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sábado, 15 de junho de 2019

Casar por Azar (1932) / No Man of Her Own (1932)


Todos nós conhecemos Clark Gable e Carole Lombard como um casal, casados desde 1939 até a morte prematura dela em 1942. Mas, anos antes de eles se apaixonarem na vida real, eles interpretaram um casal em um filme. Em “Casar por Azar” (1932), o nome de Gable apareceu acima do título – sinal de status –, ele não tinha bigode e Carole era uma loura platinada. As coisas eram, com certeza, muito diferentes.

We all know Clark Gable and Carole Lombard as a couple, married from 1939 until his untimely death in 1942. But, years before they fell in love for real, they played a couple in a film. In “No Man of Her Own” (1932), Gable's name was above the title, he had no mustache and Carole was a platinum blonde. Things were, for certain, very different.


Jerry ‘Babe’ Stewart (Gable) organiza jogos de cartas com três outras pessoas, incluindo sua ex Kay Everly (Dorothy Mackaill). A função de Kay é convencer homens ricos a participar dos jogos, tirando alguns milhares de dólares deles com um jogo manipulado. Quando ele se vê cercado de problemas – as causas destes problemas são Kay e um dos jogadores – Jerry foge e por acaso vai para a cidadezinha de Glendale, onde Connie Randall (Lombard) vive com sua família.

Jerry 'Babe' Stewart (Gable) puts up card games with three other people, including his former girl Kay Everly (Dorothy Mackaill). Kay's function is to lure rich men into playing cards with them, until the man has lost a few thousand dollars in the rigged game. Once in trouble – with both Kay and a player – Jerry runs away and by chance ends up in the small city of Glendale, where Connie Randall (Lombard) and her family live.


Connie vem de uma família simples e trabalha como bibliotecária. O primeiro encontro de Jerry e Connie é caliente, e eles instantaneamente sentem atração um pelo outro. Ele é mais direto, e ela não é uma garota simplória do interior. Ela quer aceitar as investidas dele, mas reluta em fazê-lo. A sequência labiríntica, qual jogo de gato e rato, na biblioteca filmada em plongée (de cima para baixo) é uma epítome do que é flertar.

Connie comes from a simple family and works as a librarian. Jerry's and Connie's first meeting is a steamy one, with both instantly attracted by each other. He is more straightforward, and she is no simpleton from a small town. She wants to say yes to him, but is reluctant. Their cat and mouse, labyrinthine sequence in the library filmed from above is an epitome of what flirting is.


Agora Jerry e Connie estão juntos, mas ele não pretende ficar muito tempo sem ela. Kay não é mais problema: ela está em um cruzeiro no Caribe. Connie será um grande problema, porque, para manter a farsa, Jerry precisará fingir que tem um emprego. Além disso, Connie começa a suspeitar das noites de jogo de Jerry.

Now Jerry and Connie are together, but he doesn't intend to be with her for long. Kay will be no problem: she is away in a cruise through the Caribbean. Connie will be a great trouble, because, to keep the farce, Jerry will need to pretend he has a job. Besides that, Connie starts to get suspicious of Jerry's game nights.


Há poucos filmes pre-Code mais ousados que “Casar por Azar”. Neste filme, temos tanto Dorothy Mackaill quanto Carole Lombard se despindo – e Lombard correndo de lingerie para atender ao telefone e depois colocando pijamas de seda quase transparente -, o peito nu de Gable no chuveiro, muita paquera e referências nem um pouco veladas ao ato de “fazer amor”. E é tudo deliciosamente libertador!

There are few pre-Codes naughtier than “No Man of Her Own”. In this film, we have gratuitous undressing scenes featuring both Mackaill and Lombard – and Lombard running in her underwear to answer a phone and then changing to almost transparent silk pajamas –, Gable's naked torso in the shower, a lot of flirting and unapologetic references to making love. And it's all a delight and so freeing!


O director Wesley Ruggles é um mestre do pre-Code. Além de “Casar por Azar”, ele dirigiu “Santa Não Sou” (1933), com Mae West, e trabalhou sem ser creditado em “Cimarron” (1931) - nos créditos ele não aparece como diretor, mas sim como "uma produção Wesley Ruggles". Ele também fez “Luar, Música e Amor” (1925), no qual tanto Gable quanto Lombard trabalharam como figurantes, sem fazerem cenas juntos. E se você está se perguntando: sim, Wesley é parente do conhecido ator coadjuvante Charles Ruggles – eles são irmãos.

