} Crítica Retrô: sexo

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Friday, March 6, 2020

Pleasure Cruise (1933)


Todos nós desejamos felicidade e tranquilidade na vida – mas não no cinema. Aqueles de nós que querem se casar desejam poucas brigas e nenhum ciúme – mas quem quer ver um filme sobre um casal que não tem absolutamente nenhum problema? No cinema, quanto mais problemático for um casamento, melhor, seja o filme uma comédia ou um drama. Na comédia pre-Code de 1933 “Pleasure Cruise”, um marido ciumento segue a esposa em um cruzeiro – e planeja ensinar-lhe uma lição da maneira mais nojenta possível.

We all long for happiness and calm in life – but not on screen. Those of us who want to get married wish few fights and no jealousy – but who wants to watch a movie about a couple that has absolutely no problems? On film, the most troubled a marriage is, the better, no matter if the movie is a comedy or a drama. In the 1933 pre-Code comedy “Pleasure Cruise”, a jealous husband follows his wife in a cruise trip – and plans to teach her a lesson in the vilest way.


Da primeira vez que vemos Andrew Poole (Roland Young), ele está leiloando todos os seus pertences e dando uma festa para os amigos enquanto suas coisas estão sendo levadas embora. Ele pretende desmanchar o noivado com Shirley (Genevieve Tobin), agora que está pobre, mas ela não aceita. Ele tem uma carreira promissora como escritor pela frente e ele tem um emprego, o que significa que eles podem se casar e ela pode sustentar a casa enquanto o livro dele não é publicado.

The first time we see Andrew Poole (Roland Young), he's auctioning all his belongings and throwing a party for his friends while his things are being taken away. He intends to break the engagement with his fiancée, Shirley (Genevieve Tobin), now that he is poor, but she doesn't want it. He has a promising career ahead as a writer and she has a job, which means that they can get married and she can be the breadwinner of the household while his book is not published.


Da próxima vez que vemos Andrew, ele é um homem casado usando um avental – que, no cinema, é um sinal de castração – e organizando as compras na cozinha. É seu aniversário de um ano de casamento, mas ele se esqueceu. Sua amiga Judy (Minna Gombell) o visita e traz flores para ele presentear Shirley. Enquanto cozinha, ele confessa para Judy que tem ciúmes dos colegas de trabalho de Shirley – em uma vinheta criativa e divertida, vemos que estes colegas não são nada do que ele imagina.

The next time we see Andrew, he is a married man wearing an apron – which, in a movie, is a sign of emasculation – and organizing the things he bought in the kitchen. It's his one-year wedding anniversary, but he has forgotten it. His friend Judy (Minna Gombell) visits him and brings flowers for him to give Shirley. While cooking, he confesses to Judy that he's jealous of Shirley's male coworkers – in a creative and fun vignette, we see that they're nothing like he imagines.


Naquela tarde, Andrew e Shirley saem para dar uma volta, e começam a discutir porque ela diz que não sairia do emprego se ele conseguisse um trabalho. Ela então sugere que ele vá pescar para descansar. Ironicamente, ele sugere que ela faça uma viagem num cruzeiro sozinha, e fica chocado quando ela aceita a ideia e imediatamente compra a viagem. Mas ele não pode ir pescar em paz, por isso ele consegue um emprego no mesmo cruzeiro em que ela viaja para ficar de olho nela – sem ser visto, obviamente.

Andrew and Shirley go out for a stroll in the rain that evening, and start arguing because she says she wouldn’t give her job up if he found a job. She then suggests for him to go on a fishing trip to rest. He ironically suggests for her to go solo on a pleasure cruise, and is shocked when she accepts the idea and immediately books the trip. But he can't go fishing in peace, so he gets a job in the same cruise she's travelling to watch her – without being seen, of course.


Fingindo ser barbeiro, Andrew tenta manter todos os homens longe de Shirley, contando mentiras sobre ela. Ao mesmo tempo, ele precisa escapar das investidas da Sra. Signus (Uma O’Connor), uma senhora que adora flertar. Para tornar as coisas mais complicadas, a cabine de Shirley é do lado da cabine da Sra. Signus, e Andrew frequentemente entra na cabine da Sra. Signus para espiar Shirley pelo buraco da fechadura.

Posing as a barber, Andrew tries to keep all men far from Shirley, telling lies about her. At the same time, he needs to escape Mrs Signus (Una O'Connor), a very flirty older lady. To make things more complicated, Shirley's cabin is next to Mrs Signus, and Andrew frequently enters Mrs Signus' cabin only to spy on Shirley through the keyhole.


