} Crítica Retrô: John Wayne

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Tuesday, August 22, 2023

Uma Aventura em Paris (1942) / Reunion in France (1942)

 

Durante alguns anos, nas décadas de 1930 e 1940, Joan Crawford foi uma das atrizes mais bem-pagas de Hollywood. Nos anos 1950, John Wayne foi um dos atores mais bem-pagos de Hollywood. E um dia os dois se encontraram, mas muitas pessoas desconhecem este filme que juntou as duas superestrelas: “Uma Aventura em Paris”, uma propaganda anti-nazista de 1942 dirigida por Jules Dassin - um filme não muito inspirado.

 

For a while, in the 1930s and 1940s, Joan Crawford was one of the highest-paid actresses in Hollywood. In the 1950s, John Wayne was one of the highest-paid actors in Hollywood. And one day the two of them met, but many people aren’t aware of this film that brings the two superstars together: “Reunion in France”, a 1942 anti-Nazi propaganda directed by Jules Dassin - and lacking inspiration.

“Em tempos de guerra, o amor é uma ofensa digna de punição”, diz Michele de la Becque (Joan Crawford) para seu namorado, Robert Cortot (Philip Dorn), quando ele recusa o convite dela para uma escapada. Eles não têm com o que se preocupar, porque Hitler não pode invadir a França, disse um general num evento em que estava o casal. A Linha Maginot parecia intransponível, até que se provou o contrário, e numa questão de semanas a França se rendeu aos nazistas.  

 

“In times of war, love is a punishable offense”, says Michele de la Becque (Joan Crawford) to her boyfriend, Robert Cortot (Philip Dorn), when he refuses her invitation for an escapade. They have nothing to worry about, because Hitler can’t invade France, a general said in an event both were attending. The Maginot Line seemed insurmountable, until it wasn’t, and in a matter of weeks Paris fell under the Nazis.

Michele volta de sua escapada e encontra sua mansão “tomada de empréstimo” pelos nazistas e transformada em posto de distribuição de carvão. Ela se horroriza com o pensamento de que Robert estaria colaborando com os nazistas. Sem dinheiro, ela aceita um emprego numa loja de roupas e é saindo do trabalho que ela conhece o tenente da aeronáutica Pat Talbot (John Wayne), com quem ela se compromete: ela vai ajudá-lo a escapar da França.

 

Michele comes back from her escapade only to find her mansion “borrowed” by Nazis as an outpost to distribute coal. She’s truly horrified when she starts thinking that Robert is collaborating with the Nazis. Penniless, she accepts a job at a clothes store and it’s leaving her job that she meets flight lieutenant Pat Talbot (John Wayne), who she vows to help leave France.

Joan Crawford e John Wayne tinham praticamente a mesma idade - dependendo da fonte que você usa para o ano de nascimento de Joan. Entretanto, no filme a história é construída como se Michele fosse uma mulher mais velha e com mais experiência, e Pat fosse um garoto que acabou de se alistar. Já se passaram alguns anos desde a performance que transformou Wayne em estrela, em “No Tempo das Diligências” (1939), mas seu papel é de coadjuvante - “Uma Aventura em Paris” pertence a Joan Crawford, e só a ela.

 

Joan Crawford and John Wayne were practically the same age - depending on the source you follow for Joan’s birth date. However, in the film the story is built as if Michele was an older, experienced woman and Pat was a boy who just enlisted. It was already past Wayne’s star-making performance in “Stagecoach” (1939), but his is a supporting role - “Reunion in France” belongs to Crawford, and Crawford only.

Numa entrevista para o programa The Merv Griffin Show em 1963, Joan Crawford contou que já queria contracenar com John Wayne algum tempo antes de “Uma Aventura em Paris”, entretanto, nas próprias palavras dela: “quando nós de fato contracenamos, foi com o pior roteiro que eu já vi ou li na minha vida”. Em outra entrevista, ela foi mais além: “Oh, Deus. Se houver vida após a morte e eu tiver de ser punida por meus pecados, este é um dos filmes que eles me farão ver de novo e de novo. John Wayne e eu sofremos, não apenas por causa do roteiro bobo, mas porque éramos uma dupla sem harmonia. Tire John do cavalo, e você terá problemas”. Profundamente criticado por sua própria estrela, não é de se espantar que “Uma Aventura em Paris” seja tão pouco conhecido.

