} Crítica Retrô: 1983

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Friday, April 13, 2018

O Chaplin que Ninguém Viu (1983) / Unknown Chaplin (1983)

Às vezes somos enganados por nossas inferências, e quando vemos dados reais, temos uma surpresa. Deixe-me explicar. Vivien Leigh foi uma atriz esplêndida, uma das melhores de todos os tempos, não? Então nós somos levados a pensar que seu conjunto da obra foi grande e memorável, mas na realidade ela fez apenas 18 filmes. Obviamente, foram quase todos filmes de alta qualidade, mas 18 é um número muito pequeno. Nós poderíamos fazer um festival, durando uma semana, com todos os filmes dela! 

Sometimes we are misguided by our inferences, and when we see real data, we get surprised. Let me explain. Vivien Leigh was a wonderful actress, one of the best ever, right? So we think her body of work was extensive and remarkable, but in reality she only made 18 films. Of course, these are films from the highest quality, but 18 is a surprisingly short number anyway. We could fit her whole filmography into an one-week film festival!
O mesmo não pode ser feito com outras estrelas de cinema. Falemos de Charles Chaplin agora. De acordo com o IMDb, ele fez 87 filmes – sendo ‘ele mesmo’ em apenas um deles – e dirigiu 71 destes filmes. Bastante, não? Mas você acreditaria se eu dissesse que ainda há filmes de Chaplin esperando para serem redescobertos? Ou, pelo menos, havia filmes esperando para serem redescobertos quando Chaplin faleceu, no dia de Natal de 1977. E o documentário “O Chaplin que Ninguém Viu” foi o responsável por finalmente levar estes filmes à luz em 1983.

The same can’t be done with other film stars. Take Charles Chaplin now. According to IMDb, he appeared in 87 films - only one being a cameo - and directed 71 of these films. Quite a lot, right? But would you believe if I told you that there are still Chaplin movies waiting to be discovered? Or at least, there were films waiting to be discovered when he died, on Christmas Day, 1977. And the documentary “Unknown Chaplin” was responsible for finally shining a light on these works in 1983.
Narrado pelo inconfundível James Mason, o documentário é dividido em três episódios, e eles foram originalmente exibidos na Inglaterra em janeiro de 1983. Somados, os episódios perfazem 153 minutos, mais de duas horas e meia, de material quase 100% inédito. Estes fragmentos seriam como “cadernos de esboços de um grande artista”, como define Mason. Então, vamos ver que tesouros o documentário nos traz.

Narrated by the unmistakable James Mason, the documentary has three episodes, and they were originally broadcast in England in January 1983. They make up 153 minutes, more than two and a half hours, of almost 100% unseen Chaplin material. These little bits of film would be like “sketchbooks from a great artist”, as Mason says. So, let’s see the treasures this documentary had for us.

Part 1 - My Happiest Years


Nesta primeira parte, vemos filmagens de teste dos filmes de Chaplin na Mutual Company, feitos entre 1916 e 1917. Chaplin fez 12 curtas-metragens em 16 meses e mais tarde chamou este período na Mutual de “seus anos mais felizes”.

In this first part, we see rushes of Chaplin’s films by Mutual Company, made between 1916 and 1917. Chaplin did 12 two-reelers in 16 months, and later recalled his time at Mutual as “his happiest years”.
Aos ver estes testes descobrimos que Chaplin improvisava com frequência, ensaiava com as câmeras rodando e ajustava o ritmo com cada tomada – e às vezes ele demorava centenas de tomadas para conseguir a velocidade e o ritmo perfeitos. E, ao contrário de Mack Sennett, ele sempre queria ter uma explicação lógica para o pandemônio na tela.

By watching the rushes we find out that Chaplin improvised a lot, rehearsed while the cameras were rolling and adjusted the pace with each take – and sometimes he took hundreds of takes to find out just the perfect timing. In this phase Chaplin relies a lot on props to make the public laugh. And, unlike Mack Sennett, he always wanted to have a logical explanation for his pandemonium.
Algumas cenas foram descartadas, a exemplo de uma muito perigosa, envolvendo um machado e uma tomada reversa em “Carlitos no Estúdio” (1916), e também a primeira e última cena em que o personagem Carlitos usa óculos.

Some scenes were discarded, like a very dangerous one involving an axe and a reverse shot in “Behind the Screen” (1916), and also the first and only time the Tramp character wore glasses.
Nós também ficamos por dentro do incrível processo criativo por trás de “O Imigrante” (1917), provavelmente o melhor curta-metragem de Chaplin. Foi um filme criado conforme era filmado, com mudanças constantes na história e truques de câmera sagazes.