Assim como muitos outros filmes do começo da era falada, “Pleasure Cruise” teve uma versão em língua estrangeira gravada ao mesmo tempo e enviada para países que não falavam inglês. A versão em espanhol, “No Dejes La Puerta Abierta”, era estrelada pelo brasileiro Raul Roulien e pela espanhola Rosita Moreno. Raul e Rosita fizeram muitas versões em espanhol de filmes em inglês nos estúdios Fox.

Like many other early talkies, “Pleasure Cruise” had a foreign language version shot at the same time for non-English speaking markets. The Spanish version, “No Dejes la Puerta Abierta” (Don't Leave the Door Open), starred Brazilian import Raul Roulien and Spanish actress Rosita Moreno. Roulien and Moreno did a lot of Spanish versions of English-speaking films at Fox studios.


Podemos perceber que este filme foi feito antes do Código Hays pelo primeiro frame. Quando o filme começa, vemos as costas de uma mulher nua e alguém ordena “vire-se”. Para nosso alívio, vemos que se trata de uma pintura, não de uma mulher nua – e os cineastas sorriem porque acabaram de nos enganar. Além disso, há muitas – e eu quero dizer MUITAS – insinuações sexuais no filme.

We can see this a pre-Code by the very first frame. When the film begins, we see a naked woman's back and someone orders “turn around”. To our relief, we realize it's a painting, not a naked woman – and the filmmakers smile as they see they fooled us. Besides that, there is a lot – and I mean a LOT – of sexual innuendo in this film.


Algumas transições chamaram minha atenção por causa da criatividade envolvida. Quando Andrew e Shirley saem da casa deles, a câmera foca nos pés do casal. No momento seguinte, eles estão saindo da igreja, casados. No próximo momento, ainda com a Marcha Nupcial tocando, Andrew está caminhando sozinho, depois de fazer compras para casa. Em outra sequência, um chuveiro aberto se transforma em chuva caindo do lado de fora de uma janela e, mas tarde, a passagem do tempo é simbolizada pela chuva que para de cair em uma poça. Um balão estoura e uma grande festa no cruzeiro acaba. São todos pequenos truques, muito bem executados, que tornam o filme visualmente bonito.

Some scene transitions really caught my attention because of the creative way they were done. As Andrew and Shirley leave his house, the camera focuses on their feet. The next moment, they are walking down the aisle, married. The next one, still with the Wedding March playing, Andrew is walking alone, after buying groceries for his home. In another sequence, an open shower transforms into rain falling outside of a window and, later, the passing of time is symbolized by the rain that stops falling in a puddle. A balloon pops and a huge party at the cruise is over. These are little tricks that, well done, make the film visually pleasing.


Genevieve Tobin está ótima nos momentos cômicos de “Pleasure Cruise”. Nascida em Nova York em 1899, Genevieve fez seu primeiro filme aos 10 anos. Sua irmã Vivian e seu irmão George também eram atores. Ao contrário de sua personagem em “Pleasure Cruise”, Genevieve deixou Hollywood em 1940 após se casar. Ela faleceu em 21 de julho de 1995 – meu segundo aniversário.

Genevieve Tobin is great at comical moments in “Pleasure Cruise”. Born in New York in 1899, Genevieve made her first film at age 10. Her sister Vivian and her brother George were also actors. Unlike her character from “Pleasure Cruise”, Genevieve left Hollywood in 1940 after getting married. She passed away on July 21st, 1995 – which was my second birthday.


Aqui, Roland Young me lembrou de Bruce Willis, mas com um bigode. O ator inglês fez sua estreia no cinema como Watson no “Sherlock Holmes” de 1922, com John Barrymore como Sherlock. No começo da década de 1930 ele passou a trabalhar como freelancer – sem ter contrato com um único estúdio – e fez sucesso em muitos papéis coadjuvantes, incluindo “A Dupla do Outro Mundo” (1937), pelo qual ele recebeu uma indicação ao Oscar.

Roland Young here reminded me of Bruce Willis, but with a mustache. The English actor made his film debut as Watson in 1922’s “Sherlock Holmes”, with John Barrymore as Sherlock. In the early 1930s he started working as a freelancer – not having a contract with a single studio – and found success in many supporting roles, including “Topper” (1937), for which he was nominated for an Oscar.


Com apenas 72 minutos, “Pleasure Cruise” é um filme prazeroso até os minutos finais. Uma escolha de mau gosto – e é de MUITO mau gosto – é feita quando Andrew vai longe demais para ensinar uma lição para a esposa. Não darei spoilers, mas Danny do site pre-code.com discute esta questão na crítica dele AQUI (em inglês). Por causa deste detalhe não tão pequeno, “Pleasure Cruise” é um filme que podemos dizer que envelheceu mal, e nos faz agradecer pelas constantes mudanças na sociedade.

