} Crítica Retrô: 1916

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Friday, January 27, 2023

Verdens Undergang (1916) / The End of the World (1916)

 

Vamos começar pelo fim do mundo. Nós, como um grupo de humanos, sempre abominamos o fim. Também pensamos muito em situações que significariam o fim para grandes grupos de pessoas ao mesmo tempo, seja ou não no mesmo lugar. Obras de ficção sobre o fim do mundo são muito numerosas para uma só lista, mesmo se considerarmos apenas o cinema como veículo para essas obras.  Desde a aurora do cinema, o comecinho da sétima arte, o fim do mundo foi filmado – como nos dois filmes sobre Pompéia que estrearam em 1913. Estamos agora três anos no futuro, e não na Itália, mas na Dinamarca, para analisar outro filme sobre o “fim do mundo” – que, aliás, foi o título que o filme recebeu nos EUA.


Let’s start with the end of the world. We, as a group of humans, always dreaded the end. We also have put a lot of thought into situations that would mean the end for large groups of people at the same time, whether it was or wasn’t at the same place. Fictional works about the end of the world are too numerous to list, even in the film realm. Since the dawn of cinema, the very beginning of the seventh art, the end of the world was there being filmed - like in the two films about Pompeii released in 1913. We go three years in the future, and not in Italy, but in Denmark, to analyze another movie about the end of the world - by the way, this was the title it received in the US.


Tudo começa como um dia normal numa cidade mineradora. O gerente da mina, West (Carl Lauritzen), tem duas filhas, Dina (Ebba Thomsen) e Edith (Johanne Fritz-Petersen), que gostam de se divertir tanto quanto qualquer moça. Numa festa dançante local, Dina conhece Frank Stoll (Olaf Fønss), o dono da mina local, que promete a ela riquezas e belezas numa vida na capital. Curiosa, Dina foge para se casar com ele.


Everything starts as a normal day in a mining town. The mine manager West (Carl Lauritzen) has two daughters, Dina (Ebba Thomsen) and Edith (Johanne Fritz-Petersen), who like to have fun as any normal young women do. At a local dancing party, Dina meets Frank Stoll (Olaf Fønss), the owner of the local mine, who showers her with promises of a beautiful life in the capital. Tempted, Dina agrees to elope.

Corta para alguns anos no future. Stoll é bem-sucedido e fiel a Dina, embora ela pareça um pouco entediada com a vida de casada. O primo de Stoll, Professor Paul Wisemann (K. Zimmerman), um cientista, descobre um novo cometa que vai entrar na atmosfera da Terra. As notícias sobre o cometa causam frisson na bolsa de valores, onde Stoll trabalha, e Stoll decide que os negócios exigem uma viagem de volta à cidade mineradora onde ele e Diana se conheceram, onde um velho pretendente dela ainda está com raiva de Stoll por ter “roubado sua garota”.


Cut to a few years later. Stoll is successful and faithful to Dina, although she seems a bit bored with married life. Stoll’s cousin, Professor Paul Wisemann (K. Zimmerman), scientist, discovers a new comet that is supposed to enter Earth’s atmosphere. The news about the comet cause mayhem in the stock market, where Stoll works, and Stoll decides that business demands him back at the mining town where he and Dina met, where a former sweetheart of hers is still bitter about Stoll “stealing his girl”.

Provocante, Stoll dá uma festa para celebrar a passagem do cometa e o “novo mundo” que virá com ele. Do lado de fora, trabalhadores decidem agir como Robin Hood em sua última noite na Terra – roubando dos ricos para dar aos pobres. Stoll também fez um bunker para ele e Dina na mina. E então o cometa passa. A ambição de Stoll dará frutos?


Provocative, Stoll throws a party to celebrate the passage of the comet and the “new world” that will come with it. Outside, workers decide to act like Robin Hood on their last night on Earth - stealing the rich to give the poor. Stoll has also made a bunker for him and Dina in the mine. And then the comet comes. Will Stoll’s greed pay off?

Incêndios, eliminação de gases tóxicos, nível dos oceanos aumentando: consequência do cometa em “Verdens Undergang), mas também consequências do atual aquecimento global. Parece que o fim do mundo é mais pacífico quando ele acontece aos poucos e não de uma vez, e pessoas não se abalam a não ser quando a tragédia acontece de repente. Somos tão falhos em relação a isso que precisamos de uma adolescente como Greta Thunberg para nos alertar e lutar por nós, porque decidimos nos sentar e ver o mundo queimando lentamente em vez de agir pensando a longo prazo.