Director Wesley Ruggles is a pre-Code master. Besides “No Man of Her Own”, he directed Mae West’s “I’m No Angel” (1933) and did uncredited work in “Cimarron” (1931) - he doesn't appear as the director in the credits, it's only "a Wesley Ruggles production". He also did “The Plastic Age” (1925), in which both Gable and Lombard appeared as extras, sharing no scenes. And if you’re wondering: yes, Wesley is related to beloved character actor Charles Ruggles – they are brothers.


Tanto Gable quanto Lombard estavam casados quando filmaram “Casar por Azar”. Gable era casado com Rhea Langham, sua segunda esposa. Lombard era casada com o ator William Powell, de quem ela continuou amiga após o divórcio. De acordo com o IMDb, Gable e Lombard se mostraram indiferentes em relação um ao outro durante as filmagens, embora seus personagens tenham muita química.

Both Gable and Lombard were married when they made “No Man of Her Own”. Gable was then married to Rhea Langham, his second wife. Lombard was married to fellow actor William Powell, with whom she remained friends after the divorce. According to IMDb, Gable and Lombard were indifferent at each other while shooting the film, although the two characters have immense chemistry.


Carole Lombard não foi a primeira opção para interpretar Connie – foi Miriam Hopkins. Curiosamente, aqui Carole se parece um pouco com Jean Harlow, que começou uma bem-sucedida parceria com Gable em 1932. Tanto a persona cinematográfica de Harlow quanto a personagem de Carole têm cabelo claro, grande elegância, otimismo e alegria contagiante.

Carole Lombard wasn't the first choice to play Connie – it was Miriam Hopkins. Curiously, here Carole looks a little like Jean Harlow, who started her successful partnership with Gable in 1932. Both Harlow's screen persona and Lombard's character have light hair, a great fashion sense and a contagious joy and optimism.


“Casar por Azar” não é uma screwball comedy. Ao misturar crime e romance, o filme se parece mais com outras produções estreladas por Clark Gable no período pre-Code – em especial “Possuída”, de 1931 – e ele desafia qualquer tipo de classificação em gêneros e subgêneros. Com 81 minutos, é um filme rápido e divertido – e que mostra tudo o que os cineastas podiam fazer antes de a censura chegar.

“No Man of Her Own” isn’t a screwball comedy. Mixing crime and romance, it looks more like other Clark Gable pre-Codes – 1931’s “Possessed” comes to my mind – and it defies all kinds of classification in genres and subgenres. Clocking in at 81 minutes, it’s a quick, enjoyable movie – and it shows the wonders filmmakers could accomplish before censorship came.

This is my contribution to the Second Clark Gable blogathon, hosted by Michaela at Love Letters to Old Hollywood.


quinta-feira, 13 de junho de 2019

Dr Morelle: O Caso da Herdeira Desaparecida (1949)


Dr Morelle: The Case of the Missing Heiress (1949)


Poderia ter sido Agatha Christie e sua Miss Marple. Poderia ter sido Hitchcock e os protagonistas de “A Dama Oculta” (1938). E poderíamos ter sido nós. Este é o grande trunfo de histórias sobre pessoas normais que investigam crimes: poderíamos ser nós. São histórias emocionantes, cheias de suspense, e fáceis de criar identificação. O filme da Hammer de 1949, “Dr Morelle: O Caso da Herdeira Desaparecida” é um destes filmes sobre pessoas normais que se tornam investigadoras. No caso, essas pessoas são o Dr Morelle e em especial sua assistente, Miss Fraley.

It could have been Agatha Christie and her Miss Marple. It could have been Hithcock and the leads of “The Lady Vanishes” (1938). And it could have been us. This is the great thing about stories that involve normal people investigating crimes: they could have been us. They're chilling, thrilling, and incredibly relatable. The 1949 Hammer film “Dr Morelle: The Case of the Missing Heiress” is one of those films about normal people turned investigators. In this case, Dr Morelle and in special his assistant, Miss Fraley.


O filme começa com Dr Morelle (Valentine Dyall) ditando uma história para sua assistente, Miss Frayle (Julia Lang). O resto da história é contada em flashback. Em uma velha mansão, Cynthia Mason (Jean Lodge) discute com seu padrasto, Kimber (Philip Leaver), porque ela quer se casar com Peter Lorimer (Peter Drury). Ela está disposta a deixar todo seu dinheiro para o padrasto, mas Peter é contra essa ideia. Cynthia desaparece enquanto Peter está falando com o padrasto dela – e sendo hipnotizado por ele!

