} Crítica Retrô: 1911

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Wednesday, July 15, 2026

A Odisseia (1911) / The Odyssey (1911) / L’Odissea (1911)

 

Quando eu tinha treze anos, a escola exigiu a leitura de uma versão resumida de duas obras-primas de Homero: a Ilíada e a Odisseia. Já naquela época, a leitura não era uma obrigação para mim, era um prazer. Eu fiquei surpresa com a presença e a intervenção dos deuses gregos nas histórias e suas tramas ficaram marcadas na minha mente.

When I was thirteen, school made us read an abridged version of Homer’s two masterpieces: the Iliad and the Odyssey. Already at the time, reading wasn’t an obligation for me, it was a pleasure. I was surprised by the presence and intervention of the Greek gods in the stories and their plots were glued to my mind. 


No meu primeiro ano de faculdade surgiram os MOOCs - sigla em inglês para Cursos Abertos Online em Massa. O primeiro que eu fiz era sobre a Ilíada e a Odisseia, com um professor especialista nestas duas obras da literatura. Dá para imaginar ser especialista numa obra de arte? Isso mexeu comigo e o curso foi exigente, mas foi um prazer fazê-lo.

In my first year of college MOOCs - Massive Open Online Courses - became a thing. The first I took part in was about the Iliad and the Odyssey, taught by a professor with a degree in these two works of literature. Can you imagine having a degree in a work of art? It puzzled my mind and the course was demanding, but also rewarding.


Semana passada vi um post no Instagram da Le Giornate del Cinema Muto sobre o filme de 1911 “A Odisseia / L’Odissea”. A publicação nos contava que essa adaptação do poema épico de Homero foi feita após o sucesso de “L’Inferno” (1911), um filme sobre o qual já escrevi AQUI. Por isso, em vez de marchar para os cinemas para assistir à nova adaptação de Christopher Nolan, eu decidi escrever sobre a adaptação vintage de uma das maiores histórias de todos os tempos.

Last week I saw a post on the Instagram account of the Pordenone Silent Film Festival about the 1911 film “The Odyssey / L’Odissea”. The publication told us that this adaptation of Homer’s epic tale was made after the success of “L’Inferno” (1911), a film I previously reviewed HERE. So, instead of marching to the cinemas to watch Christopher Nolan’s new adaptation, I decided to review the vintage retelling of one of the greatest stories ever told.


Ulisses ou Odisseu (Giuseppe de Liguoro) deixa sua família na ilha de Ítaca para lutar na guerra de Troia. Começam os rumores de que Odisseu morreu e pretendentes começam a fazer fila esperando que a viúva Penélope decida com quem se casará em seguida. Com o  intuito de adiar essa decisão, Penélope tece uma mortalha para o marido de dia e desfaz o trabalho de noite - essa noite sendo representada por um filtro azul na película.

Odysseus (Giuseppe de Liguoro) leaves his family on the island of Ithaca to fight the war in Troy. People start the rumor that Odysseus is dead and suitors start to line up waiting for widow Penelope to decide whom she will remarry. Wanting to postpone the decision, Penelope weaves a shroud for her husband by day and unweaves at night - night being represented by a blue tinting.


A guerra em Troia acaba - sem nenhum cavalo à vista - e Odisseu, vivíssimo, começa sua viagem de volta. É verdade que quando estamos voltando a viagem parece mais rápida, mas não para nosso herói: antes de chegar a Ítaca ele vai encontrar um ciclope, sereias, todo tipo de monstros e a fúria dos deuses.

The war in Troy ends - no horse in sight - and Odysseus, very much alive, starts his voyage home. It’s true that when you’re coming back the trip seems quicker, but not for our hero: before reaching Ithaca he’ll encounter a cyclop, sirens, all kinds of monsters and the rage of the gods.


Você deve achar que em 1911 o cinema era muito rudimentar, certo? ERRADO! Em “A Odisseia” há efeitos especiais como dupla exposição para revelar a deusa Atena e o gigante de um olho só Polifemo é convincentemente assustador. Agora é um bom momento para contar que o episódio do gigante já havia sido contado antes nas telas, por ninguém menos que nosso velho amigo Méliès em 1905.

