} Crítica Retrô: November 2023

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Friday, November 24, 2023

Por Que Deu a Louca no Sr R? (1970) / Why Does Herr R. Run Amok (1970) / Warum läuft Herr R. Amok (1970)?

 

ESTA CRÍTICA TEM SPOILERS

THIS REVIEW HAS SPOILERS

 

Meu primeiro contato com a obra do diretor alemão Rainer Werner Fassbinder se deu há mais ou menos dez anos, quando alguns de seus filmes foram exibidos no Cine Conhecimento do Canal Futura. Da seleção, meu favorito foi seu último filme, “O Desespero de Veronika Voss” (1982). Eu teria outro encontro com Fassbinder quando cursei uma disciplina de mestrado e lemos um texto bem-humorado assinado por ele, e também assistimos à sua obra-prima “Ali: o Medo Devora a Alma” (1974). Foi uma surpresa que um de seus filmes tenha sido exibido na TV recentemente, por isso eu o gravei e aqui ei-lo: um dos oito (!) filmes que ele dirigiu no ano de 1970, “Por Que Deu a Louca no Sr. R?”


My first contact with the works of German director Rainer Werner Fassbinder was about ten years ago, when some of his films were shown on a TV program called Cine Conhecimento (Kino Knowledge, in a free but accurate translation) at the channel Futura. Of the bunch, my favorite was his very last film, “Veronika Voss” (1982). I would encounter Fassbinder again when I took a class at a master’s degree program and we read a very humorous text written by him and later watched his masterpiece “Ali: Fear Eats the Soul” (1974). It was a surprise that one of his films was shown on TV recently, so I recorded it and here it is: one of eight (!) films he directed in the year of 1970, “Why Does Herr R. Run Amok?”

O filme começa com um grupo de quatro amigos contando piadas. Algumas são engraçadas, outras nem tanto. Um dos amigos, o único que não contou nenhuma piada, se separa do grupo, virando à esquerda enquanto os outros seguem à direita. O homem é Herr (Sr.) R. (Kurt Raab), um desenhista técnico que espera por um novo posto de trabalho. Ele vive em Munique com sua esposa, Frau (Sra.) R. (Lilith Ungerer), e filho, Amadeus (Amadeus Fengler).


The film begins with a group of four friends telling jokes. Some are funny, others not so much. One of the friends, the only who didn’t tell a single joke, parts from the group, going left while the others go right. The man is Herr (Mr) R. (Kurt Raab), a draughtsman waiting for a new job position. He lives in Munich with his wife Frau (Mrs) R. (Lilith Ungerer) and son, Amadeus (Amadeus Fengler).

Quando estão caminhando pelas ruas, indo a uma reunião na escola do filho, Frau R. fala sobre uma conhecida que surtou depois de uma explosão de gás: foi a gota d’água para ela. Durante a reunião, quem fala é só Frau R., enquanto a câmera foca em Herr R. e podemos vê-lo dissociando da conversa. Sua gota d’água está próxima.


While they are strolling in the streets, going to a meeting at their son’s school, Frau R. talks about an acquaintance who freaked out after a gas explosion: it was her last straw. During the meeting, only Frau R. speaks, while the camera focuses on Herr R. and we can sense him dissociating. His last straw is near.

Eu pensei que iria dar a louca em Herr R. durante um almoço no seu trabalho. Ele fica bêbado e fala sem parar sobre seus colegas, enfurecendo sua esposa. Então eu percebi: este filme é POR QUE deu a louca no Sr. R. Vê-lo louco seria a última coisa que veríamos: o filme todo serviria para nos mostrar as razões.


I first thought that Herr R. would run amok during a get-together from his work. He gets drunk and talks aimlessly about his co-workers, making his wife mad. Then I realized: this movie is WHY Herr R. ran amok. Seeing him running amok would be the last thing we see: the whole movie would first show us the reasons.

Há alguns momentos muito datados, que são entretanto divertidos por serem o retrato de uma época. Por exemplo: quando nosso herói entra numa loja e pergunta sobre uma música que ele ouvira no domingo passado no rádio. Ele descreve a canção em detalhes, causando riso numa das vendedoras. Hoje, com aplicativos como Shazam e Spotify, os problemas dele diminuiriam bastante.


There are very dated moments, that are funny nonetheless for being the portrait of a time. For instance: when our hero enters a store and asks about a song he heard that past Sunday in the radio. He describes the song extensively, causing one of the clerks to laugh. Today, with apps like Shazam and Spotify, his trouble would diminish a lot.

Outros momentos datados não são tão divertidos. Quando Amadeus fica brevemente perdido na floresta, a avó do menino culpa a mãe, Frau R., dizendo que a única missão dela era ficar de olho no garoto. Esta é a única sequência com a mãe de Herr R., e por isso ela nos parece egoísta e muito crítica com sua nora.


Other dated moments are not so amusing. When Amadeus gets briefly lost in the woods, his grandmother blames his mother,  Frau R., saying that it was her only duty to keep an eye on the boy. This is the only bit with Herr R.’s mother, and because of that she passes to us as being selfish and overly critical of her daughter-in-law.