The film begins with Dr Morelle (Valentine Dyall) dictating a story to his assistant, Miss Frayle (Julia Lang). The rest of the story is told as a flashback. In an old mansion, Cynthia Mason (Jean Lodge) argues with her stepfather, Kimber (Philip Leaver), because she wants to marry Peter Lorimer (Peter Drury). She is willing to leave all her money to her stepfather, but Peter is against it. Cynthia disappears while Peter is talking to her stepfather – and being hypnotized by him!


A melhor amiga de Cynthia, Miss Frayle, decide investigar o desaparecimento. Ela vai até a mansão e diz que é a nova empregada. Lá ela recebe uma estranha ajuda do mordomo Bensall (Hugh Griffth), um homem peculiar e sinistro que passeia com um cachorro invisível – já que seu cachorro morreu há 15 anos.

Cynthia's best friend, Miss Frayle, decides to investigate the disappearance. She goes to the mansion and says she's the new housemaid. There she receives some weird kind of help from the butler Bensall (Hugh Griffth), a peculiar, sinister man who walks an invisible dog – since his dog has been dead for 15 years.


Infelizmente, Miss Frayle é um desastre enquanto empregada. Quando as coisas ficam muito perigosas na investigação, ela chama o Dr Morelle para ajudar. Para obter pistas, o Dr Morelle irá assumir outras identidades e também usar hipnose.

Unfortunately, Miss Frayle is a disaster as a housemaid. When things get too dangerous in her investigation, she calls Dr Morelle to help. To obtain clues, Dr Morelle will assume other identities and use hypnotism too.

Dr Morelle pode ser tão esperto quanto Sherlock Holmes, mas neste filme ele parece ser uma pessoa horrível. Sempre que pode, ele diminui e humilha Miss Frayle, sua inteligência e sua tentativa de investigação. E eu me surpreendi ao descobrir que a misoginia era um traço de personalidade da personagem desde o início.

Dr Morelle may be as smart as a Sherlock Holmes, but in this film he sounds like a horrible person. Whenever possible, he diminishes and humiliates Miss Frayle's intelligence and attempts to investigate. And I was surprised to find out his misogyny was a trait the character had since he was created.

Dr Morelle, assim como o Sherlock Holmes de Conan Doyle e a Miss Marple de Agatha Christie, é uma personagem que surgiu no mundo literário. Ernest Dudley, ator que virou escritor, conceber a personagem durante um bombardeio na Inglaterra da Segunda Guerra Mundial. Dudley baseou os traços do Dr Morelle em Erich von Stroheim, que ele havia conhecido brevemente, e Miss Frayle foi baseada na própria esposa de Dudley, a atriz Jane Grahame.

Dr Morelle, like Conan Doyle's Sherlock Holmes and Agatha Christie's Miss Marple, is a character the first appeared in literary form. Actor-turned-novelist Ernest Dudley conceived the character during an air raid in wartime England. Dudley based Dr Morelle's traits in Erich von Stroheim, whom he had briefly met, and Miss Frayle was based in Dudley's own wife, actress Jane Grahame.

As histórias do Dr Morelle se tornaram uma sensação do rádio dos anos 40 aos anos 60, com Jane Grahame interpretando Miss Frayle nos primeiros anos do programa. Dudley anunciava o protagonista como “O homem que vocês amam odiar” – e a audiência subai a cada semana. Fazer um filme era, naturalmente, o próximo passo.

Dr Morelle's stories became a radio sensation from the 1940s until the 1960s, with Jane Grahame playing Miss Frayle in the first years of the radio show. Dudley advertised the character as “The man you love to hate” - and the ratings only increased from week to week. Making a film was the natural next step.
 
Dr Morelle no rádio / Dr Morelle on the radio
Dudley teve pouco envolvimento com o filme. Para o papel principal, foi escolhido Valentine Dyall – um homem com uma voz icônica e uma presença sinistra que lhe renderam o apelido de “Vincent Price britânico”. Mais tarde, Dyal trabalharia em alguns filmes de terror dos estúdios Hammer e Amicus. Como Miss Frayle, temos Julia Lang, uma atriz competente, mas praticamente esquecida. É uma pena que ela seja mais como uma donzela em perigo no filme, embora tenha momentos de grande perspicácia.