Clocking at 72 minutes, “Pleasure Cruise” is a delightful pre-Code movie up until the final minutes. A twist of bad taste – and I mean VERY bad taste – happens when Andrew goes too far to teach his wife a lesson. I won’t give spoilers, but Danny from pre-code.com discusses this plot point in his review of the film HERE. Because of this not so small detail, “Pleasure Cruise” is a film we can say aged badly, and it makes us be thankful that times are constantly changing.

This is my contribution to the Out to Sea blogathon, hosted by Debra at Moon in Gemini.

Wednesday, February 13, 2019

Um Domingo em Nova York (1963) / Sunday in New York (1963)


“Um Domingo em Nova York” é uma comédia romântica que se passa na Big Apple. Também é um filme com um dos melhores meet-cutes – aqueles momentos fofos em que um casal se vê pela primeira vez – de todos os tempos. É uma comédia hilária, um filme com ótimos cenários e figurinos, e também um filme que pode ser usado para refletirmos sobre feminismo, moral e dois pesos e duas medidas na sociedade. De fato, qualquer coisa pode acontecer em um único domingo em Nova York!

“Sunday in New York” is a romantic comedy set in the Big Apple. It’s also a film with one of the cutest meet-cutes – when a couple meets for the first time in a movie – of all time. It’s a hilarious comedy, a film with great sets and costumes, and also a film to reflect upon feminism, morality and double standards in society. Indeed, anything can happen in a single Sunday in New York!



Eileen (Jane Fonda) acabou um relacionamento recente, e, para se recuperar, ela decide passar alguns dias no apartamento de seu irmão, Adam (Cliff Robertson), em Nova York. Eles conversam sobre sexo e comportamento logo que ela chega e, para não ser um mau exemplo e contradizer seu conselho, Adam leva a namorada, Mona (Jo Morrow), para o Rockefeller Center para patinar no gelo – o plano inicial era transar com ela no apartamento.

Eileen (Jane Fonda) has just been through a break-up, so, in order to recover, she decides to spend a few days in her brother Adam's (Cliff Robertson) apartment in New York. They talk about sex and behavior when she arrives and, in order not to be a bad example and contradict his advice, Adam takes his girlfriend, Mona (Jo Morrow), to the Rockefeller Center to go ice-skating – his initial plan was to have sex with her in his apartment.



Adam é piloto de avião, e seu chefe liga para seu apartamento. Eileen decide dizer a Adam que seu chefe ligou e vai até o Rockefeller Center. No ônibus ela conhece Mike (Rod Taylor), que decide acompanhá-la até que ela encontre o irmão. Em um café, depois de uma piada ruim e a sensação de que não estão agradando um ao outro, tanto Eileen quanto Mike tentam escapar, mas eles acabam se encontrando novamente dentro de outro ônibus e, dessa vez, eles se dão muito bem. Enquanto isso, Adam tem de voltar ao trabalho, mas faz de tudo para conseguir manter seu encontro com Mona.

Adam is an airline pilot, and his boss calls the apartment. Eileen decides to tell Adam the boss called and goes to the Rockefeller Center. In the bus she meets Mike (Rod Taylor), who decides to accompany her until she finds her brother. At a café, after a bad joke and the feeling that this wouldn't work, they both try to escape, only to meet again at another bus and, this time, they really hit if off. Meanwhile, Adam has to go back to work, but he tries everything to keep his engagement with Mona.



O primeiro encontro de Eileen com Mike é charmoso e engraçado: o broche dela fica preso no terno dele, e eles têm de descer do ônibus juntos, como se estivessem grudados. Esta situação se repete em outro ônibus, e me fez pensar em como preciso ficar longe das pessoas quando uso broches.

Eileen's first meeting with Mike is a charming, funny one: her brooch gets stuck in his suit, and they have to exit the bus together, like if they were glued. This situation happens twice in a bus, and made me more aware of the need of keeping distance of other people whenever I wear a brooch.



Quando Eileen percebe que seu irmão de fato transa com sua namorada, ela decide que pode fazer o mesmo e começa a flertar com Mike, em uma sequência hilária. Eles estão no apartamento de Adam, e de repente surge Russ (Robert Culp), o homem por quem Eileen está apaixonada. Mike acaba tendo de fingir que é o irmão de Eileen para Russ, que repentinamente parece muito apaixonado.

When Eileen realizes her brother actually has sex with his girlfriend, she decides she can do it too and becomes all flirty with Mike, in a hilarious sequence. They are in Adam’s apartment, and all of a sudden there appears Russ (Robert Culp), the man who Eileen is in love with. Mike ends up having to pretend to be Adam for a suddenly very much in love Russ.