Fires, elimination of toxic gas, ocean levels on the rise: consequences of the comet in “The End of the World”, but also consequences of the ongoing global warming. It looks like the end of the world is more peaceful when it happens slowly and not all at once, and people aren’t alarmed unless the tragedy strikes suddenly and at once. We are so messed up that we need a teenager like Greta Thunberg to alarm us and fight for us, because we decided to sit down and see the world burning slowly instead of acting thinking on the long run.

Os cientistas decidem manter em segredo a notícia sobre o perigo do cometa, para não alarmar o público, mas o Professor Wisemann conta tudo para seu primo Stoll, e Stoll conta para o diretor do jornal Times. A ideia de Stoll é acalmar as pessoas para que as cotações da bolsa de valores voltem ao normal e ele enriqueça. Cientistas debatendo se uma descoberta é perigosa demais para ser publicada não é nada novo nem uma coisa do passado, pois vimos algo parecido com os primeiros alertas sobre a pandemia de Covid-19. É um debate que ainda não foi decidido, e sempre deve ser levantado por todas as partes interessadas – em geral, isso inclui todo mundo.


The scientists decide to keep the news of the comet’s danger secret, to not alarm the public, but Professor Wisemann tells his cousin Stoll, and Stoll tells the editor of the Times newspaper. Stoll’s idea is to calm people down so the stock market gets back to normal and he becomes richer. Scientists debating if a discovery is too dangerous to be made public is nothing new nor a past thing, as we saw something like this with the first warnings about the Covid-19 pandemic. It’s a debate not yet settled, and always in need to be discussed by all interested parties - which usually includes everyone.

Para um filme que tem apenas 77 minutos de duração, “Verdens Undergang” toma um bom tempo para introduzir os personagens e construir a trama antes do aparecimento do cometa. O filme também usa sombras e truques de luz de maneira excelente nas cenas dentro da mina / bunker. Os efeitos especiais são também muito bons, e eu adoraria saber se as cenas de Edith andando por uma cidade destruída foram gravadas em estúdio ou em alguma locação próxima.


For a movie that is only 77 minutes long, “The End of the World” takes a fine time to introduce the characters and build the plot before the comet appears. The movie also uses shadows and lighting in a great way in the scenes inside the mine / bunker. The special effects are very good as well, and I’d love to know if the scenes of Edith walking around a destroyed town were shot in studio or in a nearby location.

O diretor August Blom, de acordo com o IMDb, é mais conhecido por este filme, mas em 15 anos – de 1910 a 1925 – ele dirigiu 111 títulos, o que faz dele o mais prolífico diretor de cinema dinamarquês. Nascido em 1869, Blom iniciou sua carreira como ator no teatro e também no cinema. Outro de seus êxitos foi “Atlantis” (1913), um sucesso de bilheteria que também foi o primeiro filme de vários rolos da Dinamarca. Um ano após fazer “Verdens Undergang”, Blom se casou com uma das atrizes principais, Johanne Fritz-Petersen, com quem ficou até o final da vida. Depois de se aposentar como diretor, Blom foi gerente de um cinema de 1934 até 1947, quando faleceu.


Director August Blom, according to IMDb, is better known by this picture, but in 15 years - from 1910 to 1925 - he directed 111 titles, which makes him the most prolific Danish film director ever. Born in 1869, Blom started his career as an actor in theater and on film. Another of his successes was “Atlantis” (1913), a box-office hit that was also the first multi-reel feature from Denmark. One year after making “The End of the World”, Blom married one of the main actresses, Johanne Fritz-Petersen, with whom he stayed until the end of his life. After retiring from directing, Blom managed a movie theater from 1934 to 1947, when he died.

Devo confessar que não faço ideia de como “Verdens Undergang” foi parar na minha lista de filmes para ver, mas fico feliz que isso tenha acontecido. Eu entendo que um filme sobre o fim do mundo seria muito popular durante a Primeira Guerra Mundial – e apenas seis anos após a passagem do Cometa Halley – mas não podia imaginar que ele seria tão atual para nossos tempos de aquecimento global. Esta é a mágica dos filmes: eles conversam conosco, não importa quando tenham sido feitos.


I must confess I have no idea how “The End of the World” ended up on my watchlist, but I’m glad it happened. I understand that a film about the end of the world would be very popular during World War I – and only six years after the passage of the Halley’s comet – but I couldn’t imagine it could be so modern for our times of global warming. That’s the magic of movies: they speak to us, no matter how old they are.

