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Thursday, June 13, 2019

Dr Morelle: O Caso da Herdeira Desaparecida (1949)


Dr Morelle: The Case of the Missing Heiress (1949)


Poderia ter sido Agatha Christie e sua Miss Marple. Poderia ter sido Hitchcock e os protagonistas de “A Dama Oculta” (1938). E poderíamos ter sido nós. Este é o grande trunfo de histórias sobre pessoas normais que investigam crimes: poderíamos ser nós. São histórias emocionantes, cheias de suspense, e fáceis de criar identificação. O filme da Hammer de 1949, “Dr Morelle: O Caso da Herdeira Desaparecida” é um destes filmes sobre pessoas normais que se tornam investigadoras. No caso, essas pessoas são o Dr Morelle e em especial sua assistente, Miss Fraley.

It could have been Agatha Christie and her Miss Marple. It could have been Hithcock and the leads of “The Lady Vanishes” (1938). And it could have been us. This is the great thing about stories that involve normal people investigating crimes: they could have been us. They're chilling, thrilling, and incredibly relatable. The 1949 Hammer film “Dr Morelle: The Case of the Missing Heiress” is one of those films about normal people turned investigators. In this case, Dr Morelle and in special his assistant, Miss Fraley.


O filme começa com Dr Morelle (Valentine Dyall) ditando uma história para sua assistente, Miss Frayle (Julia Lang). O resto da história é contada em flashback. Em uma velha mansão, Cynthia Mason (Jean Lodge) discute com seu padrasto, Kimber (Philip Leaver), porque ela quer se casar com Peter Lorimer (Peter Drury). Ela está disposta a deixar todo seu dinheiro para o padrasto, mas Peter é contra essa ideia. Cynthia desaparece enquanto Peter está falando com o padrasto dela – e sendo hipnotizado por ele!

The film begins with Dr Morelle (Valentine Dyall) dictating a story to his assistant, Miss Frayle (Julia Lang). The rest of the story is told as a flashback. In an old mansion, Cynthia Mason (Jean Lodge) argues with her stepfather, Kimber (Philip Leaver), because she wants to marry Peter Lorimer (Peter Drury). She is willing to leave all her money to her stepfather, but Peter is against it. Cynthia disappears while Peter is talking to her stepfather – and being hypnotized by him!


A melhor amiga de Cynthia, Miss Frayle, decide investigar o desaparecimento. Ela vai até a mansão e diz que é a nova empregada. Lá ela recebe uma estranha ajuda do mordomo Bensall (Hugh Griffth), um homem peculiar e sinistro que passeia com um cachorro invisível – já que seu cachorro morreu há 15 anos.

Cynthia's best friend, Miss Frayle, decides to investigate the disappearance. She goes to the mansion and says she's the new housemaid. There she receives some weird kind of help from the butler Bensall (Hugh Griffth), a peculiar, sinister man who walks an invisible dog – since his dog has been dead for 15 years.


Infelizmente, Miss Frayle é um desastre enquanto empregada. Quando as coisas ficam muito perigosas na investigação, ela chama o Dr Morelle para ajudar. Para obter pistas, o Dr Morelle irá assumir outras identidades e também usar hipnose.

Unfortunately, Miss Frayle is a disaster as a housemaid. When things get too dangerous in her investigation, she calls Dr Morelle to help. To obtain clues, Dr Morelle will assume other identities and use hypnotism too.

Dr Morelle pode ser tão esperto quanto Sherlock Holmes, mas neste filme ele parece ser uma pessoa horrível. Sempre que pode, ele diminui e humilha Miss Frayle, sua inteligência e sua tentativa de investigação. E eu me surpreendi ao descobrir que a misoginia era um traço de personalidade da personagem desde o início.

Dr Morelle may be as smart as a Sherlock Holmes, but in this film he sounds like a horrible person. Whenever possible, he diminishes and humiliates Miss Frayle's intelligence and attempts to investigate. And I was surprised to find out his misogyny was a trait the character had since he was created.

Dr Morelle, assim como o Sherlock Holmes de Conan Doyle e a Miss Marple de Agatha Christie, é uma personagem que surgiu no mundo literário. Ernest Dudley, ator que virou escritor, conceber a personagem durante um bombardeio na Inglaterra da Segunda Guerra Mundial. Dudley baseou os traços do Dr Morelle em Erich von Stroheim, que ele havia conhecido brevemente, e Miss Frayle foi baseada na própria esposa de Dudley, a atriz Jane Grahame.