Dudley had very little involvement with the film. For the lead role, Valentine Dyall was chosen – a man with such an iconic voice and such a sinister presence he was once called “the British Vincent Price”. Dyall would later work in some Hammer and Amicus horror films. As Miss Frayle, we have Julia Lang, a competent yet nearly forgotten actress. Too bad she is more of a damsel in distress in this film, although she has some moments of acumen.


Hugh Griffith foi o mais sortudo do elenco – embora seu personagem não tenha tido muita sorte no filme. Griffith pode ser lembrado como o Sheik Ilderim de “Bem-Hur” (1959), um papel que deu a ele o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. O site IMDb lista 103 créditos como ator para Griffith, em um intervalo de 40 anos, tanto em Hollywood quanto na Inglaterra, tanto no cinema quanto na TV.

Hugh Griffith had the best luck of all the cast – although his character wasn't lucky in the film. Griffith can be remembered as the Sheik Ilderim in “Ben-Hur” (1959), a role that gave him the Best Supporting Actor Oscar. IMDb lists 103 credits as an actor for him, spanning 40 years, in both Hollywood and England, and in both film and TV.


Há algumas características de filme noir em “Dr Morelle: O Caso da Herdeira Desaparecida”. Alguns ângulos de câmera são bastante ousados, como a câmera no teto que vê toda a sala de estar da mansão, assim como os ângulos de câmera que mostram os corredores da mansão. Há também uma excelente tomada de Julia Lang descendo as escadas, com a câmera baixa (contra-plongée). O diretor de fotografia Cedric Williams trabalhou pouco no cinema, mas aqui podemos ver o tamanho de seu talento.

There are some noir traits in “Dr. Morelle: The Case of the Missing Heiress”. Some camera angles are very bold, like the camera on the roof that oversees the whole living room of the mansion, as well as the camera angles that show the mansion aisle. There is also a great shot of Julia Lang going down the stairs, filmed from a low angle. Cinematographer Cedric Williams had few credits to his name, but here we can see how talented he was.


“O Caso da Herdeira Desaparecida” é o único filme do Dr Morelle. O estúdio Hammer e outros estúdios não mostraram interesse em fazer mais filmes com a personagem, e é fácil ver o porquê. Em um tempo em que mulheres eram porcentagem importante da plateia dos cinemas, uma personagem tão misógina não seria muito popular. Sim, eu sei que outros detetives / gênios da ficção são também figuras pouco simpáticas – Sherlock Holmes inclusive se define como um “sociopata altamente funcional” – mas Dr Morelle está à beira da ojeriza. Poderia haver mais filmes com ele? Talvez, se ele melhorasse muito – e aprendesse a tratar as mulheres como seres humanos.

“The Case of the Missing Heiress” is the only Dr Morelle film. Hammer and other film studios showed no interest in making more films with the character, and I can see why. In a time when female moviegoers were an important part of the audience, such a misogynistic character wouldn't be very popular. Yes, I know some other fictional detectives / geniuses are also unsympathetic figures – Sherlock even calls himself a “high-functioning sociopath” – but Dr Morelle is on the verge of disgusting. Could there be more films with him? Maybe, if he improved a lot – and learned to treat women like human beings.

"Dr Morelle: The Case of the Missing Heiress" is available on Internet Archive.

This is my contribution to the 2nd Great Hammer and Amicus blogathon, hosted by Gill and Barry at RealWeegieMidget Reviews and Cinematic Catharsis.



domingo, 9 de junho de 2019

O Maluco (1921) / The Nut (1921)

Ou: por que fiquei maluca por Douglas Fairbanks em “O Maluco” (1921)

Or: why I'm nuts for Douglas Fairbanks in “The Nut” (1921)

No começo dos anos 20, a maioria das frequentadoras das salas de cinema estava apaixonada por Douglas Fairbanks. Elas tinham bom gosto: Doug era bonito, alto, moreno, com um sorriso charmoso e um porte atlético que era sempre explorado nas telas. Por isso seria uma grande surpresa vê-lo em um filme de 1921 interpretando um inventor nerd – e foi uma surpresa muito agradável.

In the early 1920s, most female moviegoers were in love with Douglas Fairbanks. They had good taste: Doug was handsome, tall, with a dark complexion, a charming smile and he always showed his athleticism on screen. So it would come as a huge surprise to see him in a 1921 film playing a nerdy inventor - and it was a very pleasant surprise.


