} Crítica Retrô: 1947

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Saturday, September 21, 2024

O Marido Ideal (1947) / An Ideal Husband (1947)

 

A melhor coisa que pode acontecer quando você começa a assistir a um filme britânico é ver na abertura o alvo redondo que indica que o filme a que você assistirá é uma produção The Archers, companhia de Powell e Pressburger. A segunda melhor coisa que pode acontecer na mesma situação é ver o Big Bem, indicando que você assistirá a uma produção de Alexander Korda. Esta segunda coisa acontece no começo de “O Marido Ideal” (1947), produzido e dirigido por Korda.

 

The best thing that can happen when you start watching a British film is seeing in the opening the round target that indicates that the film you’ll watch was a production of The Archers, the production company for Powell and Pressburger. The second best thing that can happen in the same situation is seeing the Big Ben, indicating that you’ll watch an Alexander Korda production. This second thing happens in the beginning of “An Ideal Husband” (1947), produced and directed by Korda.


Como diz Mabel (Glynis Johns), a (alta) sociedade de Londres é “inteiramente composta de belos idiotas e brilhantes lunáticos”. É numa festa da alta sociedade dada pela cunhada de Mabel, Gertrude (Diana Wynyard), que somos apresentados aos personagens. O anfitrião é Robert Chiltern (Hugh Williams) e vinda de Viena para falar diretamente com ele temos a senhora Cheveley (Paulette Goddard). Ao redor deles há ainda o Lorde Caversham (C. Aubrey Smith) e seu filho, o Lorde Goring (Michael Wilding).


As Mabel (Glynis Johns) says, London (high) society is “entirely composed of beautiful idiots and brilliant lunatics”. It is in a high society séance hosted by Mabel’s sister-in-law Gertrude Chiltern (Diana Wynyard) that we’re introduced to our characters. The host is Robert Chiltern (Hugh Williams) and coming from Vienna to speak directly to him is Mrs Cheveley (Paulette Goddard). Around them there are also Lord Caversham (C. Aubrey Smith) and his son, Lord Goring (Michael Wilding).


O marido ideal é Robert, mas é Gertrude que o salva de cair na teia da senhora Cheveley. A socialite de Viena queria que ele defendesse um esquema para construir um canal na Argentina, e o convenceu a fazer isso através de chantagem. Quando Gertrue fica sabendo que seu marido não era tão “ideal” quanto ela pensava, o casamento entra em crise.

 

The ideal husband is Robert, but it’s Gertrude who saves him from falling in Mrs Cheveley’s web. The socialite from Vienna wanted him to endorse a scheme to build a canal in Argentina, and convinced him to do so through blackmail. When Gertrude learns that her husband isn’t as “ideal” as she thought, the marriage goes into crisis.

“O Marido Ideal” é baseado em uma peça de 1895 de Oscar Wilde, e foi adaptado para as telas por Laos Biró. Há espaço para humor, como quando duas mulheres – a senhora Cheveley e a Lady Markby (Constance Collier), para ser mais precisa – com chapéus extravagantes conversam sobre moda. Nascido no que era então o Império Austro-Húngaro, Lajos Biró faleceu menos de um ano após a estreia de “O Marido Ideal” nos cinemas. Ele era o chefe de roteiros para o estúdio de Korda.

 

“An Ideal Husband” is based on a work from 1895 by Oscar Wilde, written for the screen by Lajos Biró. There is space for humor, like when two women – Mrs Cheveley and Lady Markby (Constance Collier), to be precise –  with extravagant hats talk about fashion. Born in what was then Austria-Hungary, Lajos Biró died less than one year after “An Ideal Husband” premiered in theaters. He was the scenario chief for Korda’s production company.


Os figurinos foram feitos por Cecil Beaton. O destaque vai para um vestido lilás extravagante com uma capa laranja usada por Goddard. Ainda havia racionamento na Inglaterra durante as filmagens, por isso Beaton teve de improvisar em muitas cenas. Para piorar a situação, o filme foi rodado no verão, com o clima deixando os vestidos ainda mais desconfortáveis. Beaton mais tarde faria vestidos semelhantes para “Gigi” (1958) e “Minha Bela Dama” (1964).

 

The costumes were made by Cecil Beaton. The highlight is an extravagant lilac dress with an orange cape worn by Goddard. There was still rationing in England during the period, so Beaton had to improvise in many scenes. To make things worse, the film was shot during summer, making the heavy costumes even more uncomfortable to wear. Beaton later made similar dresses for “Gigi” (1958) and “My Fair Lady” (1964).