You think that in 1911 cinema was very rudimentary, right? WRONG! In “The Odyssey” there are special effects such as double exposure to reveal the goddess Athena and the one-eyed giant Polyphemus is seen as convincingly menacing. Here it’s a good moment to tell that the episode of the giant had been told before on screen, by none other than our old friend Méliès in 1905.


“A Odisseia” foi feita pela Milano Filmes, então uma das mais importantes companhias produtoras italianas. Fundada em 1908, continuou firme até o final da década de 1920. Em 1919, ela surpreendentemente se recusou a se juntar ao conglomerado Unione Cinematografica Italiana.

“The Odyssey” was made by Milano films, then one of the most important Italian film production companies. Founded in 1908, it remained strong until the late 1920s. In 1919, it surprisingly refused to join the conglomerate Unione Cinematografica Italiana.


O filme foi feito para ser exibido na Feira Mundial de Turin, um evento que durou seis meses e recebeu quse 7,5 milhões de visitantes. O evento também celebrava os 50 anos da Unificação Italiana. Uma competição de filmes foi levada a cabo dentro da feira e “A Odisseia” ganhou um prêmio na categoria de filmes educativos.

The film was made to be exhibited in the Turin World Fair, an event that lasted six months and received almost 7,5 million visitors. The event was also celebrating 50 years of the Italian Unification. A film competition was held in the fair and “The Odyssey” won an award in the educational films category.   


Apesar de durar apenas 44 minutos, o filme cobre quase todas as histórias de dentro da Odisseia, com a ausência óbvia do encontro de Odisseu com a feiticeira Circe. A Odisseia é a história de um homem sábio, e sua primeira adaptação completa para a tela só podia ser assim: cheia de sabedoria.

Despite being only 44 minutes long, the movie covers almost all tales inside of the Odyssey, with the obvious absence being the encounter between Odysseus and the witch Circe. The Odyssey is all about a clever man, and its first full adaptation to the screen could only be that: clever.

Sunday, February 11, 2018

Mary Pickford e Mack Sennett: quando os canadenses se encontram

Mary Pickford and Mack Sennett: when Canadians meet

Quando você está em um país estrangeiro, qualquer pessoa que venha do mesmo lugar que você é visto como um aliado. Sempre que brasileiros se encontram no exterior, por exemplo, há sorrisos e risadas e, se eles passam tempo suficiente juntos, tudo acaba em festa. Por isso eu imagino que encontrar outro estrangeiro tentando ganhar a vida nos primeiros tempos da indústria do cinema deve ter sido uma alegria para a jovem Mary Pickford.

When you are in a foreign country, any person who comes from the same place as you is seen as an ally. Whenever Brazilians meet abroad, for instance, there are smiles and laughs and, if they spend enough time together, also a party. That’s why I imagine finding a fellow foreigner trying to earn a living in the early days of film industry must have been a joy for young Mary Pickford.
On the left, Mary and Mack, 1911
A primitiva indústria do cinema estava cheia de estrangeiros. Muitos diretores e, em especial, produtores que alcançaram sucesso em Nova York e em Hollywood não nasceram nos Estados Unidos. Muitas estrelas de cinema também foram importadas – muitas do Canadá, país que nos deu Norma Shearer, Marie Dressler, Walter Huston e muitos outros. Na verdade, a ‘namoradinha da América’ era canadense – e o rei da comédia em Hollywood também.

The early film industry was full of foreigners. Many directors and, in special, producers who made it big in New York studios and in Hollywood were note born in the USA. Several film stars were also imported – notably from Canada, the land that gave us Norma Shearer, Marie Dressler, Walter Huston and many more. To be fair, America’s sweetheart was Canadian – and also Canadian was the King of Comedy in Hollywood.
Mary Pickford, in the middle, in Ramona, 1910
Gladys Louise Smith nasceu em Toronto em 1892. Michael Sinnott nasceu em Québec em 1880. Vinda de uma família pobre, Gladys estreou no teatro ainda criança, e viajou pelos EUA atuando e fazendo disso o sustento de sua família. Ela mudou o nome para Mary Pickford por sugestão de um produtor da Broadway em 1907. Em 1909, ela fez seu primeiro filme no estúdio Biograph, comandado por D.W. Griffith.

