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Friday, November 16, 2018

A Regra do Jogo (1939) / The Rules of the Game (1939)


A vida de um cinéfilo muitas vezes se resume a sempre tentar completar algum tipo de lista. Pode será lista da AFI dos melhores filmes feitos nos EUA, ou a lista da Sight and Sound dos melhores filmes de todos os tempos. Quantos nós já vimos de cada lista? E o mais importante: quanto ainda falta para completar cada lista?

The life of a film lover is the life of someone who is always trying to complete some kind of list. It may be the AFI list of the best American movies, or the Sight and Sound list of best films ever made. How many have we already watched from each list? And more important: how many is left for us to complete each list?


Por isso, como parte de um desafio, eu decidi dar uma olhada na lista do site “They Shoot Pictures Don’t They?”, com os mil melhores filmes e escolher o filme com melhor posição no ranking que eu ainda não tenha visto e dar uma chance a ele. O escolhido foi “A Regra do Jogo”, filme francês de 1939, que está na quarta posição na lista de melhores filmes.

So, as I felt challenged, I decided to see the “They Shoot Pictures Don't They?” list of 1000 greatest films and pick the highest-ranked film from the list I hadn't seen to give it a chance. The chosen film was then “The Rules of the Game”, or “La Règle du jeu” in its original French, from 1939, ranked fourth on the list of best films.


São muitos os convidados para uma caça ao coelho e ao faisão e a um baile à fantasia no La Colinière, o castelo que pertence a Christine (Nora Gregor) e Robert de La Cheyniest (Marcel Dalio). Entre os convidados estão André Jurieux (Roland Toutain), que acabara de cruzar, sozinho, o oceano Atlântico em tempo recorde; a amante de Robert, Geneviève (Mila Parély); o amigo de infância de Christina e melhor amigo de André, Octave (interpretado pelo próprio diretor Jean Renoir); e muitos outros.

Lots of people are invited to a rabbit and pheasant hunt and a masquerade at La Colinière, the castle that belongs to Christine (Nora Gregor) and Robert de la Cheyniest (Marcel Dalio). Among the guests there are André Jurieux (Roland Toutain), who has just crossed, all alone, the Atlantic by plane in record time; Robert's lover, Geneviève (Mila Parély); Christine's childhood friend and André's best friend, Octave (director Jean Renoir himself); and many more.


O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema em 1930 chamado “Quadrilha”, em que ele descreve os muitos amores de um grupo de pessoas. Temos algo similar em “A Regra do Jogo”: André ama Christine, que ama André e Robert, que ama Geneviève mas quer terminar o caso. Todos estão tendo casos extraconjugais, e estes casos não são segredo para ninguém.

Brazilian poet Carlos Drummond de Andrade wrote a poem in 1930 called  “Quadrilha”, in which he describes the many loves of a group of people. We have something similar here in “The Rules of the Game”: André loves Christine, who loves both him and Robert, who loves Geneviève but wants to end the affair. Everybody is making whoopee, as the slang of the time went, and  the affairs were no secret for anybody.


Eles não estão apenas cientes das traições mas também dispostos a socializar com os amantes dos parceiros e compartilhar com eles reclamações. Esta é a alta sociedade. A classe baixa, por outro lado, não lida tão bem com as traições. Sim, trair é o que aproxima a alta sociedade de seus empregados, mas a reação à traição é muito diferente.

They are not only aware of all the cheating but also willing to mingle with their partners' lovers and share pet peeves. This is high society. The lower class, on the other hand, doesn't deal so well with cheating. Yes, cheating is what approximates high society and their servants, but the reaction to cheating is so different.


Tome como exemplo Lisette (Paulette Dubost), empregada de Christine. Ela fica o tempo todo em Paris e está acostumada aos hábitos da alta sociedade. Seu marido, Edouard Schumacher (Gaston Modot), trabalha no castelo no campo, e tem outra visão sobre o assunto. Ele não vê o adultério como algo normal, e fica furioso quanto Lisette flerta e beija outros homens – mas isso não a impede de continuar flertando. Como diz Lisette: “Quando é só por diversão, isso (a traição) não importa”.

