} Crítica Retrô

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Sunday, August 7, 2022

Sereais do Cinema / Movie Mermaids

 

Uma era australiana. A outra era norte-americana. Uma começou a nadar na infância para fortalecer as pernas. A outra era uma promessa olímpica que não foi aos jogos devido à Segunda Guerra Mundial. Ambas fizeram história no cinema, até que a outra interpretou a primeira numa cinebiografia, “A Rainha do Mar” (1952). Elas foram Annette Kellerman e Esther Williams, as duas maiores sereias do cinema. Vamos mergulhar na vida de cada uma delas neste infográfico (clique para aumentar):

One was Australian. The other was American. One started swimming at an early age to strengthen her legs. The other was an Olympic promise who missed the games because of World War II. Both made history with the movies, to the point that the other played the one in a biopic, “Million Dollar Mermaid” (1952). They were Annette Kellerman and Esther Williams, the two biggest movie mermaids. Let’s dive deeper into their lives in this infographic (click to enlarge):

 

This is my contribution to the Third Esther Williams blogathon, hosted by Michaela at Love Letters to Old Hollywood.

Saturday, July 9, 2022

Cantando na Chuva: a cobertura de um clássico na imprensa brasileira

 

Singin’ in the Rain: the coverage of a classic in the Brazilian press

“Cantando na Chuva” estreou em 27 de março de 1952 nos EUA. O filme estreou no Brasil, segundo o IMDb, três meses depois, em 30 de junho de 1952. Setenta anos atrás, um filme que iria entrar para a história estreava, mas ele não foi considerado um clássico logo de cara. Foi um sucesso de bilheteria, claro, mas não ganhou nenhum Oscar e não animou os críticos - estivessem estes críticos nos EUA ou no Brasil.

“Singin’ in the Rain” had its premiere on March 27th, 1952 in the USA. It premiered in Brazil, according to IMDb, three months later, on June 30th, 1952. Seventy years ago, a film that would enter history premiered, but it wasn’t considered a classic right after its premiere. It was a box-office success, of course, but won no Oscars and didn’t excite critics - no matter if these critics were in the USA or Brazil.

O burburinho sobre “Cantando na Chuva” começou antes mesmo de o filme estrear. Num anúncio publicado no começo de 1952 na revista Cine Reporter, o filme foi citado, junto com “Scaramouche” e “Ivanhoé” como atrações vindouras da MGM que em breve chegariam aos cinemas. O texto do anúncio dizia, ao lado da figura de um leão: “Exibir MGM significa festa o ano inteiro!” Também antes da estreia, a mesma revista credita Gene Kelly como diretor de “Cantando na Chuva” e diz que a película é “considerada uma das melhores revistas musicais dos últimos tempos.”

The talk about “Singin’ in the Rain” started even before the film premiered. In an ad published early in 1952 in the magazine Cine Reporter, the movie was cited, together with “Scaramouche” and “Ivanhoe” as coming attractions from MGM that would reach the theaters soon. The text of the ad said, next to the figure of a lion: “Exhibiting MGM means partying during the whole year!” Also before the premiere, the same magazine credits Gene Kelly as director of “Singin’ in the Rain” and says it is “considered one of the best musicals of recent times.”

“Cantando na Chuva” foi exibido com “Scaramouche” e “Ivanhoé” num evento especial no Rio de Janeiro, então capital do Brasil, ocorrido no cinema Metro-Copacabana. Os três filmes ficaram conhecidos como “a trinca de ouro” e, depois desta estreia, já eram elogiados. O Cine Reporter chamou “Cantando na Chuva” de obra-prima, enquanto um repórter da Revista da Semana disse ser “nosso musical favorito”. A revista de cinema A Scena Muda elogiou o filme como símbolo do “amadurecimento do musical como gênero, englobando inclusive seriedade de intenções.” 

