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Friday, November 15, 2019

Fernando Pessoa e o cinema / Fernando Pessoa and film


Os dois escritores mais famosos de Portugal são o romancista José Saramago – que inclusive ganhou o Nobel – e o poeta Fernando Pessoa. Enquanto Saramago chegou a Hollywood com a adaptação paras as telas de seu livro “Ensaio Sobre a Cegueira” em 2008 – curiosamente dirigido pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles – Pessoa nunca chegou a Hollywood. De acordo com o IMDb, seus escritos serviram de base para 36 produções, a maioria curtas-metragens. Mas o próprio Pessoa já havia sonhado em conquistar as telas.

The two most famous writers from Portugal are novelist José Saramago – who is also a Nobel laureate – and poet Fernando Pessoa. While Saramago made it to Hollywood when his novel “Ensaio Sobre a Cegueira” (Essay on Blindness) was adapted for the screen as the film “Blindness” (2008) – curiously directed by Brazilian director Fernando Meirelles – Pessoa never made it to Hollywood. According to IMDb, his writings were the base for 36 productions, most of them shorts. But Pessoa himself once dreamed about reaching the screen.


É importante dizer que Fernando Pessoa não era só um: ele era múltiplo. Ele criou diversos heterônimos para escrever em estilos diferentes e sobre assuntos diversos – e até criou biografias para eles. Um destes heterônimos era Álvaro de Campos, um poeta futurista, engenheiro e quase sempre um homem amargo. Em seu poema “Carnaval” ele diz: “Fitas de cinema correndo sempre / E nunca tendo um sentido preciso”. Álvaro de Campos criticava tudo, incluindo o cinema.

It’s important to say that Fernando Pessoa wasn’t just one: he was multiple. He created several alter egos / heteronyms to write in different styles and about different subjects – and even created biographies for them. One of these alter egos was Álvaro de Campos, a futuristic poet, an engineer and almost always a bitter man. In his poem “Carnaval” he says: “Film reels always running / And never having a precise sense”. Álvaro de Campos criticized everything, including cinema.
 
Fernando Pessoa Not Himself
(oil on canvas, 1976 by António Costa Pinheiro)
Mas o próprio Fernando Pessoa pensava que o cinema poderia ser muito útil para promover Portugal em terras estrangeiras. Então, o que ele fez? Ele planejou abrir uma companhia cinematográfica! Seu empreendimento, que seria chamado Cosmopolis, produziria filmes especiais de propaganda, mostrando o melhor lado do moderno e agora democrático país que era Portugal – o país se tornou uma república em 1910, abandonando o regime monárquico.

But Fernando Pessoa himself thought that cinema could be very useful to promote Portugal in foreign lands. So, what did he do? He planned to open a film company! His endeavor, to be called Cosmopolis, would produce special propaganda films, showing the best side of the modern and now democratic Portugal – the country became a republic in 1910, abandoning the monarchic government.
 
"I have in me all the dreams of the world"
O plano da Cosmopolis foi feito no final da década de 1910 e logo abandonado. Mas Pessoa voltou nos anos 20 com uma nova ideia: uma produtora de cinema a ser chamada de Ecce Film, que teria sua sede na famosa Rua de São Bento, 333-335, onde muitos filmes já haviam sido feitos. Este empreendimento também não se realizou. Mas Pessoa não se importou, pois em meados dos anos 1920 ele estava escrevendo argumentos para o cinema.

The Cosmopolis plan was made in the late 1910s and soon abandoned. But Pessoa came back in the 1920s with a new idea: a film production company to be called Ecce Film, and to have its headquarters at the famed São Bento Street, 333-335, where many films had been shot. This endeavor also didn’t become true. But Pessoa didn’t care, as in the mid-1920s he was actually writing film arguments.


Os sete argumentos que Fernando Pessoa escreveu foram mantidos em segredo por quase 80 anos, e em 2011 eles foram reunidos no livro “Argumentos para Filmes” pelos pesquisadores Patricio Ferrari e Claudia Fischer. Pessoa escreveu os argumentos em português (apenas os diálogos), inglês e francês, e estes textos podem ser divididos em duas categorias: thrillers (cinco deles) e comédias (os outros dois).

The seven arguments Fernando Pessoa wrote were kept a secret for nearly eighty years, and in 2011 they were reunited in the book “Argumentos para Filmes” (that is, Movie Scripts), by researchers Patricio Ferrari and Claudia Fischer. Pessoa wrote the arguments in Portuguese (dialogues only), English and French, and these texts can be divided in two categories: thrillers (five of them) and comedies (the other two).


