príncipe chinês Tsu Wong, interpretado pela então superestrela internacional Sessue Hayakawa, já havia adotado alguns valores ocidentais quando entra em conflito com o tio ao falarem sobre casamento: enquanto Wong quer se casar com alguém que ele ama, o tio quer que ele se case com alguém escolhido pela família. Depois deste conflito, Wong deixa a China para ir para a faculdade nos EUA. O protagonista nos é simpático, assim como era para o público dos anos 1920, por causa de sua adoção de valores ocidentais desde o começo do filme.

In “Where Lights are Low”, Chinese prince Tsu Wong, played by then international superstar Sessue Hayakawa, had already adopted some Western values when he clashes with his uncle about marriage issues: while Wong wants to marry someone he loves, the uncle wants him to marry someone appointed by the family. After this clash, Wong leaves China to attend university in the United States. The lead is sympathetic to us, as he was for early 1920s audiences, because of this adoption of Western values since the beginning.

Quatro anos depois, já formado, vemos Wong novamente, completamente americanizado: de terno e cartola, ele está jogando dados com os amigos quando seu tio chega. O tio já está horrorizado após entrar na festa de graduação e alucinar com a banda de jazz, imaginando-os como músicos chineses vestindo roupas tradicionais e tocando canções modernas. Mesmo depois de ficar pobre e começar a trabalhar em Chinatown, Wong não se veste com roupas chinesas: estas são exclusivas do vilão, que é apenas americanizado no chapéu Fedora que usa.

Four years later, already graduated, we see Wong again, completely Americanized: in a suit and top hat, he's playing dice with his friends when his uncle arrives. The uncle is already horrified after entering the graduation party and hallucinating with the jazz band, imagining them as Chinese musicians dressed in traditional clothes and blasting modern tunes. Even after becoming poor and starting working in Chinatown, Wong doesn't dress in Chinese clothes: those are worn by the villain, Americanized only in his Fedoras.

O elenco do filme também tem grandes contrastes, com atores em sua maioria japoneses interpretando personagens chineses, e uma atriz claramente branca interpretando a namorada do protagonista. Na época, miscigenação era tão mal vista na tela quanto na vida real, mas Hollywood não viu problema em colocar uma atriz branca fazendo “yellowface” para viver uma donzela raptada.

The casting of the film also has high contrasts, with mostly Japanese actors playing Chinese characters, and a clearly white actress playing the Chinese love interest. At the time, miscigenation was frowned upon as much on screen as it was in real life, but Hollywood saw no problem in putting a white actress in yellowface to be a kidnapped damsel in distress.

Costumes Nacionais” apresenta, obviamente, um ponto de vista diferente. As irmãs Lan (Ruan Lingyu) e Tao (Li Lili) são, na maior parte do filme, completos opostos: Lan é responsável, simples e sempre busca a verdade, enquanto Tao é despreocupada, mesquinha e, de acordo com a irmã, segue o caminho da destruição. Lan representa a China rural, a China “real”, e Tao representa a China cosmopolita, influenciada por valores ocidentais. A crítica à modernização fica clara na sequência com os pais do personagem Xu Boyang. Como alívio cômico do filme, eles satirizam o povo chinês seguindo modas ocidentais, mudando sua maneira de vestir e as mulheres usando maquiagem e aparelhos para criar novos penteados.

National Customs” presents, obviously, a different point of view. Sisters Lan (Ruan Lingyu) and Tao (Li Lili) are, for most of the picture, complete opposites: Lan is responsible, frugal and always seeks the truth, while Tao is carefree, greedy and, according to her sister, on the path of destruction. Lan represents rural China, the “real” China, and Tao represents cosmopolitan China, influenced by Western values. The criticism of modernization is clear in a sequence with Xu Boyang's parents. As the comic relief in the film, they satirize Chinese people adopting Western fashions, changing their way of dressing and, for women, using make-up and bobbing their hair with ironing curls.