Take for example Lisette (Paulette Dubost), Christine's servant. She spends all her time in Paris and is used to the habits of high society. Her husband, Edouard Schumacher (Gaston Modot), works in the castle on the countryside, and has another approach. He doesn't see adultery as something normal, and gets mad whenever Lisette flirts with and kisses other men – but his anger doesn't stop her. As Lisette says: “When it's just for fun, it (cheating) doesn't matter”.


Octave, interpretado pelo próprio Jean Renoir, é quem faz a ligação entre todos os personagens, mantendo boas relações tanto com a alta sociedade quanto com os empregados – ele também serve de alívio cômico em algumas ocasiões. E é ele quem diz: “Hoje todo mundo mente. O rádio, o cinema...” Irônico colocar estas palavras na boca do diretor.

Octave, played by Jean Renoir himself, is the one who makes a connection between all characters, being friendly with both the high society and the servants – he also serves as comic relief  in some occasions. And he's the one who utters the line: “today everybody lies. The radio, the cinema...” It’s ironic that these words come from the director’s mouth.


O subtítulo de “A Regra do Jogo” é “uma fantasia dramática de Jean Renoir”. De fato, o filme não é uma comédia – embora tenha momentos divertidos, quando se aproxima de uma farsa – e é uma grande crítica da hipocrisia na sociedade francesa. Mesmo com toda a sujeira acontecendo, – incluindo as traições e as brigas causadas pelas traições – a alta sociedade tem de parecer respeitável e indiferente, por isso traídos e traidores precisam fingir que são bons amigos, como se nada estivesse acontecendo e como se nada fosse um problema para eles – você entenderá quando ver o final do filme.

The subtitle of “The Rules of the Game” is “a dramatic fantasy by Jean Renoir”. Indeed, the film is not a comedy – although it has funny moments, becoming next to a farce – and it is a huge critic of the hypocrisy in French society. Even with all the dirt going on – that includes both the cheatings and the fights caused by the cheatings – high society has to look respectable and aloof, so cheaters and victims of cheating have to treat each other as good friends, as if nothing is happening and as if nothing could be a problem for them – you’ll understand when you see the ending of the film.


Tal filme não poderia ter sido feito nos EUA por causa da censura e do código Hays, e “A Regra do Jogo” não foi bem recebida na França, tendo mau desempenho na bilheteria e gerando protestos. E, quando a Alemanha nazista invadiu a França, “A Regra do Jogo” foi banida permanentemente por ser considerado um filme imoral.

Such a film couldn't be made in the US because of censorship and the Hays Code, and it wasn't well-received in France either, where it had a poor box-office performance and was the source of protests. And, when Nazi German invaded France, “The Rules of the Game” was permanently banned because it was considered an immoral film.


Um diálogo representa perfeitamente esta sociedade culturalmente ignorante. Uma das convidadas pergunta à sobrinha de Christine, Jackie (Anne Mayen), o que exatamente é essa tal arte pré-colombiana que a menina estuda na faculdade. Quando ela responde “É a civilização americana antes da chegada de Colombo”, a mulher reage com: “oh, pretos!” Jackie precisa ser mais clara: “Não, índios”, ao que a mulher mais uma vez reage com “Como eu fui boba! Buffalo Bill!” Elas partem em direções opostas, a mulher muito feliz, e Jackie resignada com a conversa estúpida.

One dialogue represents perfectly satirizes this culturally ignorant high society. One of the guests asks Christine's niece, Jackie (Anne Mayen), what exactly is this pre-Colombian art the girl is studying at college. When she answers “It's the American civilization before Columbus's arrival”, the woman reacts: “oh, negroes!” Jackie has to make it clear: “No, Indians”, to which the woman once again reacts: “How silly I am! Buffalo Bill!” They go on opposite sides, the woman very happy, Jackie resigned with the stupid conversation.


Mais do que tudo, “A Regra do Jogo” é produto da imaginação e visão de Renoir sobre a sociedade francesa. Tudo era muito óbvio para ele. Por exemplo: a própria Nora Gregor tinha uma história semelhante à de Christine: ela se tornou amante de um homem casado, o vice-chanceler da Áustria, em meados dos anos 30 e teve um filho com ele. Eles acabaram se casando, e quando ela filmou “A Regra do Jogo” já sabia bem o que era ter uma experiência com traição.