Dr Morelle, like Conan Doyle's Sherlock Holmes and Agatha Christie's Miss Marple, is a character the first appeared in literary form. Actor-turned-novelist Ernest Dudley conceived the character during an air raid in wartime England. Dudley based Dr Morelle's traits in Erich von Stroheim, whom he had briefly met, and Miss Frayle was based in Dudley's own wife, actress Jane Grahame.

As histórias do Dr Morelle se tornaram uma sensação do rádio dos anos 40 aos anos 60, com Jane Grahame interpretando Miss Frayle nos primeiros anos do programa. Dudley anunciava o protagonista como “O homem que vocês amam odiar” – e a audiência subai a cada semana. Fazer um filme era, naturalmente, o próximo passo.

Dr Morelle's stories became a radio sensation from the 1940s until the 1960s, with Jane Grahame playing Miss Frayle in the first years of the radio show. Dudley advertised the character as “The man you love to hate” - and the ratings only increased from week to week. Making a film was the natural next step.
 
Dr Morelle no rádio / Dr Morelle on the radio
Dudley teve pouco envolvimento com o filme. Para o papel principal, foi escolhido Valentine Dyall – um homem com uma voz icônica e uma presença sinistra que lhe renderam o apelido de “Vincent Price britânico”. Mais tarde, Dyal trabalharia em alguns filmes de terror dos estúdios Hammer e Amicus. Como Miss Frayle, temos Julia Lang, uma atriz competente, mas praticamente esquecida. É uma pena que ela seja mais como uma donzela em perigo no filme, embora tenha momentos de grande perspicácia.

Dudley had very little involvement with the film. For the lead role, Valentine Dyall was chosen – a man with such an iconic voice and such a sinister presence he was once called “the British Vincent Price”. Dyall would later work in some Hammer and Amicus horror films. As Miss Frayle, we have Julia Lang, a competent yet nearly forgotten actress. Too bad she is more of a damsel in distress in this film, although she has some moments of acumen.


Hugh Griffith foi o mais sortudo do elenco – embora seu personagem não tenha tido muita sorte no filme. Griffith pode ser lembrado como o Sheik Ilderim de “Bem-Hur” (1959), um papel que deu a ele o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. O site IMDb lista 103 créditos como ator para Griffith, em um intervalo de 40 anos, tanto em Hollywood quanto na Inglaterra, tanto no cinema quanto na TV.

Hugh Griffith had the best luck of all the cast – although his character wasn't lucky in the film. Griffith can be remembered as the Sheik Ilderim in “Ben-Hur” (1959), a role that gave him the Best Supporting Actor Oscar. IMDb lists 103 credits as an actor for him, spanning 40 years, in both Hollywood and England, and in both film and TV.


Há algumas características de filme noir em “Dr Morelle: O Caso da Herdeira Desaparecida”. Alguns ângulos de câmera são bastante ousados, como a câmera no teto que vê toda a sala de estar da mansão, assim como os ângulos de câmera que mostram os corredores da mansão. Há também uma excelente tomada de Julia Lang descendo as escadas, com a câmera baixa (contra-plongée). O diretor de fotografia Cedric Williams trabalhou pouco no cinema, mas aqui podemos ver o tamanho de seu talento.

There are some noir traits in “Dr. Morelle: The Case of the Missing Heiress”. Some camera angles are very bold, like the camera on the roof that oversees the whole living room of the mansion, as well as the camera angles that show the mansion aisle. There is also a great shot of Julia Lang going down the stairs, filmed from a low angle. Cinematographer Cedric Williams had few credits to his name, but here we can see how talented he was.


“O Caso da Herdeira Desaparecida” é o único filme do Dr Morelle. O estúdio Hammer e outros estúdios não mostraram interesse em fazer mais filmes com a personagem, e é fácil ver o porquê. Em um tempo em que mulheres eram porcentagem importante da plateia dos cinemas, uma personagem tão misógina não seria muito popular. Sim, eu sei que outros detetives / gênios da ficção são também figuras pouco simpáticas – Sherlock Holmes inclusive se define como um “sociopata altamente funcional” – mas Dr Morelle está à beira da ojeriza. Poderia haver mais filmes com ele? Talvez, se ele melhorasse muito – e aprendesse a tratar as mulheres como seres humanos.