 

In an interview given a The Merv Griffin Show in 1963, Joan Crawford said that she had wanted to play opposite John Wayne for some time before “Reunion in France”, however, in her words, “when we really worked together it was the lousiest script I have ever seen or read in my life.” In another interview, she went further: “Oh God. If there is an afterlife and I am to be punished for my sins, this is one of the pictures they'll make me see over and over again. John Wayne and I both went down for the count, not just because of a silly script but because we were so mismatched. Get John out of the saddle, and you've got trouble." Deeply disliked by its star, there is no wonder “Reunion in France” isn’t a more well-known film.

Philip Dorn tem um papel de responsa como um dos protagonistas, Robert Cortot, namorado de Michele. Nascido na Holanda, ele começou a carreira sob o nome artístico de Frits van Dongen e deixou seu país natal, indo para a Alemanha, em 1938. Em 1939, semanas antes de a Segunda Guerra Mundial começar, ele se mudou para Hollywood e mudou o nome artístico para Philip Dorn. Lá, ele interpretou diversos patriotas anti-nazistas e teve relativo sucesso, o que não o impediu de voltar para a Alemanha nos anos 50.

 

Philip Dorn has a juicy role as one of the leads, Robert Cortot, Michele’s boyfriend. Born in the Netherlands, he started his career under the name Frits van Dongen and left his home country for Germany in 1938. In 1939, just weeks before the beginning of World War II, he moved to Hollywood and changed his stage name to Philip Dorn. There, he played several anti-Nazis patriots and had relative success, which didn’t prevent him from going back to Germany in the 1950s.

“Uma Aventura em Paris” foi dirigido por Jules Dassin, que dirigiu, de acordo com o IMDb, 25 filmes em sua carreira, em diversos idiomas.Dassin estava tendo sucesso moderado quando, em 1952, ele foi acusado de ser comunista - na verdade, ele havia abandonado o partido em 1939 - e teve de se mudar para a França, onde fez muito sucesso.

 

“Reunion in France” is directed by Jules Dassin, who directed, according to IMDb, 25 films in his career, in several languages. Dassin was enjoying moderate success when, in 1952, he was accused of being a communist - he had actually left the party in 1939 - and had to move to France, where he found bigger success.   

Quando ela fala sobre como alguns franceses traíram seus conterrâneos, Michele pergunta “o que será da França?” Nós vimos, nos últimos anos, algo impensável: populações sendo divididas por política, especialmente por partidos, candidatos e governos da extrema direita. Se você, como eu, vive em um país que ainda se sente dividido, você conhece a sensação quando ela diz essa frase: é de desolação e perda da esperança.  

 

 When talking about how some French people betrayed their fellow countrymen, Michele asks “what’s become of France?” We’ve seen, in the past few years, something unthinkable: populations being divided by politics, especially by far-right parties, candidates and governments. If you, like me, live in a country that still feels divided, you know the sensation when she utters the line: it’s of desolation and loss of hope.

“Uma Aventura em Paris” não é uma joia escondida. Pode ser curioso, interessante e agradável, mas não é um filme obrigatório nas filmografias de suas estrelas. É providencial, porque a Resistência não foi embora junto com a primeira derrota da extrema direita. É mais um melodrama que um filme de guerra, mas é, acima de tudo, um veículo para o talento de Joan Crawford.

 

“Reunion in France” isn’t a hidden gem. It may be curious, interesting and enjoyable, but not mandatory viewing in any of its stars’ filmography. It’s timely, as the Resistance didn’t go away in the first defeat of the far-right. It’s more of a melodrama than a war movie, but it is, above all, a Joan Crawford vehicle.


Sunday, December 11, 2016

Quando John Ford conheceu John Wayne / When Ford Met Wayne

Todo mundo tem de começar de algum lugar. No cinema, o começo em geral envolve papéis como extra, sem crédito, até que, um dia, você tem seu primeiro grande sucesso. Para os atroes, o grande sucesso geralmente vem mais tarde que para as atrizes. Se você gosta de filmes clássicos, deve saber que o primeiro grande sucesso de John Wayne veio em 1939 com “No Tempo das Diligências”, uma produção que deu novos rumos às carreiras tanto do ator John Wayne quanto do diretor John Ford. Mas talvez você não saiba que Wayne e Ford já se conheciam antes de 1939 – e já haviam trabalhado juntos.