Make-up as futility in "National Customs" (1935)

Ser infeliz quando se tem tudo parece algo contrastante, não? Mas é exatamente isso que acontece com o protagonista de “Tempestade em um Crânio”, uma deliciosa comédia italiana de 1922. Renato De-Ortis, interpretado pelo diretor do filme, Carlo Campogalliani, acredita que enlouquecerá, tal como seus ancestrais. Para provar que ele está errado, seus amigos e sua namorada Liana (Letizia Quaranta) criam uma complexa sequência de sonho, que servirá também como psicoterapia.

Being unhappy when you have everything sounds contrasting, doesn't it? But this is exactly what happens to the lead of “La Tempesta in un Cranio”, a delightful 1922 Italian comedy. Renato De-Ortis, played by the director of the film, Carlo Campogalliani, believes he'll become mad like his ancestors. To prove him wrong, his friends and his girlfriend Liana (Letizia Quaranta) stage an ellaborate dream sequence that will also serve as psychotherapy.

Nenhum dos filmes havia apresentado o contraste entre classes sociais – até o quinto dia, quando a restauração do filme grego “Os Apaches de Atenas” foi exibida. O filme começa com cenas da vida diária em um bairro pobre de Atenas, cenas que poderiam ter sido filmadas por qualquer mestre do Neorrealismo Italiano. Nas ruas, frequentadores de cafés – os Apaches do título – lutam para sobreviver mas ainda encontram tempo para amar e se divertir. Enquanto a diversão deles é jogar pedras uns nos outros com estilingues, os – novos – ricos da cidade andam a cavalo e compram livros apenas para decorar as estantes, pois não têm interesse na leitura. O contraste é mais palpável quando um dos ricos contrata os três amigos pobres para pregar uma peça. O dinheiro que o homem rico gasta sem pensar duas vezes é usado pelos homens pobres para uma atividade de luxo: um passeio de táxi por Atenas.

None of the films had presented the contrast between social classes – until the fifth day, when the restoration of the Greek film “The Apaches of Athens” was presented. The film starts with scenes from daily life in a poor neighborhood in Athens that could have been filmed by any master of Italian Neorrealism. On these streets, café-goers – the Apaches from the title – struggle to make ends meet but still find time for love and fun. While their fun is throwing stones at each other with slingshots, the – newly – rich people in the city ride horses for fun and buy books only to decorate their houses, as they are not interested in reading. The contrast is more palpable as one of the rich people contracts the three poor friends for an ellaborate prank. The money the rich man spends without second thought is used by the poor men to afford a luxury: a taxi ride through Athens.

De Atenas nós vamos para Berlim em “Crise” de G.W. Pabst, de 1928, um filme sobre um casamento em crise. Uma pessoa que ajuda a criar esta crise é Liane (a maravilhosa e subestimada Hertha von Walther), amiga da protagonista, Irene (Brigitte Helm), que o marido de Irene considera ser uma má influência para a esposa. Liane é despreocupada e leva Irene para uma noite revolucionária num clube, onde Liane usa um ousado vestido sem costas, dois anos antes de Jean Harlow usar uma peça semelhante em “Anjos do Inferno”.

From Athens we go to Berlin in G.W. Pabst's “A Devious Path / Abwege”, from 1928, a film about a marriage in crisis. One person helping this crisis is Liane (the wonderful and underrated Hertha von Walther), a friend of the lead, Irene (Brigitte Helm), and someone Irene's husband considers to be a bad influence for his wife. Liane is carefree and takes Irene to a life-changing night on a nightclub, where Liane wears a risky backless dress, two years before a similar piece was worn by blonde bombshell Jean Harlow in “Hell's Angels”.

Hertha von Walther

De volta a Hollywood para “Romance of the Redwoods” (1917) de Cecil B. DeMille, no qual Mary Pickford e Elliott Dexter se apaixonam em circunstâncias estranhas. A cena deles na mesa, tomando café da manhã, tem uma forte marca de “A Bela e a Fera”, com a garota ficando horrorizada com a falta de etiqueta do homem que a tem como hóspede / refém.