Um argumento, intitulado “Três Andares”, demonstraria as desigualdades sociais através de três famílias de um mesmo prédio, mas de diferentes classes sociais, que executam a mesma ação. Um thriller inclusive apresenta o uso do MacGuffin: neste filme, um milionário cruzaria o Atlântico de navio levando consigo um objeto valioso e acompanhado por um detetive particular, e então várias pessoas tentariam roubar este objeto... apenas para descobrir no final que o objeto real já havia sido enviado em outro navio na semana anterior.

One argument, called “Three Floors”, would demonstrate social inequalities by having three families from the same building but from different social classes do the same actions. One thriller even has a clever use of the MacGuffin: in this film, a millionaire would cross the Atlantic by ship taking a valuable object with him and accompanied by a private detective, then several people try to steal this object... only to find out in the end that the real object had been shipped a week earlier in another ship.
Lisbon in the 1920s
É também interessante notar que Pessoa escreveu, em 1930: “Com exceção dos alemães e dos russos, ninguém ainda colocou nada de arte no cinema”. Ele parece refletir aqui a opinião de outros escritores portugueses que escreviam e publicavam a revista Presença e geralmente davam destaque aos filmes alemães e soviéticos. Embora Pessoa criticasse os “homens vazios do cinema”, comparando Mary Pickford e Rodolfo Valentino a aventureiros tolos que apenas queriam quebrar recordes de velocidade (ele usa as palavras “viciados em velocidade, estrelas de papelão do cinema”), uma revista com anotações encontrada em seus pertences mostra que ele estava particularmente interessado no mapa astral de Joan Crawford.

It’s also interesting to see that Pessoa wrote, in 1930: “Except the Germans and the Russians, no one has as yet been able to put anything like art into the cinema”. He seems to reflect here the opinion of fellow Portuguese writers who wrote and published the magazine Presença (Presence) and often highlighted German and Soviet films. Although Pessoa criticized the “film hollow men” of Hollywood, comparing Mary Pickford and Rudolf Valentino to silly adventurers who only wanted to break speed records (he uses the words “speed dopers, film cardboarders”), an annotated magazine found in his belongings shows that he was particularly interested in Joan Crawford’s astrology chart.


Fernando Pessoa faleceu em 1935 aos 47 anos – por causa de cirrose ou pancreatite. Ele deixou muitos trabalhos e empreendimentos inacabados, incluindo todos estes mencionados na seara do cinema. Companhia cinematográfica, produtora de filmes, argumentos fílmicos: é bastante coisa para alguém que escreveu, em uma carta de 1929 para o amigo José Régio: “Ao inquérito sobre cinema não responderei. Não sei o que penso do cinema.”

Fernando Pessoa passed away in 1935 at age 47 – due to either cirrhosis or pancreatitis. He left many works and endeavors unfinished, including all these mentioned in the film world. Film company, production company, seven arguments: it’s a lot for someone who wrote, in a 1929 letter to his friend José Régio: “I won’t answer the questionnaire about cinema. I don’t know what I think about cinema.”

"Como Fernando Pessoa Salvou Portugal" (2018)
Fontes:

FERRARI, Patricio. FISCHER, Claudia. Fernando Pessoa: Argumentos para Filmes. Lisboa: Editora Ática, 192 p, 2011.

FRIAS, Joana Matos. Transforma-se o espectador no próprio espectáculo: O desassossego fílmico de Fernando Pessoa.

MARTONI. Alex Sandro. O cinema de Fernando Pessoa. Cadernos de Letras da UFF - Dossiê: Palavra & Imagem n° 44, p. 393-398, 2012.

SANTIAGO, Silviano. Fernando Pessoa e o cinema. Estado de São Paulo, 09 de junho de 2012.

This is my contribution to the Luso World Cinema Blogathon, hosted by Beth and me at Spellbound by Movies and here at Crítica Retrô. 



Monday, November 11, 2019

Entrevistando Grace Kelly / Grace Kelly interviewed

Grace Kelly foi uma das pessoas mais famosas do século XX. Milhares de fotos dela foram tiradas, centenas de artigos foram escritos sobre ela, sua vida e seus filmes. Em jornais e revistas do mundo todo havia especulações sobre sua vida amorosa, seu estilo, seus próximos filmes, e então sobre as preparações do seu casamento com o Príncipe Rainer de Mônaco e mais especulações sobre se ela voltaria ou não para Hollywood. Mas era só de vez em quando que a própria Grace sentava-se com jornalistas e respondia às suas perguntas.