Everybody has to start somewhere. In the movie business, the start is often through uncredited roles as extras until, someday, you’re given your big break. For males, the big break often comes later than for females. If you like classic movies, you must know that John Wayne’s big break came in 1939 with the film “Stagecoach”, a production that gave a new path to the careers of both actor John Wayne and director John Ford. But maybe you don’t know that Wayne and Ford were no strangers before 1939.
John Wayne apareceu em 178 filmes e séries de TV em 50 anos de carreira. Mais da metade destes filmes foram feitos entre 1926 e 1939, quando Wayne era figurante ou parte de um grupo de faroestes B chamado ‘Os Três Mosqueteiros’ (lembre-se de que quem também fazia parte deste grupo era um homem chamado Lullaby Joslin, e ele tinha um boneco de ventríloquo bem esquisito).

John Wayne made 178 movies and TV shows in a career that lasted 50 years. More than half of them were made between 1926 and 1939, as an extra or part of a B-western group called The Three Mesquiteers (remember that another member of this group was a guy named Lullaby Joslin who had a creepy-looking puppet).
John Wayne ou, como ele era chamado na época, Duke Morrison, chegou em Hollywoodland em 1925, com 18 anos. Ele fez muitas coisas: trabalhou com objetos de cena, cuidou de animais de Hollywood, foi ajudante de eletricista e até atuou de vez em quando. Ou melhor: de vez em quando ele até teve a chance de ficar EM FRENTE às câmeras!

John Wayne, or, as he was called back then, Duke Morrison, arrived in Hollywoodland in 1925, aged 18. He did a lot of things: worked with props, handled animals, helped electricians and even acted every now and then. Or better: he sometimes was given the chance to stand IN FRONT of the camera!
John Ford era diretor desde 1917. Com o sucesso de“O Cavalo de Ferro” (1924), ele passou a fazer mais e mais longa-metragens para os estúdios Fox em Glendale, Califórnia. Seu primeiro encontro com John Wayne nunca foi descrito em detalhes, e eles provavelmente cruzaram os caminhos um do outro sem saber que aquele era um momento histórico – e, nem tão prontamente, o começo de uma bela amizade.

John Ford had been directing movies since 1917. After the success of “The Iron Horse” (1924), he had worked steadily in feature films for Fox studios in Glendale, California. His first meeting with John Wayne was never recorded, and they probably crossed each other’s paths without knowing that was a historical moment – and, not quite quickly, the beginning of a beautiful friendship.
O comediante Lloyd ‘Ham’ Hamilton apresentou o jovem Wayne a Ford. A primeira vez em que Wayne trabalhou com Ford foi em 1926. Ele foi um figurante no filme “A Folha do Trevo”, estrelado por Janet Gaynor. Eles também filmaram “Minha Mãe”, que só estreou dois anos depois. John Wayne pode ser identificado no primeiro filme:

The comedian Lloyd ‘Ham’ Hamilton introduced young Wayne to Ford. The first time Wayne worked with Ford was in 1926. He was an extra in the movie “The Shamrock Handicap”, starring Janet Gaynor. They also shot “Mother Machree”, only released two years later, in 1928. John Wayne can be identified only in the earlier (click to enlarge):


John Ford usou John Wayne novamente como figurante não-creditado em 1928, no filme “Quatro Filhos” – no qual não podemos identificá-lo claramente – e em “Justiça do Amor” – no qual ele aparece duas vezes: primeiro vendado em uma cena fantástica de flashback e depois como um espectador que quebra uma cerca em uma corrida de cavalos.

John Ford used John Wayne again as an unbilled extra in 1928, in the movies “Four Sons” – in which we can’t clearly identify him – and “Hagman’s House” – in which he appears twice: once blindfolded in a very well-done flashback and again as a horserace spectator who breaks a fence.
E então John Ford começou a fazer filmes falados. John Wayne estava logo ali fazendo figuração no primeiro filme falado de Ford, “A Guarda Negra” (1929), estrelado por Victor McLaglen e Myrna Loy. Em seu filme seguinte com Ford, John Wayne teve até nome e algumas falas, mas permaneceu não-creditado: ele foi o marujo Bill no filme “Em Continência” (1929).

And then John Ford started making talkies. John Wayne was right there, in the background, in Ford’s first talkie, “The Black Watch” (1929), starring Victor McLaglen and Myrna Loy, and with Randolph Scott also as an extra. In his next film with Ford, Wayne even got a name and a few lines, but remained uncredited: he was midshipman Bill in “Salute” (1929).
"Salute" (1929)
Em 1930 outros dois filmes da dupla estrearam: “Homens sem Mulheres”, no qual Wayne tem algumas falas, e “Galanteador Audaz”. E então eles seguiram caminhos diferentes, porque Duke Morrison conseguiu um papel importante em “A Grande Jornada” e mudou seu nome para John Wayne a pedido dos produtores. Em 1939, John Ford procurou por John Wayne e lhe ofereceu o papel do ladrão Ringo em “No Tempo das Diligências”. O resto é história.