More than anything, “The Rules of the Game” is the product of Renoir’s imagination and vision about French society. Everything was too obvious to him. For example: Nora Gregor herself had a story similar to Christine’s: she became the lover of a married man, the vice chancellor of Austria, in the mid-1930s and had a child with him. They were eventually married, and when she shot “The Rules of the Game” she already knew well the cheating experience.


O filme merece estar um uma posição tão alta numa lista dos melhores filmes já feitos? Certamente. Reassistindo-o poderei apreciar por completo sua genialidade, mas já vejo a técnica empregada e a crítica necessária que foi feita: elas podem não estar escritas nem ser comentadas, mas uma vez que você aceita começar a vida sexual, você já aceitou a regra do jogo.

Does the film deserve to be so high in a list of best films ever made? Certainly. With more viewing I’ll be able to fully appreciate its genius, but I see that technique used to make the film, and also the necessary critic it makes: they may be unwritten and unspoken, but once you agree to start mating, you have agreed with the rules of the game.

This is my contribution to The Greatest Film I’ve Never Seen blogathon, hosted by Debbie at Moon in Gemini.

Wednesday, April 1, 2015

Levada à Força / The Story of Temple Drake (1933)

Esta crítica contém spoilers.

Pre-Code é o termo usado para descrever os filmes falados feitos entre 1929 e 1934, quando o Código Hays de “decência” entrou em vigor. Estes filmes apresentavam insinuações sexuais, silhuetas sugestivas, comportamento considerado reprovável, crimes sem punição e promiscuidade. Mas não fique animado: tais filmes não são nada pornográficos e, vistos hoje, são quase todos simples. Quase todos: “The Story of Temple Drake” continua longe de ser simples e inofensivo.
Um dia, Danny, o mago do pre-Code (e responsável pelo excelente site pre-code.com) convidou os bravos blogueiros para escreverem sobre estes filmes travessos e fascinantes. E foi assim que eu me lembrei de uma frase que Danny soltou no Twitter:


Então aqui está, Danny. Um artigo sobre “The Story of Temple Drake”, escrito por uma mulher – e uma mulher feminista.


Ela é uma boa garota, Stephen”: é assim que o avô se refere a Temple Drake (Miriam Hopkins). Na cena seguinte, quando somos apresentados a ela, Temple está chegando tarde em casa e tentando se livrar do homem que a acompanhava naquela noite – e que queria mais alguns beijos. Temple é assunto da fofoca de todos na cidade.
Depois que o bom advogado Stephen Benbow (William Gargan) a pede em casamento mais uma vez, Temple foge com seu acompanhante Toddy (William Collier Jr) e, indo em alta velocidade, o carro deles capota. Quem os encontra é o sinistro Trigger (Jack La Rue), que os leva a uma casinha quase destruída. Depois de se mandar seus capangas levarem Toddy embora, Trigger mata o bobo Tommy (James Eagles) e violenta Temple.
O dono da casa em que tudo aconteceu, Lee Goodwin (Irving Pichel) é acusado pelo assassinato de Tommy e, sem dinheiro para contratar um advogado, lhe é indicado Stephen. E é seguindo o rastro de Trigger, o verdadeiro assassino, que Stephen reencontra Temple, e a moça inicia uma jornada de mentiras, sacrifício e dúvidas morais.


Filmes não são fábulas. Não é preciso procurar uma “moral da história” ao fim de cada um deles. Se procurássemos uma lição neste filme, alguns pensariam no velho, ultrapassado conselho: se Temple fosse uma moça “correta” e tivesse aceitado se casar com Stephen, nada de ruim teria lhe acontecido. O comportamento dos personagens no pre-Code é sempre muito liberal, e quase sempre eles aprendem que o crime e a promiscuidade não compensam. Há pessoas que ainda pensam assim, mas a visão de quem conhece o filme mais de 80 anos depois de sua estreia pode (e deve) ser muito diferente da opinião de quem viu o filme originalmente nos cinemas.
Há alguns momentos bem pre-Code: o close nas pernas de Temple, a moça só de lingerie depois de uma tempestade. Miriam Hopkins é a alma do filme, e as expressões de seu rosto (em especial dos olhos) falam mais que qualquer diálogo. O filme poderia ter sido até mais pre-Code, se não fosse por uma troca de papéis: George Raft não aceitou o papel de Trigger, e Jack La Rue, um ano antes, havia perdido o papel de Rinaldo em “Scarface” (1932) justamente para Raft (o TCM diz que Jack perdeu, na verdade, o papel principal para Paul Muni).