Grace Kelly was one of the most famous people of the 20th century. Thousands of photos were taken of her, hundreds of articles were written about her, her life and her films. In newspapers and magazines all over the world, there were speculations about her love life, her style, her upcoming film projects, then the preparations for her wedding with Prince Rainer of Monaco and more speculations about whether or not she would go back to Hollywood. But it was only once in a while that Grace herself sat with journalists and answered their questions. 



Uma das revistas mais populares do século XX no Brasil se chamava “O Cruzeiro”. Ela foi publicada semanalmente entre 1928 e 1985, e tratava de diversos assuntos, incluindo cinema. A revista inclusive tinha vários correspondentes estrangeiros escrevendo diretamente dos EUA e da Europa.

One of the most popular magazines of the 20th century in Brazil was called “O Cruzeiro”. It was published weekly between 1928 and 1985, and it dealt with several subjects, including cinema. The magazine even had several foreign correspondents writing directly from the US and Europe. 




Estes correspondentes nem sempre eram bondosos com as estrelas de cinema – em quatro de dezembro de 1954, por exemplo, um correspondente chamado Álvares da Silva foi duro em sua crítica a Grace Kelly, dizendo que ela tinha “muita água e pouco açúcar”, ou seja, que ela não tinha talento nem sex appeal. O autor também diz que Hollywood estava tentando transformar Grace em uma nova Ingrid Bergman.

Those correspondents were not always kind to the movie stars – on December 4th 1954, for instance, a correspondent called Álvares da Silva was strong in his criticism of Grace Kelly, saying she had “too much water and too little sugar”, that is, that she had neither talent nor appeal. The author also says that Hollywood was trying to turn Grace into a new Ingrid Bergman.




Mas nem todos os jornalistas são duros com Grace Kelly. Em 1955, ele foi mencionada muitas vezes em “O Cruzeiro”. Grace havia acabado de ser eleita a atriz mais popular do mundo pelos correspondentes estrangeiros, e ganhou um troféu batizado de “Henrietta”. Um jornalista escreve um longo artigo comparando Grace e Gina Lollobrigida, e não consegue chegar a um veredicto sobre qual das duas é mais bela.

But not all journalists are hard to Grace Kelly. In 1955, she was mentioned several times in “O Cruzeiro”. Grace had just been named the most popular actress in the world by foreign correspondents, and won a trophy called “the Henrietta”. One journalist writes a long article comparing Grace and Gina Lollobrigida, and can’t reach a verdict about which one is prettier. 




Grace também aparece em décimo lugar numa lista de mulheres mais bem vestidas de 1955. Curiosamente, empatada com ela está a rainha Frederica da Grécia, e a revista traz os dizeres: “uma rainha de verdade empata em elegância com uma rainha de mentira”. Eles nem imaginavam que Grace iria se tornar uma princesa de verdade! Em 1956, Grace foi escolhida como a mulher mais elegantedo mundo.

Grace also appears in 10th in a list of best dressed women of 1955. Curiously, tied with her there is Queen Frederica from Greece, and the magazine says: “a real queen ties in elegance with a fake queen”. Little did they know that Grace would become a real princess! In 1956, Grace was voted as the most elegant woman in the world.



Mais tarde em 1955 o jornalista Pedro Lima foi indiscreto e escreveu sobre todos os casos que se dizia que Grace teve em Hollywood. Ele diz que, “sem ser realmente bonita”, Grace estava envolvida em muitos triângulos amorosos. Sim, a revista era cheia de fofocas e críticas!

Later in 1955 journalist Pedro Lima was indiscreet and wrote about all affairs Grace was said to have had in Hollywood. He says that, “without being really beautiful”, Grace was involved in several love triangles. Yes, the magazine was full of gossip and criticism!




Felizmente, também havia alguns jornalistas mais profissionais escrevendo para “O Cruzeiro”. A correspondente brasileira mais famosa em Hollywood era Dulce Damasceno de Brito, e ela preferia se encontrar com as estrelas em vez de repetir fofocas. Ela começa seu artigo sobre Grace Kelly dizendo que ela e Marilyn eram as duas atrizes mais populares naquele ano – mas não se podia compará-las, porque elas eram completamente diferentes.

Fortunately, there were some more professional journalists writing for “O Cruzeiro” as well. The most famous Brazilian correspondent in Hollywood was Dulce Damasceno de Brito, and she preferred to meet the stars before repeating gossip. She starts her article about Grace Kelly saying that she and Marilyn were the most popular actresses of the year – but there couldn’t be a comparison, because they were completely different.

