} Crítica Retrô: Howard Hawks

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Saturday, November 9, 2013

Hank Worden: o pobre coitado da cadeira de balanço

Alguns atores e atrizes existem apenas para roubar a cena e um lugar em nossos corações. Eles não foram protagonistas ou indicados ao Oscar e seus nomes sequer figuram acima do título. Os filmes de John Ford estão cheios de exemplos deste tipo, pois o diretor contava com uma trupe poderosa de coadjuvantes, que incluía Harry Carey, Harry Carey Jr e a bela do cinema mudo Mae Marsh. Não importava se John Wayne estava atirando, bebendo em um saloon ou brigando com Maureen O’Hara em primeiro plano, esses coadjuvantes estavam lá para garantir comicidade. Hank Worden foi um deles. 
Norton Earl Worden nasceu em 23 de julho de 1901. Embora tenha estudado engenharia, ele se tornou um cowboy, tendo crescido nos ranchos de Montana. Foi montando em touros e cavalos que ele entrou no show business ao lado de Tex Ritter, que logo se tornou um famoso ator e cantor de música country. Hank continuou em Nova York dirigindo um táxi, mas foi junto aos cowboys que ele encontrou sua grande chance: conheceu Billie Burke (a Glinda de “O Mágico de Oz”) em um rancho e ela o ajudou a chegar em Hollywood. Quando a popularidade de Tex Ritter começava a cair no cinema, Hank começava a despontar.

Era 1952 e Howard Hawks dirigiu um filme que só pode ser chamado de western porque há índios. Kirk Douglas e Dewey Martin precisam levar um carregamento de madeira rio acima em “O Rio da Aventura / The Big Sky” e uma das pessoas que eles terão na equipe será o índio Pobre Coitado (Poordevil), sem dúvida a figura mais divertida do filme.
Desde 1939 Hank participava dos filmes de John Ford. Ele esteve em “No Tempo das Diligências / Stagecoach”, sem receber créditos, como extra. Mas seria em “Rastros de Ódio / The Searchers” (1956), considerada a obra-prima de John Ford, que ele brilharia. Mose Harper existe apenas para nos fazer rir. Fosse ele um bobo da corte ou coisa do gênero, o importante é que ele está ali para desviar a atenção do fato de que John Wayne está em uma missão homicida, guiado pelo ódio. E a única ambição de Mose é ter uma cadeira de balanço, algo tão simples em contrapartida à jornada de Wayne, tão complexa, destrutiva e que, quando terminada, não lhe dará conforto.  
Mas Hank era um homem ocupado: devido ao conflito de horários entre dois filmes, algumas cenas em que seu personagem aparece de costas em “Rastros de Ódio” tiveram de ser filmadas com um dublê. Além disso, Mose foi inspirado em uma figura real, Mad Mose, um famoso pistoleiro que era meio louco e adorava cadeiras de balanço!
Mais um filme de John Ford, mais um momento para Hank brilhar, ainda que rapidamente: “Quando um homem é homem / McLintock!” (1963), que eu considero o filme mais divertido do diretor. O nome de personagem de Hank é, ironicamente, Curly (o termo em inglês significa “cacheado”, e Hank é careca. Ele apaarece logo no começo, e também tem destaque no banho de lama que é o ponto alto da loucura do filme.
Embora ele tenha começado no cinema em meados dos anos 30, com o nome Heber Snow, que ele considerava “mais mórmon”, Hank fez trabalhos como extra esporadicamente, mesmo após conseguir certa popularidade e cair nas graças de Ford e Hawks. Só com Ford, foram 12 colaborações, entre filmes e televisão. Entretanto, seu grande amigo no meio cinematográfico era John Wayne, com quem fez 17 filmes e que, segundo Hank, foi a pessoa que lhe ensinara tudo o que ele sabia.
Hank, à esquerda, em "Forte Apache" (1948)
Em seus 216 trabalhos como ator, Hank foi creditado relativamente poucas vezes. Mesmo assim, sua imagem é inconfundível. Prestando bastante atenção, é possível encontrá-lo em “A Legião Branca / So Proudly We Hail” (1944), “Duelo ao Sol / Duel in the Sun” (1946), “Céu Amarelo” (1949), “Vendedor de Ilusões / The Music Man” (1962) e “Bravura Indômita / True Grit” (1969). Além de Mose no mais famoso western de John Ford, Hank se destacou também como o garçom da série Twin Peaks, seu último trabalho. Sempre inconfundível, Hank Worden ganhou popularidade, e é realmente uma alegria vê-lo em ação.