Por que “The Story of Temple Drake” escandalizou Hollywood? Primeiro, porque é uma adaptação do livro “Sanctuary”, de William Faulkner, considerado impossível de ser transportado para as telas. Segundo, porque a polêmica ficou nas entrelinhas, e a mente mais ou menos poluída de cada espectador se encarregou de imaginar barbáries. Por quanto tempo ela ficou com Trigger? Por que ela ficou esse tempo com Trigger? Temple estava assustada demais para fugir? Ela sabia que sua vida não seria mais a mesma se voltasse para sua cidade (estaria “desgraçada”)? Ou... será que ela gostou de ser escrava sexual de Trigger? Por que Temple só resolve tomar uma atitude ao reencontrar e mentir para Stephen?


Esses temas e debates, sobre comportamento feminino considerado “adequado”, violência sexual, vingança e autodefesa são, surpreendentemente, todos abordados no meu novo livro. Escolhi “The Story of Temple Drake” por causa do tweet no topo do post, mas os temas me tocaram profundamente pela coincidência (sério, quais as chances de ver um filme que tem tudo a ver com seu livro... por acaso?). São produtos de épocas diferentes, e vão encontrar recepções e interpretações diferentes. “The Story of Temple Drake” deixa muitas questões em aberto, e isto é uma das características que fazem um bom filme – pre-Code ou não.

This is my contribution to the Pre-Code Blogathon, hosted by the naughties Danny at pre-code.com and Karen at Shadows and Satin. Sin on celulloid!



Thursday, January 29, 2015

Espelho D'Alma (1946) / The Dark Mirror (1946)

Se você gosta de um bom drama, seja em filmes, livros, novelas ou outra mídia, já deve ter encontrado pela frente o clichê da gêmea boa e da gêmea má. Essa fórmula de duas pessoas iguais fisicamente, mas com personalidades diferentes, de modo que uma delas odeia a outra, já foi usada dos mais diversos jeitos, em atrações interessantes ou como um grande atentado à inteligência humana. O truque pode ser conhecido hoje, mas era relativamente novo em 1946. Era a época de filmes noir, dos assassinatos em preto e branco, das femme fatales. Mas e quando não é uma, mas duas femme fatales, uma delas vítima e quiçá cúmplice da outra?

If you like a good melodrama, in film, books, soap operas or any other media, you might have met with the good twin / bad twin cliché. The formula of two people physically identical, but with different, clashing personalities, was already used in many ways, in interesting works of art or as a poor last resource. The trick can be well-known today, but it was relatively new in 1946. Tey were the times of film noir, black and white murders and femme fatales. But what happens when we have not one, but two femme fatales, and one of them is a victim and maybe the accomplice of the other one?


O Doutor Peralta foi encontrado morto. Esfaqueado, assassinado. Dois de seus vizinhos e a secretária apontam como assassina Teresa Collins (Olivia de Havilland), a moça que vende revistas e com quem o doutor planejava se casar. De sorriso amplo e olhos brilhantes, Teresa fica surpresa ao saber da morte do doutor. E mais: tem três álibis que a viram muito longe do local do crime naquela noite.

Doctor Peralta was found dead. He was stabbed, he was murdered. Two of his nwighbors and his secretary believe the killer is Teresa Collins (Olivia de Havilland), a magazine seller with whom the doctor wanted to get married. With a big smile and bright eyes, Teresa is shocked to learn about the doctor’s death. And more: there are three people who can prove she was very far from the place the crime happened that night.


Mas o caso é mais complicado do que parece: Teresa tem uma irmã gêmea idêntica, Ruth, e ambas se revezavam na banca de revistas, de modo que ninguém no edifício sabia que se tratavam de duas irmãs. Isso frustra o tenente Stevenson (Thomas Mitchell) e o jovem Rusty (Richard Long), que estava apaixonado pela moça. As irmãs se recusam a falar qualquer coisa, de modo que fica impossível provar qual é culpada e qual é inocente.