In 1930 two other films of the duo followed: “Men Without Women”, in which Wayne has a few lines, and “Born Reckless”. And then they parted for nine years, because Duke Morrison got an important role in “The Big Trail” and changed his name to John Wayne, at the producers’ request. In 1939, John Ford looked for John Wayne again, and offered him the role of the thief Ringo in “Stagecoach”. The rest is history.

Some stills and information were found at The John Wayne Database.

This is my contribution to the John Wayne Blogathon, hosted by Quiggy and Hamlette at The Midnite Drive-In and Hamlette’s Soliloquy.

Monday, November 23, 2015

250 tons de Wilson Grey

“Sem Wilson Grey, eu acho que nem existiria cinema brasileiro” - José Lewgoy

No cinema brasileiro, Wilson Grey está por toda parte. Ele é inconfundível: muito magro, cabelos pretos com brilhantina, cara chupada e quase sempre um bigode. Era o tipo perfeito para interpretar vilões ou capangas, malandros e mendigos. Ele costumava dizer que fazia de tudo no cinema, “menos beijar a mocinha no final”. Wilson Grey é a prova de que não é preciso ser protagonista para ser memorável – e deixar sua marca para sempre na história do cinema.
Wilson Chaves nasceu no Rio de Janeiro em 1923. Quando criança, ele gostava de imitar as vozes dos atores do rádio, mas uma tragédia interrompeu a infância feliz: seu pai faleceu quando Wilson tinha nove anos, e o menino teve de trabalhar para ajudar nas despesas da família. Um começo difícil, como muitos outros.
O Rei do Movimento (1954)
Seu sobrenome artístico foi inspirado em Nan Grey, companheira do teatro por quem Wilson era apaixonado na década de 40. Durante seis anos, ele tentou ingressar no cinema, sem sucesso (diziam que Wilson era muito feio para ser ator de cinema). Mas como na maioria das grandes histórias dos astros da sétima arte, um papel como extra foi o suficiente para engrenar a carreira de Grey, em 1948. Três anos depois abandonou o emprego em uma perfumaria para se dedicar de corpo e alma ao cinema. Seus dias de intérprete do “soldado sem fala” em Hamlet no teatro tinham terminado.
Amei um Bicheiro (1952)
A primeira vez em que vi Wilson Grey foi também a primeira vez em que vi uma “chanchada”, filme típico do Brasil da década de 1950, que misturava comédia e musical, geralmente com muito samba. Em “Quem roubou meu samba?” (1959), Wilson Grey rouba a cena interpretando o doente do leito 34, internado em um hospital, mas com muita fome.
O jornal Última Hora e a revista Jornal de Cinema realizaram um concurso para eleger o mais importante ator coadjuvante do cinema brasileiro em 1969. Adivinhe quem ganhou? Sim, Wilson Grey.
Na Corda Bamba (1958)
Os colegas de trabalho, atores e diretores, definiam Wilson Grey como um homem bem-humorado que usava toda sua experiência de vida para compor seus personagens – mesmo que fosse gravar uma só cena por filme. O diretor Hugo Carvana confessou que escrevia seus filmes já reservando um papel especialmente para Wilson Grey.
Apesar de pouco lembrado, Wilson Grey trabalhou com todos os grandes nomes do cinema brasileiro do século XX: Ankito, Grande Otelo, Costinha, Carlos Manga, Júlio Bressane. Só lhe escapou Glauber Rocha. Ou será que foi Wilson que escapou de Glauber? Em todo caso, pior para Glauber.
A Rainha Diaba (1974)
Além do teatro e do cinema, Wilson Grey também fez televisão. Seus papéis mais conhecidos foram como o Jeca Tatu na versão do Sítio do Pica-pau Amarelo de 1977 e como Linguiça, companheiro do vigarista Azambuja, interpretado por Chico Anysio.
Wilson Grey viveu apenas 69 anos, mas foi o suficiente para participar em 250 filmes ao longo de 45 anos de carreira. O diretor Ivan Cardoso chamava-o de “Boris Karloff do Brasil”, tão vasta era sua filmografia (Karloff já havia feito 80 filmes antes de se tornar estrela do terror em “Frankenstein”, de 1931). Na década de 1970, tempos antes de ser criado o website-referência IMDb, havia uma disputa em relação ao ator que fez mais filmes. John Wayne liderava a lista, já tendo feito aquele que seria seu último filme, “O Último Pistoleiro / The Shootist” (1976). Wilson Grey vinha logo em seguida. Ao ver um grupo de estudantes universitários de cinema filmando um curta-metragem, Grey se infiltrou na multidão. A cena mostrava os espectadores de uma corrida de cavalo. Os estudantes reconheceram Wilson Grey, como ele imaginava, e o focalizaram. Grey improvisou uma comemoração, como se seu cavalo tivesse ganhado a corrida. Terminada a cena, Grey comemorou: tinha agora 251 créditos, contra 250 de John Wayne. Wilson Grey entrou no Guinness Book. Hoje, o IMDb nos dá números diferentes, mas mantém a vantagem de Wilson: 179 créditos para John Wayne, e 197 para Wilson Grey.
Os Três Cangaceiros (1959)
Assim como muitos artistas, Wilson Grey morreu pobre, em 1993. Foi homenageado por ocasião do décimo aniversário da sua morte durante um festival de cinema em 2003 no Rio de Janeiro. Teve uma história de superação e de muitos sucessos. Versátil, dedicado e apaixonado pela profissão, Wilson Grey se tornou o mais inesquecível ator do cinema brasileiro.