Dulce Damasceno de Brito

Então, Dulce divulga alguns pensamentos que Grace teve durante a filmagem de “Amar é Sofrer” (1954): “[…] confesso que sentia medo ante a responsabilidade de substituir Jennifer [Jones, que teve de abandonar a produção por estar grávida], principalmente porque a Paramount insistira tanto para que a Metro me emprestasse... E eu receava desapontá-la. Passei noites em claro estudando o papel”.

Then, Dulce shares some thoughts Grace had during the filming of “The Country Girl” (1954): “[…] I confess that I was afraid of the responsibility to replace Jennifer [Jones, who had to abandon the project when she got pregnant], mainly because Paramount insisted so much so Metro could lend me… And I was afraid of disappoint them. I spent nights awake studying the role”.



Finalmente Dulce lhe pergunta sobre a noite em que ela ganhou o Oscar. Grace confessa: “Eu nunca poderia explicar a emoção de receber um Oscar. A gente sente vontade de rir, de chorar, de gritar... e de ficar parada, deixando apenas as lágrimas rolarem pelo rosto abaixo! Jamais poderia imaginar tal emoção. Só passando por isso é que se avalia o tremendo valor daquela estatueta!”.

Finally Dulce asks her about the night she won her Oscar. Grace confesses: “I could never explain the emotion of receiving an Oscar. We feel like laughing, crying, screaming… and like standing still, letting only the tears go down our face! I could never imagine such a feeling. Only by going through it you can evaluate the huge value of that statue!”




Dulce então conta ao leitor que Grace fala mansamente e é doce, e às vezes se parece com uma adolescente conversando animadamente sobre a escola. O assunto muda para o primeiro papel de Grace no cinema: “Consegui esta ponta no cinema depois de haver participado de 70 peças na televisão em New York!” Dulce fala um pouco sobre a vida amorosa de Grace e sobre como ela estava sendo vista com o estilista Oleg Cassini. Dulce termina a entrevista dizendo que a doce Grace Kelly estava de partida para Cannes.

Dulce then telling the reader that Grace speaks softly and is sweet, and sometimes looks like a teenager talking happily about school. The subject changes to Grace’s first film role: “I got this bit role in a film after I had been in 70 TV plays in New York!” Dulce then talks a little about Grace’s love life and how she was then being seen with stylist Oleg Cassini. Dulce ends the interview saying that the sweet Grace Kelly was leaving for Cannes.




Dulce entrevistou Grace uma segunda e última vez quando ela estava prestes a se casar e deixar Hollywood. Nesta ocasião, entre outras coisas, Dulce perguntou a Grace quando exatamente ela se apaixonou por Rainer. Ela respondeu: “Exatamente no dia de Natal de 1955, na casa de meus pais, em Filadélfia. Foi uma espécie de amor à segunda vista”.

Dulce interviewed Grace a second and final time when she was about to get married and leave Hollywood. In this occasion, among other things, Dulce asked Grace when exactly she fell in love with Rainer. She answered: “Exactly on Christmas Day, 1955, at my parents’ house, in Philadelphia. It was kind of love at second sight”. 




Ela também perguntou a Grace se ela queria prosseguir com sua carreira no cinema. A resposta foi: “Não. Da mesma forma com que me dediquei intensamente à carreira artística por pura vocação, pretendo dedicar-me de corpo e alma aos deveres sociais e de estado de uma princesa, posição esta que assumo por verdadeiro amor”. Ela também disse que as duas coisas que mais tinha em comum com o príncipe eram “senso de humor e religião”.

She also asked Grace if she wanted to go on with her film career. The answer was: “No. The same way that I have immensely dedicated myself to the artistic career because of a calling, I intend to dedicate myself, body and soul, to the social and Estate duties a princess has, as I claim this position with true love”.




Depois do casamento de Grace com o príncipe Rainer de Mônaco, ela continuou sendo assunto na revista. Um artigo de 1956 especulava se ela estava grávida de gêmeos. Outro artigo afirma que a história de amor de Grace foi uma história da moça que vai da pobreza à riqueza, porque o pai dela era pedreiro – o que não é verdade. Ao todo, há 179 menções a Grace Kelly na revista “O Cruzeiro”.

After Grace’s wedding with Prince Rainer of Monaco, she kept on being a subject in the magazine. A 1956 article speculated if she was pregnant with twins. Another article claims that Grace’s love story was a real rags to riches tale, because her father was a bricklayer – which he definitely wasn’t. There are, at total, 179 mentions to Grace Kelly in the “O Cruzeiro” magazine.




Grace também esteve na revista “O Cruzeiro” em uma propaganda de sabonete – que você pode ver abaixo – e esteve também na capa da revista. Como um dos rostos mais reconhecíveis do século XX, Grace Kelly foi presença constante em revistas por todo o mundo.