But the case is more complicated than it looks like: Teresa has an identical twin sister, Ruth, and both worked at the magazine shop, and nobody at the building knew there were two sisters running the shop. This frustrates Lieutenant Stevenson (Thomas Mitchell) and young Rusty (Richard Long), who was in love with the girl. The sisters refuse to say anything, and it becomes impossible to prove who is guilty and who is innocent.


Ainda há uma esperança: o doutor Scott Elliott (Lew Ayres), médico no mesmo edifício e, conveniente e coincidentemente, especialista em gêmeos. Elas aceitam participar de uma pesquisa com o doutor, e logo a situação fica óbvia demais: a gêmea má se volta contra a gêmea boa e tenta fazê-la passar por louca.

There is still hope: Doctor Scott Elliott (Lew Ayres), a physician at the same building is, conveniently, an expert in twins. The girls accept to take part in a research with the doctor, and soon the situation becomes too obvious: the bad twin turns against the good twin and tries to make people believe the good twin is crazy.


É um pouco óbvio para o espectador quem é a gêmea boa e quem é a má. Isso é o ponto frustrante do filme. Entretanto, é interessante notar como de fato a polícia estava de mãos atadas com este caso. Com a tecnologia de hoje, provavelmente seria muito mais fácil identificar a gêmea criminosa. Mas não se preocupe: apesar desta fraqueza, o filme tem bons momentos e um excelente clímax, capaz de deixar qualquer um boquiaberto e com os neurônios retorcidos.

It is a little obvious for the audience who is the the good twin and who is the bad twin. This is the most frustrating thing in the film. However, it’s interesting to see how the police was really clueless with the case. With today’s technology, it’d probably be much easier to find out who is the guilty twin. But don’t worry: disconsidering this low point, the film has good moments and an excellent climax, that lets anyone breathless and with confused neurons.


Há um pouco de didatismo no filme. A psique humana ainda era um enigma para a maioria das pessoas. O pai da psicanálise, Sigmund Freud, havia morrido fazia apenas sete anos, e o público precisava ser doutrinado. Mas não se preocupe: não é o estilo “palestra do subconsciente” que Ingrid Bergman, Gregory Peck e Alfred Hitchcock fizeram um ano antes, em “Quando Fala o Coração” (1945). A novidade psicológica do filme fica por conta do teste Rorschach, em que o paciente diz o que vê em uma folha com um borrão de tinta. Este teste, motivo de piada em diversos filmes e seriados desde então, foi considerado ineficaz por estudiosos em 1965. 

There is a little didaticism in the film. Human psique was still an enigma for most people. The father of psychoalysis, Sigmund Freud, had died seven years before, and the audience needed to be doctrinated. But don’t worry: this is not the kind of “lecture about the subconscious” that Ingrid Bergman, Gregory Peck and Alfred Hitchcock did one year before, in “Spellbound” (1945). The big psychological novelty in the film is the Rorschach test, in which the patient describes what he or she sees in a paper with a paint stain. This test, center of many jokes in movies and series since then, was considered ineffective by academics in 1965.


É curioso ver o diálogo sobre rivalidade entre irmãs ser feito justamente para Olivia de Havilland, que teve uma longa rixa com a irmã também atriz Joan Fontaine. Os detalhes dessa rivalidade que vem desde a infância não foram tornados públicos (ao menos não todos os detalhes), mas sem dúvida é impossível dizer quem estava certa ou errada na disputa De Havilland contra Fontaine.

It is curious to see the dialog about sibling rivalry being acted exactly by Olivia de Havilland, who had a long feud with her sister (and also actress) Joan Fontaine. The details of this rivalry that comes since childhood were never made public (at least not ALL details), but without a doubt it’s impossible to say who was right or wrong in the De Havilland against Fontaine case.