Gladys Louise Smith was born in Toronto in 1892. Michael Sinnott was born in Québec in 1880. Coming from a poor family, Gladys started appearing in theater plays as a kid, and touring the US in the pursuit of money. She changed her name to Mary Pickford persuaded by a Broadway producer in 1907. In 1909, she made her first film at the Biograph studio, run by D.W. Griffith.
Michael era filho de um dono de pensão. Ele vivia com conforto, mas se mudou para Connecticut quando tinha 17 anos. Quando vivia em Massachusetts, ele considerou se tornar cantor de ópera, mas fizeram-no desistir da ideia. Já em Nova York, ele começou a trabalhar para o estúdio Biograph, onde ele exercia várias funções – incluindo montagem de cenários, direção e até atuação.

Michael was the son of an innkeeper. He lived comfortably, but moved to Connecticut when he was 17. While living in Massachusetts, he thought about becoming an opera singer, but was talked out of the idea. Once in New York, he started working at Biograph studios, where he had several jobs – including set design, director and even actor.
Naqueles tempos primitivos, não havia papel pequeno demais, e todos iam para frente das câmeras vez ou outra – até o próprio Griffith estreou como ator em um curta de Edwin Porteer. Grandes estrelas eram reconhecidas, mas não creditadas – o público não sabia o nome de seus ídolos – e uma carreira poderia ser construída de forma incrivelmente rápida.

Back in those primitive times, there were no small roles, and everybody stepped in front of the camera sometimes – even Griffth himself debuted as an actor in a short film by Edwin Porter. Big stars were recognized, but not advertised – meaning the public didn’t know their names – and a career could be build incredibly quick.
Henry B. Walthall and Mary Pickford, Wilful Peggy, 1910
O site IMDb pode não ser a fonte mais confiável, mas é a mais completa a que temos acesso. De acordo com o site, Mary Pickford fez 248 filmes. Mack Sennett atuou em 363 filmes. Fazendo a interseção das filmografias – com um programa de computador, veja o resultado abaixo – eu descobri que eles apareceram juntos em 76 filmes entre 1909 e 1911. É um número impressionante, mas plausível quando consideramos que todos estes filmes eram curtas-metragens – a maioria deles de 15 minutos de duração, finalizados muito rapidamente.

IMDb may not be the most reliable source, but it is the most complete we have. According to the site, Mary Pickford appeared in 248 movies. Mack Sennett was an actor in 363. I intersected their filmographies – with a computer program, see below – and found out they appeared in 76 films together between 1909 and 1911. This sounds impressive, but plausible once we think that all of those films were shorts – most of them one-reelers that were shot very quickly.
Se a estimativa de que cerca de 75% de todos os filmes mudos estão perdidos for verdade, poderíamos esperar que 19 das colaborações entre Sennett e Pickford ainda existiriam – e todas estariam em domínio público. Eu fiquei boquiaberta quando encontrei 27 dos 76 filmes disponíveis completos no YouTube – mais os fragmentos de outros dois filmes. Eles podem ser encontrados nesta playlist.

If the estimate that roughly 75% of all silent movies are lost is true, we could expect to find 19 of the Sennett-Pickford collaborations still extant – and all of them would be in public domain. I was speechless when I found 27 of the 76 movies fully available on YouTube – plus the fragments of other two movies. They can be found in this playlist.
Mary and Mack in "An Arcadian Maid", 1910
Muitos dos filmes foram preservados pelo Museu de Cinema EYE na Holanda. Nestes curtas-metragens, é interessante notar que estrelato ainda não era um conceito bem estabelecido no cinema: em um filme, como “O Usurário” (1909), Mack Sennett tinha um papel importante, e em um filme posterior, como “Ramona” (1910), protagonizado por Pickford, ele fazia apenas uma participação como extra. Às vezes Mack também tinha uma jornada dupla ou tripla como roteirista e assistente de direção.