Grace also appeared at the “O Cruzeiro” magazine in an ad for soap – you can see it below – and she was on the cover of the magazine as well. As one of the most recognizable faces of the 20th century, Grace Kelly was a constant presence in magazines all over the world.




This is my contribution to the 5th Wonderful Grace Kelly blogathon, hosted by Samantha, Emily and Virginie at Musings of a Classic Film Addict, The Flapper Dame and The Wonderful World of Cinema.


Saturday, May 25, 2019

Jeanne Crain: pintora / Jeanne Crain: painter


Eu amo, amo, amo Jeanne Crain. Eu amo o cabelo dela – quero imitar aqueles penteados! - o sorriso dela, os olhos dela, o rosto dela. Eu amo os filmes dela. Eu amo a persona doce dela em seus filmes, e as personagens mais distantes dessa doçura em filmes ousados como “O que a Carne Herda” (1949), o primeiro filme que vi com ela. E eu amo o fato de ela ter muitos talentos. Além de ser uma boa – e subestimada – atriz, Jeanne também foi uma ótima pintora.

I love, love, love Jeanne Crain. I love her hair – goals! - her smile, her eyes, her face. I love her movies. I love her sweet on screen persona, that could be changed and challenged in risky movies like “Pinky” (1949), the first I've watched with her. And I love the fact that she had many talents. Besides being a fine – and underrated – actress, Jeanne was also a very good painter.


De acordo com um artigo de 1992 do Chicago Tribune, Jeanne Crain amava arte desde cedo. Na adolescência, ela começou a fazer peças no sul da Califórnia, e logo procurou trabalho como modelo e participou de concursos de beleza para ser notada, com a esperança de se tornar atriz em Hollywood. Funcionou: aos 17 anos ela assinou seu primeiro contrato, e dois anos depois seu primeiro filme estreou.

According to a 1992 Chicago Tribune article, Jeanne Crain loved art since she was young. In her teen years, she started appearing in plays in Southern California, and soon she sought work as a model and participated in beauty contests to be noticed, in the hopes of becoming a Hollywood actress. It worked: at 17 she signed her first contract, and two years later her first film was released.


Jeanne Crain passou a se dedicar ao cinema e à família, pois ela teve, pasmem, sete filhos! Seu amor pela arte, pelo desenho e pela pintura, entretanto, não desapareceu. Em 1953 seu marido construiu um estúdio em casa para Jeanne poder pintar. Ela só pôde se dedicar mais à pintura a partir dos anos 70, quando deixou de fazer filmes e apenas esporadicamente fazia televisão. Jeanne pintava principalmente retratos.

Jeanne Crain then dedicated herself to films and to family, as she had astounding seven children! Her love for art, drawing and painting, however, didn't disappear. In 1953 her husband built a studio in their house for Jeanne to exercise her passion. She was only really able to paint more starting in the 1970s, when she stopped making films and only sporadically appeared on TV. Jeanne painted mainly portraits.


Nos anos 80, muitas de suas pinturas foram exibidas em galerias como a Mascagni diItaly e as galerias da Westwood Art Association. Mesmo Jeanne Crain não podendo explorar a paixão pela pintura o tempo todo, ela foi capaz de se tornar uma ótima pintora. Infelizmente, não é possível encontrar muito sobre suas pinturas na internet desde o fechamento do seu site oficial, mas ao menos foi possível ver, com essa pequena amostra, que Jeanne era uma verdadeira artista em mais de um sentido.

In the 1980s, many of her paintings were exhibited in galleries such as the Mascagni diItaly and the Westwood Art Association Galleries. Although Jeanne Crain never explored her passion for painting full-time, she was able to become a fine painter. The worst part is that there is not much about her paintings on the internet since her official website was shut down, but at least we could see, by the small sample, that Jeanne was a true artist in more than one way.


This is my contribution to the Jeanne Crain blogathon, hosted by Christine at Overture Books and Film.


Saturday, March 2, 2019

Dicas de beleza de Jean Harlow / Jean Harlow's beauty tips


Jean Harlow é uma das minhas atrizes favoritas. Ela podia fazer tanto comédia quanto drama com perfeição, ela seduzia como ninguém, ela era charmosa e tinha um sorriso adorável – na verdade, eu acredito que ela era uma pessoa adorável. E ela era maravilhosa. Eu sei que a maioria das fotos eram posadas e com muita maquiagem, mas não há uma foto de Jean em que ela não pareça uma deusa. Por isso eu pensei: o que Jean Harlow fazia para ser tão encantadora?