Charlie (Fairbanks) é um inventor. Ele está apaixonado por Estrell (Marguerite De La Motte). Estrell trabalha por uma causa: ela recebe crianças pobres em casa durante uma hora todos os dias, porque ela acredita que casas refinadas irradiam ideias refinadas, por isso as crianças terão mais oportunidades na vida se passarem algum tempo em lugares refinados.

Charlie (Fairbanks) is an inventor. He is love with Estrell (Marguerite De La Motte). Estrell works for a cause: she receives a few poor children in her house one hour every day, because she thinks refined houses irradiate refined ideals, so those kids will have more opportunities when they grow up because they spent time in nice places.


Além de Charlie, outro homem está interessado em Estrell: o apostador Philip (William Lowery). Philip é tão mau que seu telefonista é o diabo em pessoa – e isso não é uma metáfora! Estrell, Charlie e Philip se encontram em uma festa que Charlie organiza para que Estrell possa discursar sobre a sua causa. Embora ela consiga alguns voluntários, uma invenção de Charlie sai do controle e isso acaba atrapalhando a festa.

Besides Charlie, Estrell has another suitor: the gambler Philip (William Lowery). Philip is so bad his telephone operator is the devil himself - and this is not a metaphor! Estrell, Charlie and Philip meet at a party Charlie throws so Estrell can spread the word about her cause. Although she gets some new volunteers, Charlie’s invention gets out of control and this spoils the party.


Toda a confusão leva Charlie para a cadeia. Lá, ele é colocado na mesma cela que um criminoso conhecido como Gentleman George (Gerald Pring). George, entretanto, se apresenta como um membro da rica família Vanderbrook – e Charlie acredita que ele tem uma chance de fazer com que Estrell o perdoe se ele conseguir espalhar a teoria dela entre os milionários.

All the confusion leads Charlie to jail. There, he is put in the same cell as a crook known as Gentleman George (Gerald Pring). George, however, introduces himself as a member of the rich Vanderbrook family – and Charlie thinks he has a chance to win Estrell back if he spreads her theory among millionaires.


Charlie fará qualquer coisa para ver Estrell feliz. Enquanto isso, Philip se aproxima dela interessado apenas em um caso rápido e isso desagrada à amante dele a exótica Claudine (Barbara La Marr). Algumas confusões com o Vanderbrook real e o filho dele vão acontecer nesta história sobre criatividade e adoração – e Doug até fará alguns saltos!

Charlie will do anything to see Estrell happy. Meanwhile, Philip gets close to her only interested in a quick affair, and this displeases his lover, the exotic Claudine (Barbara La Marr). A few confusions with the real Vanderbrook and his son will also happen in this tale of creativity and adoration - and Doug even manages to do some jumps!


Sim, Charlie é bonito, alto, moreno, com um sorriso charmoso e um corpo atlético. Mas o que realmente o faz se destacar é como ele trata Estrell. Ele acredita nela e quer que a teoria dela seja um sucesso – muito embora ela seja bem estranha. Em tempos como os nossos, de mansplaining e manterrupting, é raro ver um homem apoiando as ideias de uma mulher. Isso devia ser algo muito mais raro na década de 1920. Ter alguém que lhe estimule e que fique feliz quando você alcança seus objetivos é algo tão raro que esse apoio pode ser mais valioso e atraente que qualquer característica física.

Yes, Charlie is handsome, tall, with a dark complexion, a charming smile and an athletic body. But what makes him really stand out is how he treats Estrell. He believes her and wants to see her theory be successful - even though it sounds very, very odd. In times like today, full of mansplaining and manterrupting, it’s rare to see a man support a woman’s ideas. It must have been even rarer in the 1920s. To have someone who stimulates you and cheers when you achieve your goals is something so rare that this support can be more valuable and attractive than any physical trait.


Em 1915, Douglas Fairbanks fez uma comédia chamada “The Lamb” - foi seu primeiríssimo filme. Em 1920, quando o remake foi feito, Doug, agora produtor de suas próprias películas, indicou Buster Keaton para seu papel, um galã sério que foi interpretado com maestria por Keaton em "O Pesado". Em uma troca curiosa, posso visualizar Keaton perfeitamente como o protagonista de “O Maluco”. Como “O Maluco” tem muita comédia – e às vezes comédia física – Buster seria uma escolha perfeita. Além disso, ele poderia fazer a sequência inicial muito bem, pois Buster também se divertiu com algumas maravilhas modernas no curta-metragem “O Espantalho” (1920).