Eileen tem dúvidas sobre assuntos como sexo antes do casamento – algo que sequer podia ser mencionado em um filme 10 anos antes de “Um Domingo em Nova York”. Quando seu irmão diz que os homens se casam com garotas decentes, ela diz que o problema está na palavra “decente”: ela carrega uma conotação de comparação entre as mulheres. Eileen é um ícone feminista!

Eileen has doubts about issues like pre-marital sex – something that couldn't be mentioned in a movie some 10 years before “Sunday in New York” was made. As her brother says that men marry decent girls, she says that the problem lies in the word “decent”: it carries a connotation of comparison between girls. Eileen is a feminist icon!



Mike fica desconfortável porque Eileen deu o primeiro passo na paquera, e menciona que o conceito de moral é diferente para homens e mulheres. Temas sobre como dois pesos e duas medidas são usados para julgar o comportamento de homens e mulheres começaram a ser discutidos no cinema nos anos 60, mas a mudança ainda não se completou, e até hoje precisamos discutir e apontar quão hipócrita é considerar que mulheres liberais são vagabundas, enquanto um homem pode fazer praticamente qualquer coisa e nunca ser rotulado e criticado.

Mike gets uncomfortable because Eileen took the first step in courting him, and mentions that morality is different for men and women. Themes like the double standard used to judge the morals of men and women started being discussed in film in the 1960s, but the change has not been completely made, and until today we must discuss how hypocritical it is to consider liberated women whores, while a man can do virtually anything he wants to and not be called names.



Todos os atores estão muito bem. Jane Fonda mencionou que “Um Domingo em Nova York” foi o primeiro filme em que ela se considerou de fato boa. Além de sua atuação, seu figurino é também divino. Eu com certeza usaria qualquer uma de suas roupas, desenhadas por Orry-Kelly. Eu também com certeza viveria no apartamento anguloso e charmoso em que Adam vive.

All the actors are very good. Jane Fonda mentioned that “Sunday in New York” was the first film in which she felt she was any good at. Besides her acting, her wardrobe is also divine. I’d totally wear any of her outfits, designed by Orry-Kelly. I’d also totally live in the angular and charming apartment Adam lives in.  



“Um Domingo em Nova York” é um filme que faz você se sentir bem, e também faz você pensar. Porque até mesmo o filme mais simples pode gerar discussões interessantes e atuais se estivermos dispostos a olhar além deles e refletir sobre seus temas.

“Sunday in New York” is a feel-good movie and also a movie that makes you think.  Because even the simplest movie can sparkle interesting and timely discussions if we’re willing to look beyond them and reflect upon their themes.

This is my contribution to the First Annual Valentine’s Day Meet-Cute Blogathon, hosted by Laura at Phyllis Loves Classic Movies.


Saturday, August 25, 2018

Esposas e Amantes (1963) / Wives and Lovers (1963)


Ah, os anos 60! A época da revolução sexual, da segunda onda do feminismo, da extinção do ridículo Código Hays... e Hollywood tinha de lidar com todos eles. De repente, temas mais polêmicos poderiam ser retratados em filmes... não, eles deveriam aparecer, porque a sociedade queria vê-los no cinema e porque eles faziam parte da realidade. De repente, um infiel não tinha de sofrer e ser condenado... e até uma comédia poderia ser feita com o tema infidelidade.

Oh, the 1960s! Time of the sexual revolution, of the second wave of feminism, of the end of the ridiculous Hays Code... And Hollywod had to deal with them all. Suddenly, more risky themes could appear in movies... no, they should appear, because society wanted them and because they mirrored the reality. Suddenly, a cheater didn't have to suffer and be condemned... and even a comedy could be made about cheating.


No começo, William ‘Bill’ Austin (Van Johnson) é um aspirante a escritor, que atualmente escreve um livro de receitas. Sua esposa Bertie (Janet Leigh) é quem traz dinheiro para casa, e ela trabalha em um consultório de dentista. Eles têm uma filha, uma peculiar garotinha de sete anos e ¾ de idade, Julie (Claire Wilcox). O ego masculino e frágil de Bill está machucado porque sua esposa trabalha fora e ele não, mas logo uma grande mudança acontece: a agente literária de Bill, Lucinda Ford (Martha Hyer) vende os direitos do romance de Bill para um clube de leitura e para uma peça.

At first, William 'Bill' Austin (Van Johnson) is a struggling writer, currently writing a cookbook. His wife Bertie (Janet Leigh) is the breadwinner of the house, and she works in a dentist's office. They have a daughter, the quirky seven and ¾ year-old Julie (Claire Wilcox). Bill's fragile male ego was hurt because his wife was working and he wasn't, until a big change happens: Bill's literary agent Lucinda Ford (Martha Hyer) sells Bill's novel's rights for a book club and a play.