“The Case of the Missing Heiress” is the only Dr Morelle film. Hammer and other film studios showed no interest in making more films with the character, and I can see why. In a time when female moviegoers were an important part of the audience, such a misogynistic character wouldn't be very popular. Yes, I know some other fictional detectives / geniuses are also unsympathetic figures – Sherlock even calls himself a “high-functioning sociopath” – but Dr Morelle is on the verge of disgusting. Could there be more films with him? Maybe, if he improved a lot – and learned to treat women like human beings.

"Dr Morelle: The Case of the Missing Heiress" is available on Internet Archive.

This is my contribution to the 2nd Great Hammer and Amicus blogathon, hosted by Gill and Barry at RealWeegieMidget Reviews and Cinematic Catharsis.



Thursday, October 16, 2014

The D.I. (1957) e o incrível Jack Webb

The D.I. (1957) and the amazing Jack Webb
Ator, produtor, diretor, roteirista. Com este currículo, Jack Webb me fez lembrar Orson Welles. Mas eu nunca havia ouvido falar de Jack Webb, o que me fez pensar que Jack era o Orson Welles dos pobres. Como eu estava enganada! Welles e Web têm muito em comum, além dos diversos papéis em frente e atrás das câmeras: homens durões e sérios, que começaram a carreira no rádio, conquistaram mulheres bonitas, conseguiram sucesso e não cuidaram bem da própria saúde. Welles dirigiu e estrelou seu filme mais conhecido, “Cidadão Kane”. Jack estrelou, dirigiu e também produziu seu filme mais conhecido, “The D.I.” (1957).

Actor, producer, director, screenwriter.  With this resumée, Jack Webb  reminded me of Orson Welles. But I had never heard about Jack Webb, so I though he was the poor people's Orson Welles. How wrong I was! Welles and Webb had a lot in common, besides their functions in front of and behind the cameras: tough and serious men, they both started in the radio, conquered pretty women, were successful and didn't take care of their own health. Welles directed and starred in his best known film, “Citizen Kane”. Jack starred, directed and also produced his best known film, “The D.I.” (1957).


O sargento Jim Moore (Jack Webb) treina seu pelotão com disciplina e pulso firme. Não há lugar para moleza entre os soldados! Mas o exemplar recruta Owens (Don Dubbins), quando está sob pressão, não consegue manter o foco e se atrapalha. Isso leva o sargento Moore a gritar muito com Owens & Companhia, e o ponto alto da tirania acontece quando ele obriga todo o pelotão a encontrar uma mosca que Owens matara naquela tarde na praia. A missão? Enterrar a mosca!

Sergeant Jim Moore (Jack Webb) trains his platoon with discipline and toughness. There is no place for laziness among soldiers! But exemplary newcomer Owens (Don Dubbins), whenever he is under pressure, can't focuse and makes mistakes. That's why sergeant Moore shouts a lot with Owens and Co., and the climax of his tiranny is when he makes the platoon find a fly Owens had killed that afternoon at the beach. The mission? To bury the fly!

Este era apenas o segundo filme dirigido por Jack Webb, mas ele já acumulava grande prestígio. Webb foi um dos atores que se tornou ídolo nos primeiros anos da televisão. O novo meio engatinhava e ele já soube o que fazer para alcançar o sucesso. E Jack trabalhou com o que mais gostava: investigação policial. Foi com o filme “O Demônio da Noite / He Walked by Night” (1948) que ele teve a ideia de criar um programa de rádio (e, depois, de televisão) contando casos verídicos investigados pela polícia de Los Angeles. Pela primeira vez o público poderia se sentir parte da investigação, conhecendo métodos e jargões policiais. No rádio, “Dragnet” durou de 1949 a 1957. Na televisão, de 1951 a 1959.