“Singin’ in the Rain” was exhibited with “Scaramouche” and “Ivanhoe” in a special event in Rio de Janeiro, then Brazil’s capital, hosted at the Metro-Copacabana movie theater. The three movies were known as “the golden trio” and, after this premiere, were already celebrated. Cine Reporter called “Singin’ in the Rain” a masterpiece, while a reporter from the Revista da Semana said it was “our favorite musical”. The film magazine A Scena Muda praised the movie as being a symbol of the “maturing of the musical as a gender, encompassing even serious intentions.”

O jornalista José Amádio, escrevendo a coluna Cine-Revista para a revista O Cruzeiro, chama o filme de “um leve e agradável Technicolor”, “agradável como uma tarde de primavera, no campo” e elogia as performances de Jean Hagen, que rouba todas as cenas em que está, e Donald O’Connor - primeiro chamando O’Connor de “quase sempre insípido”. Debbie Reynolds é “tão agradável aos olhos como um arco-íris” e Gene Kelly não é “tão bom cantor como bailarino”.

The journalist José Amádio, writing the Cine-Revista column at the magazine O Cruzeiro, calls the movie “a light and pleasant Technicolor”, “pleasant like a spring afternoon in the country” and praises the performances by Jean Hagen, who steals all the scenes she’s in, and Donald O’Connor - first calling O’Connor “almost always tasteless”. Debbie Reynolds is “as pleasant to the eyes as a rainbow” and Gene Kelly is not “as good as a singer as he is as a dancer”.

Além de ser elogiado pela imprensa, outros já estavam percebendo a qualidade de “Cantando na Chuva”. A Scena Muda publica que a The British Film Academy escolheu o musical como um dos melhores filmes do ano de 1953, junto com “Milagre em Milão”, “Rashomon”, “Carrie”, “Uma Aventura na África” e “Los Olvidados”.

Besides being praised by the press, others were already perceiving the high quality of “Singin’ in the Rain”. A Scena Muda publishes that The British Film Academy chose the musical as one of the best movies of the year 1952, together with “Miracle in Milan”, “Rashomon”, “Carrie”, “The African Queen” and “Los Olvidados”.

Em 1953, um artigo intitulado “A Garota que Venceu o Leão” foi publicado na revista Cinelândia sobre Debbie Reynolds. O artigo diz: “Ao entrar para o cinema, Debbie não sabia representar, mas aprendeu. Não sabia dançar, mas tomou algumas lições e tentou. Quem viu “Cantando na Chuva” pôde constatar o que dizemos.” A revista A Scena Muda foi mais bondosa com Debbie, dizendo que “em “Singin’ in the Rain”, Debbie saiu-se vitoriosa em uma verdadeira prova de fogo, cantando, dançando e representando como uma veterana “vedette” da tela.” E o artigo termina assim: “Não existe pessoa alguma que após assistir “Cantando na Chuva” não se tenha tornado fã de Debbie Reynolds.”

In 1953, an article called “The Girl who Won Over the Lion” was published in the Cinelândia magazine about Debbie Reynolds. It said: “When she got into the movie business, Debbie didn’t know how to act, but she learned. She didn’t know how to dance, but took a few lessons and tried. Whoever saw “Singin’ in the Rain” could see what we mean.” The magazine A Scena Muda was kinder to Debbie, saying that “in “Singin’ in the Rain”, Debbie won a hard battle, singing, dancing and acting like a true veteran of the musical movies”. And the article ends with this: “There is no person who, after watching “Singin’ in the Rain”, did not become a fan of Debbie Reynolds.”

Em 1974, um longo artigo sobre Gene Kelly na revista O Cruzeiro diz que, com “Cantando na Chuva”, ele se tornou um dos reis do musical. Naquela época, aos 62 anos, Kelly estava no Brasil para promover “Era uma Vez em Hollywood” e deu uma entrevista para a revista, na qual diz que seu próximo projeto era uma refilmagem musical de “A Mulher do Dia” (1942), algo que não se concretizou.

In 1974, a long article about Gene Kelly in the magazine O Cruzeiro says that, with “Singin’ in the Rain”, he became one of the kings of musical movies. At that time, at age 62, Kelly was in Brazil promoting “That’s Entertainment!” and gave an interview to the magazine, saying that his next project would be a musical remake of “Woman of the Year” (1942), something that was never made.