Back to Hollywood for Cecil B. DeMille’s “Romance of the Redwoods” (1917), in which Mary Pickford and Elliott Dexter fall in love under weird circumstances. Their scene on the table, having breakfast, has a strong “Beauty and the Beast” feeling, with the girl becoming horrified by the lack of manners of the man who has her as a guest / hostage.

Mary Pickford had to travel a whole month!

O filme dinamarquês de 1913 “Filha do Balé / Ballettens Datter” me apresentou Rita Sacchetto, a protagonista do filme e uma das maiores bailarinas do mundo na época. Rita interpreta Odette, uma mulher dividida entre o casamento e sua profissão de bailarina, pois seu marido, um conde, exigiu que ela parasse de dançar quando eles se casaram, mas ela sente muita falta dos palcos. É possível ver, numa sequência em particular, quão triste ela está, e como ela fica feliz ao visitar sua antiga companhia de balé.

The 1913 Danish film “Unjustly Accused / Ballettens Datter” introduced me to Rita Sacchetto, the film's lead and one of the biggest dancers of the world at the time. Rita plays Odette, a woman torn between marriage and her profession as a dancer, as her husband, a count, demanded her to stop dancing when they got married, but she really misses the stage. You can see, in a particular sequence, how sad she is, and how happy she becomes once she visits her old ballet company.

E do que são feitas boas duplas cômicas se não de contraste? Quando pensamos em duplas visualmente contrastantes no cinema, logo nos lembramos de Stan Laurel e Oliver Hardy. Eles não eram apenas um cara magro e um homem gordo – Stan e Ollie eram opostos e complementares de muitas formas. Laurel aprendeu seu ofício nos palcos ingleses. Hardy era gerente de um cinema e se tornou ator. Laurel fez muitas paródias e também interpretou personagens ingênuos. Hardy foi, de início, escalado como vilão. Laurel era o cérebro, em geral escrevendo e dirigindo os filmes da dupla. Hardy era o coração. Juntos, eles foram icônicos, mas o festival escolheu focar nos dois individualmente, em curtas que eles fizeram antes de se tornarem parceiros – e esta seleção foi incrível, com destaque para o segundo rolo da hilária paródia “When Knights Were Old”.

And what are good comedy duos made of if not contrast? When we think about visually contrasting onscreen duos, we quickly remember Stan Laurel and Oliver Hardy. They were not only a thin man and a chubby guy – Stan and Ollie were opposites and complimentary in many ways. Laurel's background was music hall. Hardy was a theater manager turned screen actor. Laurel did many parodies and also played naïve characters. Hardy was at first cast as a heavy. Laurel was the brain, often writing and directing the films of the duo. Hardy was the heart. Together, they were iconic, but the festival chose to highlight the two individually, in shorts they made before being paired – and this selection was amazing, with the highlight being the second reel of the hilarious parody “When Knights Were Old”.

Mas nem tudo foi contrastante. De volta ao segundo dia da jornada, encontramos “The Brilliant Biograph”, uma compilação de 46 curtas gravados em 68mm e feitos entre 1897 e 1902 por toda a Europa. Vamos dar uma olhada na última parte desta compilação, chamada de “Corpo em Movimento”. Pense na família de malabaristas de 1898 ou nos boxeadores de ponta-cabeça de 1899: eles ainda são divertidos, não? Se eles tivessem sido filmados hoje, o vídeo não viralizaria? O público moderno não fica intrigado e maravilhado com muitas das mesmas coisas que intrigavam e maravilhavam o público da Era Vitoriana? No final, como o festival mostrou, só os séculos mudaram: nós, o público, somos o mesmo. Somos um só.

But not everything was contrasting. Going back to the second day of the journey, we find “The Brilliant Biograph”, a compilation of 46 68-mm short films made between 1897 and 1902 all around Europe. Let's take a look in the last sessionof this compilation, called “Body in Movement”. Think about the Agoust family of jugglers from 1898, or the upside-down boxers from 1899: aren't they still amusing? If they were filmed today, wouldn't the video go viral? Aren't modern audiences intrigued and marvelled by many of the same things Victoran-era audiences were? In the end, as the festival showed, only the centuries have changed: we, the public, are one and the same.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...