} Crítica Retrô: Dorothy Lamour

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Monday, January 30, 2023

Minha Morena Linda (1947) / My Favorite Brunette (1947)

 

Bob Hope foi um dos artistas mais populares do século XX. Em seus 100 anos de vida, ele fez quase 100 filmes, muitas vezes interpretando a si mesmo. Ele também teve destaque levando entretenimento às tropas norte-americanas em guerras, o que garantiu a ele o título de veterano honorário - foi a única pessoa a receber esta honraria. Ver Hope em ação é sempre uma delícia, e um de seus filmes mais facilmente disponíveis é “Minha Morena Linda” (1947), que é o assunto de nosso post de hoje.  


Bob Hope was one of the most popular entertainers of the 20th century. In his 100 years of life, he appeared in almost 100 movies, many times as himself. He was also a pro at entertaining the US troops in wars, which made him become an honorary US veteran - the only person to receive this honor. Seeing Hope in action is always entertaining, and one of his most easily available movies is “My Favorite Brunette” (1947), which is the subject of today’s post.

Encontramos Ronnie Jackson (Bob Hope) pela primeira vez quando ele está prestes a ser executado na prisão de San Quentin. Um grupo de repórteres chega para entrevistá-lo e animá-lo, dizendo que ele é um cara durão, e ele decide contar sua história num flashback com narração voiceover. Ele costumava trabalhar como fotógrafo de bebês, mas sonhava em se tornar um detetive durão - igualzinho a Humphrey Bogart, em suas próprias palavras.  


We first meet Ronnie Jackson (Bob Hope) when he’s about to be executed in the San Quentin prison. A group of reporters come over to interview him and cheer him up, saying he’s a tough guy, and he decides to tell his story in a flashback with voiceover narration. He used to be a baby photographer, but dreamed about becoming a hard-boiled detective - just like Humphrey Bogart, in his own words.

Um amigo detetive não aceita que Ronnie seja seu sócio, mas deixa que ele atenda ligações telefônicas em seu escritório na sua ausência. É em um desses momentos que entra Carlotta Montay (Dorothy Lamour), uma mulher rica que quer contratar um detetive para encontrar seu marido, que está desaparecido. Ronnie segue Carlotta até uma mansão onde ele descobre que as coisas são um pouco mais complicadas do que pareciam. Lá ele é apresentado a diversos tipos, como o mordomo Kismet (Peter Lorre), e inicia sua investigação.


A detective friend doesn’t accept Ronnie as a partner, but lets him enter his office to take phone calls when he’s away. It’s in one of these moments that enters Carlotta Montay (Dorothy Lamour), a rich woman who wants to hire a detective to find her missing husband. Ronnie follows Carlotta to a mansion where he realizes things are a bit more complicated than they first seemed. There he is introduced to several characters, like the butler Kismet (Peter Lorre), and initiates his investigation.

Como muitos outros detetives famosos, Ronnie tem uma geringonça especial para fazer seu trabalho: uma câmera de fechadura que ele mesmo inventou. E ele tem muitos inimigos em sua cola, incluindo Kismet - Peter Lorre num papel que exigia dele nada além de parecer sinistro, algo em que ele é muito bom, como foi possível ver em “M - O vampiro de Dusseldorf” (1931), de Fritz Lang - e o nem tão ameaçador Willie, interpretado por Lon Chaney Jr.  


Like many other famous detectives, Ronnie has a special gadget to do his work: a keyhole camera he invented himself. And he has many enemies after him, including Kismet - Peter Lorre in a role that demanded from him nothing more than looking sinister, something he’s very good at, as we could see in Fritz Lang’s “M” (1931) - and the not-so-threatening Willie, played by Lon Chaney Jr.

Apenas um ano após o termo “filme noir” ser usado pela primeira vez pelos franceses, Hollywood já estava fazendo paródia do gênero. Claro, eles ainda estavam classificando estes filmes como “filmes de detetives durões”, mas são paródias claras. Duas coisas que o filme noir tem em comum com “minha Morena Linda” são os já mencionados flashback e narração em voiceover, mas podemos adicionar à lista: o detetive - uma participação especial bem bolada -, o mistério complexo e a femme fatale que não é tão “fatale” assim aqui.   


Only one year after the term “film noir” was used by the first time the French, Hollywood was already making fun of the genre. Of course, they were still labeling these pictures as “hard-boiled detective films”, but they are parodies anyway. Two things film noir has in common with “My Favorite Brunette” are the aforementioned flashback structure and voiceover narration, but we can add to the list: the detective - a very wise cameo -, the convoluted mystery and the femme fatale that is not so “fatale” in here.

Conta-se que Bob Hope conheceu Dorothy Lamour em 1932, quando ela era cantor num bar de hotel de Nova York. Com Lamour e Bing Crosby - que Bob também conheceu em 1932 - Bob Hope fez a famosa série de filmes “Road to...”. Nessas comédias, havia elementos de outros gêneros e Hope em geral não ficava com a garota no final: ela preferia ficar com o mais charmoso da dupla, ou seja, Crosby. Hope tentou inverter essa situação em seus filmes solo, como em “Minha Morena Linda”.  


