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Saturday, September 28, 2019

Garras de Oro (1926) e as garras do imperialismo norte-americano


Garras de Oro (1926) and the golden claws of American imperialism


Este é um artigo sobre o filme mais enigmático do mundo. Ninguém sabe quem estava por trás do filme “Garras de Oro”, de 1926: os atores não foram creditados, e a equipe usou pseudônimos. O estúdio que produziu “Garras de Oro”, Cali Films, nunca fez outro filme. Tanto mistério tem justificativa: o filme trata de uma questão geopolítica que ainda estava fresca na mente dos colombianos, e o tom crítico fez com que o filme fosse banidos nos EUA. “Garras de Oro” é, acima de tudo, um filme que exemplifica perfeitamente a maneira como os EUA trataram a América Latina no século XX.

This is an article on the most enigmatic film in the world. Nobody knows who were the minds behind 1926's “Garras de Oro”: the actors were uncredited, and the crew worked under pseudonyms. The company that produced “Garras de Oro”, Cali Films, never made another film. So much mystery is justified: the film is about a polemic geopolitical question that was still fresh on the minds of Colombians, and the critic tone of the film made it be banned in the US. “Garras de Oro” is, above all, a film that perfectly exemplifies the way the US treated Latin America in the 20th century.


“Garras de Oro” é ao mesmo tempo uma denúncia e uma catarse. É a história de como, em 1903, a Colômbia perdeu boa parte de seu território graças à atuação dos EUA – e este território ficou conhecido como Panamá. Na versão dramatizada dos fatos, os EUA são chamados de “Yanquilandia”, e os cineastas não poderiam ser mais claros sobre o alvo de suas críticas. Teddy Roosevelt continua sendo o presidente da Yanquilandia, e para derrotar William Taft na eleição ele decide roubar o Panamá da Colômbia.

“Garras de Oro” (Golden Claws) is at the same time a denunciation and a catharsis. It is the story of how, in 1903, Colombia lost a good amount of its territory thanks to the United States – and this territory became known as Panama. In the dramatized version of the facts, the US is called “Yanquilandia” (Yankee Land), and the filmmakers couldn’t be clearer about who they are criticizing. Teddy Roosevelt remains president of Yanquilandia, and to beat William Taft in the election he decides to steal Panama from Colombia.


Em Yanquilandia há uma cidade chamada Rasca-Cielos (Arranha-Céus) e o jornal local, chamado de The World, está contra o plano de Roosevelt. Um homem colombiano, señor González, mora em Rasca-Cielos e tem uma filha, Berta. Ela está apaixonada por Paterson, um americano que pode ser repórter investigativo do The World ou mesmo espião trabalhando para Roosevelt. Corrupção, poder, espionagem e sexo são elementos importantes na disputa geopolítica pelo Panamá.

In Yanquilandia there is a city called Rasca-Cielos (Skyscrapers) and the local newspaper, called The World, is against Roosevelt’s plan. A Colombian man, señor González, lives in Rasca-Cielos and has a daughter, Berta. She is in love with Paterson, an American man who can either be an investigative reporter for The World or a spy working for Roosevelt. Corruption, power, espionage and sex play important roles in the geopolitical dispute for Panama.


É basicamente este o enredo de “Garras de Oro”, mas o filme era, originalmente, muito maior: hoje apenas 55 minutos sobrevivem, e temos só uma versão truncada do que a película era para ser – a estimativa é de que 15% do filme ainda está perdido. Novamente, há uma explicação pra isso: banido nos EUA, o filme foi exibido na Colômbia em 1927 e depois esquecido por 60 anos, quando foi parcialmente redescoberto e restaurado.

That’s basically it for “Garras de Oro”, but the film was originally much more: today only 55 minutes survive, and we have only a truncated version of what it was meant to be – it’s estimated that 15% of the film is still lost. Again, there is an explanation for this: the film was banned in the US, exhibited in Colombia in 1927 and then forgotten for 60 years, when it was partially found and restored.


No final do século XIX e início do XX, os EUA basearam sua expansão imperialista na Doutrina Monroe – definida pelo slogan “América para os americanos”, que na realidade queria dizer “América para os norte-americanos”. Isso significava que os EUA apoiariam a independência dos outros países americanos de colonizadores europeus com o único intuito de influenciar a economia e a política destes novos países. O imperialismo norte-americano era diferente daquele praticado pelos países europeus: era uma colonização ideológica, não territorial.

In the end of the 19th century and the beginning of the 20th, the US based its imperialistic expansion on the Monroe Doctrine – defined by the slogan “America for Americans”, that really meant “America for North Americans”. This meant that the US would support the independence of other American countries from their European colonizers with the sole purpose of influencing these new countries in issues like economy and politics. North-American imperialism was different from the one practiced by European countries: it was ideological colonization, not territorial colonization.