“O Marido Ideal” foi o último filme feito por Korda como diretor, embora ele tenha continuado trabalhando como produtor. O primeiro produtor de cinema britânico a se tornar Sir, Korda produziu 82 filmes e dirigiu 69, numa carreira que começou no cinema mudo na sua Hungria natal, assim como na Áustria e na Alemanha. Ele passou dois breves períodos em Hollywood, um no final da era muda e o segundo durante a Segunda Guerra Mundial. Entre os filmes mais famosos que ele dirigiu, temos “Longe dos Olhos”(1945) e, obviamente, “O Ladrão de Bagdá” (1940).

  

“An Ideal Husband” was Alexander Korda’s last credit as a director, even though he continued working as a producer. The first British film producer to receive knighthood, Korda produced 82 movies and directed 69, in a career that started in silent movies in his native Hungary as well as in Austria and German. He had two brief stints in Hollywood, one in the end of the silent era and the second during World War II. Among the most famous movies he directed, we have “Vacation from Marriage” (1945) and, of course, “The Thief of Bagdad” (1940).


“O Marido Ideal” é espirituoso e charmoso, mas o destaque é o Technicolor. O assunto é bastante arriscado, mas não se arrisca em demasiado. É como se a Inglaterra estivesse seguindo o código de produção de Hollywood. Não funcionou, pois o filme não teve grande bilheteria em mercados estrangeiros, mesmo sendo um dos dez maiores sucessos de bilheteria na Inglaterra. Há certas coisas que só os nativos gostam!

 

“An Ideal Husband” is witty and charming, but the highlight is the Technicolor. The subejct is rather raw, but no risks are taken. It's as if England was following Hollywood’s production code. It didn’t work, as the movie performed poorly in foreign markets, despite being one of the Top 10 money-makers in England. There are certain things that only locals can enjoy!

 

“O Marido Ideal” está disponível no YouTube com legendas em inglês.

 

“An Ideal Husband” is available on YouTube.

 

This is my contribution to the 11th Annual Rule, Britannia Blogathon, hosted by Terence at A Shroud of Thoughts.

Monday, January 30, 2023

Minha Morena Linda (1947) / My Favorite Brunette (1947)

 

Bob Hope foi um dos artistas mais populares do século XX. Em seus 100 anos de vida, ele fez quase 100 filmes, muitas vezes interpretando a si mesmo. Ele também teve destaque levando entretenimento às tropas norte-americanas em guerras, o que garantiu a ele o título de veterano honorário - foi a única pessoa a receber esta honraria. Ver Hope em ação é sempre uma delícia, e um de seus filmes mais facilmente disponíveis é “Minha Morena Linda” (1947), que é o assunto de nosso post de hoje.  


Bob Hope was one of the most popular entertainers of the 20th century. In his 100 years of life, he appeared in almost 100 movies, many times as himself. He was also a pro at entertaining the US troops in wars, which made him become an honorary US veteran - the only person to receive this honor. Seeing Hope in action is always entertaining, and one of his most easily available movies is “My Favorite Brunette” (1947), which is the subject of today’s post.

Encontramos Ronnie Jackson (Bob Hope) pela primeira vez quando ele está prestes a ser executado na prisão de San Quentin. Um grupo de repórteres chega para entrevistá-lo e animá-lo, dizendo que ele é um cara durão, e ele decide contar sua história num flashback com narração voiceover. Ele costumava trabalhar como fotógrafo de bebês, mas sonhava em se tornar um detetive durão - igualzinho a Humphrey Bogart, em suas próprias palavras.  


We first meet Ronnie Jackson (Bob Hope) when he’s about to be executed in the San Quentin prison. A group of reporters come over to interview him and cheer him up, saying he’s a tough guy, and he decides to tell his story in a flashback with voiceover narration. He used to be a baby photographer, but dreamed about becoming a hard-boiled detective - just like Humphrey Bogart, in his own words.

Um amigo detetive não aceita que Ronnie seja seu sócio, mas deixa que ele atenda ligações telefônicas em seu escritório na sua ausência. É em um desses momentos que entra Carlotta Montay (Dorothy Lamour), uma mulher rica que quer contratar um detetive para encontrar seu marido, que está desaparecido. Ronnie segue Carlotta até uma mansão onde ele descobre que as coisas são um pouco mais complicadas do que pareciam. Lá ele é apresentado a diversos tipos, como o mordomo Kismet (Peter Lorre), e inicia sua investigação.


