} Crítica Retrô: Dulce Damasceno de Brito

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Monday, November 11, 2019

Entrevistando Grace Kelly / Grace Kelly interviewed

Grace Kelly foi uma das pessoas mais famosas do século XX. Milhares de fotos dela foram tiradas, centenas de artigos foram escritos sobre ela, sua vida e seus filmes. Em jornais e revistas do mundo todo havia especulações sobre sua vida amorosa, seu estilo, seus próximos filmes, e então sobre as preparações do seu casamento com o Príncipe Rainer de Mônaco e mais especulações sobre se ela voltaria ou não para Hollywood. Mas era só de vez em quando que a própria Grace sentava-se com jornalistas e respondia às suas perguntas.

Grace Kelly was one of the most famous people of the 20th century. Thousands of photos were taken of her, hundreds of articles were written about her, her life and her films. In newspapers and magazines all over the world, there were speculations about her love life, her style, her upcoming film projects, then the preparations for her wedding with Prince Rainer of Monaco and more speculations about whether or not she would go back to Hollywood. But it was only once in a while that Grace herself sat with journalists and answered their questions. 



Uma das revistas mais populares do século XX no Brasil se chamava “O Cruzeiro”. Ela foi publicada semanalmente entre 1928 e 1985, e tratava de diversos assuntos, incluindo cinema. A revista inclusive tinha vários correspondentes estrangeiros escrevendo diretamente dos EUA e da Europa.

One of the most popular magazines of the 20th century in Brazil was called “O Cruzeiro”. It was published weekly between 1928 and 1985, and it dealt with several subjects, including cinema. The magazine even had several foreign correspondents writing directly from the US and Europe. 




Estes correspondentes nem sempre eram bondosos com as estrelas de cinema – em quatro de dezembro de 1954, por exemplo, um correspondente chamado Álvares da Silva foi duro em sua crítica a Grace Kelly, dizendo que ela tinha “muita água e pouco açúcar”, ou seja, que ela não tinha talento nem sex appeal. O autor também diz que Hollywood estava tentando transformar Grace em uma nova Ingrid Bergman.

Those correspondents were not always kind to the movie stars – on December 4th 1954, for instance, a correspondent called Álvares da Silva was strong in his criticism of Grace Kelly, saying she had “too much water and too little sugar”, that is, that she had neither talent nor appeal. The author also says that Hollywood was trying to turn Grace into a new Ingrid Bergman.




Mas nem todos os jornalistas são duros com Grace Kelly. Em 1955, ele foi mencionada muitas vezes em “O Cruzeiro”. Grace havia acabado de ser eleita a atriz mais popular do mundo pelos correspondentes estrangeiros, e ganhou um troféu batizado de “Henrietta”. Um jornalista escreve um longo artigo comparando Grace e Gina Lollobrigida, e não consegue chegar a um veredicto sobre qual das duas é mais bela.

But not all journalists are hard to Grace Kelly. In 1955, she was mentioned several times in “O Cruzeiro”. Grace had just been named the most popular actress in the world by foreign correspondents, and won a trophy called “the Henrietta”. One journalist writes a long article comparing Grace and Gina Lollobrigida, and can’t reach a verdict about which one is prettier. 




Grace também aparece em décimo lugar numa lista de mulheres mais bem vestidas de 1955. Curiosamente, empatada com ela está a rainha Frederica da Grécia, e a revista traz os dizeres: “uma rainha de verdade empata em elegância com uma rainha de mentira”. Eles nem imaginavam que Grace iria se tornar uma princesa de verdade! Em 1956, Grace foi escolhida como a mulher mais elegantedo mundo.

Grace also appears in 10th in a list of best dressed women of 1955. Curiously, tied with her there is Queen Frederica from Greece, and the magazine says: “a real queen ties in elegance with a fake queen”. Little did they know that Grace would become a real princess! In 1956, Grace was voted as the most elegant woman in the world.



Mais tarde em 1955 o jornalista Pedro Lima foi indiscreto e escreveu sobre todos os casos que se dizia que Grace teve em Hollywood. Ele diz que, “sem ser realmente bonita”, Grace estava envolvida em muitos triângulos amorosos. Sim, a revista era cheia de fofocas e críticas!

Later in 1955 journalist Pedro Lima was indiscreet and wrote about all affairs Grace was said to have had in Hollywood. He says that, “without being really beautiful”, Grace was involved in several love triangles. Yes, the magazine was full of gossip and criticism!




Felizmente, também havia alguns jornalistas mais profissionais escrevendo para “O Cruzeiro”. A correspondente brasileira mais famosa em Hollywood era Dulce Damasceno de Brito, e ela preferia se encontrar com as estrelas em vez de repetir fofocas. Ela começa seu artigo sobre Grace Kelly dizendo que ela e Marilyn eram as duas atrizes mais populares naquele ano – mas não se podia compará-las, porque elas eram completamente diferentes.

Fortunately, there were some more professional journalists writing for “O Cruzeiro” as well. The most famous Brazilian correspondent in Hollywood was Dulce Damasceno de Brito, and she preferred to meet the stars before repeating gossip. She starts her article about Grace Kelly saying that she and Marilyn were the most popular actresses of the year – but there couldn’t be a comparison, because they were completely different.