Mas nenhum jornalista brasileiro escreveu mais sobre “Cantando na Chuva” do que Ruy Castro. Na verdade, Gene Kelly e Cyd Charisse estão na capa de seu livro “Um Filme é para Sempre”. Neste livro, há uma seção inteira - Toró Mágico - dedicada a “Cantando na Chuva”, com quatro artigos sobre o filme. Nestes artigos, escritos entre 1991 e 2002, Ruy fala sobre a recepção morna do filme em 1952 e os papéis de Charisse, Kelly e Stanley Donen na feitura deste grande filme.

But no Brazilian journalist wrote more about “Singin’ in the Rain” than Ruy Castro. In fact, Gene Kelly and Cyd Charisse are on the cover of his book “Um Filme é para Sempre” (“A Film is Forever”). In this book, there is a whole section - Toró Mágico, or Magical Pouring - dedicated to “Singin’ in the Rain”, with four articles about the film. In these articles, published between 1991 and 2002, Ruy talks about the tepid reception of the film in 1952 and the roles of Charisse, Kelly and Stanley Donen in shaping this great film.

O tempo fez bem a “Cantando na Chuva”. O filme foi revisto, reconsiderado, serviu de assunto para reflexão através dos anos. Hoje, quase todos concordam que é o melhor musical já feito - não importa se é nosso favorito, é o melhor e ponto. Afinal, não há teste melhor para um filme que o teste do tempo.

Time was good to “Singin’ in the Rain”. It was rewatched, reconsidered, it served as food for thought through the years. Today, almost everybody agrees that it is the best movie musical ever made - no matter if it isn’t our favorite, it is definitely the best. After all, there is no better test for a movie than the test of time.

This is my contribution to the Singin’ in the Rain blogathon, hosted by The Classic Movie Muse. What a glorious feeling!

Sunday, July 3, 2022

A Mulher do Doutor Phibes / Doctor Phibes’ Wife

 

Dr Phibes é um homem que preza a família. E, como ele não tem filhos, sua família se resume à sua devotada esposa, Victoria Regina Phibes. Mas nós nunca a conhecemos com vida nos filmes estrelando Dr Phibes. No entanto, é ela o catalisador para a trama do primeiro filme desta, podemos dizer, “pequena franquia”: é a morte dela que faz com que Anton Phibes busque vingança.

Dr Phibes is a family-oriented man. And, since he has no children, his whole family is comprised of his devoted wife, Victoria Regina Phibes. But we never met her alive in the movies starring Dr Phibes. However, she is the catalyst for the plot of the first movie of this, could we say, “little franchise”: it’s her death that makes Anton Phibes seek revenge.

O Abominável Dr Phibes” (1971) começa com uma figura sinistra, coberta por uma capa, tocando um órgão – quase como o “Fantasma da Ópera” de Lon Chaney. A figura é o Dr Anton Phibes (Vincent Price), um homem que já matou alguns médicos. Às vezes ele usa animais, como ratos e morcegos e outras pragas, e enquanto ele comete o crime sua assistente Vulnavia (Virrginia North) toca violino. Mas ele cometeu um terrível erro no último assassinato, pois deixou cair um colar na cena do crime.

The Abominable Dr Phibes” (1971) starts with a sinister, cloaked figure playing an organ – almost like Lon Chaney’s “Phantom of the Opera”. The figure is Dr Anton Phibes (Vincent Price), a man that has been going around killing physicians. Sometimes he uses animals, like rats and bats and other plagues, and while he commits the crime, his assistant Vulnavia (Virginia North) plays the violin nearby. But he made a huge mistake in his latest killing, as he left his necklace in the crime scene.

Todas as vítimas têm algo em comum, além da profissão: todos foram, em um momento ou outro de suas vidas, próximos do Dr Vesalius (Joseph Cotten). E todos eles se juntaram para tratar a esposa do Dr Phibes, que acabou morrendo na mesa de cirurgia. Não vai demorar até que o inspetor Harry Trout (Peter Jeffrey) resolva este quebra-cabeça.