It’s said that Bob Hope met Dorothy Lamour in 1932, when she was a singer at a New York hotel bar. With Lamour and Bing Crosby - who Hope also met for the first time in 1932 - Bob Hope made the famous “Road to…” film series. In these comedies, there were elements of other genres and Hope usually didn’t get the girl in the end: she preferred to be with the most charming of the duo, that is, Crosby. Hope sought to invert this situation in his solo movies, such as “My Favorite Brunette”.

Como ele mesmo, Bob Hope fez cerca de mil aparições na TV e no cinema - isso sem contar no rádio, onde ele também era figurinha carimbada. Ele também apresentou os Oscars 18 vezes. Hope fez uma aparição no Show dos Muppets e participou de alguns especiais dos Muppets rodados na Inglaterra, terra natal de Hope. Diversos clipes de “Minha Morena Linda” foram usados em um episódio da série Muppets Babies.


As himself, Bob Hope counts about a thousand appearances on TV and film - not counting radio, where he was a pro as well. He also hosted the Oscars 18 times. Hope appeared at The Muppet Show and guest starred in some Muppets specials shot in England, Hope’s motherland. Several clips of “My Favorite Brunette” were used in a Muppets Babies episode.

Com muita ação e humor, “Minha Morena Linda” é uma paródia sólida e divertida dos filmes de detetives durões que eram populares na década de 1940. É um filme em domínio público, o que o faz ser facilmente encontrado numa simples busca no YouTube. É um filme que começa e termina com boas risadas - algo que Bob Hope era mestre em entregar para o público.


With a lot of action and humor, “My Favorite Brunette” is a solid and entertaining parody of the hard-boiled detective movies that were popular in the 1940s. It’s a film on the public domain, which makes it pop up several times in a simple YouTube search, and a film that starts and ends with good laughs - something Bob Hope was a master at.


This is my contribution to The Great Muppet Guest Star Caper blogathon, hosted by Gill and Rebecca from RealWeegieMidgtet Reviews and Taking Up Room.  

Sunday, March 13, 2016

Tudo Começou no Trópico / Swing High, Swing Low (1937)

Você gosta de ver duas pessoas se apaixonando, e depois enfrentando os desafios do relacionamento? Eu não gosto, mas mesmo assim dei uma chance a “Tudo Começou no Trópico / Swing High, Swing Low”, de 1937. E sabe por quê? Porque eu adoro analisar representações de países tropicais e seus habitantes em filmes antigos. Normalmente esta representação não é muito lisonjeira, e aqui não foge à regra.
Maggie (Carole Lombard) trabalha como cabeleireira em um navio que está cruzando o canal do Panamá rumo ao Hemisfério Sul. É observando o funcionamento do canal que ela conhece o soldado Skid (Fred MacMurray), que está prestes a pedir dispensa do exército. Quando Maggie e sua amiga chegam na Cidade do Panamá e vão fazer um passeio, o guia turístico que elas encontram é justamente Skid.
A barraca em que Skid as leva para comer lagosta tem ares de cais orientais, como vemos em “O Véu Pintado / The Painted Veil” (1934) e “Mares da China / China Seas” (1935). Quando os panamenhos falam espanhol e Maggie não entende, é o diálogo de reclamação dela que se sobrepõe à fala dos nativos. É mais importante ouvir a incompreensão dos norte-americanos do que a língua falada pelos habitantes locais.
Em seguida, Skid e Maggie vão a um bar com música ao vivo, onde ela é importunada por um Anthony Quinn muito jovem, com quem Skid briga. A confusão leva o casal a passar uma noite na cadeia (nas comédias românticas dos anos 30 todo mundo é preso pelo menos uma vez) e, quando são soltos, veem que o navio de Maggie já zarpou.
Morando na cabana tropical rústica de um amigo de Skid, ele e Maggie vão procurar trabalho, e ela logo consegue ocupação para ambos em um clube. Para isto, entretanto, ela precisa mentir que eles são recém-casados.
Skid toca trompete na banda, e Maggie é dançarina no clube. Outra dançarina e cantora é Anita Alvarez (Dorothy Lamour), a estrela do show e antiga namorada de Skid. Logo Maggie e Skid terão uma chance de chegar ao centro do palco quando começarem a compor suas próprias músicas.
Dorothy Lamour sofreu da maldição que todas as mulheres exóticas sofrem em Hollywood: mesmo se nascidas nos Estados Unidos, elas são sempre associadas a pequenos papéis de sedutoras estrangeiras. A própria associação com sedução e pecado começa na escolha do nome artístico de Mary Leta Dorothy Slaton, Miss New Orleans 1931. Sim, a primeira associação é com a palavra francesa “l'amour”, embora outras fontes garantam que Dorothy teria se inspirado no sobrenome de seu padrasto, Lambour, para escolher seu nome artístico.
A carreira de Dorothy foi marcada por um sarongue que ela usou em seu primeiro sucesso como protagonista: “A Princesa da Selva”, de 1936. Papel semelhante de nativa ela teve em “O Furacão” (1937), uma obra subestimada de John Ford, com ótimos efeitos especiais e excelentes atuações. Dorothy também ficou conhecida por atuar ao lado de Bob Hope e Bing Crosby na série de filmes “Road to...”, e até interpretou uma brasileira em “A Caminho do Rio / Road to Rio” (1947).
Apesar de o filme ser previsível, há uma reviravolta perto do final que surpreende positivamente: tendo muito sucesso como trompetista, Skid precisa enfrentar seus velhos vícios no jogo e na bebida. Sua decadência está ligada à figura de Anita, a dançarina femme fatale, e garante bons momentos dramáticos para Fred MacMurray. Quem perdeu com a reviravolta foi Dorothy Lamour e todas as mulheres latinas, desde sempre e talvez para sempre associadas ao pecado e à tentação.
This is my contribution to the Dorothy Lamour Blogathon, hosted by Ruth at Silver Screenings and Maedez at Font and Frock.