Outros momentos são tão frescos que poderiam ter sido filmados hoje. Um exemplo: uma das amigas de Frau R. conta-lhe que ela está indo esquiar e alugou uma casinha porque é mais barato que ficar num hotel – exatamente o tipo de coisa que seria dita pelos defensores do Airbnb! Não é à toa que é aí que dá a louca no Sr. R!


Other moments are fresh as new. One example: one of Frau R.’s friends tells her that she is going skiing and rented a little house because it’s cheaper than staying in a hotel- exactly the kind of thing the defenders of Airbnb would say! It’s not by chance that it is there that Herr R. runs amok!

Este filme é assinado por Fassbinder e Michael Fengler. Entretanto, a atriz Hanna Schygulla, que interpreta rapidamente a personagem Hanna, declarou que Fassbinder teve pouco a ver com o filme, sendo este feito quase totalmente por Michael Fengler, uma declaração mais tarde confirmada por Fengler. Este foi o primeiro filme de Fengler, que mais tarde se dedicou aos trabalhos como roteirista e produtor.


The film is signed by Fassbinder and Michael Fengler. However, actress Hanna Schygulla, who plays the character Hanna in a brief performance, claimed that Fassbinder had little to do with the shooting of the film, and it was made almost solely by Michael Fengler, a claim later confirmed by Fengler. This was Fengler’s first film and he later served more as screenwriter and producer.

Esta não é uma comédia, como o título poderia nos levar a crer. É um drama, mas não um drama intenso, e muitos podem até chama-lo de um filme chato. No final das contas, “Por Que Deu a Louca no Sr. R.?” é sobre os perigos da rotina, ou, como diz o velho ditado: “all work and no play make Jack a dull boy” (“só trabalho e nenhuma diversão fazem de Jack um garoto sem-graça”).


This is not a comedy, as the title could make us believe. It’s a drama, but not intense drama, and many could even call it a boring movie. In the last stance, “Why Does Herr R. Run Amok?” is about the dangers of routine, or, as the old saying goes: “all work and no play makes Jack a dull boy”.

Wednesday, November 8, 2023

A Divorciada (1930) / The Divorcee (1930)

 

As heroínas dos filmes feitos antes do Código Hays eram quase sempre personagens femininas admiráveis. Navegando em um mundo masculino e tendo como principal arma seu corpo, elas eram sensuais, ousadas e provocantes. E estes três adjetivos são perfeitos para descrever a protagonista de “A Divorciada”, de 1930.

 

The heroines of pre-Code films were almost always remarkable female characters. Navigating a man’s world having as their main weapon their body, they were sensual, bold and provocative. And these three adjectives are perfect to describe the lead in 1930’s “The Divorcee”.

Jerry (Norma Shearer) é cobiçada por muitos homens, mas o primeiro a pedi-la em casamento é Ted (Chester Morris). Ela aceita o pedido e eles se casam. Três anos após o casamento, eles parecem viver em perfeita harmonia... até que Janice (Mary Doran), uma velha conhecida de Ted, chega à festa de bodas do casal.

 

Jerry (Norma Shearer) is wanted by many men but the first to propose is Ted (Chester Morris). She accepts the proposal and they get married. Three years after the wedding, they seem to be perfectly happy… until Janice (Mary Doran), an old acquaintance of Ted’s, arrives at the party being thrown for their anniversary.

Quando ela descobre sobre Ted e Janice, Jerry encontra consolo nos braços do melhor amigo de Ted, Don (Robert Montgomery), que gosta dela mais do que como amiga. Ela então pede o divórcio de Ted, experimentando uma liberdade inédita como a nova ex-esposa.

 

When she learns about Ted and Janice, Jerry finds consolation with Ted’s best friend Don (Robert Montgomery), who likes her more than as a friend. She then proceeds with the divorce from Ted, experiencing unmatched freedom as the new ex-wife.

Em suas aventuras, Jerry re-encontra Paul (Conrad Nagel), que era apaixonado por ela quando ela anunciou seu noivado com Ted. Paul ficou tão chateado com a notícia que se embebedou e se envolveu em um acidente de carro que deixou o rosto de Dorothy (Helen Johnson) desfigurado. Paul então se casou com Dorothy movido pela culpa. Quando ele re-encontra Jerry, descobrimos que Paul nunca a esqueceu, e agora vê a oportunidade de deixar Dorothy e se casar com Jerry.

 

In her adventures, Jerry re-encounters Paul (Conrad Nagel), who was in love with her when she announced her engagement to Ted. Paul got so upset with the news that he got drunk and got involved in a car accident that left Dorothy (Helen Johnson) with a disfigured face. Paul then married Dorothy out of guilt. When he meets Jerry again, we learn that Paul never forgot her, and now sees the opportunity to leave Dorothy and marry Jerry.

Em certo momento, depois de ser perguntada o que havia de errado com ela, Jerry responde: “Só estou tentando me agarrar à maravilhosa latitude do ponto de vista de um homem”. Ela está claramente falando sobre os dois pesos e duas medidas a partir dos quais homens e mulheres são julgados. Para um homem, um caso extraconjugal “não significa nada”, mas se é a mulher que trai, ela é julgada sem piedade.