This is my contribution to the 4th What a Character! Blogathon, hosted by the trio Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.

Thursday, October 16, 2014

The D.I. (1957) e o incrível Jack Webb

The D.I. (1957) and the amazing Jack Webb
Ator, produtor, diretor, roteirista. Com este currículo, Jack Webb me fez lembrar Orson Welles. Mas eu nunca havia ouvido falar de Jack Webb, o que me fez pensar que Jack era o Orson Welles dos pobres. Como eu estava enganada! Welles e Web têm muito em comum, além dos diversos papéis em frente e atrás das câmeras: homens durões e sérios, que começaram a carreira no rádio, conquistaram mulheres bonitas, conseguiram sucesso e não cuidaram bem da própria saúde. Welles dirigiu e estrelou seu filme mais conhecido, “Cidadão Kane”. Jack estrelou, dirigiu e também produziu seu filme mais conhecido, “The D.I.” (1957).

Actor, producer, director, screenwriter.  With this resumée, Jack Webb  reminded me of Orson Welles. But I had never heard about Jack Webb, so I though he was the poor people's Orson Welles. How wrong I was! Welles and Webb had a lot in common, besides their functions in front of and behind the cameras: tough and serious men, they both started in the radio, conquered pretty women, were successful and didn't take care of their own health. Welles directed and starred in his best known film, “Citizen Kane”. Jack starred, directed and also produced his best known film, “The D.I.” (1957).


O sargento Jim Moore (Jack Webb) treina seu pelotão com disciplina e pulso firme. Não há lugar para moleza entre os soldados! Mas o exemplar recruta Owens (Don Dubbins), quando está sob pressão, não consegue manter o foco e se atrapalha. Isso leva o sargento Moore a gritar muito com Owens & Companhia, e o ponto alto da tirania acontece quando ele obriga todo o pelotão a encontrar uma mosca que Owens matara naquela tarde na praia. A missão? Enterrar a mosca!

Sergeant Jim Moore (Jack Webb) trains his platoon with discipline and toughness. There is no place for laziness among soldiers! But exemplary newcomer Owens (Don Dubbins), whenever he is under pressure, can't focuse and makes mistakes. That's why sergeant Moore shouts a lot with Owens and Co., and the climax of his tiranny is when he makes the platoon find a fly Owens had killed that afternoon at the beach. The mission? To bury the fly!

Este era apenas o segundo filme dirigido por Jack Webb, mas ele já acumulava grande prestígio. Webb foi um dos atores que se tornou ídolo nos primeiros anos da televisão. O novo meio engatinhava e ele já soube o que fazer para alcançar o sucesso. E Jack trabalhou com o que mais gostava: investigação policial. Foi com o filme “O Demônio da Noite / He Walked by Night” (1948) que ele teve a ideia de criar um programa de rádio (e, depois, de televisão) contando casos verídicos investigados pela polícia de Los Angeles. Pela primeira vez o público poderia se sentir parte da investigação, conhecendo métodos e jargões policiais. No rádio, “Dragnet” durou de 1949 a 1957. Na televisão, de 1951 a 1959.