All the victims have one thing in common, besides the profession: they all have been, in some point of their lives, associated with Dr Vesalius (Joseph Cotten). And they all came together to take care of Dr Phibes’ wife, who ended up dying during surgery. It won’t be long until Inspector Harry Trout (Peter Jeffrey) puts all the pieces together.

O final de “O Abominável Dr Phibes” – completo com uma versão de “Over the Rainbow” – não é a última vez em que veremos o assassino. “A Volta do Dr Phibes” (1972) começa três anos após os eventos do primeiro filme, quando o Dr Phibes volta à vida graças à luz da lua e sai de sua casa em busca de um papiro que pode levá-lo a desvendar os segredos da ressurreição e da vida eterna.

The ending of “The Abominable Dr Phibes” – complete with a rendition of “Over the Rainbow”- is not the last time we see Phibes. “Dr Phibes Rises Again” (1972) begins three years after the events of the first film, when Dr Phibes is brought back to life by the moonlight and comes out of his house looking for a papyrus that can lead him to the secrets of resurrection and eternal life.

O grande problema agora é que o papiro está nas mãos de Darrus Biederbeck (Robert Quarry), um arqueólogo que promete dar ao joalheiro Harry Ambrose (Hugh Griffith, que interpretou um rabino no primeiro filme) todo o ouro que ele encontrar no local que o papiro indicar. Quando o Dr Phibes volta a matar para roubar o papiro, o inspetor Harry Trout volta à cena.

The main issue now is that the papyrus is currently with Darrus Biederbeck (Robert Quarry), an archaeologist who promises to give jewel maker Harry Ambrose (Hugh Griffith, who played the role of a Rabbi in the first movie) all the gold he might find in the place the papyrus indicates. After Dr Phibes kills once again to steal the papyrus, Inspector Harry Trout gets back to the scene.

Novamente em posse do papiro, Dr Phibes sobe num navio junto com uma nova Vulnavia (Valli Kemp), Biederbeck, Ambrose e a namorada de Biederbeck, Diana (Fiona Lewis). O destino deles é o Egito, onde procurarão o rio da vida.

Once again with the papyrus, Dr Phibes boards a ship together with a new Vulnavia (Valli Kemp), Biederbeck, Ambrose and Biederbeck’s girlfriend Diana (Fiona Lewis). Their destination is Egypt, to find the river of life.

A atriz por trás do retrato de Victoria é Caroline Munro, mais conhecida atualmente por ter interpretado Naomi em “007: o Espião que me Amava” (1977). Pelas datas, Victoria morreu aos 28 anos, enquanto Caroline tinha apenas 22 quando o primeiro filme estreou. Ela não foi creditada em nenhum dos dois filmes porque, segundo o IMDb, ela tinha um contrato com a Hammer Films, estúdio onde fez seus maiores sucessos.

The actress behind Victoria’s picture is Caroline Munro, better known today for playing Naomi in “007: The Spy who Loved Me” (1977). By the dates, Victoria died at 28, while Caroline was only 22 when the first film was released. She wasn’t credited in either of the films because, per IMDb, she was under contract to Hammer Films, studio where she made her biggest successes. 

Esta não é a primeira vez em que um filme com Vincent Price tem um retrato de mulher em destaque: outra vez em que isso acontece é, obviamente, com o retrato de Laura Hunt em “Laura” (1944). Neste filme noir, o detetive Mark McPherson (Dana Andrews) fica obcecado pelo retrato de Laura, mostrando a mesma afeição que levaria o Dr Phibes a matar muitas pessoas após fazer esta promessa ao retrato da falecida esposa.

This is not the first time a Vincent Price movie has a picture of a woman playing a major role: another time it happens is, of course, with Laura Hunt’s picture in “Laura” (1944). In this film noir, detective Mark McPherson (Dana Andrews) becomes infatuated with Laura’s picture, showing the same affection that would lead Dr Phibes to kill many people after promising to do so to his late wife’s picture.