This is my contribution for the What a Character! Blogathon 2o13, hosted by the trio Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.


Thank ya, thank ya kindly for reading!

Friday, June 28, 2013

“Jejum de Amor / His girl Friday”: Rosalind Russell em seu melhor momento

Melhor que uma boa comediante, só uma boa atriz dramática que também atua em excelentes comédias. Exemplos não faltam: Barbara Stanwyck, Katharine Hepburn, Sophia Loren ou mesmo Myrna Loy e Carole Lombard, que começaram com papéis mais sérios. A exemplo de suas duas colegas da década de 1930, Rosalind Russell também fez dramas, mas se destacou em comédias. “Jejum de Amor / His Girl Friday” (1940) talvez seja a melhor delas.
Hildegarde ‘Hildy’ Johnson (Russell) é uma intrépida repórter e ex-esposa do chefe do jornal, Walter Burns (Cary Grant). Após o divórcio e alguns meses de férias, ela está de volta apenas par avisar que não voltará. Ela decidiu levar uma vida normal, de dona de casa, se casando com o pacato vendedor de seguros Bruce Baldwin (Ralph Bellamy). Hildy chega com a notícia no dia em que a redação do jornal está em polvorosa devido ao iminente enforcamento de Earl Wlliams, um cidadão qua, ao ver-se desempregado, atirou em um policial. Isso seria corriqueiro se muitos interesses políticos não estivessem por trás do enforcamento.
Foi inevitável minha sensação de déja vù: o roteiro é baseado na peça “The Front Page”, e já foi levado às telas em outras duas ocasiões. Novamente, esses remakes não fariam diferença não fosse o fato de o diretor Howard Harks ter feito uma mudança crucial: no original, Hildy é um homem. Enquanto fazia testes, Hawks pediu que sua secretária lesse as falas de Hildy para ele acompanhar e acabou gostando da ideia de adicionar um toque de romance ao filme. Entretanto, essa mudança repentina foi seguida de várias negativas de grandes comediantes, como Jean Arthur, Carole Lombard, Ginger Rogers, Claudette Colbert e Irene Dunne. Rosalind, aparecendo para fazer o teste logo após um mergulho na piscina, ficou um pouco chateada por não ter sido a primeira opção.
Catherine Rosalind Russell nasceu em 1907 e começou no cinema em 1934. Seu primeiro passo para o estrelato em comédias foi em “As Mulheres / The Women” (1939), em que rouba a cena ao morder Paulette Goddard. Durante as filmagens de “Jejum de Amor / His Girl Friday”, Rosalind acreditava que suas falas não eram muito engraçadas, e por isso contratou um publicitário para criar frases espirituosas. Como Howard Hawks permitia que seus atores improvisassem, Roz usou vários desses gracejos. Emprestada pela MGM para a Columbia, além de um papel excelente, Roz também conseguiu um marido através das filmagens: foi seu colega Cary Grant que a apresentou ao produtor Frederick Brisson, o pai de seu único filho, com quem ficou por 35 anos.
De fato, um dos atores mais engraçados do cinema é Cary Grant, e seu mérito é nunca ter sido considerado primeiramente um comediante, como acontecia com Groucho Marx, W. C. Fields, Harold Lloyd ou Charles Chaplin. Assim, Grant empresta parte de seu charme e graça às suas protagonistas, como acontece aqui com Rosalind. Outros exemplos notáveis são as parcerias com Ann Sothern em “A noiva era ele / I was a male war bride” (1949), com Leslie Caron em “Papai Ganso / Father Goose” (1955) e com Audrey Hepburn em “Charada” (1963), além dos quatro inesquecíveis filmes com Katharine Hepburn de 1934 a 1940.