Many of these movies were preserved at the EYE Film Museum in Netherlands. In these short films, it’s interesting to notice that stardom wasn’t something established in the film world yet: in one movie, like “The Usurer” (1909), Mack Sennett could have an important role, and in a later movie, like “Ramona” (1910), starred by Pickford, he had just a bit part. Sometimes Mack also had a double or triple journey as writer and assistant director.
The Sealed Room, 1909
Mary Pickford deixou a Biograph para se juntar ao IMP, estúdio de Carl Laemmle, em 1911. Mack Sennett continou trabalhando na Biograph, com mais e mais liberdade criativa, e em 1912 contracenou com outra grande atriz do cinema mudo, Mabel Normand. Ele e Mabel deixaram a Biograph logo depois, e Mack fundou os estúdios Keystone – onde comediantes como Charles Chaplin, Harold Lloyd, Roscoe ‘Fatty’ arbuckle e Louise Fazenda estrearam no cinema.

Mary Pickford left Biograph for IMP, Carl Laemmle’s studio, in 1911. Mack Sennett continued working at Biograph, with more and more creative freedom, and in 1912 shared the screen with another great silent actress, Mabel Normand. He and Mabel left Biograph soon after, and Mack founded Keystone Pictures Studios – where comedians like Charles Chaplin, Harold Lloyd, Roscoe ‘Fatty’ Arbuckle and Louise Fazenda debuted in films.
O estúdio que primeiro empregou Mary Pickford e Mack Sennett, a Biograph, fechou em 1915, quando os longas-metragens ganharam popularidade. Mack Sennett se tornou produtor independente de comédias em 1917. Mary Pickford trabalhou em muitos estúdios, como Famous Players e First National Pictures, e em 1919 foi uma das fundadoras da United Artists. Pickford e Sennett nunca mais trabalharam juntos de novo – mas receberam suas estrelas na Calçada da Fama no mesmo dia, oito de fevereiro de 1960, alguns meses antes da morte de Mack.

Mary Pickford’s and Mack Sennett’s first studio employer, Biograph, closed in 1915, when feature films became popular. Mack Sennett became an independent slapstick producer in 1917. Mary Pickford worked for many studios, like Famous Players and First National Pictures, and in 1919 was one of the founders of United Artists. Pickford and Sennett never worked together again – but they got their stars on the Hollywood Walk of Fame on the same day, February 8th, 1960, a few months before Mack’s passing.

This is my contribution to the O’Canada blogahon, hosted by Ruth and Kristina at Silver Screenings and Speakeasy.

Wednesday, August 3, 2011

Lucille Ball: a ruiva inesquecível


Em pesquisa feita pela imprensa americana, Lucille Ball foi a celebridade morta mais lembrada e elogiada pelo público. Tal honraria se deve, em grande parte, por ter estrelado a primeira sitcom da história, “I Love Lucy”, e várias séries dela derivadas. Outro bom motivo é o carisma e a irreverência dessa ruiva determinada que começou em musicais e descobriu na comédia seu porto seguro.
Nascida Lucille Desiree Ball em 06/08/1911, pisou o palco pela primeira vez aos 12 anos. Aos 15 matriculou-se em uma escola de interpretação, estudando com Bette Davis. Foi recusada por não ter talento. Tornou-se modelo e teve a breve carreira interrompida por uma crise súbita de artrite reumatoide. Recuperada, voltou a fazer algumas propagandas, pequenos shows e uma curta turnê do espetáculo “Rio Rita” como Ziegfeld Girl.
Foi então que a sorte aparentemente sorriu para ela: foi contratada pela RKO, estúdio em que trabalhou por dez anos. Em um de seus primeiros trabalhos para o cinema,”Roman Scandals”(1933), a morena natural teve os cabelos pintados de louro e as sobrancelhas raspadas. O que se seguiram foram papeis como extra em musicais de Fred e Ginger, um filme dos Três Patetas e outro dos Irmãos Marx. Seu maior papel foi em “Stage Door”(1937), ao lado de Katharine Hepburn e Ginger Rogers. Quando chegou o seu momento de brilhar, restaram-lhe apenas protagonistas de filmes de baixo orçamento, o que lhe garantiu o apelido de “Rainha dos Filmes B”, antes atribuído à Fay Wray (King Kong, 1933).
A ida para a MGM traria pequenas, mas significativas mudanças. Logo em “Du Barry was a Lady”(1943), tingiu o cabelo de ruivo, tornando-o sua marca registrada. Teve a oportunidade de trabalhar com astros como Bob Hope e Gene Kelly. Mas ainda não viam nela potencial para uma grande estrela.

