} Crítica Retrô: Lucille Ball

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Thursday, December 23, 2021

Apresentando os Ricardos (2021) / Being the Ricardos (2021)

Lucille Ball é um patrimônio cultural da humanidade. Quando as pessoas mexem com Lucy, a mulher que todos nós amamos, a coisa fica feia. Quando “Apresentando os Ricardos” foi anunciado, e especialmente quando foi anunciado o elenco principal, houve frenesi nas redes sociais. As pessoas diziam que Nicole Kidman e Javier Bardem não se pareciam em nada com Lucy e Desi! Mais pessoas disseram que não vão ver o filme! Eu, como a boa crítica de cinema que considero ser, decidi não julgar o filme sem vê-lo. E, após vê-lo, eis meu veredicto:

Lucille Ball is a national treasure. When people mess up with Lucy, the woman we all love, things get ugly. When “Being the Ricardos” was announced, and especially when the main cast was announced, there was uproar on social media. People said Nicole Kidman and Javier Bardem looked nothing like Lucy and Desi! More people said they won’t watch the movie! I, like the good film critic I think I am, decided not to judge it without seeing it. And, after seeing it, here’s my verdict:

Há momentos em que parece que tudo acontece ao mesmo tempo. Esse é o caso de uma semana de tirar o fôlego durante as gravações de um episódio da segunda temporada de “I Love Lucy”. Walter Winchell diz em seu programa de rádio que Lucy foi chamada para depor frente ao comitê da HUAC – Lucy era comunista! Uma revista publica uma matéria sobre Desi estar traindo Lucy. E Lucy e Desi revelam que Lucy está grávida, e exigem que a gravidez seja adicionada ao programa de TV. Ufa! De segunda a sexta-feira, do dia que o elenco recebe um novo roteiro até o dia em que gravam o programa, vemos Lucy (Kidman), Desi (Bardem), Vivian Vance (Nina Arianda), William Frawley (J.K. Simmons) e a equipe reagirem a este trubilhão.

There are times when it looks like everything is happening at once. It is the case of a breathtaking week during the shooting of an episode in the second season of “I Love Lucy”. Walter Winchell says in his radio show that Lucy had been called to testify under the committee of the House of Un-American Activities – Lucy was a communist! A magazine publishes a story about Desi cheating on Lucy. And Lucy and Desi disclose that Lucy is pregnant, and demand the pregnancy to be added to the TV show. Whew! From Monday to Friday, from the day the cast received a new script to the day they shot the show, we see Lucy (Kidman), Desi (Bardem), Vivian Vance (Nina Arianda), William Frawley (J.K. Simmons) and the crew react to all this turmoil.

Há alguns flashbacks introduzidos por atores interpretando pessoas que conheceram e trabalharam com Lucy e Desi. Estes flashbacks mostram como o casal se conheceu e os desafios que eles enfrentaram, tanto nas carreiras quanto na vida pessoal, até o início de “I Love Lucy”. São partes interessantes que ajudam as pessoas que não conhecem Lucy e Desi a entenderem melhor a trajetória deles.

There are some flashbacks introduced by actors playing people who knew and worked with Lucy and Desi. These flashbacks show how the couple met and the challenges they faced, both in their careers and lives up until the beginning of “I Love Lucy”. These are interesting bits that help people who are unfamiliar with Lucy and Desi to understand their trajectory.

Lucille Ball é retratada como uma artista muito meticulosa, preocupada com tudo, cada gesto e cada palavra do roteiro. Ela está lá para fazer as pessoas rirem, e quer muito que a sitcom deles seja a melhor possível. Mais do que isso: ela conhece as regras do seu jogo – a comédia slapstick – e entende o público. Uma perfeccionista que se importava com a plateia: essa era a Lucy que amamos.

Lucille Ball is portrayed as a very meticulous artist, worried about everything, every gesture and every word in the script. She is there to make people laugh, and she really wants their sitcom to be as good as possible. More than that: she knows the rules of her game – slapstick comedy – and understands the public. A perfectionist who cared about her audience: this was the Lucy we love.

Há alguns momentos interessantes com Lucy interagindo com Vivian Vance e William Frawley. Ela discute com Vivian sobre a nova dieta de Vivian, dizendo que, ao perder peso, Vivian faria mal à personagem que ela interpreta, Ethel, que é uma dona de casa comum. Com o irascível William, Lucy conversa sobre masculinidade, sobre Desi não ficar em casa e sobre como Desi se sente um coadjuvante na vida assim como parece sê-lo no programa.