Jean Harlow is one of my favorite actresses. She could do both comedy and drama with perfection, she could seduce like no one, she was charming and had a lovely smile – in fact, I believe she was lovely to be around. And she was marvelous. I know that most are glamour photos, especially posed and with lots of make-up, but there is not one picture of Jean in which she doesn't look like a goddess. So I thought: what did Jean Harlow do to be so alluring?


Começamos com as sobrancelhas. Nos anos 30, sobrancelhas muito finas estavam na moda, e muitas mulheres escolhiam remover completamente suas sobrancelhas naturais e desenhar uma nova com maquiagem. As sobrancelhas de Jean eram muito curvadas, o que dava um toque dramático ao visual. Eu ainda prefiro minhas sobrancelhas naturais e espessas – nada da moda de 1930.

We begin with the eyebrows. In the 1930s, incredibly thin eyebrows were fashionable, and many women chose to pluck away their natural eyebrows completely and then draw a thin new one with makeup. Jean's eyebrows were very curved, which added drama to the look. I actually prefer my natural, wider eyebrows than the 1930s fashion.


Para os olhos, Jean provavelmente seguia a moda, usando sombra para chamar a atenção para os olhos e rímel apenas nos cílios inferiores para levantar o olhar. Algumas fontes dizem que ela tinha cílios naturalmente longos – como eu não tenho, eu costumo usar rímel apenas nos cílios superiores, mas devo confessar que usá-lo nos cílios inferiores faz uma grande diferença.

For her eyes, Jean probably went on with the fashion, using eye shadows to drive attention to the eyes and mascara only in the lower lashes to lift her eyes out. Some sources said she had naturally long upper lashes – since I don’t, I actually use mascara only in the upper lashes, but I must confess that using them in the lower lashes makes a good difference.


Depois, a pintinha. A pinta no rosto de Jean Harlow era migrante. Por muito tempo, pintas foram desejadas e, se você não tivesse uma, podia fazer uma. Foi o que Jean fez, mas ela mudava sempre a localização do pequeno detalhe no rosto.

Then, the beauty mark. Jean's beauty mark was a migrating one. For a long time beauty marks were desired and, if you didn’t have one, you could fabricate one. Jean did that, but kept changing the location of the little detail in her face.


E há também o cabelo. Eu imediatamente desisti da ideia de me tornar uma loira platinada porque cabelo loiro não me favorece, mas é interessante ler sobre o cuidado de Jean com o cabelo. Ela tinha uma ótima parceria com Max Factor, o homem por trás da marca de cosméticos. Foi Max que inventou o termo “Blonde Bombshell”, e ele foi também responsável por platinar o cabelo de Jean pela primeira vez. Ela usava um descolorante primitivo para conseguir o tom platinado, e alguns sites dizem que ela usava “peróxido, amônia, água sanitária e Lux Flakes (um tipo de sabão em pó)” – isso, contudo, é difícil de ser confirmado porque a fonte citada é o cabeleireiro Alfred Pagano, que tinha apenas 18 anos quando Jean faleceu. Mas uma coisa é certa: o processo de tintura do cabelo não contribuiu com a morte prematura de Jean.

Then there is the hair. I immediately scratched the idea of becoming a platinum blonde because blonde hair doesn't suit me, but it's interesting to read about Jean's hair care routine. Jean had a nice partnership with Max Factor, the man behind the cosmetics brand. It was Max that invented the term “Blonde Bombshell”, and he was also responsible for first dying her hair platinum blonde. She used a primitive bleach to achieve the platinum hair tone, and some sites cite that she used “peroxide, ammonia, Clorox and Lux Flakes (a kind of washing powder)” – this, however, is hard to confirm because the source cited is hairdresser Alfred Pagano, who was only 18 when Jean passed away. But one thing is certain: the process to die her hair didn’t contribute with her premature death.


De fato, em 1933 Jean fez propaganda de alguns produtos Max Factor para a revista Photoplay:

Actually, in 1933 Jean advertised some Max Factor products for the Photoplay magazine:





Ainda em 1933 Jean escreveu – é mais provável que um ghost writer tenha escrito – várias dicas de beleza para numerosos jornais. Estas dicas foram publicadas em inglês no site Classic Blondes. Aqui estão algumas dicas publicadas no jornal Honolulu Examiner. A dica de sete de novembro de 1933 é:

 “Limpe seu rosto com água e sabão pelo menos uma vez ao dia. Se sua pele é muito seca, no entanto, duas vezes por semana é suficiente. Depois, enxágue com água fria, seque com batidinhas de uma toalha macia, e aplique um creme de limpeza. No resto do tempo, use água fria e uma loção de limpeza ou enxaguante.”