In 1915, Douglas Fairbanks did a comedy film called “The Lamb” - it was his very first film. In 1920, when this film was remade, Doug, already producing his own films, suggested Buster Keaton for his role, a straight lead that he played very well in "The Saphead". In a curious change, I can perfectly envision Buster as the lead in “The Nut”. Since “The Nut” has a lot of comedy – and sometimes relies on physical comedy – Buster would be a perfect choice. Furthermore, he could have played the opening sequence with the inventions very well, because Buster also had a good time with modern marvels in the short “The Scarecrow” (1920).


Marguerite De La Motte, que já havia trabalhado com Fairbanks em outros filmes como “A Marca do Zorro” (1920), era a melhor amiga da outra atriz de destaque do filme, Barbara La Marr. A atriz e roteirista La Marr, que também trabalhou com Fairbanks em “Os Três Mosqueteiros” (1921), tem o pequeno papel de uma vamp ciumenta em “O Maluco” - ela é um protótipo de femme fatale. La Marr faleceu tragicamente em 1926, aos 29 anos, vítima de tuberculose.

Marguerite De La Motte, who had worked with Fairbanks in other films such as “The Mark of Zorro” (1920), was best friends with the other important actress in the film, Barbara La Marr. Actress and writer La Marr, who also had worked with Fairbanks in “The Three Musketeers” (1921), has a small role of a jealous vamp in “The Nut” - a femme fatale prototype. La Marr tragically passed away in 1926, at 29, from tuberculosis.

Marguerite De La Motte
Barbara La Marr / William Lowery 

Eu gargalhei em muitas cenas de “O Maluco”. Não apenas as ações eram engraçadas, mas também as cartelas de texto. Houve, no entanto, alguns momentos quando Charlie estava tentando reconquistar Estrell em que as ações pareciam fora do lugar – eu me pergunto se o editor fez escolhas incomuns ou se há alguns fragmentos faltando.

I laughed out loud in many scenes in “The Nut”. Not only the actions were funny, but also the title cards. There were, however, some moments when Charlie was trying to get Estrell back in which the actions looked out of place – I wonder if the editor made unusual choices or if there are fragments missing.


Uma das muitas cartelas de textos hilárias diz: “Talvez a necessidade seja a mãe de todas as invenções – mas o pai delas é um maluco”. Infelizmente, nós vemos todas essas invenções nos primeiros minutos. Eu estava esperando mais criações loucas, mas, com a evolução da história, Charlie teve de mostrar sua criatividade de outras maneiras – por exemplo, usando sua malsucedida máquina de incenso para criar a impressão de que um boneco de cera era um homem de verdade fumando.

One of the many hilarious title cards says: “Maybe necessity is the mother of all inventions – but the father of these is a nut.” Unfortunately, we see all those inventions in the first few minutes. I was expecting more zany creations, but as the story went on, Charlie had to show his creativity in other ways – for instance, using his failed incense machine to make a waxwork look like a real man smoking.


O Maluco” nos mostra que nerds também podiam ser heróis românticos muito antes de se tornar bacana ser nerd. O filme também mostrou que nem todas as mulheres precisam de um homem para salvá-las quando elas estão em perigo: algumas só precisam de alguém para apoiá-las. E “O Maluco” também mostrou que Fairbanks pode ter se tornado uma superestrela com seus filmes de capa e espada, mas foi com comédias modernas que ele começou – e ele se saía muito bem nelas.

The Nut” shows us that nerds could also be romantic heroes way before being nerd became cool. It also showed us that not all girls need a man to save them when they're in danger: some girls just need someone to show support. And “The Nut” also showed that Fairbanks may have became a superstar with his swashbuckler roles, but it was in modern-day comedies that he started and also excelled.

O Maluco” está disponível, sem legendas, no YouTube e Internet Archive.

The Nut” is available on YouTube and Internet Archive.

This is my contribution to the Reel Infatuation blogathon, hosted by Ruth and Maedez at Silver Screenings and Font and Frock.


quinta-feira, 6 de junho de 2019

Anjos Rebeldes (1966) / The Trouble with Angels (1966)


Se eu fosse julgar o filme “Anjos Rebeldes”, dirigido por Ida Lupino, apenas pela sequência de abertura animada, a nota dada seria de cinco estrelas. Créditos animados estavam na moda nos anos 60 – quem pode se esquecer de certa pantera cor de rosa que apareceu nos créditos de certo filme? – e a animação no começo de “Anjos Rebeldes” é uma lição perfeita sobre a arte de contar histórias.