There are some interesting moments of Lucy interacting with Vivian Vance and William Frawley. She argues with Vivian about Vivian’s new diet, claiming that Vivan losing weight would be bad for the character she plays, Ethel, who is an average housewife. With the irascible William, Lucy talks about masculinity, about Desi not being at home and about Desi feeling like he’s a supporting character in life as he seems to be in the show. 

Muitas pessoas mencionaram que Debra Messing, e não Nicole Kidman, deveria ter sido escalada para viver Lucy. Recentemente, Debra refez alguns esquetes clássicos de Lucy em um episódio do revival de “Will & Grace” e se saiu muito bem, mesmo eu achando que os maquiadores deixaram as bochechas dela salientes demais. Nicole Kidman, uma boa atriz, também se sai bem ao interpretar Lucy em “Apresentando os Ricardos”, por isso podemos apenas imaginar como se sairia Debra no papel, que exige mais talento dramático que cômico.

Many people mentioned that Debra Messing, not Nicole Kidman, should have been cast as Lucy. Recently, Debra re-enacted some classic Lucy routines in an episode of the revival of “Will & Grace” and did quite well, even though I think her makeup team made her cheekbones too prominent. Nicole Kidman, a good actress, also does well in playing Lucy in “Being the Ricardos”, so we can only wonder how Debra Messing would do in the role, one that demands more dramatic than comic talent.

Desi Arnaz é descrito como o homem mais bonito e charmoso que você poderia conhecer. Javier Bardem é bonito e charmoso à sua maneira, mas infelizmente não se parece nada com Desi. A sensação é de que o departamento de maquiagem se esforçou tanto para fazer Nicole Kidman se parecer com Lucille Ball – e foram bem-sucedidos – que não sobrou tempo para trabalhar com Bardem. Outra opção para o papel de Desi era o ator brasileiro Wagner Moura e eu acredito que ele seria uma escolha melhor.

Desi Arnaz is described as the most handsome and charming man you could ever meet. Javier Bardem is handsome and charming on his own way, but unfortunately nothing like Desi. It looks like the makeup department put so much effort in making Nicole Kidman look like Lucille Ball – and in this they succeeded – that they gave up on Bardem.One of the other options for Desi was Brazilian actor Wagner Moura and I think he'd have been a better choice.

Apresentando os Ricardos” foi escrito e dirigido por Aaron Sorkin e, assim como outros filmes recentes dele, é um filme longo, por vezes inchado. É uma boa introdução para as pessoas que não ouviram falar de Lucy, Desi e “I Love Lucy” ou que conhecem muito pouco do drama nos bastidores desta comédia clássica. Os fãs de Lucille Ball podem ficar despreocupados: é um retrato lisonjeiro da amada ruiva*, talvez não um tributo à altura dela, mas de toda forma lisonjeiro.

* mas não tão lisonjeiro para Judy Holliday

Being the Ricardos” was written and directed by Aaron Sorkin and, like some of his recent movies, is a long, sometimes bloated movie. It’s a good introduction for people who haven’t heard about Lucy, Desi and “I Love Lucy” or know very little about the backstage drama of this comedy classic. Lucille Ball’s fans may rest assured: it is a flattering portrait of the beloved redhead*, maybe not a tribute as big as she was, but a flattering one nevertheless.

* but not so flattering for Judy Holliday

Sunday, December 3, 2017

No Teatro da Vida (1937) / Stage Door (1937)

Sair de casa para ir em busca dos seus sonhos nunca é fácil. Nçao que eu já tenha feito isso – embora já tenha chegado perto – mas os filmes me fazem pensar que não é fácil. E “No Teatro da Vida”, em particular, me causou esta impressão.

Leaving home in order to pursue your dreams in never easy. Not that I have done this myself – I only came close – but movies make me think that it is not easy. And “Stage Door” in particular gives me this feeling.
A mais nova moradora do pensionato da Sra. Orcutt é Terry Randall (Katharine Hepburn), uma moça elegante e educada. Isso nçao significa que ela não saiba se defender das outras moças, todas muito diferentes dela. Tery é fluente em sarcasmo, e o usa com perfeição em uma batalha de boas tiradas contra sua nova colega de quarto, Jean Maitland (Ginger Rogers).