Sunday, January 27, 2019

Contos de Hoffmann (1916) / Tales of Hoffmann (1916) / Hoffmanns Erzählungen (1916)


ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS

THIS ARTICLE HAS SPOILERS

De acordo com o dicionário Oxford, o termo robô foi originado nos anos 1920, em uma peça tcheca chamada “R.U.R Rossum’s Universal Robots”, vindo da palavra tcheca robota, que significa trabalho forçado. O filme “Hoffmanns Erzählungen”, ou “Contos de Hoffmann”, foi feito antes de 1920, mas tem um robô - ou melhor, um autômato. Robô e autômato são sinônimos até hoje.

According to the Oxford Dictionary, the term robot was originated in the 1920s, coming from a Czech play called “R.U.R Rossum’s Universal Robots”, and came from the Czech word robota, meaning forced labor. The film “Hoffmanns Erzählungen”, or “Tales of Hoffmann” was made before 1920, but it has a robot - or better, an automaton. Robot and automaton are used as synonyms until now.


No Prelúdio, conhecemos o jovem E.T.A Hoffmann (Kurt Wolowsky), que mora com o tio e o enfurece com seu hábito de desenhar caricaturas. Perto da casa de Hoffmann podemos encontrar os alquimistas Coppelius (Friedrich Kühne) e Spalanzani (Lupu Pick) que, como bons alquimistas, querem produzir ouro, mas a partir de partes do corpo humano. Um dia, Hoffmann fica de castigo por causa de uma caricatura que ele desenhou do Conde Dapertutto (Werner Krauss), mas o jovem escapa e encontra o esconderijo dos alquimistas, e lá fica horrorizado com as experiências deles. Hoffmann desmaia na rua e é salvo por uma dançarina chamada Angela (Relly Ridon), uma mulher casada cobiçada por um médico. Depois que Hoffmann se recupera, Angela morre subitamente depois de uma última dança.

In the Prelude, we get to know the young E.T.A. Hoffmann (Kurt Wolowsky), who lives with his uncle and enrages him with his habit of drawing caricatures. Near Hoffmann’s place we can find the alchemists Coppelius (Friedrich Kühne) and Spalanzani (Lupu Pick) who, as good alchemists, want to make gold, but out of people’s body parts. One day, Hoffmann is grounded because of a caricature he drew of Count Dapertutto (Werner Krauss) but the young man escapes and finds the alchemists’ place, where he gets horrified with their experience. Hoffmann collapses in the street and is saved by a dancer named Angela (Relly Ridon), a married woman coveted by a doctor. After Hoffman recovers, Angela dies suddenly after a last dance.


Quando começa o Primeiro Ato, encontramos Hoffmann já como homem maduro - agora interpretado por Erich Kaiser-Titz - e amante da atriz Stella (Kathe Oswald). Quando o noivo de Stella flagra os dois, Hoffmann foge. Em uma pequena cidade, ele encontra Coppelius e Spalanzani, agora um vendedor de óculos e um diretor de museu, com a mais nova invenção deles: Olympia (Alice Hechy), um autômato quase real. Ao usar os óculos especiais e mágicos de Coppelius, Hoffmann se apaixona por Olympia, acreditando que ela é uma mulher real, mas ele tem seu coração partido ao tirar os óculos.

When the First Act begins, we find Hoffmann as a mature man - now played by Erich Kaiser-Titz - and the lover of actress Stella (Kathe Oswald). When Stella’s fiancé find the two, Hoffmann escapes. In a small town, he meets Coppelius and Spalanzani, now a glass seller and a museum director, with their newest invention: Olympia (Alice Hechy), a life-like automaton. While wearing Coppelius’s special magical glasses, Hoffmann falls in love with Olympia, believing she is a real girl, only to have his heart broken when the glasses are removed.


Então, para esquecer Olympia, Hoffmann vai ao teatro e se apaixona pela rica Giulietta (Thea Sandten) - que está mais interessada em seus pretendentes viciados em jogo. De volta ao lar, Hoffmann namora Antonia, a filha de Angela - a mulher que o ajudou muitos anos antes - que foi proibida pelo pai de dançar e que também é cortejada pelo médico que cobiçava sua mãe, o vingativo doutor Miracle (Andreas von Horn).