A detective friend doesn’t accept Ronnie as a partner, but lets him enter his office to take phone calls when he’s away. It’s in one of these moments that enters Carlotta Montay (Dorothy Lamour), a rich woman who wants to hire a detective to find her missing husband. Ronnie follows Carlotta to a mansion where he realizes things are a bit more complicated than they first seemed. There he is introduced to several characters, like the butler Kismet (Peter Lorre), and initiates his investigation.

Como muitos outros detetives famosos, Ronnie tem uma geringonça especial para fazer seu trabalho: uma câmera de fechadura que ele mesmo inventou. E ele tem muitos inimigos em sua cola, incluindo Kismet - Peter Lorre num papel que exigia dele nada além de parecer sinistro, algo em que ele é muito bom, como foi possível ver em “M - O vampiro de Dusseldorf” (1931), de Fritz Lang - e o nem tão ameaçador Willie, interpretado por Lon Chaney Jr.  


Like many other famous detectives, Ronnie has a special gadget to do his work: a keyhole camera he invented himself. And he has many enemies after him, including Kismet - Peter Lorre in a role that demanded from him nothing more than looking sinister, something he’s very good at, as we could see in Fritz Lang’s “M” (1931) - and the not-so-threatening Willie, played by Lon Chaney Jr.

Apenas um ano após o termo “filme noir” ser usado pela primeira vez pelos franceses, Hollywood já estava fazendo paródia do gênero. Claro, eles ainda estavam classificando estes filmes como “filmes de detetives durões”, mas são paródias claras. Duas coisas que o filme noir tem em comum com “minha Morena Linda” são os já mencionados flashback e narração em voiceover, mas podemos adicionar à lista: o detetive - uma participação especial bem bolada -, o mistério complexo e a femme fatale que não é tão “fatale” assim aqui.   


Only one year after the term “film noir” was used by the first time the French, Hollywood was already making fun of the genre. Of course, they were still labeling these pictures as “hard-boiled detective films”, but they are parodies anyway. Two things film noir has in common with “My Favorite Brunette” are the aforementioned flashback structure and voiceover narration, but we can add to the list: the detective - a very wise cameo -, the convoluted mystery and the femme fatale that is not so “fatale” in here.

Conta-se que Bob Hope conheceu Dorothy Lamour em 1932, quando ela era cantor num bar de hotel de Nova York. Com Lamour e Bing Crosby - que Bob também conheceu em 1932 - Bob Hope fez a famosa série de filmes “Road to...”. Nessas comédias, havia elementos de outros gêneros e Hope em geral não ficava com a garota no final: ela preferia ficar com o mais charmoso da dupla, ou seja, Crosby. Hope tentou inverter essa situação em seus filmes solo, como em “Minha Morena Linda”.  


It’s said that Bob Hope met Dorothy Lamour in 1932, when she was a singer at a New York hotel bar. With Lamour and Bing Crosby - who Hope also met for the first time in 1932 - Bob Hope made the famous “Road to…” film series. In these comedies, there were elements of other genres and Hope usually didn’t get the girl in the end: she preferred to be with the most charming of the duo, that is, Crosby. Hope sought to invert this situation in his solo movies, such as “My Favorite Brunette”.

Como ele mesmo, Bob Hope fez cerca de mil aparições na TV e no cinema - isso sem contar no rádio, onde ele também era figurinha carimbada. Ele também apresentou os Oscars 18 vezes. Hope fez uma aparição no Show dos Muppets e participou de alguns especiais dos Muppets rodados na Inglaterra, terra natal de Hope. Diversos clipes de “Minha Morena Linda” foram usados em um episódio da série Muppets Babies.


As himself, Bob Hope counts about a thousand appearances on TV and film - not counting radio, where he was a pro as well. He also hosted the Oscars 18 times. Hope appeared at The Muppet Show and guest starred in some Muppets specials shot in England, Hope’s motherland. Several clips of “My Favorite Brunette” were used in a Muppets Babies episode.

Com muita ação e humor, “Minha Morena Linda” é uma paródia sólida e divertida dos filmes de detetives durões que eram populares na década de 1940. É um filme em domínio público, o que o faz ser facilmente encontrado numa simples busca no YouTube. É um filme que começa e termina com boas risadas - algo que Bob Hope era mestre em entregar para o público.