We also get to know the amazing creative process behind “The Immigrant” (1917), probably Chaplin’s best short film. It was a movie created in the moment, with constant changes in the plot and wise camera tricks.
Desde esta primeira fase, vemos que Chaplin preferia trabalhar com pessoas que não tinham experiência com atuação, o que tornava suas performances mais espontâneas e verdadeiras.

Since this first phase, we can see Chaplin’s preference to work with people who didn’t have an acting background, something that made their performances seem more spontaneous and natural.

Part 2 - The Great Director


Como o narrador menciona, seus filmes da Mutual tinham de contar suas próprias histórias, pois não havia colaboradores sobreviventes do período para contá-las. Da fase seguinte, que começa com um contrato de distribuição assinado com a First National em 1918, entretanto, ainda havia testemunhas oculares vivas em 1983. Nós vemos entrevistas com amigos, assistentes e, claro, com as estrelas Jackie Coogan, Lita Grey e Georgia Hale.

As the narrator mentions, his Mutual films and rushes had to tell their own backstage stories, since there were no surviving collaborators from this phase. From the following phase, starting with a First National distribution contract signed in 1918, however, there were living eyewitnesses in 1983. We see interviews with friends, assistants and, of course, with the stars Jackie Coogan, Lita Grey and Georgia Hale.
Jackie Coogan
E tem mais: um registro fascinante de um cinegrafista amador no set de “Luzes da Cidade” (1931) mostra Chaplin tentando descobrir como a vendedora de flores cega, interpretada por Virginia Cherrill, poderia confundir seu personagem Carlitos com um milionário.

And there is more: a fascinating amateur movie from the set of “City Lights” (1931) shows Chaplin trying to figure out how the blind flower girl played by Virginia Cherrill would mistake his Tramp character for a millionaire.
Esta segunda parte foca nos maiores sucessos de Chaplin: “O Garoto” (1921), “Em Busca do Ouro” (1925) e “Luzes da Cidade”. Nós também temos a oportunidade única de ver o final de “Luzes da Cidade” gravado com Georgia Hale no papel principal, e a sensação é de que estamos verdadeiramente vendo um tesouro da história sétima arte. Eu considero a performance de Virginia superior, mas ver o que poderia ter sido não tem preço.

This second part focuses on Chaplin’s biggest successes: “The Kid” (1921), “The Gold Rush” (1925) and “City Lights”. We also have the unique chance to see the ending of “City Lights” shot with Georgia Hale in the girl’s role, and we feel like we truly are in front of a treasure from film history. I think Virginia’s performance is the best, but seeing what could have been is priceless.

Part 3 - Hidden Treasures 


Tudo vai bem por enquanto, mas chegou a hora do verdadeiro espetáculo. O que mais se pode esperar de um episódio que começa com um filme caseiro de Douglas Fairbanks de 1929 no qual Chaplin originou a ideia para o balé com o globo terrestre que ele faria 11 anos depois em “O Grande Ditador”?

Things were nice so far, but they were about to become amazing. What else can we expect from an episode that starts with a 1929 Douglas Fairbanks home movie in which Chaplin originated the idea for the globe ballet he would do 11 years later in “The Great Dictator”?
Em meio aos filmes caseiros feitos por diversão sempre que um visitante ilustre ia até o set, encontramos um chamado “How to Make Movies”, feito em 1918, quando Chaplin se mudou para Hollywood, construiu seu próprio estúdio e se tornou um diretor independente. As cenas deliciosas e muito elaboradas mostram Chaplin ganhando seu estúdio de um gênio da lâmpada, e os verdadeiros funcionários do estúdio interpretam suas funções para a câmera – com um toque de humor.

Among home movies, little films made for fun whenever illustrious visitors came to the set and other rarities, we find a film called “How to Make Movies”, made for fun in 1918, when Chaplin moved to Hollywood, built his own studio and became an independent director. The delightful and elaborate scenes we see show Chaplin earning his studio from a Genie in the Lamp, and the real studio employees are playing their functions to the camera – with a humorous twist.
Com Chaplin, as gags poderiam ser descartadas, mas nunca abandonadas. Elas seriam usadas novamente anos depois, modificadas e melhoras. Você se lembra da sequência das pulgas circenses em “Luzes da Ribalta” (1952)? Bem, isso já havia sido tentado antes, em uma sequência mostrada pela primeira vez no documentário, mais de 60 anos depois de ter sido filmada. A pequena sequência de “The Professor”, que nunca foi finalizado, pode ser agora algo que os maiores fãs de Chaplin já conhecem, mas em “O Chaplin Que Ninguém Viu” as cenas eram inéditas – uma descoberta.