"Cowboy" Teddy Roosevelt
O Panamá tentou se tornar independente da Colômbia em muitas ocasiões, e finalmente houve uma guerra em 1899, chamada de Guerra dos Mil Dias – naquela época, a Colômbia era chamada de Nova Granada. Até então, os EUA haviam ajudado a Colômbia / Nova Granada a manter o Panamá sob sua jurisdição. Em 1903 tudo mudou, pois o Panamá declarou independência em três de novembro, e os EUA foram o primeiro país a reconhecer esta independência – com a clara intenção de explorar o novo país e colocá-lo sob suas asas ideológicas. De fato, logo após reconhecer a independência do Panamá, os EUA ganharam o controle do canal transcontinental que seria construído no novo país. O presidente norte-americano que apoiou a independência do Panamá foi Teddy Roosevelt.

Panama tried to become independent from Colombia several times, and they eventually started a war in 1899, called The War of a Thousand Days – at that time, Colombia was called Nova Granada. Up until then, the US actually had helped Colombia / Nova Granada to keep Panama under its jurisdiction. In 1903, things changed, as Panama declared independence on November 3rd, and the US was the first country to recognize its independence – with the clear intention of exploring the new country and put it under its ideological wings. Indeed, right after recognizing Panama’s independence, the US gained control of the trans-continental canal that would be built in the new country. The US president who supported the independency of Panama was Teddy Roosevelt.
 
1903 cartoon from Sunday Times

Em inglês o filme ficou conhecido como “Alvorada de Justiça” por causa de seu conteúdo catártico – um título bem mais inofensivo do que os títulos prévios “A Vingança da Colômbia” e “A Morte Política de Teddy Roosevelt”. Os EUA pagaram 25 milhões de dólares como indenização para a Colômbia pelo Panamá e seu canal. No final de “Garras de Oro”, o Tio Sam deposita esta mesma quantia na balança da Justiça personificada, mas os pratos da balança não se movem: afinal, a justiça deveria ser cega e mostrar que a razão sempre esteve com os colombianos.

In English the film became known as “Dawn of Justice” because of its cathartic content – a title that is more inoffensive than the two working titles “Colombia’s Revenge” and “The Political Death of Teddy Roosevelt”. The US paid Colombia 25 million dollars to Colombia as indemnity for Panama and its canal. In the very end of “Garras de Oro”, Uncle Sam deposits the same amount in Lady Justice’s scale, but the scale does not move: after all, Justice should be blind and should show that the Colombians were right to be bitter.


Você lembra que todos os envolvidos com o filme “Garras de Oro” ou não receberam crédito ou usaram pseudônimos? Agora a história se complica. Há uma teoria que diz que “Garras de Oro” sequer foi filmado na Colômbia, mas sim na Itália. Mais recentemente, a identidade do diretor PP Jambrina, também fundador da Cali Films, foi descoberta: ele era Alfonso Martínez Velasco, um político, jornalista e empresário. As únicas outras pessoas creditadas em “Garras de Oro” são dois diretores de fotografia com sobrenomes italianos, e a atriz italiana Lucia Zanussi pode ter sido parte do elenco. Assim como o nome dos outros membros do elenco e o restante da trama, é possível que nunca saibamos a verdade sobre o local de filmagem.

Do you remember that everyone involved in the making of “Garras de Oro” was either uncredited or used pseudonyms? Now the plot thickens. A theory says that “Garras de Oro” may not have been shot in Colombia at all, but in Italy. More recently, the identity of director PP Jambrina, also founder of Cali Films, was discovered: he was Alfonso Martínez Velasco, politician, journalist and entrepreneur. The only other credited people in “Garras de Oro” were two cinematographers with Italian last names, and Italian actress Lucia Zanussi is rumored to be part of the cast. Just like the name of other cast members and the rest of the plot, the place it was shot is something we might never know for sure.
 
PP Jambrina
Durante o século XX, os EUA usaram o cinema como arma imperialista: por todo o mundo, e na América Latina em especial, o cinema norte-americano dominava e disseminava os valores norte-americanos. Hoje, este fenômeno é irreversível, mas felizmente os EUA e Hollywood se abriram para as estrelas latinas. Agora em Hollywood temos alguns colombianos fazendo sucesso, como Sofía Vergara, Isabella Gomez e John Leguizamo. A animosidade causada por “Garras de Oro” há quase 100 anos parece ter sido deixada no passado, mas temos sorte porque parte do filme sobreviveu para contar uma história real sob uma perspectiva única: do ponto de vista dos colonizados.