If I was to judge the Ida Lupino-directed film “The Trouble with Angels” for its animated credits sequence, I'd give it a five star rating. Animated credits were in vogue in the 1960s – who could forget of a certain pink panther that appeared in the credits of a certain film? - and the animation work in the beginning of “The Trouble with Angels” is a perfect storytelling lesson.


A partir dos créditos já sabemos que se trata de um filme sobre uma escola comandada por uma severa freira interpretada por Rosalind Russell. Também ficamos sabendo que a garota mais travessa da escola é interpretada pela superestrela adolescente Hayley Mills. De fato, Mary Clancy (Mills) chega à Academia São Francisco e logo diz que seu nome verdadeiro é Kim Novak. Depois disso, ela fuma no banheiro, leva as outras garotas para um passeio pelos aposentos da Madre Superiora e foge das aulas de natação na educação física.

From the credits we know the film is about a school run a by a strict nun played by Rosalind Russell. We also know that the naughtiest girl in that school is played by teen superstar Hayley Mills. Indeed, Mary Clancy (Mills) starts her attendance of the St. Francis Academy by saying her real name is Kim Novak. Next up she smokes in the bathroom, takes the other girls on tour to see the Mother Superior's room and escapes the swimming lessons in physical education class.


Quem sempre está junto com Mary é Rachel Devery (June Harding), uma garota atrapalhada cuja meta é conseguir que o diretor de sua antiga escola a resgate daquele local horrível. Rachel tem uma quedinha pelo diretor, Sr. Petrie (Jim Hutton), que ela descreve como uma versão mais nova de Jack Lemmon. Rachel segue as ideias incrivelmente brilhantes de Mary – que em geral não são nem um pouco brilhantes – e as duas são constantemente castigadas por causa de suas travessuras.

Alongside Mary there is always Rachel Devery (June Harding), a clumsy girl whose goal is to have the director of her former school rescue her from that horrible place. Rachel has a crush on the director, Mr. Petrie (Jim Hutton), who she describes as a younger Jack Lemmon. Rachel follows Mary's scathingly brilliant ideas – that are often not brilliant at all – and the two are constantly grounded because of their missbehaving.


Acompanhamos Mary, Rachel e as outras garotas – entre elas há Charlotte, que está sempre prestes a desmaiar – durante três anos na Academia São Francisco. Durante este tempo, elas têm divertidas aulas de matemática com uma criativa freira, têm lições de dança e postura com a peculiar Sra. Phipps (Gypsy Rose Lee) e se juntam à banda numa competição para ganhar um prêmio em dinheiro com o objetivo de comprar um novo aquecedor para a escola.

We follow Mary, Rachel and the other girls – among them there is Charlotte, who is always about to faint – during their three years at St. Francis. During this time, they have fun math lessons with a creative nun, have dance and posture lessons with the unique Mrs Phipps (Gypsy Rose Lee) and join the band in a competition to win money to give the school a new boiler.


Hayley Mills, filha do ator britânico John Mills e da escritora Mary Hayley Bell, foi provavelmente a maior estrela juvenil dos anos 60. Na Disney, ela fez clássicos infantis como “Poliana” (1960) e “O Grande Amor de Nossas Vidas” (1961). Fora da Disney, ela trabalhou em filmes mais sérios como “Corações Feridos” (1964). “Anjos Rebeldes” se parece mais com seus primeiros trabalhos, mais leves, só que com um toque de rebeldia. E, bem, eu sempre achei que Hayley e Jane Fonda poderiam ter interpretado irmãs em um filme nos anos 60.
 
Hayley Mills, the daughter of British thespian John Mills and novelist Mary Hayley Bell, was arguably the biggest young star of the 1960s. Working for Disney, she made childhood classics like “Pollyanna” (1960) and “The Parent Trap” (1961). Outside Disney, she worked in more serious movies, like The Chalk Garden” (1964). “The Trouble with Angels” is more like her earlier light roles, but with a little rebel side. And, well, I always thought that Hayley and Jane Fonda could have played sisters in a 1960’s film.


À primeira vista, a freira interpretada por Rosalind Russell nos parece uma personagem antipática, pois ela está sempre dando bronca nas protagonistas. Entretanto, ela tem compaixão, se importa muito com cada uma das meninas, não importa quão rebelde, e entende que domar um espírito rebelde não é o mesmo que destruí-lo. Ela também se vê em Mary, e nem ela nem as meninas tratam Mary diferente por ser órfã, algo raro de se ver em um filme.