 

At one point, after being asked what was wrong with her, Jerry answers: “I’m just trying to hang onto the marvelous latitude of the man’s point of view”. She is clearly talking about the double standard from which men and women are judged. For a man, an affair “doesn’t mean a thing”, but if it’s the woman who is cheating, she is judged without mercy.

Jerry não é uma mulher à frente do seu tempo, mas é certamente uma mulher do seu tempo: taxas de divórcio estavam aumentando no final dos anos 1920 e começo dos anos 1930. Menos de 15 anos depois de as sufragistas conseguirem o direito ao voto, mais e mais mulheres estavam vivendo vidas mais livres e se livrando de casamentos nos quais não eram felizes. A taxa de divórcios cairia durante a Grande Depressão – como é comum em tempos de dificuldades – e aumentariam novamente no final da década. Em 1937, um marco legal: o chamado Matrimonial Causes Act permitiu que mulheres pedissem divórcios nos mesmos termos que os homens, embora mantendo a necessidade de demonstrar que um dos três aconteceu: adultério, crueldade ou abandono.

 

Jerry isn’t a woman ahead of her time, but she’s certainly a woman of her time: divorce rates were on the rise in the late 1920s and early 1930s. Less than 15 years after the suffragettes got their right to vote, more and more women were leading freer lives and getting out of marriages in which they were unhappy. The divorce rate would go down during the Great Depression – as it is common for times of hardship – and go up again by the end of the decade. In 1937, a legal mark: the Matrimonial Causes Act allowed women to petition for divorce on the same terms of men, although keeping the requirement to demonstrate that one of the three happened: adultery, cruelty or desertion.

O divórcio estava dominando tanto as conversas que serviu de mote para outras obras de arte. Um deles foi a peça-que-virou-filme “Vítimas do Divórcio” (1932), hoje mais lembrado por ser a estreia de Katharine Hepburn nas telas. Nele, um homem chamado Hilary (John Barrymore) volta para casa depois de passar 15 anos num hospício e descobre que sua esposa Meg (Billie Burke) pediu o divórcio e está prestes a se casar novamente. Em alguns momentos mais emocionante que “A Divorciada”, este filme poderia ter ditado os termos para normalizar o divórcio no cinema se o Código Hays não tivesse atrapalhado.

 

Divorce was so much dominating the talks that it inspired more works of art. One of them was the play-turned-into-film “A Bill of Divorcement” (1932), today best remembered for being Katharine Hepburn’s screen debut. In it, a man named Hilary (John Barrymore) comes home after spending 15 years in an asylum and finds out that his wife Meg (Billie Burke) has divorced him and it about to remarry. In some moments more engaging than “The Divorcee”, this film could have set the tone to normalize divorce on screen if there hadn’t been the Hays Code.

“A Divorciada” foi baseado no romance best-seller “Ex-Wife”, de Ursula Parrott, que vendeu os direitos de adaptação para a MGM pela incrível quantia de 20 mil dólares. A própria Ursula era divorciada quando o livro foi publicado, anonimamente, em 1929, e ainda iria casar de novo e se separar outras três vezes. Hoje basicamente esquecida, Ursula Parrott estava sempre nas manchetes das colunas de fofocas e seus livros e contos foram lidos por milhões.

 

“The Divorcee” was based on the best-seller “Ex-Wife”, by Ursula Parrott, who sold the movie rights to MGM for the amazing sum of $20,000. Ursula herself was a divorcee when the book was published, anonymously, in 1929, and would go on to remarry and divorce three more times. Now basically forgotten, Ursula Parrott was always on the headlines of gossip columns and her novels and short stories was read by millions.

Ursula Parrott

Norma Shearer ganhou o Oscar de Melhor Atriz em 1931 por sua performance em “A Divorciada” – uma performance que não foi particularmente desafiadora, tirando um ousado monólogo. A primeira escolhida para o papel fora Joan Crawford, que para sempre rivalizou Shearer por causa da perda do papel.

 

Norma Shearer won the Best Actress Oscar in 1931 for her performance in “The Divorcee” – a performance that wasn’t particularly challenging, except for a racy monologue. The first choice to play the role had been Joan Crawford, who became forever bitter with Shearer for having gotten the part instead.

“A Divorciada” é puro ouro pré-Código Hays. Vindo de um livro escandaloso, não é um filme tão escandaloso assim, mas ainda assim um filme que não teria sido feito a partir de 1934. Mais do que isso, ele traz uma protagonista feminina livre, que pode servir de exemplo de ousadia para a heroína da época.

 

“The Divorcee” is pure pre-Code gold. Coming from a scandalous book, it’s not such a scandalous film, but still a film that wouldn’t have been made from 1934 onwards. More than that, it brings a free female lead, one that can serve as an example of boldness for the pre-Code heroine.

 

This is my contribution to the Blogathon and the Beast, hosted by the Classic Movie Blog Association.

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