With a lot of action and humor, “My Favorite Brunette” is a solid and entertaining parody of the hard-boiled detective movies that were popular in the 1940s. It’s a film on the public domain, which makes it pop up several times in a simple YouTube search, and a film that starts and ends with good laughs - something Bob Hope was a master at.


This is my contribution to The Great Muppet Guest Star Caper blogathon, hosted by Gill and Rebecca from RealWeegieMidgtet Reviews and Taking Up Room.  

Saturday, August 8, 2020

Festa Brava (1947) / Fiesta (1947)


ESTA CRÍTICA TEM SPOILERS

THIS ARTICLE HAS SPOILERS

É sempre interessante ver filmes clássicos subvertendo os papéis de gênero. Os resultados são mistos: algumas vezes eles são divertidos, às vezes são vergonhosos e apenas em raras ocasiões são revolucionários. “Festa Brava” (1947) é um destes filmes que têm uma premissa boa – Esther Williams como toureira, fingindo ser seu irmão gêmeo, interpretado por Ricardo Montalban – e infelizmente é outro filme que derrapa na execução da premissa.

It’s always interesting to see classic films subverting gender roles. The results are mixed: sometimes they are fun, often they are cringe-worthy and only in rare occasions they are revolutionary. “Fiesta” (1947) is one of those films that present a good premise – Esther Williams as a bullfighter, pretending to be her twin brother, played by Ricardo Montalban – and unfortunately it’s another movie that falls flat in the execution of the premise.

Antonio Morales (Fortunio Bonanova) é um “matador” que tem filhos gêmeos: Maria e Mario. Ele espera que Mario se torne um toureiro, seguindo seus passos, e... não espera muito de Maria – é como as coisas “deveriam” ser. Mas as coisas raramente são como “deveriam” ser, e Antonio, vê, com horror, seus filhos escolhendo carreiras opostas quando crescem: Mario (Ricardo Montalben) decide se tornar músico, enquanto Maria (Esther Williams) se encanta pelas touradas.

Antonio Morales (Fortunio Bonanova) is a matador who has twin children: Maria and Mario. He expects Mario to become a bullfighter, following his footsteps, and… doesn’t really expect a lot from Maria – as things “should” be. But things rarely are what they “should” be, and Antonio sees, with horror, their children choosing opposite careers when they grow up: Mario (Ricardo Montalban) decides to become a musician, while Maria (Esther Williams) is passionate about bullfights.

É difícil ver, no começo do filme, Antonio chegando após sua esposa dar à luz e oferecendo um brinde ao filho – para logo depois ser informado de que o bebê é menina. Um de seus amigos, Chato Vasquez (Akim Tamiroff) diz que isso é uma desgraça e pergunta: “o que ele vai fazer com uma menina?”. Numa feliz mudança, outro bebê nasce e desta vez é um menino. Antonio apresenta seu filho aos amigos e esquece sua filha recém-nascida nos braços de Chato – o homem que não vê nenhuma utilidade para uma menina. 

It’s painful to see, in the beginning of the film, Antonio arriving after his wife has given birth and offering a toast to his son – only to be informed that the baby is a girl. One of his friends, Chato Vasquez (Akim Tamiroff) says this is a disgrace and asks: “what will he do with a girl?” In a fortunate twist, another baby is born and this time it’s a boy. Antonio presents his son to his friends and forgets his newborn daughter in the arms of Chato – the man who doesn’t see any use for a girl.

Na infância, Mario aprende a enfrentar touros, mas fica óbvio que ele não tem muito foco para se tornar profissional. Enquanto isso, do lado de fora da arena, Maria imita os movimentos que seu pai faz com a capa. Mario está muito mais interessado em criar suas próprias composições no piano. A mãe de Maria e Mario, Señora Morales (Mary Astor) entende que a música é a verdadeira paixão de Mario.

As a kid, Mario is trained to fight bulls, but it’s clear he lacks the focus to become a professional. Meanwhile, outside the arena, Maria mimics the movements her father makes with his cape. Mario is much more interested in creating his own compositions by the piano. Maria and Mario’s mother, Señora Morales (Mary Astor) understands that music is Mario’s true passion.

No 21º aniversário deles, Mario enfrenta seu primeiro touro na frente do público. Entretanto, o namorado de Maria, Pepe (John Carroll), enviou algumas composições de Mario para um maestro, e o maestro Maximino Contreras (Hugo Haas) decide convidar Mario para estudar música na Cidade do México. Infelizmente, Antonio encontra o maestro e diz que Mario não pode ir para a Cidade do México no momento, e assim esconde a proposta do maestro para o filho.