Dulce Damasceno de Brito

Então, Dulce divulga alguns pensamentos que Grace teve durante a filmagem de “Amar é Sofrer” (1954): “[…] confesso que sentia medo ante a responsabilidade de substituir Jennifer [Jones, que teve de abandonar a produção por estar grávida], principalmente porque a Paramount insistira tanto para que a Metro me emprestasse... E eu receava desapontá-la. Passei noites em claro estudando o papel”.

Then, Dulce shares some thoughts Grace had during the filming of “The Country Girl” (1954): “[…] I confess that I was afraid of the responsibility to replace Jennifer [Jones, who had to abandon the project when she got pregnant], mainly because Paramount insisted so much so Metro could lend me… And I was afraid of disappoint them. I spent nights awake studying the role”.



Finalmente Dulce lhe pergunta sobre a noite em que ela ganhou o Oscar. Grace confessa: “Eu nunca poderia explicar a emoção de receber um Oscar. A gente sente vontade de rir, de chorar, de gritar... e de ficar parada, deixando apenas as lágrimas rolarem pelo rosto abaixo! Jamais poderia imaginar tal emoção. Só passando por isso é que se avalia o tremendo valor daquela estatueta!”.

Finally Dulce asks her about the night she won her Oscar. Grace confesses: “I could never explain the emotion of receiving an Oscar. We feel like laughing, crying, screaming… and like standing still, letting only the tears go down our face! I could never imagine such a feeling. Only by going through it you can evaluate the huge value of that statue!”




Dulce então conta ao leitor que Grace fala mansamente e é doce, e às vezes se parece com uma adolescente conversando animadamente sobre a escola. O assunto muda para o primeiro papel de Grace no cinema: “Consegui esta ponta no cinema depois de haver participado de 70 peças na televisão em New York!” Dulce fala um pouco sobre a vida amorosa de Grace e sobre como ela estava sendo vista com o estilista Oleg Cassini. Dulce termina a entrevista dizendo que a doce Grace Kelly estava de partida para Cannes.

Dulce then telling the reader that Grace speaks softly and is sweet, and sometimes looks like a teenager talking happily about school. The subject changes to Grace’s first film role: “I got this bit role in a film after I had been in 70 TV plays in New York!” Dulce then talks a little about Grace’s love life and how she was then being seen with stylist Oleg Cassini. Dulce ends the interview saying that the sweet Grace Kelly was leaving for Cannes.




Dulce entrevistou Grace uma segunda e última vez quando ela estava prestes a se casar e deixar Hollywood. Nesta ocasião, entre outras coisas, Dulce perguntou a Grace quando exatamente ela se apaixonou por Rainer. Ela respondeu: “Exatamente no dia de Natal de 1955, na casa de meus pais, em Filadélfia. Foi uma espécie de amor à segunda vista”.

Dulce interviewed Grace a second and final time when she was about to get married and leave Hollywood. In this occasion, among other things, Dulce asked Grace when exactly she fell in love with Rainer. She answered: “Exactly on Christmas Day, 1955, at my parents’ house, in Philadelphia. It was kind of love at second sight”. 




Ela também perguntou a Grace se ela queria prosseguir com sua carreira no cinema. A resposta foi: “Não. Da mesma forma com que me dediquei intensamente à carreira artística por pura vocação, pretendo dedicar-me de corpo e alma aos deveres sociais e de estado de uma princesa, posição esta que assumo por verdadeiro amor”. Ela também disse que as duas coisas que mais tinha em comum com o príncipe eram “senso de humor e religião”.

She also asked Grace if she wanted to go on with her film career. The answer was: “No. The same way that I have immensely dedicated myself to the artistic career because of a calling, I intend to dedicate myself, body and soul, to the social and Estate duties a princess has, as I claim this position with true love”.




Depois do casamento de Grace com o príncipe Rainer de Mônaco, ela continuou sendo assunto na revista. Um artigo de 1956 especulava se ela estava grávida de gêmeos. Outro artigo afirma que a história de amor de Grace foi uma história da moça que vai da pobreza à riqueza, porque o pai dela era pedreiro – o que não é verdade. Ao todo, há 179 menções a Grace Kelly na revista “O Cruzeiro”.

After Grace’s wedding with Prince Rainer of Monaco, she kept on being a subject in the magazine. A 1956 article speculated if she was pregnant with twins. Another article claims that Grace’s love story was a real rags to riches tale, because her father was a bricklayer – which he definitely wasn’t. There are, at total, 179 mentions to Grace Kelly in the “O Cruzeiro” magazine.




Grace também esteve na revista “O Cruzeiro” em uma propaganda de sabonete – que você pode ver abaixo – e esteve também na capa da revista. Como um dos rostos mais reconhecíveis do século XX, Grace Kelly foi presença constante em revistas por todo o mundo.

Grace also appeared at the “O Cruzeiro” magazine in an ad for soap – you can see it below – and she was on the cover of the magazine as well. As one of the most recognizable faces of the 20th century, Grace Kelly was a constant presence in magazines all over the world.