Novamente Grant se coloca entre a ex-esposa e um pretendente, tentando sabotar o relacionamento, como faz seu personagem em “Cupido é moleque teimoso / The awful truth” (1937). Neste filme Grant também atrapalhou as intenções amorosas de Ralph Bellamy (indicado então ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) com sua ex-esposa, aqui interpretada por Irene Dunne. Durante "His girl Friday", em uma das vezes em que o personagem de Ralph vai preso, Cary Grant liga para a delegacia e descreve-o como "parecendo-se com aquele ator, Ralph Bellamy", em uma das melhores piadas do filme. 
“The Front Page” estreou na Broadway em 1928, com Osgood Perkins (pai de Anthony Perkins) no papel de Walter e Lee Tracy como Hildy. Os autores haviam sido jornalistas em Chicago. A peça foi adaptada para cinema em 1930, com Pat O’Brien e Adolphe Menjou, e em 1974, com Jack Lemmon e Walter Matthau (e dirigida por Bill Wilder), sendo esta última a versão responsável por meu déja vù. Pode soar estranho o final, em que (SPOILER) Lemmon desiste do casamento para voltar a trabalhar com Matthau, mas tendo em consideração a histórica parceria da dupla, relevei o fato e até considerei o final justo. Em “Jejum de Amor / His girl Friday”, obviamente o final soa bem melhor e, apesar de previsível, é providencial e delicioso. Hawks acertou mais uma vez com sua pequena mudança. Aliás, o título enigmático original, "His Girl Friday", é bem mais perspicaz do que o original "The Front Page". No livro Robinson Crusoé, de William Defoe, o náufrago protagonista encontra ajuda no índio sexta-feira (Friday), de onde surge a expressão "his man Friday", que significa "o braço direito", "o maior ajudante" de alguém. Como Hildy é de Walter. 
Em 1988, novamente Hildy virou mulher, interpretada por Kathleen Turner em "Troca de Maridos / Changing Channels", ao lado de Burt Reynolds. Novamente, uma conexão: Kathleen Turner é a narradora do documentário: "Life is a banquet: The life of Rosalind Russell", feito em 2009.
Ainda com alguns jornalistas em busca de furos, mas sem atos inescrupulosos como em outros filmes sobre o tema ("A montanha dos sete abutres / Ace in the hole", de 1951 sendo talvez o mais emblemático), este filme de diálogos frenéticos e muito divertidos, este filme não seria o mesmo sem a excelente e divertida Rosalind Russell, ganhadora de cinco Globos de Ouro e uma das mais notáveis atrizes de Hollywood.
 "Jejum de Amor / His girl Friday" está disponível no YouTube e no Internet Archive. Abaixo, uma versão com legendas em português.

This is my contribution for the "Funny Lady Blogathon", hosted by Movies, Silently, one of the most amazing blogs I've discovered lately. 
Marion Davies

Thursday, May 16, 2013

Howard Hawks: o rei do riso

Alguns diretores ficaram conhecidos por se especializar em um gênero de filme. Assim, Hitchcock é o mestre do suspense, mesmo tendo feito a incomum comédia “Um casal do barulho / Mr and Mrs. Smith” (1941); John Ford é o rei dos westerns, mas não ganhou nenhum de seus quatro Oscar de Melhor Diretor dirigindo caubóis; e Frank Capra sempre esteve pronto para nos fazer rir e refletir. Howard Hawks, como muitos outros, se aventurou em mais de um gênero, mas não importa se eram comédias ou westerns, ele sempre usou muito humor em suas produções.