This was only the second film directed by Jack Webb and he already had prestife. Webb was one of the actors who became an idol when TV appeared. The new medium was still crawling and he already knew what to do to be successful. And Jack worked with his favorite thing: police investigation. It was through the film “He Walked by Night” (1948) that he had the idea to create a radio show (and, later, a TV show) about real cases investigated by the LA police department. For the first time, tthe audience could feel like part of the investigation, getting to know the method and the slang used by the police. In the radio, “Dragnet” lasted from 1949 to 1957. On TV, from 1951 to 1959.


Jack Webb gostava de duas coisas em suas produções: economia e veracidade. E ele conseguiu ambos neste filme ao contratar marinheiros de verdade para interpretar os colegas de pelotão do recruta Owens. O próprio ator Don Dubbins, intérprete de Owens, tinha um pouco de experiência na frente de batalha cinematográfica: trabalhou como extra nos filmes de guerra “A um passo da eternidade / From Here to Eternity” (1954) e “A Nave da Revolta / The Caine Mutiny” (1954).

Jack Webb liked two things in his productions: economy and truth. And he got both in “The D.I.” as he hired real Mariners to play the members of Owens's platoon. Actor Don Dubbins himself had some experience in the film front: he had worked as an extra in the war movies “From Here to Eternity” (1954) and “The Caine Mutiny” (1954).


Podemos ver que Webb era um excelente diretor com apenas uma cena: o close da boca de um soldado enquanto este fala suas dezenas de tarefas. São muitos os closes neste filme, e também os travellings no alojamento dos soldados. Webb pode não ter inovado tanto nos ângulos de câmera quanto Welles, mas sem dúvida fez um belo trabalho neste drama psicológico.

We can see that Jack Webb was an excellent director with only one scene: the close-up of a soldier's mouth while he says dozens of chores. There are a lot of close-ups in this film, and also many travellings in the soldiers' quarters. Webb may not have been as innovative with the camera angles, but without a doubt he did a good job in this psychological drama.


São muitos os filmes sobre a Marinha. São muitos os filmes com comandantes tiranos. O sargento Jim Moore em muito se parece, por exemplo, com o capitão Morton, interpretado por James Cagney em “Mister Roberts” (1955). E a situação de treinamento para a batalha nas praias lembra muito “Iwo Jima – O Potal da glória / Sands of Iwo Jima” (1949, que também contava com alguns soldados de verdade no elenco). Não há como não associar os sentimentos paternalistas de Moore pelo recruta Owens com o carinho velado que o sargento Stryker (John Wayne) tem pelo recruta Conway (John Agar) no filme de 1949.

There are many films about the Marines. There are many films with tyrannical commanders. Sergeant Jim Moore is a lot like Captain Morton, played by James Cagney in “Mister Roberts” (1955). And the training sequence at the beach reminds us of “Sands of Iwo Jima” (1949, that also had some real soldiers in the cast). There is no way to deny that Moore's fatherly feelings towards Owens are just like the kind of love Sergeant Stryker (John Wayne) has towards Conway (John Agar) in the 1949 film.
Sands of Iwo Jima (1949)
As três mulheres do filme merecem atenção: Virginia Gregg rouba a cena como a mãe do recruta Owens. Virginia terminaria a carreira dando voz a outra mãe, bem mais notória: ela dubla Norma Bates em “Psicose III” (1986). Monica Lewis canta uma canção escrita por Ray Conniff, “If’n You Don’t, Somebody Else Will”. A vendedora por quem o sargento Moore se interessa é Jackie Loughery, então esposa de Jack Webb e ex-Miss Estados Unidos. Mas, como em todos os filmes em que a Marinha é tema, o destaque é masculino. E Jack Webb merece todos os créditos pelo sucesso de “The D.I.”

The three women in the film deserve attention: Virginia Gregg steals the scene as Owens's mother. Virginia would end her career dubbing another mother, a more famous one: she was the voice of Norma Bates in “Psycho III” (1986). Monica Lewis sings a song written by Ray Conniff, “If’n You Don't, Somebody Else Will”. The salesgirl for whom Sergeant Moore falls is Jackie Loughery, then Jack Webb's wife and former Miss USA. But, as it happens in all films about the Marines, the men receive more attention. And Jack Webb deserves all the credit for the success of “The D.I.”.

This is my contribution to the Jack Webb blogathon, hosted by Toby at The Hannibal 8. Yes, sir!