When their 21st birthday arrives, Mario is booked to fight his first bull in front of an audience. However, Maria’s boyfriend Pepe (John Carroll) has sent some of Mario’s compositions to a maestro, and the maestro Maximino Contreras (Hugo Haas) decides to invite Mario to study music in Mexico City. Unfortunately, Antonio meets the maestro first and says Mario can’t go to Mexico City right now, hiding the proposition from his son.

Duas semanas depois, na sua estreia na grande arena, Mario finalmente encontra o maestro e, ao descobrir que seu pai escondeu a verdade, ele abandona a tourada e a família. Quando os jornais começam a chamar Mario de covarde, Maria decide se vestir como seu irmão e ir para a arena, para redimir o nome dele e fazê-lo voltar para casa.

Two weeks later, in his big arena debut, Mario finally meets the maestro and, upon learning that his father has hidden the proposition, he leaves bullfighting and his family. When newspapers start calling Mario a coward, Maria decides to disguise as her brother and hit the arena, to both redeem his name and make Mario come home.

As cenas de tourada se parecem com a da maioria das produções de Hollywood, e podemos ver sequências semelhantes em “Sangue e Areia” (1941) e “O Sol Também se Levanta” (1959). Um elemento presente em “Festa Brava” e nestes outros filmes é a religiosidade dos toureiros. A representação dos latinos e da cultura latino-americana neste e nos outros filmes é simpática, e em “Festa Brava” ela é diretamente influenciada pela Política da Boa Vizinhança da Segunda Guerra Mundial e pelo fato de a América Latina ser então um enorme mercado em que Hollywood estava focando.

The bullfighting scenes look like most Hollywood productions and we can see similar sequences in “Blood and Sand” (1941) and “The Sun Also Rises” (1959). An element present in “Fiesta” and these other films is the religiosity of bullfighters. The portrayal of Latinos and Latin culture in this and the other films is sympathetic, and in “Fiesta” it is directly influenced by the Good Neighbor Policy from the Second World War and the fact that Latin America was then a huge market Hollywood was focusing on.

Quem se lembra de Ricardo Montalban da série de TV “Ilha da Fantasia” (1977-1984) se surpreenderá com sua estreia em Hollywood – pois ele já havia feito 13 filmes no seu país natal, o México. Montalban mostra em “Festa Brava” que ele era um grande dançarino – e sua companheira de dança é ainda melhor: Cyd Charisse, no papel de Conchita, o nome mexicano mais estereotipado de todos os tempos.

Those who are only familiar with Ricardo Montalban from the TV series “Fantasy Island” (1977-1984) will be very impressed by his Hollywood film debut – as he had already made 13 films in his native Mexico. Montalban shows in “Fiesta” that he was a great dancer – and his dance partner is an even greater dancer: Cyd Charisse, playing the role of Conchita, the most stereotyped Mexican name ever.

Na cena em que Mario ouve sua composição no rádio pela primeira vez e decide tocá-la no piano para acompanhar, o rosto de Montalban se ilumina com orgulho e felicidade. É uma linda cena, melhorada por ótima música, e é nela que Montalban mais se destaca, embora ele não diga uma palavra!

In the scene when Mario listens to his composition in the radio for the first time and decides to also play it in the piano, Montalban’s face illuminates with pride and happiness. It’s a beautiful scene, enhanced by the wonderful music, and the one where Montalban shines the most, even though he doesn’t say a word!

Esther Williams nada brevemente em “Festa Brava”, mas nunca esteve tão bonita quanto na cena em que se veste de toureira – o que prova minha teoria de que todo mundo fica bem vestido de toureiro, e sei disso porque me vesti assim num Carnaval quando era criança. A edição das sequências de touradas de Maria é veloz, furiosa e muito boa. Alternando rapidamente entre close-ups de Esther Williams e tomadas longas com dublês, as sequências se tornam tensas e emocionantes.

Esther Williams swims very briefly in “Fiesta”, but she never looked as stunning as she does dressed as a bullfighter – which proves my theory that everybody looks great dressed as a bullfighter, and I know that because I dressed as one in Carnival once when I was a kid. The editing of Maria’s bullfighting sequences are fast, furious and very good. Alternating quickly between close-ups of Esther Williams and long-shots with stunts, the sequences become tense and engaging.