Sim, Hawks estava por trás de “Levada da Breca / Bringing Up Baby” (1938) e “Jejum de amor / His girl Friday” (1940), mas também foi o responsável por levar às telas “A girl in every port” (1928), “Scarface” (1932), “Sargento York” (1941) e “À beira do abismo / The big sleep” (1946). Com Cary Grant trabalhou em quatro comédias: além das duas já citadas, Hawks e Cary fizeram “A noiva era ele / I was a male war bride” (1949) e “O inventor da mocidade / Monkey Businness” (1952). Seu grande amigo e colaborador, entretanto, foi John Wayne, com quem trabalhou em cinco ocasiões. John foi o responsável pelo discurso no funeral de Hawks, no final de 1977.    
Se “Rio Vermelho” (1948) tem seu momento de subtexto homossexual, “Onde começa o inferno / Rio Bravo” (1959) é o western mais divertido de Hawks. John Wayne e um xerife de pequena cidade que prende o irmão de um homem poderoso e deve mantê-lo na cadeia até a chegada de um juiz. Para essa perigosa tarefa, ele conta com qyatro companheiros muito divertidos: um amigo bêbado e abandonado por uma mulher (Dean Martin), um velho manco (Walter Brennan), um jovem cantor (Ricky Nelson) e uma cantora de saloon (Angie Dickinson). Este filme divertido foi uma resposta venenosa a “Matar ou morrer / High Noon” (1952), pois ambos, Wayne e Hawks, não apreciaram a história do xerife que roda a cidade em busca de ajuda para liquidar três bandidos, sendo que o resultado final em nada agradou Gary Cooper. 
Outra parceria com Walter Brennan que rendeu momentos memoráveis foi em “Uma aventura na Martinica / To have and have not” (1944), em que o personagem de Brennan rouba a cena sempre que aparece, em especial quando pergunta: “você já foi picado por uma abelha morta?” (Was you ever bit by a dead bee?).
“O rio da aventura / The big sky” (1952) também tem seus momentos divertidos, em especial com o inesquecível índio Pobre Coitado (“Poordevil” em inglês, interpretado por Hank Worden) que se junta a Kirk Douglas para transportar uma carga rio acima. A cena da amputação, que é mais engraçada do que se pode imaginar, foi idealizada por Hawks para o filme “Rio Vermelho”, mas John Wayne não aceitou fazê-la. Ao ver como a cena saiu, aqui executada por Kirk Douglas, Wayne se arrependeu de não tê-la feito.

“Hatari” (1962) é uma das poucas produções de Hollywood que se passa na África e, novamente, John Wayne é a estrela. Aqui fica claro desde o começo que havá humor, embora aconteça um grave acidente de caça logo nos primeiros minutos. A chegada da fotógrafa belga Dallas (Elsa Martinelli) causa alvoroço em um grupo de homens que capturam animais para zoológicos. Dallas acaba se tornando a mãe postiça de três adoráveis elefantinhos.  
Algumas das melhores interpretações de Cary Grant vieram em filme de Hawks. Por duas vezes sob a câmera do diretor, Grant se travestiu: com um roupão feminino em “Levada da Breca / Bringing Up Baby” e com todo o uniforme militar feminino e uma peruca em “A noiva era ele / I was a male war bride”.  Charmoso, Grant teve a valiosa ajuda dos excelentes diálogos, marca registrada de vários filmes de Hawks, para criar alguns personagens inesquecíveis.
Um criador de estrelas que deixava atores e atrizes participarem do processo criativo, um galanteador, cunhado de Norma Shearer nos anos 1930. O homem que deixou "Casablanca" (1942) nas mãos de Michael Curtiz para dirigir "Sargento York", Hawks foi ousado, inteligente e alguém a quem os cinéfilos devem vários bons momentos.
This is my contribution to the Howard Hawks blogathon, hosted by Ratnakar at Seetimaar-Diary of a Movie Lover. 

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