As the 20th century progressed, the US used cinema as a huge imperialist weapon: all over the world, and in Latin America in special, US cinema dominated and disseminated American values. Today, this phenomenon is irreversible, but fortunately the US and Hollywood became more open to Latin stars. Now in Hollywood we have a few Colombians thriving, like Sofía Vergara, Isabella Gomez and John Leguizamo. The animosity caused by “Garras de Oro” nearly 100 years ago seems to have been left in the past, but we’re lucky that part of the film survives to tell a real story in such a unique perspective: from the point of view of the colonized people.
 
Hand-colored Colombian flag from "Garras de Oro"
This is my contribution to the Hollywood’s Hispanic Heritage blogathon, hosted by Aurora at Once Upon a Screen.


Tuesday, September 24, 2019

Z (1969)


Dois críticos de cinema entram em um bar. Eles jamais chegam a um acordo sobre qual drink pedir. Por quê? Porque crítica cinematográfica não é algo unânime, pois a paixão sempre influencia quando um crítico está analisando um filme. Esta piada pode não ser engraçada, mas é verdadeira: dois críticos de cinema, mesmo parceiros na profissão, dificilmente têm a mesma opinião sobre um filme. Tome como exemplo a dupla Roger Ebert e Gene Siskel. Nos mais de 20 anos em que eles fizeram listas anuais dos 10 Melhores Filmes lançados, eles concordaram em poucas ocasiões. Uma delas foi quando ambos elegeram, em 1969, o filme Z de Costa-Gavras como o melhor do ano.

Two film critics walk into a bar. They never agree on which drink to order. Why? Because film criticism is not meant to be a unanimous thing, since passion weighs in whenever a critic is analyzing a film. This joke may not be funny, but it’s true: two film critics, even in a partnership, rarely agree on their opinions about film. Take the duo Roger Ebert and Gene Siskel, for instance. In the more than 20 years they made their yearly TOP 10 movies, they rarely agreed on the best film of the year. One of these occasions was in 1969, when both favored Costa-Gavras’ Z.


Z é um thriller político que me mostrou como lutas políticas vêm em ciclos. Z é um famoso político grego e líder de um partido de esquerda. Ele é interpretado por Yves Montand. Uma noite, o discurso de Z para o povo francês é quase cancelado – ele quer falar sobre paz, e contra ele estão o governo francês, a polícia, a imprensa e muitas pessoas raivosas. Depois do final do discurso, realizado em um local diferente do planejado, Z é atacado por um homem com um cassetete. A polícia se desespera com a possibilidade de o crime se tornar uma questão política – e, de fato, foi um crime político – e por isso a Gendarme – a polícia francesa – tenta encobrir o crime e fazer ele passar por acidente.

Z is a political thriller that showed me how political struggles come in cycles. Z is a prominent Greek politician and leader of a leftist party. He’s played by Yves Montand. One night, Z’s speech to the French people is almost cancelled – he wants to talk about peace, and against him there is the French government, the police, the press and a lot of angry people. After the speech ends, in a different location than planned, Z is attacked by a man with a nightstick. The police is then nervous with the possibility of the crime becoming a political issue – and it really was a political crime – so the Gendarme – the French police – try to uncover the crime and label it an accident.


Z é baseado em uma história real, e você precisa saber um bocado de história para entender melhor o filme. A história contada envolve o assassinato do político grego Grigoris Lambrakis por uma milícia de direita em 1963. Quando ficou provado que Grigoris foi assassinado, o resultado esperado era a vitória do partido de esquerda nas eleições... mas não houve eleições: em 1967 um golpe de estado aconteceu, e a Grécia se tornou uma ditadura de extrema-direita. Este governo proibiu muitas coisas, entre elas cabelos compridos, a minissaia, Tolstoi, Sófocles, greves, os Beatles, liberdade de imprensa e a letra Z – uma letra que, em grego, significa “ele vive”.

Z is based on a real story, and you need to know a bit of history to better understand the film. The story told involves the assassination of Greek politician Grigoris Lambrakis by a right-wing militia in 1963. When it was proved that Grigoris was murdered, the result was an expected win of the left parties in the elections… but there were no elections: in 1967 a coup d’état happened, and Greece became a right-wing military dictatorship. This government prohibited a lot of things, including long hair, mini-skirts, Tolstoi, Sophocles, strikes, the Beatles, freedom of press and the letter Z – a letter that means “he’s alive” in Greek.


Há alguns indícios de que o assunto é política grega. O mais óbvio de todos vem da trilha sonora, composta por Mikos Theodorakis, cuja obra foi proibida pela ditadura militar. O diretor Costa-Gavras nasceu na Grécia, assim como a atriz Irene Papas, que interpreta a esposa de Z. E, para tornar tudo mais explícito, Costa-Gavras colocou este aviso no começo do filme: “Qualquer semelhança com eventos reais, com pessoas vivas ou mortas, não é mero acaso. É PROPOSITAL.”

