Branca de Neve foi um dos contos de fada catalogados
e publicados pelos irmãos Grimm em 1812. Felizmente, nenhuma versão do cinema
foi fiel ao conto original, em que Branca de Neve, com apenas sete anos (!),
acaba na floresta com um caçador que deveria matá-la e retirar seus pulmões e o
fígado para a madrasta comer (!!). E a madrasta nunca teve um fim tão triste:
no conto dos irmãos Grimm, ela é obrigada a calçar sapatos de ferro quente e
dançar até a morte (!!!). A Branca de Neve como a conhecemos deve muito à
peça da Broadway de 1912, e sua estrela viria a protagonizar uma adorável
adaptação para o cinema quatro anos depois.
A Branca de Neve de 1916 conta a história que todos
nós conhecemos: a princesa de pele branca, cabelos negros e lábios vermelhos
(Marguerite Clark) sofre nas mãos da madrasta (Dorothy Cumming), que possui um
espelho mágico. A madrasta manda Branca de Neve para a floresta com um caçador,
que deveria matá-la, mas ele se acovarda e liberta a princesa. Branca de Neve,
então, encontra a pequena moradia dos sete anões, onde é acolhida com alegria.
Mas a madrasta, ao saber que a princesa está viva, tenta envenená-la com um
pente (você não leu errado) e depois com uma maçã, entregue aqui por ninguém
mais ninguém menos que Richard Barthelmess.
A história é muito familiar porque serviu de base
para a animação de 1937. Walter Elias Disney, então com 15 anos, viu o filme
nos cinemas (o filme era exibido ao mesmo tempo em quatro telas
não-sincronizadas) e ficou muito impressionado. E vemos que muitas coisas foram
copiadas do filme mudo, começando pelo espelho mágico que se comunica com
rimas. A atriz Marguerite Clark serviu de inspiração para a versão animada de
Branca de Neve (a personagem também tem alguns traços de Hedy Lamarr), e
preparem-se para uma revelação surpreendente: Marguerite tinha 33 anos em 1916!
Sim, como Mary Pickford, ela era uma moça baixinha que pôde interpretar
crianças no cinema mesmo depois dos 30.
“Blancanieves” é uma
releitura espanhola e, posso dizer, feminista do conto de fadas. Carmen é filha
de um toureiro, e vai morar com o pai, paralisado depois de um acidente na
arena, e com a madrasta Encarna (Maribel Verdú). Encarna manda seu motorista
matar a jovem Carmen (Macarena García), mas ela sobrevive, embora perca a
memória. Andando pela floresta, Carmen encontra seis anões que têm um ato
itinerante como toureiros. Tendo perdido a memória, ela se junta a eles e se
torna a grande toureira Blancanieves... até que a rainha descobre que ela está
viva, e vocês sabem o que acontece.
Apontado e aplaudido como herdeiro direto de “O Artista”
(2011), “Blancanieves” é um filme belíssimo que, como disseram os críticos, bem
poderia ter sido feito pelos grandes cineastas dos anos 20 (F. W. Murnau, Frank
Borzage ou Josef Von Sternberg certamente poderiam tê-lo dirigido). E uma
curiosidade: apesar de ter sido concebido como um filme mudo à moda antiga,
Blancanieves foi filmado em cores e a película foi descolorida digitalmente!
O diretor Pablo Berger aponta como principal
influência, surpreendentemente, o diretor Tod Browning. Ele diz que o primeiro
filme que viu em um cineclube foi “Monstros / Freaks” (1932), e ficou muito
feliz ao descobrir que Browning concebeu a película como um filme mudo, mas
teve de fazê-lo com diálogos – o oposto do que Pablo estava prestes a fazer.
Ele também revelou que o que o fez continuar com o projeto, que demorou oito
anos para ser completado, foi a certeza de que o filme encontraria um público
disposto a vê-lo.
Ambas as películas são muito, muito belas. Quem
encontra uma cópia bem preservada da Branca de Neve de 1916 não se decepciona,
e fica difícil acreditar que aquelas imagens têm quase cem anos. As letras dos
intertítulos são um pouco rebuscadas, mas isso não impede a leitura. Quem dá
uma chance para Blancanieves não se arrepende, e se surpreende a cada minuto.
As duas versões provam que Norma Desmond estava certa: Eles não precisavam de
palavras em 1916. Eles tinham rostos! E, felizmente, ainda têm rostos capazes
de criar obras-primas silenciosas.
O Veredicto: Tem uma tarde livre?
Veja as duas Brancas de Neve!
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