Para Olivia de Havilland, 1946 foi um grande ano. Ela ficou dois anos afastada do cinema enquanto lutava para se livrar do abusivo contrato de sete anos da Warner Brothers. Por ter rejeitado vários papéis ruins, Olivia foi informada de que ficaria mais seis meses exclusiva da Warner, como forma de punição. Ela foi aos tribunais e ganhou o caso, mas, graças à influência da Warner em Hollywood, nenhum estúdio lhe ofereceu trabalho entre 1944 e 1946. Lew Ayres também estava afastado do cinema, porque deixou Hollywood em 1942 para trabalhar como médico e capelão durante a guerra no Pacífico. Protagonista de “Sem Novidade no Front” (1930), Ayres era um grande pacifista e perdeu a simpatia dos colegas durante a guerra porque se opunha ao conflito.

For Olivia de Havilland, 1946 was a fantastic year. She was far from movies for two years, fighting to get rido f Warner Brothers’s abusive seven-year contract. Because she rejected several bad roles, Olivia was informed that she would be a Warner exclusive for six more months as a punishment. She went to court and won the case, but, thanks to Warner’s influence in Hollywood, no studio offered her work between 1944 and 1946. Lew Ayres was also far from the movie business, because he left Hollywood in 1942 to work as doctor and chaplain during the war in the Pacific. The lead of “All Quiet on the Western Front” (1946), Ayres was a pacifist and lost the sympathy of his movie colleagues because he was against the war. 


Este não é o melhor filme de nenhum de seus atores. Não é o melhor filme do diretor Robert Siodmak (de “Os Assassinos”, 1946) nem do produtor Nunnally Johnson (de “Um Retrato de Mulher”, 1944). Mas é um filme muito bom, como o são todos os clássicos.

This is not the best film for nwither Olivia now Lew. It is not the best film by director Robert Siodmack (who did “The Killers” also in 1946) nor by producer Nunnally Johnson (from “The Woman in the Window”, 1944). But it is a very good classic film nonetheless.

This is my contribution to the Fourth Annual Dueling Divas blogathon, hosted by Lara at Backlots.

Sunday, January 25, 2015

A Lei da Fronteira / Frontier Marshal (1939)

1939 foi um grande ano para o gênero western. Durante a década de 1930, os filmes ambientados no Velho Oeste estavam quase sempre relegados à categoria B: eram curtos (por volta de uma hora de duração), feitos sem grande orçamento e destinados a ser a atração menor nas matinês e “double features”. Os westerns B eram o que garantiam o emprego do pobre John Wayne nos anos 30, mas tudo iria mudar: em 1939, John Ford e John Wayne levaram o western de volta à lista de gêneros mais prestigiados com “No tempo das diligências / Stagecoach”.
Também em 1939 foi feito “A Lei da Fronteira / Frontier Marshal”, o primeiro filme a contar a história de Wyatt Earp, Doc Holliday e o tiroteio no O.K. Corral. E um dos velhos conhecidos do western B foi escolhido como protagonista. Enquanto John Wayne fazia filmes ruins na Warner, Randolph Scott era o caubói rústico da Paramount. Na década de 1930, ele também participou de filmes de horror, aventura e até de um musical com Fred Astaire e Ginger Rogers! Mas ele voltaria às origens do Velho Oeste. Era só uma questão de tempo.
A cidade de Tombstone foi povoada por oportunistas que queriam ficar ricos explorando prata. Logo Tombstone se transformou em um lugar ideal para bandidos, e o xerife local (Ward Bond), com medo de morrer e deixar mulher e filhos desamparados, não queria combater o crime. Foi então que Wyatt Earp (Randolph Scott), descendo por um cano, afirmou que os bandidos precisavam ser detidos. E assim ele se tornou xerife de Tombstone.
O primeiro contato de Wyatt com Doc Holiday (Cesar Romero) não é nem um pouco amistoso: ele decide atirar em Wyatt depois que o novo xerife joga a cantora de saloon Jerry (Binnie Barnes) na água. Mas Wyatt é bem mais sensato que Doc porque, apesar de ser um perigoso pistoleiro, Doc sofre com a tuberculose e com seu vício pela bebida, duas coisas que também preocupam a enfermeira apaixonada Sarah (Nancy Kelly).
Aqui Doc Holliday é a grande estrela. Cesar Romero era nove anos mais novo que Randolph Scott, e até então havia sido estereotipado em Hollywood. Sim, ele contracenou com grandes estrelas, como William Powell, Shirley Temple e Carole Lombard, mas sempre interpretando algum tipo exótico ou estrangeiro, embora ele próprio tenha nascido em Nova York.
A confusão no filme começa quando o bandido Ben Carter (John Carradine) e seus capangas levam a força o comediante Eddie Foy (interpretado por seu filho Eddie Foy Jr) para se apresentar em um bar. Mas o tempo todo Doc Holliday é o verdadeiro alvo de Ben Carter.
“A Lei da Fronteira / Frontier Marshal” está longe de ser um western de primeira classe. Tem bons momentos, sim, incluindo a operação que Doc precisa fazer para salvar a vida de um garotinho. Randolph Scott não erra nenhum tiro e já constrói a persona de seus xerifes futuros. Para Scott, o melhor ainda estava por vir.

