Fred
Astaire e Ginger Rogers formaram uma das duplas mais famosas do cinema. Suas
figuras são tão indissociáveis quanto as de O Gordo e o Magro, Romeu e Julieta
ou Tom e Jerry. Dançaram juntos em dez musicais que renderam milhões nas
bilheterias. Era de se esperar que tamanho sucesso da dupla criasse um imenso
legado e rendesse diversas homenagens. Foi isso que o cineasta italiano
Federico Fellini fez em 1985, quando reuniu em uma sátira à televisão dois de
seus colaboradores favoritos: os atores Marcello Mastroianni e Giulietta
Masina.
Frederic
Austerlitz nasceu em 1899. Doze anos depois nasceu sua futura parceira,
Virginia Katherine MacMath. Ele começou
a dançar aos cinco anos ao lado da irmã Adele. Ginger só iria para os palcos
aos 14, depois de ganhar um concurso de Charleston. Eles se conheceram na
Broadway, nos ensaios de “Gun Crazy”, mas seria apenas em 1933, nas filmagens
de “Voando para o Rio / Flying Down to Rio” que eles dançariam juntos. Apesar
de coadjuvantes, fizeram sucesso e a RKO logo os escalou para mais musicais.
Eram filmes de roteiro simples, que serviam apenas como veículos para elaborados
números.
Surgiram
muitos boatos de que a dupla não se dava bem longe das câmeras, algo que nunca
foi confirmado ou negado. Depois do fracasso de “A história de Vernon e Irene
Castle”, em 1939, eles seguiram caminhos diferentes. Ginger revezou papéis
dramáticos e cômicos, ganhando um Oscar em 1941. Fred continuou dançando com
outras mulheres belas e talentosas, a exemplo de Rita Hayworth, Cyd Charisse,
Judy Garland, Audrey Hepburn e Leslie Caron. Depois que envelheceu, fez papés
dramáticos, participou de séries e foi indicado a um Oscar como Ator
Coadjuvante por “Inferno na Torre / Towering Inferno”, em 1974.
Em 1985,
quando a televisão já predominava sobre o cinema, o cineasta Federico Fellini
atacou o jovem meio de comunicação mostrando os bastidores grotescos de um
programa de variedades. Em meio ao show de horrores um ex-casal de dançarinos
tenta voltar à cena, depois de trinta anos sem se apresentar. Amelia e Pippo bailavam como Fred e Ginger e depois da aposentadoria dos palcos seguiram suas vidas.
Ou melhor, ela seguiu, enquanto ele cultivou a saudade. Novamente Federico
trata do tema do saudosismo, atacando a nova forma de diversão popular. As
demais atrações são pitorescas, mas Amelia e Pippo também têm sua dose de
comédia.
Aqui, ao
contrário do filme “Monstros / Freaks”, de 1932, estamos frente a um show de horrores
ao qual os participantes vão por livre e espontânea vontade. E talvez isso os
torne ainda mais repugnantes. Nem se tivesse uma bola de cristal Fellini
poderia imaginar que estava criando um filme que continuaria tão atual. Ainda
hoje, com a mania de correr atrás dos 15 minutos de fama, as mais variadas pessoas
se submetem a reality shows e outros programas de televisão (ou vídeos na
Internet) mostrando seus duvidosos talentos. E, como o diretor italiano, nós
também olhamos incrédulos, suspirando pelo esquecimento de talentos verdadeiros
de Ginger & Fred.
Assim
como os dançarinos de Fellini, Fred e Ginger se reencontraram: fizeram mais um
musical, “Ciúme, sinal de amor / The Barkleys of Broadway” (1949) e, em 1950, quando
Fred ganhou seu Oscar honorário, foi Ginger quem lhe entregou o prêmio.