Ei, eu venho fazendo isso há anos! Como minha pele não é seca, eu lavo o rosto todas as noites para remover a maquiagem e então uso água fria (para fechar os poros) e uma toalha macia. Ha!
 
Jean and Max Factor
Also in 1933 Jean wrote – or, probably, a ghost writer wrote – many beauty tips for numerous newspapers. Those tips were first published in the site Classic Blondes. Here are some of them as they were published at the Honolulu Examiner. Her beauty tip from November 7th, 1933 is:
“Give your face a soap and water cleansing at least once a day. If your skin is very dry, though, twice a week is sufficient. Follow it with a cold-water dash, pat dry with a soft towel, and apply cleansing cream. At other times, use cool water and a cleansing lotion or rinse.”

Hey, I've been doing that for years! Since my skin is not dry, I wash it every night to remove the makeup and then use cold water (to close the pores) and a soft towel. Ha!


21 de novembro de 1933:
“Remova creme / maquiagem da pele com batidinhas. Não esfregue sua pele. Uma batidinha gentil vai revigorar os tecidos sem danificá-los. Você verá que quadradinhos de gaze são excelentes para isso. Deixe um monte na sua penteadeira sempre.”

Mais uma dica que eu já seguia. Eu costumo usar discos de algodão para remover maquiagem.

November 21st, 1933:
“Remove cold cream from your face by patting. Do not rub your skin. A gentle patting will invigorate the tissues without breaking them down. You will find squares of soft cheesecloth excellent for this purpose. Keep a supply always at your dressing table.”

Another tip that I followed already. I actually use cotton discs to remove makeup.


21 de novembro de 1933:
“Batom deve combinar com blush. Não deixe o batom ser o destaque no seu rosto. Aplique o batom na sua boca com a ponta do seu dedo. Para dar a ilusão de maior preenchimento, aplique um pouco de batom acima da linha dos lábios. Use um tom de batom mais claro à noite.”

Eu já tinha ouvido que não se deve aplicar o batom diretamente na boca. Por causa de Jean, eu tentei aplicá-lo com meu dedo. O resultado foi um tom bem mais claro do que o original, mas também uma cobertura mais uniforme dos lábios – e uma chance maior de aplicar batom para fora dos lábios. Aplicar batom fora dos limites dos lábios pode gerar um bom resultado no cinema, mas o efeito no dia a dia é estranho. E eu costumo usar um tom mais escuro de batom à noite. Os lábios de Jean eram pintados em formato de coração, uma moda dos anos 20, e eu acho que é uma moda adorável – e que eu adoro imitar.


November 22nd, 1933:
“Lip rouge should blend with cheek rouge. Don't let it be the most conspicuous thing on your face. Apply the lip rouge on your mouth with the tip of your finger. To give the illusion of greater fullness, put the lip rouge a trifle over the natural lip line. Use a lighter shade of lip rouge at night than in the daytime.”

I had already heard that you shouldn’t apply the lipstick directly in your mouth. Because of Jean, I tried to apply it with my finger. The result was a much lighter shade than the original, but also a more uniform coverage of the lips – and a bigger chance to apply lipstick off the limits of the lips. Applying lipstick over the natural lip line may photograph well, but the effect in day-to-day life is weird. Also, I tended to use darker lipstick at night than during the day. Jean’s lips were painted into a “cupid’s bow”, a trend in the 1920s, and I think this is definitely cute – a trend I love to copy.
 
Jean's lips in a photo by @harlowheaven
24 de novembro de 1933:
“Escove seus dentes com um movimento circular gentil, não para cima e para baixo. Faça uma massagem vigorosa nas gengivas com sal comum e uma escova de borracha. Isso deixará as gengivas saudáveis. Nesses tempos de comida mole e pouca mastigação, as gengivas precisam de exercício.”

Minha dentista me ensinou a escovar meus dentes com movimentos circulares muitos anos atrás – e eu mantive o hábito. Mas massagear as gengivas com sal? Bem, o sal é abrasivo, e irá pouco a pouco danificando o esmalte dos dentes, então... de jeito nenhum.

Via Curious Pip
November 24th, 1933:
“Brush your teeth with a gentle circular movement, not up and down. Give the gums a vigorous massage with table salt and rubber massage brush. This will keep them in a healthy condition. In these days of soft food and little chewing, the gums need exercise.”

My dentist taught me to brush my teeth with circular movements many years ago – a habit I keep. But the salt in the gum? Well, salt is abrasive, and it’ll slowly damage the tooth enamel so… big no.