You get a few hints that we’re talking about Greece. The most obvious one comes from the soundtrack, composed by Mikis Theodorakis, whose work was banned by the military dictatorship. Director Costa-Gavras was born in Greece, just like actress Irene Papas, who plays Z's wife. And, to make things even more explicit, Costa-Gavras puts this warning in the beginning of the film: “Any resemblance to actual events, to persons living or dead, is not the result of chance. It's DELIBERATE.”


Como o governo norte-americano apoiava a ditadura grega, o filme Z foi quase banido nos EUA. Em vez disso, algo pior aconteceu: todas as pessoas que compraram entradas para assistir a Z tinham seus dados pessoais anotados pelo FBI – um usuário do IMDb escreveu sobre como isso aconteceu com ele. Além disso, Costa-Gavras, Theodorakis, Irene Papas e Yves Montand foram proibidos de entrar nos EUA nos anos seguintes.

Since the US government supported the Greek dictatorship, the film Z was nearly banned in the US. Instead, something worse happened: all people who bought tickets to see Z had their personal data taken by the FBI – one IMDb user writes about how it happened to him. Moreover, Costa-Gavras, Theodorakis, Irene Papas and Yves Montand were forbidden from entering the US in the following years.


Gene Siskel escreveu sobre Z: “É um grande filme por muitas razões, podendo ser apreciado como um thriller político ou uma declaração política.” Por outro lado, Roger Ebert escreveu: “É um filme da nossa época. É sobre como até as vitórias morais são corrompidas. Ele te fará chorar e te deixará furioso. Ele arrancará suas entranhas.” De fato, Ebert insistiu em denunciar a política que permeia o filme – e até hoje, seis anos após sua morte, Ebert é atacado em seu site por causa de sua crítica de Z.

Gene Siskel wrote about Z: “It is a great film for many reasons, not the least of which is that it can be enjoyed as a political thriller as well as a political statement.”  On the other hand, Roger Ebert wrote: “It is a film of our time. It is about how even moral victories are corrupted. It will make you weep and will make you angry. It will tear your guts out.” Indeed, Ebert didn’t shy away from denouncing the politics surrounding this film – and until today, six years after his death, Ebert is attacked in his site because of his review of Z.


Para mim, Z teve um efeito muito pessoal. O Brasil está entre 30 a 50 anos atrasado em relação ao resto do mundo em todas as áreas, incluindo na política. Em 2018 um governo foi eleito prometendo “caçar comunistas” e seus apoiadores gritavam “nossa bandeira jamais será vermelha”. O ano de 2018 no Brasil começou com o assassinato de uma vereadora no Rio e com a prisão política de um ex-presidente que fazia parte do maior partido de esquerda do país. Os paralelos não param por aí. Em Z, os militares são obcecados pela “ameaça comunista” e prometem ser anticorpos para a doença esquerdista. Este foi um discurso usado em 1964, quando um golpe militar aconteceu no Brasil, e tal discurso ainda está em uso hoje por um governo que já começou a censurar produções LGBT e revistas feministas.

For me, Z struck too close to home. Brazil is 30 to 50 years behind the rest of the world in all fields, including the political one. In 2018 a government was elected after promising “to hunt communists” and their supporters chanted “our national flag will never be red”. The year 2018 in Brazil started with the killing of a local politician in Rio and with the political prison of a former president who was from the biggest leftist party in the country. These are not the only parallels. In Z, the military is obsessed about the “communist menace” and promises to be an antidote to the leftist malady. This was a speech used in 1964, when a military coup d’état happened in Brazil, and it is still used today by a government that already started censoring LGBT productions and feminist magazines.


Há uma piada na internet brasileira sobre como os franceses sempre se rebelam e incendeiam carros quando alguma decisão do governo não os agrada. Os brasileiros não fazem isso – somos muito pacíficos para lutar pelos nossos direitos. Por bem ou por mal, os franceses tomam as ruas quando querem mudança. Nós não. Não tomamos as ruas quando um juiz não imparcial mandou prender um líder político popular. Não estamos tomando as ruas agora, quando o homem que está investigando as notícias falsas espalhadas durante as eleições está recebendo ameaças de morte. Porque nós não tomamos as ruas, estamos voltando para 1964. Porque nós não aprendemos com a história, deixamos que a história de nosso país seja feita de ciclos.