Sua salvação estava no rádio. A exemplo do que fizera em outros momentos da carreira, correu para a rádio CBS. Seu programa “My Favorite Husband” era sucesso de público e de crítica, despertando a atenção de um meio de comunicação recém-nascido, mas já muito esperto: a televisão. A proposta era criar um programa em que Lucille repetisse o papel de dona-de-casa divertida. Ela aceitou, com algumas condições: que seu marido Desi Arnaz fosse seu protagonista e que a série fosse gravada em Hollywood com a tecnologia usada no cinema. Embora relutantes, os executivos da rede CBS aceitaram.
Não poderiam ter feito melhor: tinham nas mãos uma pérola, um show que inventaria todo um método de se fazer televisão. “I Love Lucy” durou seis temporadas (1951-1957) e lançou as hoje tão comuns gravações com plateias e utilizando três câmeras, técnica trazida pelo diretor de fotografia Karl Freund, que já havia trabalhado com Fritz Lang (Metropolis, 1927) e F. W. Murnau (Aurora / Sunrise, 1927).


Lucy Ricardo era uma dona-de-casa comum que virava e mexia sonhava com o estrelato e tentava alcançá-lo. Depois de várias confusões, cabia a seu marido músico Rick trazê-la de volta ao conforto do lar, ao qual ela realmente pertencia e do qual nunca devia ter saído. Essa é a moral de “I Love Lucy”. Misógina, sim, mas ao mesmo tempo um modo de não alimentar as esperanças das moças americanas. Na década de 1930 era o star-system que tornava as estrelas intocáveis e acima das pessoas comuns, na década de 1950 era Lucy que mostrava e aprendia que o sonho hollywoodiano não era alternativa para qualquer uma.
Mas o sonho era real para Lucille: naquela década teve seus dois filhos (com mais de 40 anos!) após sofrer três abortos, lucros astronômicos com a série, viu o sucesso de sua produtora Desilu, ganhou quatro prêmios Emmy. Alguns percalços surgiram também, como a investigação junto ao comitê anticomunista que descobrira seu envolvimento, incentivada pelo avô, com o Partido Comunista. Ao contrário de outros casos, o depoimento da agora grande estrela correu sigiloso e em nada resultou.
Depois do fim da sitcom no auge, seu formato foi modificado para que os episódios tivessem uma hora de duração. “The Lucy-Desi Comedy Hour” sobreviveu por mais três anos, acabando junto com o casamento de vinte anos dos atores. Ela faria mais três investidas: “The Lucy Show” (1962-1968), “Here’s Lucy” (1968-1974) e “Life with Lucy” (1986). Todas com atrapalhadas protagonistas de mesmo nome e sobrenome com as letras AR juntas (Ricardo, Barker, Carmichael e Carter), por superstição. Trabalharia ainda na Broadway e em alguns filmes de razoável sucesso, falecendo em 1989.
Carismática e empreendedora, a rainha das segundas-feiras na CBS continua parecendo a mulher comum, ou “the girl next door”. Lucille hesitou antes de aceitar a ideia de “I Love Lucy”. Querendo dar mais estabilidade ao casamento, aceitou-a. Mas disse em uma entrevista que o motivo de ter topado foi que Carole Lombard apareceu em seu sonho e disse para ela dar uma chance ao programa. Verdade ou mentira, mais uma vez Lucy mostrou-se insuperável na sagacidade.   