The newest arrival in Mrs. Orcutt's boarding house for young and aspiring actresses is Terry Randall (Katharine Hepburn), a fancy and polite lady. This doesn't mean that she can't defend herself against the other girls, who are very different from her. Terry is fluent in sarcasm, and uses it perfectly in a battle of wits with her new roommate, Jean Maitland (Ginger Rogers).
Jean também não se dá bem com a esnobe Linda Shaw (Gail Patrick), que está saindo com o empresário Anthony Powell (Adolphe Menjou). Powell é a última esperança para outra garota do pensionato, Kay Hamilton (Andrea Leeds, em uma ótima performance), que não consegue trabalho há mais de um ano e está passando fome para ter dinheiro para pagar o aluguel.

Jean is also not very friendly with snobbish Linda Shaw (Gail Patrick), who is going out with manager Anthony Powell (Adolphe Menjou). Powell is the last hope for another girl in the boarding house, Kay Hamilton (Andrea Leeds, in a great performance), who hasn't worked in over a year and has been starving in order to be able to pay the rent.
As garotas dependem da vontade de um homem para se tornarem estrelas e continuarem no topo. Devemos perceber os paralelos do filme com o recente caso Weinstein, que sacudiu Hollywood. No entretenimento, as mulheres ainda são reféns das vontades – e dos desejos sexuais – dos homens para alcançarem a fama. O show business é o mesmo, 80 anos depois.

The girls rely on a man's wish to become stars and maintain their fame. We must see the parallel between this and the recent Weinstein case – Weinsteingate, maybe? - that shrieked Hollywood. In entertainment, women are still held hostage of man's wishes – often sexual wishes – if they want to have a career. Show business is the same, 80 years later.
Quando Terry entra no escritório de Powell para confrontá-lo – logo depois de Kay ter desmaiado ao ser informada de que Powell não a receberia – ele diz muitas, muitas coisas sexistas para ela, como “a maioria das mulheres deveria ir lavar a louça e cuidar das crianças em vez de tentar uma carreira no teatro”. É enfurecedor. E é ainda pior se nos lembrarmos de que, mesmo sendo chique e popular, o ator Adolphe Menjou era assim na vida real: um conservador feroz que foi como VOLUNTÁRIO depor - e destruir algumas vidas - no Comitê de Atividades Antiamericanas.

When Terry enters Powell's office to confront him – right after Kay fainted outside the office when she was told that Powell wouldn't see her – he says many, many sexist things to her, like “most women should wash dishes and have a family instead of trying a career at the theatre”. It's infuriating. And it's even worse if we remember that, even being popular and dapper, actor Adolphe Menjou was like this in real life: a staunch conservative who appeared in the HUAC hearing VOLUNTARILY to name names and destroy lives..
Claro, sendo assim, Powell nunca fica muito tempo com a mesma garota. Ele troca Linda por Jean, e no primeiro encontro na casa dele Jean fica bêbada e emotiva, acreditando em todas as suas mentiras. Depois de Jean, é a vez de Terry visitar Powell, e ela faz isso de maneira bárbara: ela o confronta e não aceita seus elogios e hipocrisias. Terry está ali para fazer negócios de igual para igual, não para se submeter a um empresário.

Of course, being this way, Powell never keeps a girl for too long. He trades Linda for Jean, and in their first date in his house Jean gets drunk and emotional, believing all his lies. After Jean, it's Terry's time to visit Powell, and she does it in a badass way: she confronts him and doesn't accept his compliments or hypocrisies. Terry is there to make business between equals, not to submit herself to a manager.
#badass
Também temos no pensionato Eve Arden como Eve, a dona de um gato, uma Ann Miller muito jovem, Constance Collier como uma mentora obcecada pelas glórias do passado e Lucille Ball como Judith, a amiga cínica e sarcástica de que todas as atrizes precisavam – um papel semelhante ao que ela interpretou em “A Vida é uma Dança” (1940). De certa maneira, este é um papel semelhante aos que Joan Blondell interpretou em muitos pre-Codes. É bacana ver Lucy, de cabelo escuro e com apenas 26 anos, sendo um pouco pessimista e tendo frases de efeito.