There is an internet joke in Brazil about how French people always riot and burn cars when some governmental decision displeases them. Brazilians don’t do it – we’re too peaceful to fight for our rights. For good or for bad, French people take the streets when they want change. We don’t. We didn’t take the streets when a judge that wasn’t impartial arrested a popular political leader. We aren’t taking the streets now, when a man who is investigating fake news spread during the elections is receiving death threats. Because we don’t take the streets, we are going back to 1964. Because we don’t learn with history, we let our national history be made of cycles.


Z não é um filme reconfortante – na verdade, ele me afetou muito porque estou no epicentro de toda essa confusão política. Ao final de Z, você não terá sua fé renovada. É um filme duro sobre como política, ditaduras e golpes de estado funcionam, e é a confirmação de que a política pode ser necessária, mas é também o campo de batalha mais podre do mundo.

Z is not a reassuring movie – in fact, it hit me too hard because I’m so close to all this political mess. In the end of Z, you won’t have your faith renewed. It’s a raw film about how dictatorships, coup d’états and politics work, and it is the confirmation that politics may be necessary, but they also are the most rotten battlefield in the world.

This is my contribution to the Siskel & Ebert at the blogathon, hosted by Sally from 18 Cinema Lane.


Saturday, July 9, 2016

Monstros / Freaks (1932)

O ano era 2009, e eu era uma recém-chegada no mundo do cinema. Tinha 16 anos e era fácil de impressionar. Não sei por que abri uma lista com o título “os 10 filmes mais impressionantes da história”. Lá, na 10ª posição, uma imagem já me assustou: o Homem-Torso de “Monstros”, um estranho filme de 1932 que eu desconhecia. Era um filme sobre um circo de horrores, feito com membros do circo de horrores. Eu fui perseguida por aquela imagem durante um bom tempo – e, claro, resolvi não assistir ao filme quando ele passou na televisão.

The year was 2009, and I was a newcomer to the film world. I was 16 and easily impressed. I don’t know why I opened a list with the title “the 10 most horrifying films ever”. There was, in the 10th place, an image that scared me: the Living Torso from “Freaks”, a weird 1932 film I hadn’t heard about until then. It was a film about a freak show, with real freak show attractions as actors. I was haunted by that image for a good time – and, of course, I decided not to watch the film when it was on TV. 


Mas chega uma hora em que temos de enfrentar nossos medos – mesmo que eles estejam na figura de um filme de mais de 80 anos e apenas uma hora de duração. De 2009 até hoje, enfrentei outros medos – e inclusive vi American Horror Story: Freak Show, que se passa em um show de horrores com muito sangue.

But there comes a time when we have to face our fears – even if they appear to us as an 80 year-old, 60 minute-long film. From 2009 until today, I faced other fears – and even watched American Horror Story: Freak Show, that is set in a circus with a lot of blood. 


Em geral, os mais assustadores filmes de terror não têm nenhum monstro ou atividade paranormal: o horror surge quando nos damos conta do que um ser humano é capaz de fazer com o outro. O que o diretor Tod Browning queria que assustasse o público é a maneira fria como a trapezista Cleopatra (Olga Baclanova) e seu parceiro Hercules (Henry Victor) planejam ficar com a fortuna do anão Hans (Harry Earles), que está apaixonado por Cleopatra.

In general, the scariest horror films don’t have any monster or supernatural activity: the source of horror is what a human being is willing to do with another human being. The one thing director Tod Browning wanted to cause repulsion in the audience was the way trapeze girl Cleopatra (Olga Baclanova) and her partner Hercules (Henry Victor) plan to get the money from the dwarf Hans (Harry Earles), who is in love with Cleopatra.


O filme sofre um pouco por não ter atores profissionais nos papéis de Hans e Daisy. Entretanto, as lágrimas de Daisy na cena do casamento compensam todos os erros, e dão início à cena mais emblemática do filme. Como Pauline Kael disse, “Monstros” é ótimo, mas teria sido ainda melhor e mais poderoso se fosse um filme mudo.

The film suffers a little because Hans and Daisy are not played by Professional actors. However, Daisy’s tears in the wedding scene compensate all the mistakes, and mark the beginning of the most emblematic scene in the film. As Pauline Kael said, “Freaks” is great, but would have been better and more powerful had it been a silent film.


Como um longo texto que precede o filme nos conta, a humanidade sempre amou a beleza – e talvez você, cinéfilo, conhece alguém que se recusa a ver um filme que “não seja bonito”. Mas o que pode ser considerado “bonito”? A beleza não está nos olhos de quem a vê?

As a long text before the movie tells us, the humanity has always loved beauty – and maybe you, cinephile, know some people who won’t watch a movie because “it’s not beautiful”. But what can be considered “beautiful”? Isn’t beauty in the eyes of the beholder?