A personagem de Mary Astor sequer tem nome próprio, mas é muito interessante. Quando Maria e Mario estão prestes a completar 21 anos, ela pergunta a Antonio se ele a perdoou por ter dado primeiro uma filha a ele. Antonio diz que a perdoou porque ela consertou o “erro” logo depois – o que a faz rir, e nós ficamos com um gosto amargo na boca. Mais tarde, quando Mario sai de casa, ela diz que Antonio é o culpado e que ela está muito aliviada porque seu filho não enfrentará a morte constantemente na arena, como seu marido fazia. Ela até mesmo diz que chorou lágrimas de alegria quando Antonio foi ferido, pois isso significou o fim da carreira dele. Hoje, infelizmente, ainda há muitos pais como Antonio, que desprezam suas filhas – ou pior, querem ter uma filha primeiro para ela cuidar dos outros filhos, o que significa que o homem não quer uma filha, mas uma babá grátis – e eu espero que todos que têm pais como Antonio tenham mães compreensivas como a Señora Morales ou mesmo alguém como Chato, que serve como figura paterna para Maria.

Mary Astor’s character may not even have a first name, but she’s very interesting. With Maria and Mario about to turn 21, she asks Antonio if he ever forgave her for giving him a daughter first. Antonio says he did forgive her because she fixed the “mistake” right after – to which she laughs, and we’re left with a bitter taste in our mouths. Later, when Mario leaves, she says Antonio is to blame and she’s very relieved her son won’t face death constantly at the arena, as her husband did. She even says she cried tears of joy when Antonio was injured, because that meant that he wouldn’t fight bulls again. Today, unfortunately, there are still many fathers like Antonio, who despise their daughters – or worse, want a daughter first for her to take care of the other children, which means the man doesn’t want a daughter, but an unpaid nanny – and I hope everybody whose father is like Antonio has a comprehensive and supportive mother like Señora Morales or even someone like Chato, who is a kind of father figure for Maria.

“Festa Brava” acaba sendo datado, mas tem alguns momentos divertidos – quando Hugo Haas e especialmente Akim Tamiroff roubam a cena – e alguns bons momentos musicais. Certamente faltou ousadia, mas não charme, no filme – pois Maria se torna toureira apenas para trazer seu irmão de volta, e não tem intenção de seguir na carreira. Para Ricardo Montalban, foi um ponto de virada: nascia uma estrela.

“Fiesta” ends up being dated, but with some fun moments – when Hugo Haas and especially Akim Tamiroff steal the scene – and some fine musical moments with authentic Mexican music. It certainly lacked boldness, but not charm – as Maria becomes a bullfighter only to bring her brother back, and has no intention to follow the career. And, for Ricardo Montalban, it’s a turning point: at “Fiesta”, a star was born.

Some of the images were taken from the website Blonde at the Film.

This is my contribution to the Esther Williams blogathon, hosted by Michaela at Love Letters to Old Hollywood.

Monday, December 5, 2016

Prisioneiro do Passado / Dark Passage (1947)

Bogie e Bacall, juntos novamente, na vida e nas telas. O belo e talentoso casal fez quatro filmes juntos, e o noir “Prisioneiro do Passado” é o terceiro deles. Não é tão romântico e cheio de flertes quanto “Uma Aventura na Martinica” (1944), nem tão labiríntico quanto “À Beira do Abismo” (1946), mas é um filme que grita noir – da melhor maneira possível.

Bogie and Bacall, together again, in life and on the screen. The beautiful, talented couple starred in four films together, and the noir Dark Passage is the third of the list. It’s not as romantic and flirtatious as To Have and Have Not (1944), nor as labyrinthic as The Big Sleep (1946), but it screams noir – in the best way possible.
Este é o famoso filme que começa com o ponto de vista do protagonista, que está fugindo da prisão de San Quentin dentro de um barril. Mas não acaba aí. Por quase 40 minutos vemos a maioria das cenas através da perspectiva dele, exceto quando Irene Jansen (Lauren Bacall) está dirigindo – aí retornamos ao ponto de vista de terceira pessoa. Quando chegamos à marca de 37 minutos, finalmente vemos o rosto de Bogie, mas coberto de ataduras. Seu personagem, Vincent Parry, foi condenado à prisão perpétua por ter matado a esposa. Quando ele foge, lhe oferecem uma cirurgia plástica para que ele despiste a polícia.