Os filmes são ambientados na década de 1920 – algo que não podemos perceber pelas roupas, mas sim pelos carros e alguns objetos como telefones. Um terceiro filme com Dr Phibes foi planejado, mas nunca realizado, pois Vincent Price tinha outros projetos e o estúdio que fez os dois filmes, American International Pictures, também mudou de estilo em suas produções.

The films are set in the 1920s – something we can’t say by looking at the clothes, but by looking at the cars and some objects like the phones. A third movie featuring Dr Phibes was planned, but never made, as Vincent Price had other projects and the studio that made the two movies, American International Pictures, also shifted ways with their production.

Dr Phibes é um gênio do mal. Ele conseguiu reconstruir seu rosto desfigurado e achou um jeito de continuar falando mesmo depois de um terrível acidente. Ele viajou quilômetros e fez muitas vítimas, em dois filmes de horror que também têm humor. E no final torcemos por ele, afinal, tudo o que Dr Phibes fez foi por amor.

Dr Phibes is an evil mastermind. He managed to reconstruct his disfigured face and find a way to keep on speaking even after a terrible incident. He traveled many miles and made many victims, in two horror films that are also pretty humorous. And in the end we root for him, after all, everything Dr Phibes did, he did for love.

This is my contribution to the Other Than a Bond Girl blogathon, hosted by Gill and Gabriela at Realweegiemidget Reviews and Pale Writer.

Wednesday, June 22, 2022

Lost in Translation: odd classic film titles in Portuguese – Billy Wilder edition

 

Ah, Billy Wilder. A master, a genius, a legend. He was born in Austria-Hungary, where it is Poland now, and wanted to be a lawyer, but found everlasting fame working behind the scenes in Hollywood. Coming from Berlin to the US in 1933, without knowing how to speak English, Wilder and his roommate, Peter Lorre, ended up making it big in Hollywood. Wilder started as a screenwriter and later became a director. A fantastic director: he rarely made a bad movie. To honor him in the “Lost in Translation” series, I present some curious titles his films received in Brazil. The titles not mentioned in this article were translated verbatim.

“That Certain Age” (1938) became “Dangerous Age” (Idade Perigosa”)

“What a Life” (1939) received the title “Life Begins at 14” (“A Vida Começa aos 14”)

“Hold Back the Dawn” (1942) is here “The Golden Door” (“A Porta de Ouro”)

“The Major and the Minor” (1942) was released as “The Incredible Suzana” (“A Incrível Suzana”)

“Double Indemnity” (1944) is here “Blood Pact” (“Pacto de Sangue”)

“The Lost Weekend” (1945) became “Human Rag” (“Farrapo Humano”)

“The Bishop’s Wife” (1947) received the title “An Angel Fell from Heaven” (“Um Anjo Caiu do Céu”)

“Sunset Boulevard” (1950) is known as “Dawn of the Gods” (“Crepúsculo dos Deuses”)

“Ace in the Hole” (1951) is here “The Mountain of the 7 Vultures” (“A Montanha dos Sete Abutres”)

“Stalag 17” (1953) received the title “Hell Number 17” (“O Inferno Nº 17”)

“The Seven-Year Itch” (1955) is known as “Sin Lives Next Door” (“O Pecado Mora ao Lado”)

“The Spirit of St Louis” (1957) became “Lonely Eagle” (“Águia Solitária”)

“Some Like It Hot” (1959) is known as “The Hotter, the Better” (“Quanto Mais Quente Melhor”)

“The Apartment” (1960) was retitled as “If my Apartment Could Talk” (“Se meu Apartmento Falasse”)

“One, Two, Three” (1961) is here “Cupid has no Flag” (“Cupido não tem Bandeira”)

“The Fortune Cookie” (1966) was retitled as “A Blonde for a Million” (“Uma Loura por um Milhão”)

Sunday, June 12, 2022

A Arca de Noé (1928) / Noah’s Ark (1928)

 

Às vezes temos uma grata surpresa com um filme ou alguns filmes. Isso acontece quando um filme épico, cuja narrativa é ambientada no passado, mostra paralelos com o presente. Este é o caso do magnífico “Os Dez Mandamentos” de DeMille de 1923 - melhor que o remake sonoro de 1956, na minha opinião. Nele, há a história de Moisés seguida por uma história sobre os perigos de não se seguir os Dez Mandamentos neste mundo moderno e louco. Outro filme mudo que é um épico religioso mas faz comparações com o presente é “A Arca de Noé” (1928).  