O problema é que as pessoas normalmente não conseguem ver além das aparências. Esta é a lição do filme: algumas pessoas podem ser lindas por fora, mas são podres por dentro.

The problem is that people can’t usually see through the appearance. This is the lesson of the film: some people can be beautiful on the outside, but rotten inside.


Mas o público e o alto escalão da MGM ficaram chocados com as “aberrações”. Há, sim, situações chocantes, como por exemplo o casamento de uma das irmãs siamesas, sendo que a outra não gostava do noivo... mas teria de dividir a cama com ele e sentir as mesmas coisas que a irmã.

But the audience and MGM’s high chiefs were shocked only with the “freaks”. There are shocking moments, indeed, like when one of the conjoined twins gets married and the other twin, who doesn’t like her sister’s groom, has to share the bed with him and feel everything the sister does with him.


O resultado do escândalo foi um longo corte no filme, com 30 minutos extras hoje considerados perdidos, e que certamente fariam toda a diferença na narrativa. Mais uma vez, a intolerância e a hipocrisia ganharam. Não duvido que as pessoas que mais reclamaram do filme não estavam enojadas com as “aberrações”, mas sim consigo mesmas e com seu comportamento em relação àqueles deficientes.

The result of the scandal was a long second cut, with 30 extra minutes that today are considered lost, and that certainly would shine a new light in the storytelling. Once again, intolerance and hypocrisy won. I have no doubt that the people who complained the most about the film weren’t disgusted by the “freaks”, but by themselves and their behavior towards those handicapped people.


Se você já sofreu bullying, ou se já foi chamado de aberração, este filme será doloroso de assistir. Em 2009, ano em que ouvia falar pela primeira vez deste filme, estava no pior momento da minha vida. Infelizmente, eu não tinha um grupo de amigos com um código de honra, prontos a se vingarem por mim. Foi bom eu não ter visto o filme naquela época. E, quando finalmente o vi, não precisei aprender a lição: eu já sabia que o segredo da vida é tolerância, sempre.

If you’ve ever been bullied, if you’ve been ever called a freak, this film will be painful to watch. In 2009, the year I first heard about this film, I was in the lowest point of my life. Unfortunately, I didn’t have a group of friends with an honor code to avenge me. It was good that I didn’t watch the film back then. And, when I finally saw it, I didn’t have to learn the lesson: I already knew that the secret of a good life is tolerance, always.

This is my contribution to the Hot and Bothered: the films of 1932 blogathon, hosted by Aurora and Theresa at Once Upon a Screen and CineMaven’s Essays from the Couch.

Thursday, June 18, 2015

Beija-me, idiota / Kiss me, stupid (1964)