This is the famous picture that begins with the viewpoint of the leading man, who is escaping San Quentin inside a barrel. But it doesn't stop there. For nearly 40 minutes we see most of the scenes from his perspective, except the ones in which Irene Jansen (Lauren  Bacall) is driving – then we get back to the regular third-person viewpoint. When we reach the mark of 37 minutes, we finally see Bogie's face, but covered with bandages. His character, Vincent Parry, was imprisoned for life after being found guilty of killing his wife. When he ran away, he was offered a plastic surgery to escape the police.
Vincent encontra uma galeria de personagens curiosos pelo caminho. Baker (Clifton Young), o primeiro a lhe dar uma carona, percebe que ele é o fugitivo por causa da descrição que ouve no rádio. Vincent o deixa inconsciente e escapa. Irene leva Vincent ao apartamento dela em São Francisco e lhe compra roupas novas. Mais tarde, descobrimos que ela faz isso como parte de uma redenção: o pai dela foi preso acusado de matar a esposa e morreu na prisão. Irene diz que o pai era inocente, e se interessou por Vincent devido às semelhanças entre os dois casos. 

Vincent meets odd helpers in his way. Baker (Clifton Young), the first man who gives him a ride recognizes his description on the radio, and realizes he is the fugitive. Vincent knocks him unconscious. Irene takes him until her apartment in San Francisco and buys him new clothes, and later we find out she's doing it as a kind of redemption: her father was arrested for killing her stepmother and died in prison. She claims Mr Jansen was innocent, and chose Vincent, because of the similarities between the cases, to help him.
THOSE EYEBROWS
Vincent sempre pode contar com seu velho amigo George (Rory Mallinson), o trompetista, para ter onde se esconder. Sam (Tom D’Andrea), o taxista, é um homem estranho e solitário que percebe que Vincent está com problemas e lhe arranja uma cirurgia plástica em tempo recorde. O doutor Walter Coley (Houseley Stevenson), um médico meia-boca como era de se esperar, é sinistro mas faz um bom trabalho. Afinal, passar por uma cirurgia e ficar com o rosto igual ao de Humphrey Bogart é sempre um upgrade, certo?

Vincent can always count on his old friend George (Rory Mallinson), the trumpet player, to provide a place to hide. Sam (Tom D’Andrea), the taxi driver, is an odd and lonely type who can see that Vincent is in trouble, and arranges the plastic surgery for him. Doctor Walter Coley (Houseley Stevenson), a back-alley doctor as expected, is sinister but does a good job. After all, undergoing a surgery and ending up with Humphrey Bogart's face is always an upgrade, right?
On set
“Prisioneiro do Passado” nos faz sentir emoções contraditórias. Nós ouvimos nos primeiros minutos que Vincent foi condenado à prisão perpétua por ter matado a esposa, mas torcemos por ele – em absoluto porque ele é o anti-herói noir, em particular porque ele é Bogart. A câmera subjetiva é um recurso brilhante e desejamos que o filme inteiro seja assim, e ao mesmo tempo mal podemos esperar para ver o rosto tão familiar de Bogart.

Dark Passage is a film that makes us feel contradictory emotions. We hear in the first minutes that Vincent got a sentence of life in prison for killing his wife, but we root for him – in general because he's the noir anti-hero, in particular because he's Bogart. The subjective camera resource is brilliant and we wish the whole film is shown this way, but at the same time we can't wait to see Bogart's familiar face.
Com os personagens coadjuvantes, nos incomodamos com Madge (Agnes Moorehead), a antipática “amiga” de Irene que foi uma das principais testemunhas no julgamento contra Vincent. Se você está mais acostumado a ver Agnes como Endora na série de TV “A Feiticeira”, você terá, como eu tive, uma bela surpresa ao conhecer sua habilidade como atriz.

With supporting characters, we get annoyed with Madge (Agnes Moorehead), Irene's unpleasant 'friend' who was one of the key witnesses in the judgment against Vincent. If you are most familiar with Agnes as Endora in the TV series Bewitched, you’ll be, like I was, surprised by her acting range.
“Prisioneiro do Passado” é um filme à frente do seu tempo. O fato de que o rosto de Bogart é visto totalmente sem ataduras apenas após 62 minutos enfureceu Jack Warner. O público, sem estar preparado para o formato e ainda amargando o fato de que Bogie e Bacall defenderam os “10 de Hollywood” – 10 funcionários de trás das câmeras acusados de serem comunistas – fez o filme ser um fracasso de bilheteria. Mas “Prisioneiro do Passado” não merecia este destino. É uma bela mistura de romance e suspense. E é um noir de alta qualidade, tanto que eu disse a mim mesma quando o filme acabou: “como eu demorei tanto para ver esta obra-prima?”.