This is my contribution to The Blogathon for Randolph Scott , hosted by Toby at 50 Westerns from the 50s. Yipee!

Thursday, October 16, 2014

The D.I. (1957) e o incrível Jack Webb

The D.I. (1957) and the amazing Jack Webb
Ator, produtor, diretor, roteirista. Com este currículo, Jack Webb me fez lembrar Orson Welles. Mas eu nunca havia ouvido falar de Jack Webb, o que me fez pensar que Jack era o Orson Welles dos pobres. Como eu estava enganada! Welles e Web têm muito em comum, além dos diversos papéis em frente e atrás das câmeras: homens durões e sérios, que começaram a carreira no rádio, conquistaram mulheres bonitas, conseguiram sucesso e não cuidaram bem da própria saúde. Welles dirigiu e estrelou seu filme mais conhecido, “Cidadão Kane”. Jack estrelou, dirigiu e também produziu seu filme mais conhecido, “The D.I.” (1957).

Actor, producer, director, screenwriter.  With this resumée, Jack Webb  reminded me of Orson Welles. But I had never heard about Jack Webb, so I though he was the poor people's Orson Welles. How wrong I was! Welles and Webb had a lot in common, besides their functions in front of and behind the cameras: tough and serious men, they both started in the radio, conquered pretty women, were successful and didn't take care of their own health. Welles directed and starred in his best known film, “Citizen Kane”. Jack starred, directed and also produced his best known film, “The D.I.” (1957).


O sargento Jim Moore (Jack Webb) treina seu pelotão com disciplina e pulso firme. Não há lugar para moleza entre os soldados! Mas o exemplar recruta Owens (Don Dubbins), quando está sob pressão, não consegue manter o foco e se atrapalha. Isso leva o sargento Moore a gritar muito com Owens & Companhia, e o ponto alto da tirania acontece quando ele obriga todo o pelotão a encontrar uma mosca que Owens matara naquela tarde na praia. A missão? Enterrar a mosca!

Sergeant Jim Moore (Jack Webb) trains his platoon with discipline and toughness. There is no place for laziness among soldiers! But exemplary newcomer Owens (Don Dubbins), whenever he is under pressure, can't focuse and makes mistakes. That's why sergeant Moore shouts a lot with Owens and Co., and the climax of his tiranny is when he makes the platoon find a fly Owens had killed that afternoon at the beach. The mission? To bury the fly!

Este era apenas o segundo filme dirigido por Jack Webb, mas ele já acumulava grande prestígio. Webb foi um dos atores que se tornou ídolo nos primeiros anos da televisão. O novo meio engatinhava e ele já soube o que fazer para alcançar o sucesso. E Jack trabalhou com o que mais gostava: investigação policial. Foi com o filme “O Demônio da Noite / He Walked by Night” (1948) que ele teve a ideia de criar um programa de rádio (e, depois, de televisão) contando casos verídicos investigados pela polícia de Los Angeles. Pela primeira vez o público poderia se sentir parte da investigação, conhecendo métodos e jargões policiais. No rádio, “Dragnet” durou de 1949 a 1957. Na televisão, de 1951 a 1959.