With Chaplin, the gags could be discarded, but never abandoned. They would be used again years later, modified and improved. Do you remember the flea circus sequence from “Limelight” (1952)? Well, it had been tried before, in a segment that was shown for the first time in the documentary, more than 60 years after it was shot. The little sequence from the unreleased “The Professor” may now be a familiar one for die-hard Chaplin fans, but in “Unknown Chaplin” it was something brand new – a discovery.

“O Chaplin que Ninguém Viu” é uma delícia para qualquer fã de Chaplin – que, aliás, tinha a claquete marcada com “Chas Chaplin” na época da Mutual. Aqueles que já viram mais filmes de sua obra serão os que tirarão mais proveito do documentário e, como eu, podem inclusive mudar de opinião sobre uma ou outra coisa ao desligar a TV.

“Unknown Chaplin” is a delight for any Chaplin fan – who, by the way, had his clapperboards marked with “Chas Chaplin” in his Mutual years. The ones who have already watched many Chaplin films will be the ones who will enjoy the documentary the most, and, like me, they may even have some opinions changed when they turn off the TV.

This is my contribution to the Charlie Chaplin blogathon, hosted by Little Bits of Classics and Christina Wehner.


 “All images from Chaplin films made from 1918 onwards, Copyright © Roy Export S.A.S. Charles Chaplin and the Little Tramp are trademarks and/or service marks of Bubbles Inc. S.A. and/or Roy Export”

Friday, July 6, 2012

De repente, num domingo / Vivement dimanche! (1983)

Se houve um diretor que coletou mais influências ao longo de sua vida e carreira também como espectador, este foi sem dúvida François Truffaut. Como se esquecer de seu alter-ego, o diretor Ferrand de “A Noite Americana / La Nuit Américaine” (1973), que coloca diversos livros sobre as obras de diretores que admirava sobre uma mesa, a fim de lê-las para obter inspiração?

The director who collected most influences througout his life is career, especially as a moviegoer, was without a doubt François Truffaut. How can we forget his alter ego, director Ferrand in “Day for Night / La Nuit Américaine” (1973), who put over a table several books about the works of directors he admired, wanting to read them and be inspired?
Um dos que mais o influenciou foi Alfred Hitchcock, que acabou dando uma série de entrevistas a Truffaut que mais tade se transformariam em um livro. Por isso não é de se espantar que o realizador francês tenha feito várias referências e homenagens à obra de Hitchcock em seus próprios filmes. Prova disso são os thrillers “Atire no pianista!” (1960) e “A noiva estava de preto” (1968). Seu último filme também não deixa de ser incrivelmente hitchcockiano. Em cada país “Vivement dimanche!” ficou conhecido por um nome: aqui no Brasil é “De repente, num domingo”, o que não é muito correto, enquanto nos países de língua inglesa é “Confidentially Yours”, denunciando um subtexto romântico. A melhor tradução do francês, no entanto, seria “finalmente domingo!”. 

One of the directors that influenced him the most was Alfred Hitchcock, who even agreed to give a series of interviews to Truffaut, that were later published in a book. That's why it's no surprise that the French filmmaker has referenced and paid tributes to Hitchcock's work in his own films. As examples we have the thrillers “Shoot the Piano Player!” (1960) and “The Bride Wore Black” (1968). His last film was also incredibly Hitchcockian. In each country “Vivement Dimanche!” had a different title: in Brazil it is “Suddenyl, on Sunday”, which is a so-so translation, while in English-speaking countries it is “Confidentially Yours”, which gives away the romantic subplot. The best translation from French, however, would be “Finally Sunday!”.
A trama gira em torno de Julien Vercel (Jean-Louis Trintignant), um corretor de imóveis acusado de uma série de assassinatos. A protagonista é, no entanto, Barbara (Fanny Ardant), a secretária de Julien que passa a investigar os crimes. Todos se relacionam com a mulher dele, Marie-Christine, cujo comportamento promíscuo era desconhecido pelo marido.