Dark Passage was a film ahead of its time. The fact that Bogart’s face is only fully seen, without bandages, after 62 minutes, made Jack Warner sour. The public, not ready for the new storytelling and still bitter because Bogart and Bacall defended the ‘Hollywood 10’ – 10 behind-the-camera professionals accused of being communists, made the film a box office failure. But Dark Passage didn’t deserve that fate. It is a mix of romance and thriller done right. It is a high-quality noir, and one I exclaimed after the film was over: “how come I haven’t watched this earlier?”.

This is my contribution to the Agnes Moorehead blogathon, hosted by superfan Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.

Wednesday, July 15, 2015

A Caminho do Rio / Road to Rio (1947)

O ano é 1947. Desde 1944 Bing Crosby detinha o título de ator com maior sucesso de bilheteria. Em uma situação muito confortável, ele fez com seus parceiros Bob Hope e Dorothy Lamour o quinto dos sete filmes da série “Road to...”, que misturavam comédia, romance e musical em cenários exóticos. Desta vez os três astros iriam para o Rio de Janeiro, e o resultado, além de um filme divertidíssimo, é a imagem mais fiel do Brasil pintada pela era de ouro dei Hollywood.
É como Crosby, junto com as Andrews Sisters, canta sobre o Brasil: não é preciso entender a língua para compreender o que acontece aqui. Bastam a lua, o céu e uma garota nos seus braços. Aí é só olhar fundo nos olhos dela e as palavras serão supérfluas. Mas o riso é garantido.
Scat Sweeney (Bing Crosby) e ‘Hot Lips’ Barton (Bob Hope) estão atrás de mulheres. A busca da dupla já terminou com tiros e homens irados em diversos estados dos Estados Unidos, e a nova empreitada deles também é um fracasso: eles fazem, literalmente, um circo pegar fogo. Na fuga desesperada, eles entram como clandestinos no navio “Queen of Brazil”.

No navio viajam Lucia Maria de Andrade (Dorothy Lamour), sua tia / guardiã / hipnotizadora Catherine Vail (Gale Sondergaard) e mais uma galeria de personagens com alto potencial cômico, incluindo uma banda. Metade do filme se passa neste trajeto que por vezes fica lento, mas nunca cansativo.
Eles são recebidos no Brasil com a mesma música que recebeu o pato Donald cinco anos antes: “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso. A música, só instrumental, sem letra, também acompanha os créditos iniciais, quando os nomes do trio protagonista aparecem dançando sobre a paisagem de Copacabana.

Felizmente, não há os absurdos costumeiros que vemos quando o Brasil é mostrado no cinema de Hollywood. Não há macacos nem papagaios nas ruas e as pessoas não falam espanhol. Bing Crosby, para surpresa geral, pronuncia até muito bem algumas frases em português. É incrível pensar que cenários tão realistas, como a roda de samba, o hotel e a mansão que aparece no final do filme, foram todos construídos nos estúdios Paramount, mas, obviamente, com boa pesquisa prévia. Observe as roupas dos músicos, os instrumentos e até os cartazes em português! 
E são os Wiere Brothers, também falando um pouco de português, que roubam a cena. Os três irmãos Wiere nasceram na Europa, durante as muitas viagens teatrais dos pais, e foram para os Estados Unidos na década de 1930, mas fizeram poucos filmes. Os palcos continuaram sendo sua morada.
A maioria das piadas vem de diálogos espirituosos, mas há duas longas sequências mudas: na primeira, Hope e Crosby se passam pelo barbeiro e pelo engraxate do navio, e destroem o bigode de um passageiro; e na segunda há uma confusa troca de chapéus, no melhor estilo comédia pastelão / slapstick comedy.

Talvez “Road to Rio” não seja um filme realmente especial. Mesmo assim, foi o sexto maior sucesso de bilheteria de 1947, arrecadando o equivalente a 4,5 milhões de dólares. É uma comédia excelente, do tipo que não é mais feito na atualidade, e que consegue ser ao mesmo tempo um pouquinho apimentada e inteligentemente inocente. Porque é essa mágica que o Rio de Janeiro fez com Crosby, Hope e Lamour.

This is my contribution to the 1947 blogathon, hosted by Karen at Shadows and Satin and Kristina at Speakeasy. 

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