Sometimes we’re pleasantly surprised by a movie or a couple of movies. This happens to me when an epic film, whose story is set in the past, shows parallels to the present. This is the case of DeMille’s magnificent “The Ten Commandments” from 1923 - better than the 1956 sound remake, in my opinion. In it, there is the Moses story followed by a story about the dangers of not following the Ten Commandments even in this modern, crazy world. Another silent movie that is a religious epic but draws comparisons with the present is “Noah’s Ark” (1928).

Nos primeiros minutos de projeção, as cartelas de texto, retiradas diretamente da Bíblia, nos contam sobre a construção da Torre de Babel e a adoração do Bezerro de Ouro. Corta para os tempos modernos, e as pessoas ainda estão adorando o dinheiro em bolsas de valores - lembre-se, este filme foi feito um ano antes da quebra da bolsa de Wall Street em 1929. Mas a história moderna que veremos começa antes, em 1914.

In the first minutes of projection, the title cards, taken directly from the Bible, tell us about the building of the Tower of Babel and the worship of the Golden Calf. Cut to modern times, and people are still worshipping money in stock markets - remember, this movie was made one year before the 1929 crash of Wall Street. But the modern story we’re following starts earlier, in 1914.

Um grupo de pessoas muito diferentes está viajando no Expresso do Oriente. Um pastor (Paul McAllister) está lendo a Bíblia na viagem e chama a atenção das pessoas ao seu redor. Todos zombam dele, dizendo que Deus não existe. De repente, um raio atinge e destrói uma ponte, causando um acidente com o trem. Muitos descrentes morrem no local, mas o norte-americano Travis (George O’Brien) e seu amigo Al (Guinn Williams) sobrevivem e ajudam uma garota alemã chamada Marie (Dolores Costello) a encontrar abrigo numa taverna.

A group of very different people is travelling aboard the Orient Express. A Minister (Paul McAllister) is reading the Bible while travelling and calls the attention of people around him. Everybody mocks him, saying there is no God. Suddenly, a thunder strikes and destroys a bridge, causing an accident with the train. Many non-believers die on the spot, but the American Travis (George O’Brien) and his friend Al (Guinn Williams) survive and help a German girl named Marie (Dolores Costello) to reach shelter in a tavern.

A guerra é declarada naquela noite, e Marie tem de fugir do local por ser alemã. Durante algum tempo, Al, Travis e Marie vivem felizes em Paris, intocados pela guerra. Quando os EUA declaram guerra, Al decide se alistar e Travis o segue, mesmo não querendo lutar contra os alemães por causa de Marie. Marie, que é artista, se junta a um grupo para entreter as tropas. Adivinha quem mais está neste grupo? Myrna Loy!  

War is declared that night, and Marie has to flee the place because she’s German. For a while, Al, Travis and Marie live happily in Paris, untouched by the war. When the United States declares war, Al decides to enlist and Travis follows him, even though he didn’t want to fight the Germans because of Marie. When the two boys are gone, Marie, who is an artist, joins a group to entertain the troops. Guess who else is there in the group? Myrna Loy!

E quando a arca de Noé entra na história, você deve estar se perguntando. Com quase 60 minutos de projeção, quando os personagens estão em uma situação muito difícil, nosso velho amigo pastor conta a velha história e diz que a guerra, assim como o dilúvio, veio para exterminar o ódio e o mal no mundo - se ele soubesse que uma guerra ainda pior estava para acontecer! A história bíblica então se desenrola em frente aos nossos olhos, com os mesmos atores da história principal interpretando os papéis, por exemplo: Paul McAllister como Noé, George O’Brien como Japheth, filho de Noé, e Dolores Costello como Miriam, criada de Noé e apaixonada por Japheth.