A vida da família muda completamente. Bill insiste para que eles se mudem do pequeno apartamento em Nova York para uma casa elegante em Connecticut. Lá eles conhecem os enxeridos vizinhos Fran (Shelley Winters) e Wylie (Ray Walston). Fran é divorciada – seu ex-marido é ator – e Wylie é um designer de interiores que vive na casa dos fundos de Fran. Eles são incríveis!

Their life changes completely. Per Bill's insistence, they move from a small New York apartment to a fancy house in Connecticut. There they meet nosy neighbors Fran (Shelley Winters) and Wylie (Ray Walston). Fran is divorced – her ex-husband is an actor – and Wylie is an interior decorator who lives in the smaller house on the back of Fran's home. They're a riot!
 
Nouveau riches
Bill começa a sair com Lucinda para aparecer em eventos sociais, deixando sua família de lado. Mas coisas só dão errado de fato quando Bill e Bertie oferecem um jantar em casa e convidam Fran, Wylie, Lucinda e o ator Gar Aldrich (Jeremy Slate), a estrela da peça que Bill está escrevendo. Quando Lucinda começa a paquerar Bill, Gar, que já havia namorado Lucinda, passa a paquerar Bertie.

Bill starts to go out with Lucinda to social gatherings, leaving his family behind. But things go really wrong when Bill and Bertie host a dinner party in their house, and the guests are Fran, Wylie, Lucinda and actor Gar Aldrich (Jeremy Slate), the star of the play Bill is writing. As Lucinda starts flirting with Bill, Gar, who used to date Lucinda, flirts with Bertie.


Era óbvio que o novo estilo de vida prejudicaria o casal. É possível ver isso em uma poderosa metáfora visual: depois de receber a notícia de que os direitos do romance haviam sido vendidos, Bill imediatamente compra para Bertie o casaco chique que Lucinda estava usando. Bertie é deixada na cozinha, e coloca um avental por cima do casaco chique – a nova vida e a velha vida entram em confronto em uma imagem.

It was obvious that the new lifestyle would harm the Austins. You can see this in a powerful visual metaphor: after receiving the news that his novel's rights were sold, Bill buys Bertie the fancy coat Lucinda is wearing and goes out to celebrate. Bertie is left in the kitchen, and puts an apron over the fancy coat – it's the old life and the new life clashing in one image.


Todos os atores estão muito bem em cena. “Esposas e Amantes” é uma comédia romântica sobre sexo, como aquelas estreladas por Doris Day e Rock Hudson, e temos algumas gags divertidas, como o aparelho de som sofisticado de Bill, que ele não consegue ligar, mas todos os outros conseguem.  Também gostei de quando Wylie fabricou um móvel antigo artificialmente. Julie é provavelmente a fonte da maioria das piadas. Suas perguntas de criança são engraçadas, mas para mim o mais engraçado é seu hábito de só comer se os alimentos não estiverem tocando uns aos outros – isto é, ela come um sanduíche só se os ingredientes vierem em pratos separados.

Everybody delivers very good performances. “Wives and Lovers” is a sex comedy, like the ones with Doris Day and Rock Hudson, and we have some funny gags, like Bill's fancy sound stereo that he apparently can't turn on, but almost everybody else can. I also enjoyed when Wylie fabricated an antique piece of furniture artificially. Julie is probably the source of the most jokes. Her childish questions are funny, but for me the funniest thing is her habit of only eating when her food is not touching each other on the plate – that means, she eats a sandwich only if the ingredients come in separate plates.


Van Johnson é um charme como Bill. Janet Leigh brilha como Bertie. É interessante notar que ela menciona que a sociedade queria que ela se sentisse como “pão mofado”, como uma mulher que não podia mais ser desejada – e Leigh tinha apenas 36 anos quando o filme foi feito! De fato, o interesse de Gar é um obstáculo na relação do casal Austin, mas também é uma oportunidade para Bertie perceber que ela é uma mulher linda e desejável. Aliás, a química de Leigh e Johnson não é surpresa: eles eram bons amigos, e foi o próprio Van Johnson que sugeriu a Jeanette Helen Morrison o nome artístico de Janet Leigh em 1947, quando ela fazia com ele seu primeiro filme, “Reconcilização”.

Van Johnson is charming as Bill. Janet Leigh shines as Bertie. It's interesting to notice that she mentions that society wanted her to feel like if she was “like molded bread”, like a woman that couldn't be desired anymore – and Leigh was only 36 when the film was made! Indeed, Gar's courtship is an obstacle in the Austin's relationship, but it is also an opportunity for Bertie to realize that she is a gorgeous, desirable woman. By the way, the chemistry between Leigh and Johnson is no surprise, since they were god friends, and it was Johnson himself who suggested for Jeanette Helen Morrison the screen name Janet Leigh in 1947, when she was making her first film, “The Romance of Rosy Ridge”.
 