This was only the second film directed by Jack Webb and he already had prestife. Webb was one of the actors who became an idol when TV appeared. The new medium was still crawling and he already knew what to do to be successful. And Jack worked with his favorite thing: police investigation. It was through the film “He Walked by Night” (1948) that he had the idea to create a radio show (and, later, a TV show) about real cases investigated by the LA police department. For the first time, tthe audience could feel like part of the investigation, getting to know the method and the slang used by the police. In the radio, “Dragnet” lasted from 1949 to 1957. On TV, from 1951 to 1959.


Jack Webb gostava de duas coisas em suas produções: economia e veracidade. E ele conseguiu ambos neste filme ao contratar marinheiros de verdade para interpretar os colegas de pelotão do recruta Owens. O próprio ator Don Dubbins, intérprete de Owens, tinha um pouco de experiência na frente de batalha cinematográfica: trabalhou como extra nos filmes de guerra “A um passo da eternidade / From Here to Eternity” (1954) e “A Nave da Revolta / The Caine Mutiny” (1954).

Jack Webb liked two things in his productions: economy and truth. And he got both in “The D.I.” as he hired real Mariners to play the members of Owens's platoon. Actor Don Dubbins himself had some experience in the film front: he had worked as an extra in the war movies “From Here to Eternity” (1954) and “The Caine Mutiny” (1954).


Podemos ver que Webb era um excelente diretor com apenas uma cena: o close da boca de um soldado enquanto este fala suas dezenas de tarefas. São muitos os closes neste filme, e também os travellings no alojamento dos soldados. Webb pode não ter inovado tanto nos ângulos de câmera quanto Welles, mas sem dúvida fez um belo trabalho neste drama psicológico.

We can see that Jack Webb was an excellent director with only one scene: the close-up of a soldier's mouth while he says dozens of chores. There are a lot of close-ups in this film, and also many travellings in the soldiers' quarters. Webb may not have been as innovative with the camera angles, but without a doubt he did a good job in this psychological drama.


São muitos os filmes sobre a Marinha. São muitos os filmes com comandantes tiranos. O sargento Jim Moore em muito se parece, por exemplo, com o capitão Morton, interpretado por James Cagney em “Mister Roberts” (1955). E a situação de treinamento para a batalha nas praias lembra muito “Iwo Jima – O Potal da glória / Sands of Iwo Jima” (1949, que também contava com alguns soldados de verdade no elenco). Não há como não associar os sentimentos paternalistas de Moore pelo recruta Owens com o carinho velado que o sargento Stryker (John Wayne) tem pelo recruta Conway (John Agar) no filme de 1949.

There are many films about the Marines. There are many films with tyrannical commanders. Sergeant Jim Moore is a lot like Captain Morton, played by James Cagney in “Mister Roberts” (1955). And the training sequence at the beach reminds us of “Sands of Iwo Jima” (1949, that also had some real soldiers in the cast). There is no way to deny that Moore's fatherly feelings towards Owens are just like the kind of love Sergeant Stryker (John Wayne) has towards Conway (John Agar) in the 1949 film.
Sands of Iwo Jima (1949)
As três mulheres do filme merecem atenção: Virginia Gregg rouba a cena como a mãe do recruta Owens. Virginia terminaria a carreira dando voz a outra mãe, bem mais notória: ela dubla Norma Bates em “Psicose III” (1986). Monica Lewis canta uma canção escrita por Ray Conniff, “If’n You Don’t, Somebody Else Will”. A vendedora por quem o sargento Moore se interessa é Jackie Loughery, então esposa de Jack Webb e ex-Miss Estados Unidos. Mas, como em todos os filmes em que a Marinha é tema, o destaque é masculino. E Jack Webb merece todos os créditos pelo sucesso de “The D.I.”

The three women in the film deserve attention: Virginia Gregg steals the scene as Owens's mother. Virginia would end her career dubbing another mother, a more famous one: she was the voice of Norma Bates in “Psycho III” (1986). Monica Lewis sings a song written by Ray Conniff, “If’n You Don't, Somebody Else Will”. The salesgirl for whom Sergeant Moore falls is Jackie Loughery, then Jack Webb's wife and former Miss USA. But, as it happens in all films about the Marines, the men receive more attention. And Jack Webb deserves all the credit for the success of “The D.I.”.