Then, to forget Olympia, Hoffmann goes to the theater and falls for the rich Giulietta (Thea Sandten) - who is more interested in her gambling suitors. Back home, Hoffmann dates Antonia, the daughter of Angela - the woman who helped Hoffmann many years before - who is forbidden to dance by her father and who is also courted by the doctor who courted her mother, the revengeful doctor Miracle (Andreas von Horn).
 
Prolific actress Thea Sandten was killed in Auschwitz in 1943

E.T.A. Hoffmann realmente existiu: ele foi um autor de literatura fantástica do século XVIII e início do século XIX. “Os Contos de Hoffmann” são uma coletânea dos contos dele em forma de ópera, composta por Offenbach em 1881. Para o filme de 1916, os roteiristas - uma dupla que incluía o diretor Richard Oswald - mudaram a ordem dos atos da ópera.

E.T.A. Hoffman really existed: he was a writer of fantastic literature from the 18th and early 19th centuries. “The Tales of Hoffmann” is a collection of his stories in the shape of an opera, composed by Offenbach in 1881. For the 1916 film, the screenwriters - a duo that included director Richard Oswald - changed the order of the acts of the opera to film.


A história do autômato é interessante, mas muito curta - dura cerca de 15 minutos. O filme alemão “A Boneca”, de 1919, por outro lado, traz uma história de amor com autômato maior e melhor. Algo a se notar em “Contos de Hoffmann” é o uso de efeitos especiais para mostrar o autômato, em versão miniatura, girando dentro de uma caixa. Não encontrei detalhes sobre como isso foi feito, mas uma cena semelhante aparece em “A Noiva de Frankenstein” (1935), com miniaturas se mexendo dentro de garrafas. No filme de Hollywood, o efeito foi obtido quando se colocaram os atores em jarras gigantescas em frente a um veludo preto, e a cena gravada foi editada junto aos atores interpretando os cientistas.

The automaton story is interesting, but very short - it lasts about 15 minutes. The German film “The Doll”, from 1919, on the other hand, has a nicer and longer automaton love story. The one thing to notice in “Tales of Hoffmann” is the use of special effects to show Olympia the automaton, in a miniature version, moving inside a box. I couldn’t find how it was made, but a similar scene appears in “The Bride of Frankenstein” (1935), with miniatures moving in bottles. In this Hollywood film, the effect was achieved by putting the actors in huge jars in front of black velvet then mixing and lining up this footage with the footage of the scientists.


Fica óbvio que o banqueiro Elias, um personagem menor, é judeu - algo que depois é inclusive mencionado e confirmado em uma carta. Muitos judeus trabalhavam com finanças, na Alemanha e no resto do mundo, e há a ideia geral de que judeus têm talento para os negócios. Uma das razões para a perseguição de judeus na era nazista foi o ressentimento em relação à banqueiros judeus que, diretamente ou não, teriam ajudado na derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial.

It’s clear to the eyes - and later stated in a letter - that the banker Elias, a minor character, is a Jew. Many Jews worked in the financial field, in German and elsewhere, and there is the general idea that Jews have a talent for business. One of the reasons for the persecution of Jews during the Nazi era was the bitterness towards Jewish bankers who, directly or indirectly, might have helped Germany to be defeated in World War I.


Os belos cenários em cenas de interiores são a melhor coisa de “Contos de Hoffmann” - um filme sobre um homem que não consegue ser feliz no amor. A versão que temos disponível, com 67 minutos, é considerada incompleta pelo site silentera.com, mas não há quase nada faltando e as histórias podem ser compreendidas sem problemas. Servindo mais como uma curiosidade e uma experiência, “Contos de Hoffmann” é para os mais loucos cinéfilos e os mais audaciosos aventureiros do cinema.

The gorgeous interior sets are the best thing about “Tales of Hoffmann” - a film about a man who can’t find happiness in his love life. The print we have available now, with 67 minutes, is considered incomplete by the site silentera.com, but there isn’t much missing and the stories can be understood perfectly. Serving as more of a curiosity and an experience, “Tales of Hoffmann” is for the craziest cinephiles and the most daring screen adventurers.

This is my contribution to the Robots in Film blogathon, hosted by Quiggy and Hamlette at The Midnight Drive-In and Hamlette’s Soliloquy.