And when does Noah’s Ark enter the story, you might be asking. At almost the 60 minute mark, when the characters are in a very difficult situation, our old friend the Minister tells the ages-old story and says that the war, like the flood, came to end hate and wickedness in the world - if only he knew a worse war was coming! The Biblical story then unfolds in front of our eyes, with the same actors from the main story playing the parts, for instance: Paul McAllister as Noah, George O’Brien as Japheth, Noah’s son, and Dolores Costello as Miriam, Noah’s handmaid in love with Japheth.

“A Arca de Noé” é um destes curiosos filmes parcialmente falados que estrearam pouco depois de “O Cantor de Jazz” (1927). Há efeitos sonoros, canções e até mesmo alguns diálogos no filme. Como você deve imaginar, isso acontece porque o filme foi planejado como uma produção silenciosa, mas o cinema falado surgiu e houve uma mudança de planos. Com 135 minutos em sua estreia, “A Arca de Noé” sofreu diversos cortes, com muitas sequências com diálogos que não funcionavam bem sendo cortadas, e agora a única versão disponível tem 105 minutos de duração.

“Noah’s Ark” is one of those odd part-talkies released a little while after “The Jazz Singer” (1927). There are sound effects, songs and even some spoken dialogue in the film. As you might have imagined, this happens because the movie was planned to be a silent production, but sound came and the plans changed. Running 135 minutes in its release, “Noah’s Ark” suffered several cuts, with many talking sequences that didn’t work well being cut, and now the only version available is 105 minutes long.

As estrelas deste filme parcialmente falado tiveram experiências variadas com o cinema sonoro. Dolores Costello fez apenas alguns filmes falados, porque ela se casou com John Barrymore no mesmo ano em que “A Arca de Noé” foi feito. Eles se divorciaram em 1935, quando Dolores voltou para o cinema para fazer mais nove filmes antes de se aposentar definitivamente. George O’Brien, mais conhecido hoje como o protagonista de “Aurora” (1927), teve uma longa carreira na era sonora, se aposentando apenas em 1964.

The stars of this part-talkie had varied experiences with sound films. Dolores Costello made only a handful of them, because she got married to John Barrymore the same year “Noah’s Ark” was made. They divorced in 1935, when Dolores went back to cinema to make nine more movies before retiring for good. George O’Brien, better known today as the lead of “Sunrise” (1927), had a long career in the sound era, retiring only in 1964.

Noah Beery, que interpreta dois papéis vilanescos, trabalhava no cinema desde 1913 e fez uma boa transição para o falado, trabalhando em todo tipo de filme até sua morte em 1946. Paul McAllister teve em “A Arca de Noé” seu melhor papel, e trabalhou quase sempre sem receber crédito na era sonora. Louise Fazenda, que tem um pequeno papel neste filme, trabalhou também nos filmes falados, mas não com o mesmo sucesso que teve no cinema mudo. Dito isto, podemos afirmar que a pessoa mais bem-sucedida nos filmes sonoros que também esteve neste filme foi Myrna Loy, que tem duas falas aqui mas que se tornou uma das mais amadas estrelas na década seguinte.

Noah Beery, who plays two villainous roles, had been working in movies since 1913 and transitioned well to talkies, working in all kinds of movies until his death in 1946. Paul McAllister had in “Noah’s Ark” his best role, and worked almost always uncredited in the sound era. Lousie Fazenda, who has a small role in this movie, worked in the sound era as well, but not with the same success she had in silents. That being said, we can affirm that the most successful person in the sound era who was also in this movie was Myrna Loy, who has a couple of lines here but went on to become one of the most beloved actresses of the following decade.