This was only the second film directed by Jack Webb and he already had prestife. Webb was one of the actors who became an idol when TV appeared. The new medium was still crawling and he already knew what to do to be successful. And Jack worked with his favorite thing: police investigation. It was through the film “He Walked by Night” (1948) that he had the idea to create a radio show (and, later, a TV show) about real cases investigated by the LA police department. For the first time, tthe audience could feel like part of the investigation, getting to know the method and the slang used by the police. In the radio, “Dragnet” lasted from 1949 to 1957. On TV, from 1951 to 1959.


Jack Webb gostava de duas coisas em suas produções: economia e veracidade. E ele conseguiu ambos neste filme ao contratar marinheiros de verdade para interpretar os colegas de pelotão do recruta Owens. O próprio ator Don Dubbins, intérprete de Owens, tinha um pouco de experiência na frente de batalha cinematográfica: trabalhou como extra nos filmes de guerra “A um passo da eternidade / From Here to Eternity” (1954) e “A Nave da Revolta / The Caine Mutiny” (1954).

Jack Webb liked two things in his productions: economy and truth. And he got both in “The D.I.” as he hired real Mariners to play the members of Owens's platoon. Actor Don Dubbins himself had some experience in the film front: he had worked as an extra in the war movies “From Here to Eternity” (1954) and “The Caine Mutiny” (1954).


Podemos ver que Webb era um excelente diretor com apenas uma cena: o close da boca de um soldado enquanto este fala suas dezenas de tarefas. São muitos os closes neste filme, e também os travellings no alojamento dos soldados. Webb pode não ter inovado tanto nos ângulos de câmera quanto Welles, mas sem dúvida fez um belo trabalho neste drama psicológico.

We can see that Jack Webb was an excellent director with only one scene: the close-up of a soldier's mouth while he says dozens of chores. There are a lot of close-ups in this film, and also many travellings in the soldiers' quarters. Webb may not have been as innovative with the camera angles, but without a doubt he did a good job in this psychological drama.


São muitos os filmes sobre a Marinha. São muitos os filmes com comandantes tiranos. O sargento Jim Moore em muito se parece, por exemplo, com o capitão Morton, interpretado por James Cagney em “Mister Roberts” (1955). E a situação de treinamento para a batalha nas praias lembra muito “Iwo Jima – O Potal da glória / Sands of Iwo Jima” (1949, que também contava com alguns soldados de verdade no elenco). Não há como não associar os sentimentos paternalistas de Moore pelo recruta Owens com o carinho velado que o sargento Stryker (John Wayne) tem pelo recruta Conway (John Agar) no filme de 1949.

There are many films about the Marines. There are many films with tyrannical commanders. Sergeant Jim Moore is a lot like Captain Morton, played by James Cagney in “Mister Roberts” (1955). And the training sequence at the beach reminds us of “Sands of Iwo Jima” (1949, that also had some real soldiers in the cast). There is no way to deny that Moore's fatherly feelings towards Owens are just like the kind of love Sergeant Stryker (John Wayne) has towards Conway (John Agar) in the 1949 film.
Sands of Iwo Jima (1949)
As três mulheres do filme merecem atenção: Virginia Gregg rouba a cena como a mãe do recruta Owens. Virginia terminaria a carreira dando voz a outra mãe, bem mais notória: ela dubla Norma Bates em “Psicose III” (1986). Monica Lewis canta uma canção escrita por Ray Conniff, “If’n You Don’t, Somebody Else Will”. A vendedora por quem o sargento Moore se interessa é Jackie Loughery, então esposa de Jack Webb e ex-Miss Estados Unidos. Mas, como em todos os filmes em que a Marinha é tema, o destaque é masculino. E Jack Webb merece todos os créditos pelo sucesso de “The D.I.”

The three women in the film deserve attention: Virginia Gregg steals the scene as Owens's mother. Virginia would end her career dubbing another mother, a more famous one: she was the voice of Norma Bates in “Psycho III” (1986). Monica Lewis sings a song written by Ray Conniff, “If’n You Don't, Somebody Else Will”. The salesgirl for whom Sergeant Moore falls is Jackie Loughery, then Jack Webb's wife and former Miss USA. But, as it happens in all films about the Marines, the men receive more attention. And Jack Webb deserves all the credit for the success of “The D.I.”.

This is my contribution to the Jack Webb blogathon, hosted by Toby at The Hannibal 8. Yes, sir!

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