This is my contribution to the Jack Webb blogathon, hosted by Toby at The Hannibal 8. Yes, sir!

Thursday, December 5, 2013

O que John Wayne e Louise Brooks têm em comum?

À primeira vista, nada. Mary Louise Brooks (1906-1985) foi uma diva do cinema mudo que teve sucesso fazendo filmes na Alemanha e cujo papel mais conhecido é o da femme-fatale de “A Caixa de Pandora”. Marion Robert Morrison (1907-1979), mais conhecido como John Wayne, conseguiu fama nos westerns e sua imagem estará para sempre associada à do cowboy destemido. Duas figuras mais diferentes, impossível. Entretanto, em 1938, os dois fizeram um filme juntos, “Overland Stage Raiders” (“Bandidos Encobertos” no Brasil). Este foi o último papel de Brooks no cinema. Já John Wayne teria sua grande chance no ano seguinte em “No Tempo das Diligências / Stagecoach”.
Um grupo rouba um pequeno carregamento de ouro que está sendo transportado em um caminhão por estradas áridas e desertas. Stony Brooke (John Wayne) chega de paraquedas para deter os bandidos e ajudar seus amigos a prendê-los e conseguir uma recompensa de mil dólares. Eles investem o dinheiro em gado e usam o lucro para tornarem-se sócios dos irmãos Beth Hoyt (Louise Brooks) e Ned Hoyt (Anthony Marsh) em uma empresa de transporte aéreo que promete levar o ouro da cidade com segurança a qualquer lugar.
O diretor George Sherman era uma constante nos filmes B que John Wayne fez em sua escalada para a fama nos anos 1930. Com menos de uma hora de duração, muitos destes filmes apresentavam o trio que aqui também está presente: “the three mesquiteers” (uma série de 51 filmes, sendo que Wayne participou de oito deles). Outra característica é muita ação e um bom tiroteio. Este filme de 1938 não deixa a desejar no quesito pólvora: são três tiroteios, cada um envolvendo um meio de transporte (cavalo, trem e avião).
Esqueça a linda Lulu. Neste filme Louise Brooks está bem diferente: com os cabelos negros na altura dos ombros, sem franja (surpresa! a testa dela é tão larga quanto a minha) e, infelizmente, com um papel pequeno e mal-desenvolvido. Não há sequer um ensaio de romance (apenas uma insinuação) entre os personagens de Louise e Wayne. Outra tristeza é ela não ter nenhum close expressivo: mesmo aos 32 anos, o que era considerado velhice em Hollywood, é possível ver que ela continua charmosa.
Depois no sucesso na Europa no final dos anos 20, Louise cometeu um erro fatal ao voltar para a América: recusou um papel em “Inimigo Público”, de 1931. Este papel ficou com Jean Harlow e poderia ter dado vida nova à carreira de Louise. Ao contrário de outras estrelas do cinema mudo, não havia nada de errado com a voz dela: podemos perceber que é uma voz forte que combina com sua persona. Este filme de 1938, que à época foi considerado sua volta às telas, na verdade foi uma despedida. Louise fez o filme porque precisava dos 300 dólares de cachê. Depois disso, mudou-se para Wichita, onde não foi bem recebida pela população local, e tempos depois pôde ser vista como vendedora em uma loja em Nova York. Saindo deste emprego, teve vários relacionamentos amorosos, escreveu excelentes artigos sobre cinema e foi redescoberta pelos jovens cinéfilos franceses na década de 1950.
O filme foi divulgado na época como uma maravilha, divertido, cheio de ação, com uma fotografia excelente e um dos melhores roteiros da série “the three Mesquiteers”. Hoje vemos que não é nada disso. De fato, se recebesse o tratamento de um grande estúdio e não fosse rodado em apenas nove dias, o filme até poderia ser ótimo. A ideia inicial é boa, as cenas de ação são cativantes e há bastante espaço para comicidade. John Ford poderia transformar o material em algo precioso. E se Louise Brooks tivesse mais cenas, então, o filme ficaria perfeito.

“Overland Stage Raiders” (1938) está disponível no YouTube com uma qualidade de imagem muito, muito, muito ruim. O filme também está disponível em BluRay, mas com boa qualidade de imagem.


This is my contribution to The Late Show Blogathon, hosted by Shadowplay. Swan songs were never so bittersweet.  