No dia de Natal de 1964 estreava o filme mais ousado de Billy Wilder. O diretor desafiava os limites do Código de Decência e questionava até onde alguém iria em busca do sucesso. Em uma trama digna de Norma Desmond, os protagonistas são interioranos nada simplórios que buscam sucesso a qualquer preço. No final, nada saiu como Wilder queria. Mas isso não significa que o filme não é esplêndido...
Orville J. Spooner (Ray Walston) é um professor de piano e compositor da pequena cidade de Climax, nos arredores de Las Vegas. Um bocado obsessivo, ele morre de ciúmes da esposa, Zelda (Felicia Farr) e acredita que todos estão conspirando para que ela o traia. O único homem de quem ele não suspeita é Barney Millsap (Cliff Osmond), frentista que é seu amigo e escreve a letra para as músicas que Orville compõe. E é Barney que atende um cliente famoso no posto de gasolina: o cantor Dino (Dean Martin), de passagem rápida pela cidade. Vendo que essa é a grande chance da dupla, Barney estraga o carro de Dino de propósito, obrigando-o a ficar na cidade por uma noite, na casa de Orville.
O problema é que Dino é um conhecido mulherengo. Não querendo desperdiçar sua grande chance, mas também sem querer perder a esposa, Orville arma um plano para fazer Zelda passar a noite fora. Para saciar a loucura de Dino, Barney decide trazer a garçonete Polly “a Pistola” (Kim Novak) e apresentá-la como esposa de Orville. Ufa! Um plano que tem tudo para dar errado.
Billy Wilder havia idealizado o filme com um elenco diferente: Jack Lemmon como Orville, mas Lemmon tinha outros compromissos. Adicione a isso outra mudança de última hora: Peter Sellers havia sido escalado para o papel principal, mas sofreu um ataque cardíaco no meio das filmagens. Ele foi afastado e Ray Walston ficou com o papel. Mas quem é Ray Walston? Esquecido hoje, Walston era, em 1964, um ator de 50 anos que protagonizava a série de TV “Meu Marciano Favorito”, e que teve um pequeno mas memorável papel em “Se Meu Apartamento Falasse / The Apartment” (1960).
O Orville de Ray Walston é um personagem interessante, cujo maior trunfo é fazer os espectadores se perguntarem: “por que Zelda quis se casar com este homem feio e ciumento?”. Tal pergunta jamais seria feita se Jack Lemmon fosse o protagonista, pois mesmo louco de ciúmes Lemmon tem um encanto pueril. Por isso, apesar de Orville ser o centro da ação, são as atrizes da troca que têm as melhores interpretações. Felicia Farr, esposa de Jack Lemmon na vida real, tem em “Beija-me, Idiota” um dos melhores papéis da carreira (sendo o outro em “Galante e Sanguinário / 3:10 to Yuma”, 1957) e mostra seu talento através de uma mudança repentina em Zelda. E Kim Novak, como Polly, nunca esteve tão provocante em tela. E é um estilo diferente do provocante de “Vertigo”: Polly é sexy e vulgar, mas uma gripe terrível a faz fanhosa e atrapalhada. Ela aceita se passar por Zelda por causa do dinheiro, mas nem por isso se prostituiria para Dino. Mais tarde, Wilder definiu Novak como uma atriz que combinava as qualidades de Monroe e Dietrich. O contraste e as semelhanças entre Polly e Zelda são dignas de serem exploradas mais a fundo.
Dean Martin dá vida a uma paródia de si mesmo (o carro sabotado pela dupla é de fato o carro de Martin, e Dino era o apelido real de Dean Martin, e até hoje fãs se referem a ele assim) e inclusive se deixa filmar em um concerto em Las Vegas para a cena que abre o filme. Sendo um filme sobre música (bem lá no fundo, é verdade), as canções teriam de ser memoráveis – fossem elas muito boas ou muito ruins. É impossível não rir com a bizarrice de “I’m a Poached Egg”, decorar o refrão de “Sophia” e se sentir mais leve com a adorável “All the Livelong Day”. São três canções dos irmãos Gershwin, que emplacam sucessos inéditos mesmo 26 anos após a morte de George. Wilder tirou Ira Gershwin da aposentadoria e o letrista se comprometeu a colocar letras em melodias inacabadas ou nunca utilizadas de seu irmão George. Outro ídolo dos musicais também teve uma pequena participação: Gene Kelly, grande amigo de Wilder, estava visitando o estúdio quando foi convidado para coreografar uma pequena dança entre Orville e Polly, que acontece perto do final.

Atenção para a surpresa: “Beija-me, idiota” é remake de um filme italiano de 1952, “Esposa por uma Noite”, estrelado por Gina Lollobrigida. “Remake” talvez não seja a palavra correta, pois há apenas duas coisas em comum entre os filmes: o fato de o protagonista ser um compositor interesseiro e o tema da infidelidade ser tratado com humor.
Wilder sabia que seu filme teria problemas com a censura. O questionamento principal, ainda que tratado comicamente, era: é válido vender a sua mulher (ainda que ela seja uma impostora), a si mesmo e a sua honra para conseguir sucesso? Preparado para lutar por seu filme, Wilder viu “Beija-me, idiota” ser aprovado sem problemas pelo Production Code Administration, que já não ligava muito para a tal decência que os filmes deveriam ter. Mas quem barrou a película foi a Legião de Decência (que muito criticou “Quanto mais quente melhor / Some like it hot”), e, em parte graças a essa condenação (que obrigou algumas cenas a serem refilmadas), o filme foi um fracasso de bilheteria. O público ainda não estava preparado para este lado de Billy Wilder.
O filme fracassou nos Estados Unidos, mas foi aplaudido pelos mais perspicazes europeus. As comédias de Wilder jamais foram filmes alegres, porque sempre trataram do ridículo da vida real. O público de 1964 não gostou de se identificar com personagens moralmente ambíguos, pois “Beija-me, idiota”, é completamente verossímil. Wilder, acusado de destruir a família tradicional, mais tarde atribuiu o fracasso à uma falta de polimento em todos os aspectos do filme. Não se culpe, Sr. Wilder: sabemos que você só estava muito à frente do seu tempo.

Mais informações sobre a produção do filme podem ser encontradas no imenso livro “Billy Wilder – Vida e Época de uma Cineasta”, de Ed Sikov.

This is my contribution to the Second Annual Billy Wilder Blogathon, hosted by Cuban-Irish duo Aurora at Citizen Screen and Kellee at Outspoken & Freckled .



Wednesday, April 1, 2015

Levada à Força / The Story of Temple Drake (1933)

Esta crítica contém spoilers.