1947
1963
“Esposas e Amantes” é cheia de altos e baixos. Eu gostei do fato de que tanto o marido quanto a esposa são tentados a trair, por isso não há julgamento, falso moralismo ou outras bobagens. Eu não gostei do fato de que alguns personagens masculinos, em especial Wylie, têm de ser rudes e tratar as mulheres mal para serem levados a sério por elas. Eu realmente detestei alguns momentos sexistas, como esta horrível “piada” dita por Shelley Winters: “Estuprada e desmembrada. Por que não se pode ter um sem o outro?”

“Wives and Lovers” is a series of hits and misses. I liked the fact that both the husband and wife are tempted to cheat, so there is no judgment, fake morals or other bullshit. I disliked the fact that some male characters, in special Wylie, had to be rude and mistreat women in order to be taken seriously by then. I completely disliked some sexist moments like the horrible joke uttered by Shelley Winters: “Raped and dismembered. Why can't you have one without the other?”
 
Director John Rich with Johson, Slate and Leigh
Você deve conhecer a música “Wives and Lovers”, que foi gravada pela primeira vez no mesmo ano em que o filme estreou. A música de Burt Bacharach e Hal David foi, na verdade, inspirada pelo filme! Foi uma “exploitation song”, uma canção composta para ajudar na divulgação do filme, mas sem fazer parte de sua trilha sonora. Hoje, a música é bem mais conhecida que o filme, mas eu não acredito que sua letra expresse a mesma complexidade das relações como o filme faz.

You may be familiar with the song “Wives and Lovers”, that came out the same year the film did. The song by Burth Bacharach and Hal David was actually inspired by the movie! It was an exploitation song, a song composed to help promote a film, but not appearing on it. Today, the song is much better known if compared to the film, but yet I don't think the lyrics express the same complexity of relationships as the movie does.


“Esposas e Amantes” deveria ser mais conhecido. Porque todos precisam de uma amiga como a personagem de Shelley Winters. Porque a ausência de julgamento moral em um filme dos anos 60 é algo raro. Porque é melhor que outras comédias românticas sobre sexo da época – estou falando da terrível “Amor Daquele Jeito”, também de 1963, que desperdiça Paul Newman e Joanne Woodward. Porque o trailer de “Esposas e Amantes” nos engana e promete bem mais conteúdo sexual do que realmente entrega. E porque todos precisamos dar risada de vez em quando.

“Wives and Lovers” should be better known. Because everybody needs a friend like Shelley Winter's character. Because no moral judgment in a 1960s movie is something rare. Because it is better than other sex comedies of the time – I'm thinking about the awful “A New Kind of Love”, also from 1963, a film that wastes Paul Newman and Joanne Woodward. Because the trailer for “Wives and Lovers” is deceiving and promises a sexual feast that doesn't happen. And because we all need a laugh once in a while.

This is my contribution to the Second Van Johnson blogathon, hosted by Michaela at Love Letters to Old Hollywood.

Friday, August 25, 2017

Os Seus, Os Meus, Os Nossos / Yours, Mine and Ours (1968)

Os anos 60 representaram uma nova era em Hollywood. A censura ia enfraquecendo, novos temas eram explorados – como as comédias sobre sexo – mas muitas das estrelas eram as mesmas de antes. Um animalzinho velho pode aprender a fazer novos truques? Uma estrela da Old Hollywood consegue se adaptar aos temas da Nova Hollywood? Bem, se estas estrelas da Old Hollywood são Henry Fonda e Lucille Ball, eles com certeza conseguem.

The 1960s represented a new time in Hollywood. The censorship was waning, new themes were being explored – like the sex comedies – but many of the stars were the same as before. Can an old pet learn how to do a new trick? Can an Old Hollywood star adapt to the themes of New Hollywood? Well, if those Old Hollywood stars are Henry Fonda and Lucille Ball, they certainly can.
Frank Beardsley (Fonda) é viúvo e tem dez filhos – mas dois deles estão “emprestados” com seu irmão. Helen North (Ball) é viúva e tem oito filhos. Eles foram feitos um para o outro, certo? É nisto que passamos a acreditar quando eles se encontram em diversas ocasiões. Outro personagem que acredita que eles estão predestinados um ao outro é Darrell (Van Johnson), amigo de ambos. Frank é oficial da Marinha, Helen é enfermeira, mas as famílias enormes são o que os tornam um par perfeito.