This is my contribution to the 5th Wonderful Grace Kelly blogathon, hosted by Samantha, Emily and Virginie at Musings of a Classic Film Addict, The Flapper Dame and The Wonderful World of Cinema.


Thursday, August 1, 2013

Lembranças de Hollywood, de Dulce Damasceno de Brito

Quando “A ponte do rio Kwai” ganhou sete Oscars, ela estava lá. Quando Elizabeth Taylor deixou as marcas de suas mãos no cimento, ela estava lá. Quando Carmen Miranda, Marilyn Monroe, Clark Gable e James Dean morreram, ela estava lá. Quando Walt Disney deu um Oscar em forma de Mickey Mouse a James Mason, ela estava lá. E, assim como eu e muitos outros dos leitores desse blog, ela era brasileira.
Foto de Raquel Stecher
Dulce Damasceno de Brito é digna de nossa inveja. Hoje temos “apenas” os filmes para estabelecer contato com uma outra época, e ela viveu essa época, tendo entrevistado os astros que ainda admiramos. Dulce foi correspondente da revista O Cruzeiro durante as décadas de 1950 e 1960 e relembra essa época e as impressões dos ídolos que conheceu na memória publicada pela Imprensa do Estado de São Paulo, “Lembrança de Hollywood”, livro organizado por Alfredo Sternheim, ex-diretor de pornochanchadas.
Quem leu minha primeira resenha de um livro sobre cinema para o blog, Vocês ainda não ouviram nada, sabe que eu sou muito detalhista. E “Lembrança de Hollywood” também peca nos detalhes, a começar pela própria idade da autora. Não é falado especificamente o ano em que Dulce nasceu, mas ela se lembra de sua primeira vez no cinema aos quatro anos, vendo “Anna Karenina” (1935), o que mostraria que Dulce nasceu em 1931. Entretanto, as páginas sbre ela na Internet datam seu nascimento em 1926 ou 1927, uma vez que ela faleceu aos 82 anos em 2008. Em outras ocasiões a memória traiu Dulce, mas um erro crasso esta na página de Peter Ustinov. Logo após dizer que ele ganhou dois Oscars de Ator Coadjuvante, o livro cita três vitórias.
Meu grande problema foi a lista interminável de personalidades homossexuais, como se isso fosse importante para admirar o trabalho deles. Além de haver um pequeno capítulo só sobre o tema, é quase impossível passar uma página sem um desses boatos. E um boato quente se apresenta para nós quando Dulce admite que teve um affair com seu ator favorito, Fredric March.
Com John Wayne e Carmen Miranda

Insatisfações à parte, fico com inveja das oportunidades que Dulce teve e que, como ela mesma descreve, foram deliciosas. Em uma época com menos burocracia para se entrar no estúdio, ela conversou com pessoas que só de pensar me emocionam, e vez ou outra ainda encontrava-as em sua vizinhança, longe dos holofotes. Infelizmente, Dulce não conheceu todos os atores sobre os quais eu gostaria de ter lido. Quando ela chegou a Hollywood, o cinema mudo era passado distante e Jean Harlow, Carole Lombard e Leslie Howard já estavam mortos. De outros eu realmente senti falta, e adoraria ler a impressão que eles deixaram na jornalista. Mas sem precisar saber a orientação sexual deles.
Uma exposição completíssima da revista O Cruzeiro passou pelas sedes do Instituto Moreira Salles em São Paulo, Rio de Janeiro e acabou de sair de Poços de Caldas. As fotos abaixo mostram as capas dedicadas às estrelas de cinema. Infelizmente, nenhuma das reportagens em exibição era de autoria de Dulce. As que estavam lá tinham tons de fofoca e mídia sensacionalista. Meu outro contato com o tratamento que a imprensa brasileira dava ao cinema foi quando folheei uma revista Cinelândia e fiquei confusa. Algumas matérias e notas começavam em uma página e terminavam espremidas dezenas de páginas depois. Outras histórias tinham jeito de fanfic, licença poética com a vida do ator e atriz, como a que acompanhava Greer Garson cuidando de crianças no campo e se sentindo aliviada por estar longe de Hollywood e do fracasso de seu primeiro casamento.
O grande tesouro do livro são de fato as imagens. Além de várias fotos de Dulce durante as entrevistas, com direitos a muitos astros com seus belos figurinos, porém mais à vontade; há também belas imagens de arquivo. Aprendi também muita coisa, e o que mais me impressionou foi o fato de Yul Brynner ter gravado um comercial sobre os perigos do cigarro ao descobrir que tinha um câncer incurável, e ter exigido que tal comercial fosse exibido logo depois do anúncio de sua morte na televisão. Ao mesmo tempo, fiquei impressionada com a crônica de como Joan Crawford fingiu já conhecer Dulce na primeira vez em que foram apresentadas.

Sendo parte da Coleção Aplauso Especial, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, a impressão é de grande qualidade. O preço varia muito, e eu tive a sorte de comprar uma edição por apenas 18 reais na Feira do Livro de 2010. Mas, afinal de contas, um mergulho no passado não tem preço.
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