Pre-Code é o termo usado para descrever os filmes falados feitos entre 1929 e 1934, quando o Código Hays de “decência” entrou em vigor. Estes filmes apresentavam insinuações sexuais, silhuetas sugestivas, comportamento considerado reprovável, crimes sem punição e promiscuidade. Mas não fique animado: tais filmes não são nada pornográficos e, vistos hoje, são quase todos simples. Quase todos: “The Story of Temple Drake” continua longe de ser simples e inofensivo.
Um dia, Danny, o mago do pre-Code (e responsável pelo excelente site pre-code.com) convidou os bravos blogueiros para escreverem sobre estes filmes travessos e fascinantes. E foi assim que eu me lembrei de uma frase que Danny soltou no Twitter:


Então aqui está, Danny. Um artigo sobre “The Story of Temple Drake”, escrito por uma mulher – e uma mulher feminista.


Ela é uma boa garota, Stephen”: é assim que o avô se refere a Temple Drake (Miriam Hopkins). Na cena seguinte, quando somos apresentados a ela, Temple está chegando tarde em casa e tentando se livrar do homem que a acompanhava naquela noite – e que queria mais alguns beijos. Temple é assunto da fofoca de todos na cidade.
Depois que o bom advogado Stephen Benbow (William Gargan) a pede em casamento mais uma vez, Temple foge com seu acompanhante Toddy (William Collier Jr) e, indo em alta velocidade, o carro deles capota. Quem os encontra é o sinistro Trigger (Jack La Rue), que os leva a uma casinha quase destruída. Depois de se mandar seus capangas levarem Toddy embora, Trigger mata o bobo Tommy (James Eagles) e violenta Temple.
O dono da casa em que tudo aconteceu, Lee Goodwin (Irving Pichel) é acusado pelo assassinato de Tommy e, sem dinheiro para contratar um advogado, lhe é indicado Stephen. E é seguindo o rastro de Trigger, o verdadeiro assassino, que Stephen reencontra Temple, e a moça inicia uma jornada de mentiras, sacrifício e dúvidas morais.


Filmes não são fábulas. Não é preciso procurar uma “moral da história” ao fim de cada um deles. Se procurássemos uma lição neste filme, alguns pensariam no velho, ultrapassado conselho: se Temple fosse uma moça “correta” e tivesse aceitado se casar com Stephen, nada de ruim teria lhe acontecido. O comportamento dos personagens no pre-Code é sempre muito liberal, e quase sempre eles aprendem que o crime e a promiscuidade não compensam. Há pessoas que ainda pensam assim, mas a visão de quem conhece o filme mais de 80 anos depois de sua estreia pode (e deve) ser muito diferente da opinião de quem viu o filme originalmente nos cinemas.
Há alguns momentos bem pre-Code: o close nas pernas de Temple, a moça só de lingerie depois de uma tempestade. Miriam Hopkins é a alma do filme, e as expressões de seu rosto (em especial dos olhos) falam mais que qualquer diálogo. O filme poderia ter sido até mais pre-Code, se não fosse por uma troca de papéis: George Raft não aceitou o papel de Trigger, e Jack La Rue, um ano antes, havia perdido o papel de Rinaldo em “Scarface” (1932) justamente para Raft (o TCM diz que Jack perdeu, na verdade, o papel principal para Paul Muni).

Por que “The Story of Temple Drake” escandalizou Hollywood? Primeiro, porque é uma adaptação do livro “Sanctuary”, de William Faulkner, considerado impossível de ser transportado para as telas. Segundo, porque a polêmica ficou nas entrelinhas, e a mente mais ou menos poluída de cada espectador se encarregou de imaginar barbáries. Por quanto tempo ela ficou com Trigger? Por que ela ficou esse tempo com Trigger? Temple estava assustada demais para fugir? Ela sabia que sua vida não seria mais a mesma se voltasse para sua cidade (estaria “desgraçada”)? Ou... será que ela gostou de ser escrava sexual de Trigger? Por que Temple só resolve tomar uma atitude ao reencontrar e mentir para Stephen?


Esses temas e debates, sobre comportamento feminino considerado “adequado”, violência sexual, vingança e autodefesa são, surpreendentemente, todos abordados no meu novo livro. Escolhi “The Story of Temple Drake” por causa do tweet no topo do post, mas os temas me tocaram profundamente pela coincidência (sério, quais as chances de ver um filme que tem tudo a ver com seu livro... por acaso?). São produtos de épocas diferentes, e vão encontrar recepções e interpretações diferentes. “The Story of Temple Drake” deixa muitas questões em aberto, e isto é uma das características que fazem um bom filme – pre-Code ou não.

This is my contribution to the Pre-Code Blogathon, hosted by the naughties Danny at pre-code.com and Karen at Shadows and Satin. Sin on celulloid!



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