Frank Beardsley (Fonda) is a widower and has ten children – but two of them are “on loan-out” with his brother. Helen North (Ball) is a widow and has eight children. They were made for each other, right? This is what we are led to believe when they bump into each other in several occasions. Another character that believes they are a perfect duo is Darrell (Van Johnson), a friend of both. Frank is a Navy officer, Helen is a nurse, but their huge families are what makes them a perfect fit.
Darrell é como um cupido. Isso significa que Van Johnson tem um papel secundário, e este é um de seus melhores papéis no cinema. Como protagonista ele nem sempre conseguiu me convencer, mas como coadjuvante – ou mesmo como cantor, porque ele fez sucesso com “The Music Man” no teatro em Londres – ele é ótimo. Na vida real, Helen e Frank tiveram um cupido diferente: quem os apresentou foi a irmã de Frank, que era freira.

Darrell is a matchmaker. This means that Van Johnson has a supporting role, and this is one of his best appearances on film. As a lead he doesn’t always convinced me, but as a sidekick – or even as a singer, because he was a hit on “The Music Man” in the London theater – he did.  The real Helen and Frank, though, had a different matchmaker: the person who present one to the other was Frank's sister, who was a nun.
Lucy é a melhor em cena. Ela é hilária em muitos momentos que demandam comédia física, como no bar irlandês, em que ela tem problemas com os cílios postiços e com o vestido, e no primeiro jantar com os filhos de Frank, que é o ponto alto da performance de Lucy. O grande conflito no filme é a aceitação por parte dos filhos de Beardsley de Helen como uma verdadeira mãe. Sim, alguns dos filhos dela reagem com rebeldia ao fato de Frank ser o “novo pai” deles, mas ao menos um deles, Phillip, fica muito feliz com a novidade.

Lucy is the best in the film. She is hilarious in many scenes that demand physical comedy, like in the Irish bar, where she has trouble with her fake eyelashes and her dress, and in the first dinner with Frank’s kids, which is the high point of her performance. The greatest conflict in the film is the Beardsley children accepting her as a true mother. Yes, some of the North children react badly to having Frank as their new father, but at least one of them, Phillip, is more than happy with the news.
Alguns outros filmes, e especialmente séries de TV, lidaram com a vida familiar nos anos 60. A família em “Já Fomos Tão Felizes” parece minúscula se comparada com a de “Os Seus, Os Meus, Os Nossos”. No filme de Doris Day e David Niven, há apenas quatro filhos, e o conflito deles é focada na readaptação após a mudança da cidade grande para o interior, onde uma vez mais a mãe de família pode sonhar com o estrelato nos palcos. Para Helen North, não há espaço para sonhar – ela só pode focar em assuntos práticos.

Some other movies, and especially TV shows, dealt with family life in the 1960s. The family in “Please, Don't Eat the Daisies” (1960) seems tiny when compared with the “Yours, Mine and Ours”. In the Doris Day / David Niven movie, there are only four kids, and their conflict is focused on readapting to life when moving from the big city to the countryside, where the mother can once again dream with stage stardom. For Helen North, there is no room for dreaming – she can only focus on practical issues.
Há piadas mais modernas em “Os Seus, Os Meus, Os Nossos”, algumas delas envolvendo duplo sentido, contraceptivos e a juventude louca por sexo. Mas não se engane: tudo isso pode funcionar e ser discutido no momento do namoro, mas a vida real e diária depois do casamento não é assim. Frank quer deixar o trabalho e ficar em casa com toda a família, algo que Helen não deixa que ele faça. Afinal, ficar em casa é uma atividade para mulheres, enquanto trabalhos intelectuais são para homens. Helen se sacrifica muito mais que Frank pela enorme família, embroa Frank tenha seus momentos emocionantes. No final, nada mudou no seio familiar. No final dos ano 60, nada havia mudado em Hollywood.

There are more “modern” jokes in “Yours, Mine and Ours”, some of them involving innuendo, contraception and sex-crazy youth. But don’t be fooled: all this mighty work and be discussed in the dating part, but the real, daily life of a married couple, is not like this. Frank wants to leave his work to stay home with the whole family, something Helen doesn’t let him do. After all, staying home is an activity for women, while intellectual jobs are for men. Helen sacrifices much more for her huge family, even though Frank has his emotional moments. At the end of the day, nothing has changed in the familiar scene. At the end of the 1960s, not much had changed in Hollywood.

This is my contribution to the Van Johnson blogathon, hosted by Michaela at Love Letters to Old Hollywood.