Noah Beery

Assim como a maioria dos épicos da Era de Ouro de Hollywood, “A Arca de Noé” foi muito caro. Na parte da história bíblica, há grandes multidões de pecadores, cenários imensos e até um grande livro escrito com fogo. Obviamente, a sequência do dilúvio é o ápice, e também a parte mais comentada do filme. Várias fontes dizem que três figurantes se afogaram filmando a cena, um teve que amputar a perna e quase uma dúzia quebrou costelas e sofreu outros traumas. A quantidade de água utilizada foi cerca da mesma quantidade de uma piscina olímpica.

Like most epic films from the Golden Age of Hollywood, “Noah’s Ark” was very expensive. In the Biblical story part, there are big crowds of sinners, huge sets and even a massive book written with fire. Of course, the flood sequence is the highlight, and also the most talked about part of the movie. Various sources say that three extras drowned while filming the scene, one had to have his leg amputated and almost a dozen suffered broken ribs and other injuries. The amount of water used is said to be the same of an Olympic-sized swimming pool.

Há uma sequência silenciosa muito poderosa com o exército norte-americano marchando através de Paris. Marie assiste o desfile e podemos sentir seu desconforto, afinal, aqueles homens estavam indo matar o povo dela. Travis, animado no começo, olha em volta e vê um soldado sem uma perna e mulheres em luto pela perda de seus filhos e maridos na guerra. Quando ele vê Al, Travis decide se juntar também ao exército, deixando para trás Marie de coração partido. Ao se juntar ao desfile, Travis pergunta “Para onde vamos?” e recebe como resposta “Quem sabe ou se importa?”.  

There is a very powerful silent sequence featuring the North American army marching through Paris. Marie watches the parade and we can feel her discomfort, after all, those men are about to kill her people. Travis, excited at first, looks around and sees a soldier without a leg and women mourning the loss of their sons and husbands in the war. When he sees Al, Travis decides to join the army as well, leaving behind a broken-hearted Marie. As Travis joins the parade, he asks “Where to?” and receives as an answer “Who knows or cares?”.

Além do desastre criado por Deus, o grande dilúvio, “A Arca de Noé” fala de desastres criados pelo homem que são igualmente prejudiciais. Obviamente, a guerra é o maior desastre feito pelo homem, mas há também a adoração de falsos deuses. Quando o filme compara o dilúvio divino com a guerra, ele cria um precedente muito perigoso: ele chama a guerra de vontade de Deus, praticamente inocentando os líderes mundiais que começaram a guerra ou mesmo dizendo que eles estavam seguindo as ordens de Deus. Este é um discurso extremamente nocivo que o filme infelizmente apoia.

Besides the God-made disaster of the great flood, “Noah’s Ark” talks about man-made disasters that are as harmful. Of course, the war is the biggest man-made disaster, but there is also the worshipping of fake gods. When the movie compares the divine flood with the war, it creates a very dangerous precedent: it calls the war a will of God, practically saying that the world leaders who started the war were innocent or were simply following God’s orders. This is an extremely dangerous discourse that the film unfortunately backs up.

“A Arca de Noé” foi o primeiro trabalho de Darryl F. Zanuck como produtor e, tendo apenas 26 anos de idade, ele prometeu “fazer o maior filme já feito”. Seu grande filme foi um fracasso de bilheteria e também não agradou aos críticos. Entretanto, não é um filme ruim. Considerada a primeira produção notável dirigida por Michael Curtiz em Hollywood, “A Arca de Noé” é uma surpresa agradável que mistura - embora com resultados estranhos - o passado e o presente de uma maneira quase única.

“Noah’s Ark” was Darryl F. Zanuck’s first assignment as a producer and, being only 26 years old, he promised to “make the greatest picture ever made”. His great film was a box-office failure and didn’t please the critics either. However, it’s not a bad film. Considered to be the first notable production directed in Hollywood by Michael Curtiz, “Noah’s Ark” is a pleasant surprise that mixes - although with odd results - the past and the present in an almost unique way.

This is my contribution to the Second Disaster blogathon, hosted by Dubsism and Pale Writer.    

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