Wednesday, July 15, 2015

A Caminho do Rio / Road to Rio (1947)

O ano é 1947. Desde 1944 Bing Crosby detinha o título de ator com maior sucesso de bilheteria. Em uma situação muito confortável, ele fez com seus parceiros Bob Hope e Dorothy Lamour o quinto dos sete filmes da série “Road to...”, que misturavam comédia, romance e musical em cenários exóticos. Desta vez os três astros iriam para o Rio de Janeiro, e o resultado, além de um filme divertidíssimo, é a imagem mais fiel do Brasil pintada pela era de ouro dei Hollywood.
É como Crosby, junto com as Andrews Sisters, canta sobre o Brasil: não é preciso entender a língua para compreender o que acontece aqui. Bastam a lua, o céu e uma garota nos seus braços. Aí é só olhar fundo nos olhos dela e as palavras serão supérfluas. Mas o riso é garantido.
Scat Sweeney (Bing Crosby) e ‘Hot Lips’ Barton (Bob Hope) estão atrás de mulheres. A busca da dupla já terminou com tiros e homens irados em diversos estados dos Estados Unidos, e a nova empreitada deles também é um fracasso: eles fazem, literalmente, um circo pegar fogo. Na fuga desesperada, eles entram como clandestinos no navio “Queen of Brazil”.

No navio viajam Lucia Maria de Andrade (Dorothy Lamour), sua tia / guardiã / hipnotizadora Catherine Vail (Gale Sondergaard) e mais uma galeria de personagens com alto potencial cômico, incluindo uma banda. Metade do filme se passa neste trajeto que por vezes fica lento, mas nunca cansativo.
Eles são recebidos no Brasil com a mesma música que recebeu o pato Donald cinco anos antes: “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso. A música, só instrumental, sem letra, também acompanha os créditos iniciais, quando os nomes do trio protagonista aparecem dançando sobre a paisagem de Copacabana.

Felizmente, não há os absurdos costumeiros que vemos quando o Brasil é mostrado no cinema de Hollywood. Não há macacos nem papagaios nas ruas e as pessoas não falam espanhol. Bing Crosby, para surpresa geral, pronuncia até muito bem algumas frases em português. É incrível pensar que cenários tão realistas, como a roda de samba, o hotel e a mansão que aparece no final do filme, foram todos construídos nos estúdios Paramount, mas, obviamente, com boa pesquisa prévia. Observe as roupas dos músicos, os instrumentos e até os cartazes em português! 
E são os Wiere Brothers, também falando um pouco de português, que roubam a cena. Os três irmãos Wiere nasceram na Europa, durante as muitas viagens teatrais dos pais, e foram para os Estados Unidos na década de 1930, mas fizeram poucos filmes. Os palcos continuaram sendo sua morada.
A maioria das piadas vem de diálogos espirituosos, mas há duas longas sequências mudas: na primeira, Hope e Crosby se passam pelo barbeiro e pelo engraxate do navio, e destroem o bigode de um passageiro; e na segunda há uma confusa troca de chapéus, no melhor estilo comédia pastelão / slapstick comedy.

Talvez “Road to Rio” não seja um filme realmente especial. Mesmo assim, foi o sexto maior sucesso de bilheteria de 1947, arrecadando o equivalente a 4,5 milhões de dólares. É uma comédia excelente, do tipo que não é mais feito na atualidade, e que consegue ser ao mesmo tempo um pouquinho apimentada e inteligentemente inocente. Porque é essa mágica que o Rio de Janeiro fez com Crosby, Hope e Lamour.

This is my contribution to the 1947 blogathon, hosted by Karen at Shadows and Satin and Kristina at Speakeasy. 

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