25 de novembro de 1933:
“Faça uma massagem no couro cabeludo com azeite aquecido pelo menos uma vez ao mês. Isso vai estimular os tecidos e nutrir o couro cabeludo e o cabelo. Alguns minutos de massagem e escovação toda noite também estimulará o crescimento do cabelo e dará brilho. Escove para cima, partindo do couro cabeludo. Eu saio sem chapéu sempre que posso para arejar meu cabelo.”

Azeite quente é coisa do passado, mas sessões mensais de hidratação foram comuns na minha vida alguns anos atrás – mas, infelizmente, fizeram meu cabelo cair em grande volume. A ideia de escovar o cabelo toda noite parece muito com o mito de “100 escovadas” – escovar excessivamente o cabelo pode enfraquecê-lo. Eu também saio sem chapéu sempre que posso – ou seja, o tempo todo.
 
From "Libeled Lady" (1936)

November 25th, 1933:
“Give your scalp a hot olive massage at least once a month. This will stimulate the tissues and nourish the scalp and hair. A few minutes' brushing and massaging every night will also stimulate the growth of the hair and give it a brilliant luster. Brush upward, lifting the hair off the scalp. I go without a hat whenever I can to give the hair an airing.”

Hot olive is a thing from the past, but monthly sessions of hair hydration were common in my life a few years ago – but, unfortunately, made my hair fall more. The brushing upward every night sounds a lot like the “100 strokes myth” – excessive brushing can make the hair weaker. I also go without a hat whenever I can – which is almost all the time.

Via Curious Pip

27 de novembro de 1933:
“Sempre adicione uma nota de uma cor contrastante ao seu figurino. Um lenço cor de rubi no bolso de um terno escuro, um cachecol cor de jade com um vestido branco, uma flor cor de fogo no ombro de um vestido cinza irão adicionar interesse e vitalidade à sua aparência.”

Parece-me uma grande ideia para quebrar a sobriedade de alguns figurinos. Embora eu use roupas mais coloridas, esta é uma dica que eu seguirei constantemente.

November 27th, 1933:
“Always add one note of vividly contrasting color to your costumes. A crimson-colored handkerchief in the pocket of a dark colored suit, a jade green scarf with a white dress, a flame-colored flower on the shoulder of a gray frock will add interest and vitality to your appearance.”
This sounds like a great idea to break the sobriety of some outfits. Although I wear more colorful outfits, this is a tip I’ll follow often.

Em 1933, Jean Harlow também fez um “tutorial de maquiagem” para a revista Photoplay:

In 1933, Jean Harlow also did a “makeup tutorial” for Photoplay magazine:


Em 1934, um livreto do filme “Boca para Beijar / The Girl from Missouri”, Jean contradiz algumas das dicas de beleza já publicadas – ela diz que não usa maquiagem frequentemente – mas a coisa mais interessante é o que ela diz sobre seu cabelo:

In 1934, in a press book for “The Girl from Missouri”, Jean contradicts a few of the beauty tips published before – she says that she doesn’t wear makeup that often – but the most interesting thing is what she says about her hair:


“Não há truques no cuidado com meu cabelo. Eu uso sabão de Castela (sabão feito com azeite de oliva e hidróxido de sódio) e lavo como todo mundo. Eu nunca uso condicionador. Eu lavo meu cabelo a cada quatro dias, mas eu esfrego óleo de rícino no meu couro cabeludo antes de cada lavagem.”

“There are no tricks to the care of my hair at all. I use castile soap (a soap made with olive oil and sodium hydroxide) and shampoo it like everyone else might do. I never use a rinse. I shampoo it every four days, but I rub hot castor oil into my scalp before every shampoo.”


Eu também não uso condicionador. Mas óleo de rícino definitivamente não é parte da minha rotina de beleza. Para ler todas as dicas de beleza no livreto, acesse o blog Harlean’s Heyday (em inglês).

I never use rinse either. But castor oil is not part of my beauty routine. To read all the beauty tips in the press book, go to the blog Harlean’s Heyday.


Porém, mais uma vez, em uma entrevista de 1935, ela diz que precisa lavar o cabelo três vezes por semana quando está de férias, e toda noite quando está gravando. Parece que, assim como muitos outros detalhes na Hollywood do Sistema de Estúdio, segredos de beleza eram inventados, publicados e manipulados para permanecerem isso: um segredo.

But, once again, in a 1935 interview, she says she needs to wash her hair three times a week when she is on vacation, and every night when she is shooting a film. I guess that, just like many other details in the Studio Era Hollywood, beauty secrets were invented, publicized and manipulated to remain this: a secret.

This is my contribution to the Jean Harlow blogathon, hosted by Virginie and Samantha at The Wonderful World of Cinema and Musings of a Classic Film Addict.


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