Tuesday, November 11, 2014

Variações sobre um mesmo tema: “Snow White” (1916) e “Blancanieves” (2012)

Branca de Neve foi um dos contos de fada catalogados e publicados pelos irmãos Grimm em 1812. Felizmente, nenhuma versão do cinema foi fiel ao conto original, em que Branca de Neve, com apenas sete anos (!), acaba na floresta com um caçador que deveria matá-la e retirar seus pulmões e o fígado para a madrasta comer (!!). E a madrasta nunca teve um fim tão triste: no conto dos irmãos Grimm, ela é obrigada a calçar sapatos de ferro quente e dançar até a morte (!!!). A Branca de Neve como a conhecemos deve muito à peça da Broadway de 1912, e sua estrela viria a protagonizar uma adorável adaptação para o cinema quatro anos depois.

A Branca de Neve de 1916 conta a história que todos nós conhecemos: a princesa de pele branca, cabelos negros e lábios vermelhos (Marguerite Clark) sofre nas mãos da madrasta (Dorothy Cumming), que possui um espelho mágico. A madrasta manda Branca de Neve para a floresta com um caçador, que deveria matá-la, mas ele se acovarda e liberta a princesa. Branca de Neve, então, encontra a pequena moradia dos sete anões, onde é acolhida com alegria. Mas a madrasta, ao saber que a princesa está viva, tenta envenená-la com um pente (você não leu errado) e depois com uma maçã, entregue aqui por ninguém mais ninguém menos que Richard Barthelmess.


A história é muito familiar porque serviu de base para a animação de 1937. Walter Elias Disney, então com 15 anos, viu o filme nos cinemas (o filme era exibido ao mesmo tempo em quatro telas não-sincronizadas) e ficou muito impressionado. E vemos que muitas coisas foram copiadas do filme mudo, começando pelo espelho mágico que se comunica com rimas. A atriz Marguerite Clark serviu de inspiração para a versão animada de Branca de Neve (a personagem também tem alguns traços de Hedy Lamarr), e preparem-se para uma revelação surpreendente: Marguerite tinha 33 anos em 1916! Sim, como Mary Pickford, ela era uma moça baixinha que pôde interpretar crianças no cinema mesmo depois dos 30.


Blancanieves” é uma releitura espanhola e, posso dizer, feminista do conto de fadas. Carmen é filha de um toureiro, e vai morar com o pai, paralisado depois de um acidente na arena, e com a madrasta Encarna (Maribel Verdú). Encarna manda seu motorista matar a jovem Carmen (Macarena García), mas ela sobrevive, embora perca a memória. Andando pela floresta, Carmen encontra seis anões que têm um ato itinerante como toureiros. Tendo perdido a memória, ela se junta a eles e se torna a grande toureira Blancanieves... até que a rainha descobre que ela está viva, e vocês sabem o que acontece. 

Apontado e aplaudido como herdeiro direto de “O Artista” (2011), “Blancanieves” é um filme belíssimo que, como disseram os críticos, bem poderia ter sido feito pelos grandes cineastas dos anos 20 (F. W. Murnau, Frank Borzage ou Josef Von Sternberg certamente poderiam tê-lo dirigido). E uma curiosidade: apesar de ter sido concebido como um filme mudo à moda antiga, Blancanieves foi filmado em cores e a película foi descolorida digitalmente!


O diretor Pablo Berger aponta como principal influência, surpreendentemente, o diretor Tod Browning. Ele diz que o primeiro filme que viu em um cineclube foi “Monstros / Freaks” (1932), e ficou muito feliz ao descobrir que Browning concebeu a película como um filme mudo, mas teve de fazê-lo com diálogos – o oposto do que Pablo estava prestes a fazer. Ele também revelou que o que o fez continuar com o projeto, que demorou oito anos para ser completado, foi a certeza de que o filme encontraria um público disposto a vê-lo.


Ambas as películas são muito, muito belas. Quem encontra uma cópia bem preservada da Branca de Neve de 1916 não se decepciona, e fica difícil acreditar que aquelas imagens têm quase cem anos. As letras dos intertítulos são um pouco rebuscadas, mas isso não impede a leitura. Quem dá uma chance para Blancanieves não se arrepende, e se surpreende a cada minuto. As duas versões provam que Norma Desmond estava certa: Eles não precisavam de palavras em 1916. Eles tinham rostos! E, felizmente, ainda têm rostos capazes de criar obras-primas silenciosas.


O Veredicto: Tem uma tarde livre? Veja as duas Brancas de Neve!

This is my contribution to the Fairy Tale Blogathon, hosted by enchanted Fritzi at Movies, Silently. Bibidi-bobidi-boo! 

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