This is the story of Julien Vercel (Jean-Louis Trintignant), a house dealer accused of a series of murders. The leading lady is Barbara (Fanny Ardant), Julien's secretary and the woman who decides to investigate the crimes. All of the murders are related to his wife, Marie-Christine, whose promiscuous behaviour was unknown to her husband.
O filme tem todo um clima de filme noir, principalmente por ser em preto-e-branco, mas também pelo mistério, os locais insólitos de investigação e os ambientes fumacentos a serem explorados no meio da noite. A década de 1940 é evocada, mesmo sendo esta a época dos filmes considerados menos famosos dentro da obra de Hitch. Truffaut não faz nenhuma referência explícita aos filmes de Hitch, mas há algo de voyeurismo na pequena janela do escritório em que Barbara e Julien podem ver os pés das pessoas que passam na rua. A única referência ao cinema americano é a sessão no cinema de “Glória feita de sangue” (1957), dirigido por outro ídolo de Truffaut, Stanley Kubrick.


The movie has a film noir feeling, especially because it is shot in blakc and white, but also because it has mystery, odd places for investigation and smoky places to be explored in the middle of the night. The 1940 atmosphere is present, even though Hitchcock's most famous movies weren't made in this decade. Truffaut doesn't make any explicit reference to Hitchcock's films, but there is something voyeuristic in Barbara's and Julien's behaviour when they peek through an office window and see the feet of people walking down the street. The only refenrece to American cinema is the cinema exhibiting “Paths of Glory” (1957), directed by other of Truffaut's idols, Stanley Kubrick.
Outro ponto de convergência é a ideia de um homem ser acusado injustamente. Aqui não sabemos se ele é ou não culpado, como acontece nos filmes de Hitchcock em que o protagonista é claramente inocente, como “Intriga Internacional” (1959). E mais uma conexão é a parte cômica em que Barbara sai de um ensaio da peça “O corcunda de Notre Dame” e vai investigar o caso vestida com o figurino da produção. Hitchcock sempre usava doses de humor em seus filmes.

Another convergence point is the theme od a man wrongly accused. Here we don't know if he is guilty or innocent, something that does'nt happens in Hitchcock movies in which the leading man is obviously innocent, like “North by Northwest” (1959). Another connection is the comic moment when Barbara leaves the rehearsal of the play “The Hunchbak of Notre Dame” directly to investigate a case, still wearing her outfit for the play. Hitchcock always used little doses of humor in his films.
Algo interessante é que Truffaut, ao contrário de Hitchcock, geralmente tem mulheres no papel principal de seus filmes de suspense. Para Hitch, quem investiga o caso é James Stewart, Cary Grant, Henry Fonda ou outro no mesmo estilo bom moço. Para Truffaut, é uma de suas musas, como Jeanne Moreau ou a própria Fanny, com quem ele teve uma filha. Mas isso não quer dizer que o mestre do suspense não tenha tido suas “musas”: vale citar Grace Kelly, Tippi Hedren (um caso controverso, é verdade) e Ingrid Bergman, por quem Hitch teria se apaixonado sem ser correspondido. 


Something interesting is that Truffaut, unlike Hitchcock, usually has women in the leading role in his thrillers. For Hitch, the one who will investigate the case is James Stewart, Cary Grant, Henry Fond or another with the good guy persona. For Truffaut, it is one of his muses, like Jeanne Moreau or Fanny herself, with whom Truffaut had a daughter. But this doesn't mean that the Master of Suspense didn't have his muses: we can mention Grace Kelly, Tippi Hedren (a controversial example, to be fair) and Ingrid Bergman, whom Hitchcock might have fallen in love with, without being corresponded.
Sem dúvida a cena que mais lembra a obra de Hitch é o breve momento em que Barbara está dirigindo. Seu rosto é focalizado, nenhuma palavra é pronunciada e ela teme estar sendo seguida. Acrescente uma trilha sonora de suspense e voilà: imitamos a fuga de carro de Marion Crane (Janet Leigh) em “Psicose”!

There is no doubt about the scene that reminds Hitchcock's work the most: the brief moment in which Barbara is driving. Her face is in a close-up, no word is uttered and she fears being followed. Add a suspenseful score and voilà: we imitate Marion Crane's (Janet Leigh) car escape in “Psycho”!
Como a maioria dos cineastas, Truffaut não sabia que este seria seu último filme. Ele tinha o plano de dirigir 30 produções e então se aposentar para escrever livros. Mas ele adoeceu e faleceu precocemente em 1984, aos 52 anos, vítima de um tumor cerebral. Ele dirigiu 28, entre curtas e longas-metragens. Mais divertido do que sombrio em seu final, “De repente, num domingo” nos deixa com a certeza de que Truffaut foi um romântico e um intelectual. Afinal, não somos todos?