Monday, September 14, 2015

Médica, Bonita e Solteira / Sex and the Single Girl (1964)

Comédia psicodélica dos anos 60 à vista! Começam os créditos e já somos surpreendidos pelo tipo de animação que ficou famosa naquela década com os filmes da Pantera Cor-de-rosa. Uma caricatura de Tony Curtis persegue uma caricatura de Natalie Wood. Símbolos masculinos e femininos nos apresentam também Henry Fonda, Lauren Bacall e Mel Ferrer. Vem coisa boa por aí? Hum, não exatamente.
A psicóloga PhD Helen Brown (Natalie Wood) acaba de escrever um best-seller intitulado “Sex and the S1ngle Girl”, o que rendeu muita notoriedade para ela e para o instituto onde ela trabalha. Mas a revista sensacionalista STOP publicou uma matéria desacreditando a autora, pois a “acusavam” de ser virgem, e, portanto, não ter nenhuma experiência para escrever tal livro. Por trás deste plano maligno está o repórter Bob Weston (Tony Curtis), ele próprio com muita experiência prática sobre o assunto.
Como a médica se recusa a dar uma entrevista para a revista STOP, Bob tira proveito do drama conjugal de seu amigo e vizinho Frank (Henry Fonda), um vendedor de meias que sofre com o ciúme da mulher, Sylvia (Lauren Bacall). Bob finge que é Frank para se consultar com a doutora Helen. Você já imagina o que vai acontecer, não é? Amor à primeira consulta.
Tony Curtis e Natalie Wood têm mais tempo em cena. Em seguida vem Henry Fonda, com uma boa sequência na excêntrica fábrica de meias, cena que poderia ter sido até mais longa. Do quinteto principal (Mel Ferrer interpreta o psiquiatra Rudy), quem tem menos destaque é Lauren Bacall. A moça já havia provado que sabia fazer comédia em “Como Agarrar um Milionário / How to Marry a Millionaire” (1953). Talvez fosse toda a aura séria e sedutora que Lauren tinha desde sua estreia no cinema, aos 20 anos. Talvez seja um problema mais grave: em 1964 Lauren Bacall completou 40 anos, e são poucas as oportunidades para mulheres desta idade em uma indústria sexista como Hollywood quase sempre foi. Mesmo com Fonda admitindo que este era o filme que ele menos gostou de fazer, ele brilha e diverte, mesmo sub-aproveitado. Mas a verdade é que Lauren desempenha bem seu papel. Ela tem química com Henry Fonda, e dá vontade de ver os dois juntos em mais filmes (e dançando o twist, se possível - veja o vídeo:).
Falando em sub-aproveitado, temos também Edward Everett Horton, coadjuvante sempre delicioso de se ver, como o chefe de Bob na revista STOP. Edward, já no final da carreira, tem apenas duas cenas. Outro importante comediante que faz uma breve participação como um policial é Larry Storch.
O passeio no zoológico de Helen e Bob é uma metáfora dos instintos primitivos aflorando, o que fica ainda mais evidente com os gestos de mímica de Tony Curtis em frente à jaula dos macacos. E é assim que o sexo é tratado no filme todo: podíamos estar às vésperas da grande revolução sexual, mas Hollywood ainda não estava totalmente preparada para lidar com o assunto abertamente. Tony Curtis usa o termo “inadequado” para dizer que não conseguia satisfazer a esposa fictícia. Ao final, o filme não é responsável por nenhum grande avanço no tratamento do sexo no cinema, e é provável que desagrade às feministas. Pensando bem, o filme funcionaria perfeitamente se fosse protagonizado por Rock Hudson e Doris Day!
“Sex and the Single Girl” é o título de um best-seller verdadeiro, escrito por, sim, Helen Gurley Brown. Helen foi editora da revista Cosmopolitan, e vendeu os direitos de seu livro e de seu nome por 200 mil dólares para a Warner Bros. O filme nada tem a ver com o livro, apenas utiliza seu título, mas qualquer um ficaria feliz em receber 200 mil para ser interpretado pela linda Natalie Wood nas telas, não?
Os últimos quinze minutos são dignos de uma screwball comedy, com uma divertida perseguição e várias infrações de trânsito. Este é sem dúvida o ponto alto do filme, embora uma sequência anterior também arranque muitas risadas: vestindo um roupão florido, Tony Curtis é comparado, mais de uma vez, “àquele ator, Jack Lemmon” (Lemmon e Curtis se vestiram de mulher no clássico “Quanto Mais Quente Melhor / Some Like It Hot”, de 1959).
O sensacionalismo do título, a crítica inteligente à imprensa dentro da revista STOP, a comédia leve e maluca, o grande elenco: tudo isso rendeu 4 milhões de dólares nas bilheterias. Foi um sucesso, mas visto em 2015 pode ser considerado muito conservador. É um filme bom, mas poderia ser muito melhor.

This is my contribution to the Lauren Bacall Blogathon, hosted by Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.
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