Sunday, April 6, 2014

Ouro do Céu / Pot o’Gold (1941)

This is my contribution for the James Stewart Blogathon, hosted by Rick at The Classic Film & TV Cafe. 

James Stewart é sem dúvida um dos atores mais adoráveis da história do cinema. No período antes da Segunda Guerra, então, ele estava em seu período mais adorável. Quando voltou da guerra, mudou um pouco seus papéis e suas experiências traumáticas no front deixaram-se transparecer em personagens mais sombrios. Mas vamos falar de coisas boas. Stewart é mais conhecido por ser protagonista de “A felicidade não se compra / It’s a wonderful life” (1946), mas cinco anos antes ele fez um musical que, apesar de ter considerado ruim, bem que serviu como ensaio para encarnar o herói favorito de todos: George Bailey.

Jimmy Haskell (Stewart) é o simpático proprietário de uma loja de instrumentos musicais que herdou do pai. Seu tio Charles (Charles Winninger, excelente) não vê futuro no negócio, e convence Jimmy a ir trabalhar com ele no programa de rádio “Haskell Happiness Hour”. Além do programa, Charles tem também uma indústria de alimentos. E é chegando a esta indústria que Jimmy encontra uma animada banda ensaiando na rua. Logo ele fica amigo dos músicos, em especial da cantora Molly McCorkle (Paulette Goddard). Além de tocar sua gaita com os músicos, Jimmy também joga um tomate no tio, que vai reclamar do barulho da banda. E é aí que a confusão começa: sem revelar ser sobrinho do odioso Charles Haskell, Jimmy quer ajudar seus novos amigos a fazer sucesso no rádio.

Todos os elementos de “It’s a wonderful life” já estão aqui: James Stewart como um personagem muito bonzinho, uma moça sensacional que é muito importante para ele, um velhinho mal-humorado que quer acabar com a alegria de todo mundo. Só faltam as crianças. Mas, para compensar, há música! Harold Heidt traz sua banda, que tocava no programa de rádio Pot o’Gold, que inspirou o filme. Mas o que o ouro tem a ver com tudo isso? A atração do rádio foi a primeira a distribuir dinheiro para os telespectadores, da mesma maneira que Molly promete que o “Haskell Happiness Hour” fará.


James Stewart falou abertamente eu esse era seu pior filme. Tudo pareceu colaborar para que Jimmy não gostasse da película: o relacionamento não muito amigável com Paulette Goddard (embora o departamento de publicidade quisesse divulgar um falso clima de romance entre eles), o desconforto na hora de cantar (sim, Jimmy canta duas músicas adoráveis!) e o fato de nada ali estar em suas mãos. Stewart havia sido emprestado da MGM somente porque o produtor de “Pot o’Gold” era James Roosevelt, filho do presidente Franklin Delano Roosevelt, e Louis B. Mayer queria agradar o político.

Em meio a esses dissabores, no entanto, James Stewart teve uma noite excelente: a entrega do Oscar. Ele ganhou seu único prêmio como Melhor Ator por “Núpcias de Escândalo / The Philadelphia Story” (1940) cinco semanas antes da estreia de “Pot o’Gold”. É bem verdade que hoje vemos esse Oscar como uma compensação por Jimmy ter perdido no ano anterior. Mas Stewart, de início, não queria ir à cerimônia, que marcava a primeira vez em que os vencedores seriam descobertos ali, na hora da entrega. Jimmy tinha certeza de que o ganhador seria Charles Chaplin por “O Grande Ditador”. E Chaplin era casado com quem? Paulette Goddard. Mundo pequeno esse de Hollywood.

Eu gostei muito da sequência “A knife, a fork and a spoon”, que representa bem a inocência e a própria lógica meio estranha dos musicais da época: “burst into song no matter where you are!”. Paulette canta vestida de homem em “Broadway Caballero”, e é uma pena pensar que isso seria um número de rádio, em que a plateia não poderia ver as belas roupas e a coreografia da banda. Mas atenção: aqui Paulette é dublada por Vera Van.

Despretensioso, charmoso e com um pouco de intrigas nos bastidores para apimentar as coisas, “Pot o’Gold” mostra que até os filmes ruins de James Stewart são bons. : )

“Pot o’Gold” está disponível no YouTube e no Internet Archive.
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