Like most filmmakers, Truffaut didn't know that this would be his last film. He had planned to direct 30 films and then retire and write books. But he got sick and died young in 1984, at age 52, because of a brain tumor. He directed 28, between short and feature films. More fun than dark in the final minutes, “Confidentially Yours” gives us the certainty that Truffaut was a romantic and an intellectual. But aren't we all?

This post is my entry for "The Best Hitchcock Films Hitchcock Never Made" blogathon, hosted by  Tales of the Easily Distracted and ClassicBecky's Brain Food.

Tuesday, January 24, 2012

Sylvia Scarlett e Yentl: meio século de mulheres travestidas

Um grande estratagema cômico, em qualquer época, é a troca de papéis e de figurino entre homens e mulheres. Desde o cinema mudo, temos exemplos de pequenas comédias com personagens, normalmente masculinas, travestidas. De fato o homem se vestir de mulher causa muitas risadas. Prova disso são os divertidos “Quanto mais quente melhor / Some like it hot” (1959) e “Tootsie” (1982).
Mas uma inversão na história causa imenso desconforto. A mulher desempenhando papel masculino incomodava a sociedade que viveu a época de ouro do cinema. Quem não se lembra de Marlene Dietrich, escandalosamente vestindo um smoking e beijando uma mulher em “Marrocos / Morocco” (1931)? Ao mesmo tempo em que chocava, a mulher travestida gerava uma série de situações interessantes a serem exploradas. O visual naturalmente andrógino de algumas atrizes também ajudava na construção de filmes com esse tipo de trama, dando origem a produções notáveis.
Em 1935, o diretor George Cukor reuniu pela primeira vez a dupla Katharine Hepburn e Cary Grant, no simpático filme “Vivendo em dúvida / Sylvia Scarlett”. Katharine é Sylvia, uma garota que, após a morte da mãe, decide se unir ao pai (Edmund Gwenn) para aplicar pequenos golpes. Para isso, ela corta os longos cabelos e se veste de homem, adotando o nome de Sylvester. Durante uma viagem de navio, eles conhecem a personagem de Grant, que também se junta à dupla.
O filme é fotografado em preto-e-branco, mas fica difícil imaginar se os olhos claros e o cabelo ruivo de Hepburn não denunciariam que ela é uma mulher. Outro aspecto que incomoda é a maneira como todos reagem ao descobrir que Sylvester é Sylvia: com risadas, como se não se importassem em terem sido enganados. Neste filme, a construção de screwball comedy ainda é falha, pois partes cômicas se intercalam com momentos dramáticos. Em todo caso, o filme vale pela primeira parceria de Kate e Cary, que mais tarde fariam outros trabalhos fantásticos, e pelas boas surpresas que encontramos no caminho, afinal, não se trata de um desenrolar previsível.
Passados quase cinquenta anos, surgiu outro filme com uma grande estrela vestida de homem: “Yentl” (1983).  Barbra Streisand é uma moça judia vivendo no século XIX que, após perder o pai, decide frequentar uma universidade. O problema é que isso era um privilégio dos homens. Então, Yentl se veste de homem e se vê em um universo 100% masculino, onde conhece seu melhor amigo e confidente, Avigdor (Mandy Patinkin) e, ainda por cima, fica noiva de Hadass (Amy Irving), uma garota rica!
Além de cantar, Barbra também dirige este filme. A história surgiu em um conto e foi para a Broadway em 1975. Apesar de todo o trio principal ter experiência cantando, apenas Streisand solta a voz em uma série de canções memoráveis, embora bastante semelhantes (os compositores disseram que as músicas refletem o Talmude, livro sagrado dos judeus, em que uma lição recapitula as anteriores). De qualquer forma, Barbra convence como um garoto de cabelos loiros e curtos, sempre de boina e óculos. E neste filme, ao contrário do anterior, a revelação do gênero de Yentl é recebida com surpresa e raiva.   
As conquistas das mulheres em diversos campos durante o último século causaram uma reviravolta na sociedade. Mesmo assim, são muitas as situações criativas em que se podem colocar mulheres travestidas sem perder a classe e sem cair no ridículo. Com um pouco de inteligência e bom gosto, podem ser feitos bons filmes explorando este tema, mesmo que o tempo aja para dar a cada um a marca característica de sua época.
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