Friday, July 15, 2011

Centenário de Ginger Rogers

Em 16 de julho de 1911 nascia aquela que se tornaria uma das grandes lendas dançantes da história do cinema: Virginia Katherine McMath. Filha única de pais separados, ela foi raptada duas vezes pelo pai durante brigas com relação à custódia da menina e viveu a maior parte de sua infância com os avós maternos. Seu nome artístico lhe foi dado por uma priminha que, por não conseguir pronunciar seu nome, acabou inventando aquele com o qual ficaria conhecida mundialmente. Seu sobrenome veio do segundo marido da sua mãe, por quem ela nutria grande afeto, embora ele nunca fizesse qualquer esforço para adotá-la.
Quando adolescente, pensou por vezes em tornar-se professora, mas a paixão pelo teatro venceu.  Aos 14 anos ganhou um concurso de Charleston (a dança da moda dos anos 1920) e a partir daí participou de uma série de shows de vaudeville.  Aos 17 anos casou-se pela primeira vez, separando-se poucos meses depois do enlace. Seriam mais quatro casamentos, todos sem filhos, todos terminados em divórcio.

Na Broadway, alcançou sucesso com diversas peças, em especial “Girl Crazy”, nos ensaios da qual conheceu Fred Astaire. Estreou no cinema em 1929, como parte de curtas filmados em Nova York sobre o mundo do espetáculo, compostos por pequenos esquetes. Depois de vários papéis cantantes em filmes menores, Ginger conquista o público em Rua 42/42nd Street, Cavadoras de Ouro / Golddiggers of 1933. Neste mesmo ano dança pela primeira vez ao lado de Fred Astaire em Voando para o Rio / Flying Down to Rio, vigésimo filme dela e terceiro dele, além da única produção da dupla em que Ginger teve cachê maior. Apesar de não serem os protagonistas, o sucesso do casal foi tamanho que seguiram-se outras nove produções, responsáveis, junto com King Kong (1933), por salvar a RKO da falência.

Elas não salvaram, entretanto, Ginger do estereótipo de dançarina difícil de conquistar. É quase impossível separar sua imagem da de Fred. Os boatos de que não se davam bem não impedia a explosão da química que os dois tinham quando dançavam juntos.
Depois de 6 anos, 9 filmes e o fracasso de A História de Vernon e Irene Castle (1939), Ginger ficou um tempo longe dos musicais. Dedicou-se principalmente às comédias, mas foi com o drama Kitty Foile (1941) que ela ganhou seu único Oscar, em um papel recusado por Katharine Hepburn. Derrotou, na ocasião, as indicadas Bette Davis, Joan Fontaine,Martha Scott e, ironicamente, a própria Hepburn. Continuou atuando em diversas produções, encerrando a carreira cinematográfica com Harlow (1965), interpretando a mãe da estrela Jean Harlow. Ginger recebeu boas críticas, apesar do fracasso da produção.   

Fim da carreira nas telas, de volta aos palcos. No quarto convite, resolveu finalmente aceitar o papel principal em Hello Dolly! Foi um sucesso. Dedicou-se também à pintura, à escultura e lançou sua linha de lingeries. Voltou à estrada com The Ginger Rogers Show. Aos 74 anos, tornou-se também diretora no teatro, com a peça Babes in Arms. Recebeu diversos prêmios pela carreira e escreveu uma autobiografia, Ginger, My Story. Faleceu em 1983, aos 95 anos. Em 1999 ficou na posição de número 14 das 25 maiores lendas do cinema segundo o AFI (American Film Institute). Em 2010 estreou nos palcos ianques um musical baseado em sua vida e carreira. 

Dançarina talentosa, comediante, filha amorosa e mulher decidida, Ginger Rogers é uma das grandes lendas do cinema, não só pelos musicais com Fred Astaire, mas também por seu incrível legado de independência e luta incansável por seu lugar no mundo do espetáculo.
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