Saturday, November 9, 2013

Hank Worden: o pobre coitado da cadeira de balanço

Alguns atores e atrizes existem apenas para roubar a cena e um lugar em nossos corações. Eles não foram protagonistas ou indicados ao Oscar e seus nomes sequer figuram acima do título. Os filmes de John Ford estão cheios de exemplos deste tipo, pois o diretor contava com uma trupe poderosa de coadjuvantes, que incluía Harry Carey, Harry Carey Jr e a bela do cinema mudo Mae Marsh. Não importava se John Wayne estava atirando, bebendo em um saloon ou brigando com Maureen O’Hara em primeiro plano, esses coadjuvantes estavam lá para garantir comicidade. Hank Worden foi um deles. 
Norton Earl Worden nasceu em 23 de julho de 1901. Embora tenha estudado engenharia, ele se tornou um cowboy, tendo crescido nos ranchos de Montana. Foi montando em touros e cavalos que ele entrou no show business ao lado de Tex Ritter, que logo se tornou um famoso ator e cantor de música country. Hank continuou em Nova York dirigindo um táxi, mas foi junto aos cowboys que ele encontrou sua grande chance: conheceu Billie Burke (a Glinda de “O Mágico de Oz”) em um rancho e ela o ajudou a chegar em Hollywood. Quando a popularidade de Tex Ritter começava a cair no cinema, Hank começava a despontar.

Era 1952 e Howard Hawks dirigiu um filme que só pode ser chamado de western porque há índios. Kirk Douglas e Dewey Martin precisam levar um carregamento de madeira rio acima em “O Rio da Aventura / The Big Sky” e uma das pessoas que eles terão na equipe será o índio Pobre Coitado (Poordevil), sem dúvida a figura mais divertida do filme.
Desde 1939 Hank participava dos filmes de John Ford. Ele esteve em “No Tempo das Diligências / Stagecoach”, sem receber créditos, como extra. Mas seria em “Rastros de Ódio / The Searchers” (1956), considerada a obra-prima de John Ford, que ele brilharia. Mose Harper existe apenas para nos fazer rir. Fosse ele um bobo da corte ou coisa do gênero, o importante é que ele está ali para desviar a atenção do fato de que John Wayne está em uma missão homicida, guiado pelo ódio. E a única ambição de Mose é ter uma cadeira de balanço, algo tão simples em contrapartida à jornada de Wayne, tão complexa, destrutiva e que, quando terminada, não lhe dará conforto.  
Mas Hank era um homem ocupado: devido ao conflito de horários entre dois filmes, algumas cenas em que seu personagem aparece de costas em “Rastros de Ódio” tiveram de ser filmadas com um dublê. Além disso, Mose foi inspirado em uma figura real, Mad Mose, um famoso pistoleiro que era meio louco e adorava cadeiras de balanço!
Mais um filme de John Ford, mais um momento para Hank brilhar, ainda que rapidamente: “Quando um homem é homem / McLintock!” (1963), que eu considero o filme mais divertido do diretor. O nome de personagem de Hank é, ironicamente, Curly (o termo em inglês significa “cacheado”, e Hank é careca. Ele apaarece logo no começo, e também tem destaque no banho de lama que é o ponto alto da loucura do filme.
Embora ele tenha começado no cinema em meados dos anos 30, com o nome Heber Snow, que ele considerava “mais mórmon”, Hank fez trabalhos como extra esporadicamente, mesmo após conseguir certa popularidade e cair nas graças de Ford e Hawks. Só com Ford, foram 12 colaborações, entre filmes e televisão. Entretanto, seu grande amigo no meio cinematográfico era John Wayne, com quem fez 17 filmes e que, segundo Hank, foi a pessoa que lhe ensinara tudo o que ele sabia.
Hank, à esquerda, em "Forte Apache" (1948)
Em seus 216 trabalhos como ator, Hank foi creditado relativamente poucas vezes. Mesmo assim, sua imagem é inconfundível. Prestando bastante atenção, é possível encontrá-lo em “A Legião Branca / So Proudly We Hail” (1944), “Duelo ao Sol / Duel in the Sun” (1946), “Céu Amarelo” (1949), “Vendedor de Ilusões / The Music Man” (1962) e “Bravura Indômita / True Grit” (1969). Além de Mose no mais famoso western de John Ford, Hank se destacou também como o garçom da série Twin Peaks, seu último trabalho. Sempre inconfundível, Hank Worden ganhou popularidade, e é realmente uma alegria vê-lo em ação.


This is my contribution for the What a Character! Blogathon 2o13, hosted by the trio Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.


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