At first, Rosalind Russell's Reverend Mother is an unsympathetic character, as she is always grounding our heroines. However, she is compassionate, really cares about each one of the girls, no matter how rebel they are, and understands that to tame a rebel spirit is not the same to break it. She also sees herself in Mary, and neither she nor any of the girls treat the fact that Mary is an orphan as a big deal, something quite surprising in a film.


Mais de 25 anos antes de “Anjos Rebeldes”, Rosalind Russell fez “As Mulheres” (1939), um filme com um elenco 100% feminino e que era totalmente centrado nos homens. As mulheres só pensavam e falavam em homens, e não havia amizade entre a maioria das personagens. Felizmente, as coisas mudaram um pouco com o tempo, e foi preciso uma diretora como Ida Lupino para fazer um filme como “Anjos Rebeldes”, mostrando uma amizade verdadeira – não uma amizade sem problemas, mas cheia de afeição.

More than 25 years before “The Trouble with Angels”, Rosalind Russell appeared in “The Women” (1939), a film with an all-female cast that couldn't be more male-centric. All women thought and talked about was men, and there was no friendship between most of the female characters. Thankfully, things changed a bit with time, and it took a female director like Ida Lupino to make a film like “The Trouble with Angels”, showcasing a true female friendship – not one without problems, but one full of love.


Eu amo Ida Lupino e a maneira como ela injeta consciência social em todos os seus filmes – mesmo em uma comédia como “Anjos Rebeldes”. Aqui, em uma cena que se passa em uma festa de Natal de caridade, Mary ouve senhorinhas falando e reclamando de suas vidas. Elas tiveram muitas dificuldades: casamento, perda de patrimônio, viuvez, o abandono dos filhos. Estes são problemas que em geral afetam, em porcentagem e em impacto psicológico, mais mulheres do que homens, e mesmo assim muitas mulheres – como as da Academia São Francisco – estão sendo preparadas para este futuro horrível de dependência financeira e para cuidarem de uma família que pode não estar lá quando ela precisar deles.

I love Ida Lupino and the social conscience she injects in all her movies – even in a light comedy like “The Trouble with Angels”. Here, in a scene in a charity Christmas party, Mary hears old ladies talking and complaining about their lives. They had many struggles: marriage, loss of money, becoming widowed, being forgotten by their kids. These are troubles that often affect, in percentage and in psychological toll, more women than men, and yet many women – like the women from the St. Francis Academy – are being prepared for this horrible future of financil dependence and taking care of a family that may not be there when you need them.


Embora eu tenha gostado de “Anjos Rebeldes”, havia muito mais para ver, considerando as histórias e personagens que apareceram aqui e ali. Eu gostaria de ver uma comparação e conflito entre os métodos de ensino das freiras e do Sr. Petrie – talvez até com um concurso de soletração entre as escolas, porque eu amo concursos de soletração. Eu adoraria ver a Rachel toda atrapalhada e apaixonada interagindo com o Sr. Petrie. Eu adoraria ver as garotas na excursão ao museu, e reagindo com maior profundidade à história de vida da Irmã Ursula.

Although I liked “The Trouble with Angels”, there was so much more I'd like to see, considering the storylines and characters that appeared here and there. I'd like to see a comparison and a conflict between the Reverend Mother's methods of teaching and Mr Petrie's – maybe even with a spelling bee competition between the schools, as I'm a sucker for spelling bees. I'd love to see Rachel being clumsy and infatuated interacting with Mr Petrie. I'd love to see the girls out in the field trip to the museum, and reacting more deeply to Sister Ursula's life story.


Eu estudei em uma escola de freiras dos cinco aos dez anos. Era tudo bem diferente de “Anjos Rebeldes” - algo óbvio, pois minha experiência como aluna aconteceu mais de 30 anos após a estreia do filme. Os alunos não eram internos como Mary e Rachel, mas havia algumas freiras severas como Rosalind Russell. E, infelizmente, eu não vivi nenhuma amizade intensa como a de Mary e Rachel.

I studied at a nun's school from ages 5 to 10. It was very different from the one in “The Trouble with Angels” - of course, because I was studying there more than 30 years after the film was released. The students were not interns like Mary and Rachel, but there were some more strict nuns like Rosalind Russell there. And, unfortunately, I haven't found such intense friendship there like Mary and Rachel did.


This is my contribution to the Rosalind Russell blogathon, hosted by Crystal at In the God Old Days of Classic Hollywood.


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