We also have in the boarding house Eve Arden as Eve, the lanky owner of a cat, a very young Ann Miller, Constance Collier as an older mentor obsessed with her bygone fame, and Lucille Ball as Judith, the street-wise, cynical and sarcastic friend all theater girls need – a role similar to the one she played in “Dance, Girl, Dance” (1940). In a sense, this is a role similar to those Joan Blondell played many times in pre-Codes. It's nice to see Lucy, with darker hair and at only 26 years old, being a little pessimistic and delivering one-liners. 
Eu entendo que as garotas que vivem no pensionato são jovens, no final da adolescência ou com vinte e poucos anos, mas elas estão quase sempre discutindo e implicando umas com as outras. OK, Kay é amada por todas, e ama todas também, mas as outras garotas ainda têm “panelinhas” como em uma escola infestada de bullying. É mais um filme que quer provar que não há amizade entre as mulheres sem que haja muita rivalidade antes.

I understand all the girls living in the boarding house are young, in their late teens or early twenties, but they are usually bickering and discussing. All right, Kay is loved by them all, and loves them all, but all the other girls still have their “cliques” like in a bullying-full high school. It's another film that wants to prove that there can't be friendship among females if there is not rivalry before.  
No Teatro da Vida” foi uma peça de sucesso escrita por Edna Ferber. Para a adaptação para o cinema, muito foi alterado e o roteiro parece às vezes demasiado difuso – e comete o crime de criar o personagem do empresário, que não existia na peça, para ser o centro do filme e da discussão, como você deve ter percebido nesta crítica. No final das contas, “No Teatro da Vida” é um filme com falhas, mas que mostra que a vida no show business é, acima de tudo, um implacável ciclo.

Stage Door” was a successful stage play written by Edna Ferber. For the movie version, a lot was altered and  the screenplay seems too diffuse at times – and it commits the crime to create a male manager character, who didn't exist in the play, that becomes the center of the movie and the discussion, as you may have noticed in this review. In the end, “Stage Door” is a film with flaws, but one that shows how life in the show business is, above all, a ruthless cycle.


This is my contribution to the Lucy & Desi blogathon, hosted by Michaela at Love Letters to Old Hollywood.

Friday, August 25, 2017

Os Seus, Os Meus, Os Nossos / Yours, Mine and Ours (1968)

Os anos 60 representaram uma nova era em Hollywood. A censura ia enfraquecendo, novos temas eram explorados – como as comédias sobre sexo – mas muitas das estrelas eram as mesmas de antes. Um animalzinho velho pode aprender a fazer novos truques? Uma estrela da Old Hollywood consegue se adaptar aos temas da Nova Hollywood? Bem, se estas estrelas da Old Hollywood são Henry Fonda e Lucille Ball, eles com certeza conseguem.

The 1960s represented a new time in Hollywood. The censorship was waning, new themes were being explored – like the sex comedies – but many of the stars were the same as before. Can an old pet learn how to do a new trick? Can an Old Hollywood star adapt to the themes of New Hollywood? Well, if those Old Hollywood stars are Henry Fonda and Lucille Ball, they certainly can.
Frank Beardsley (Fonda) é viúvo e tem dez filhos – mas dois deles estão “emprestados” com seu irmão. Helen North (Ball) é viúva e tem oito filhos. Eles foram feitos um para o outro, certo? É nisto que passamos a acreditar quando eles se encontram em diversas ocasiões. Outro personagem que acredita que eles estão predestinados um ao outro é Darrell (Van Johnson), amigo de ambos. Frank é oficial da Marinha, Helen é enfermeira, mas as famílias enormes são o que os tornam um par perfeito.

Frank Beardsley (Fonda) is a widower and has ten children – but two of them are “on loan-out” with his brother. Helen North (Ball) is a widow and has eight children. They were made for each other, right? This is what we are led to believe when they bump into each other in several occasions. Another character that believes they are a perfect duo is Darrell (Van Johnson), a friend of both. Frank is a Navy officer, Helen is a nurse, but their huge families are what makes them a perfect fit.
Darrell é como um cupido. Isso significa que Van Johnson tem um papel secundário, e este é um de seus melhores papéis no cinema. Como protagonista ele nem sempre conseguiu me convencer, mas como coadjuvante – ou mesmo como cantor, porque ele fez sucesso com “The Music Man” no teatro em Londres – ele é ótimo. Na vida real, Helen e Frank tiveram um cupido diferente: quem os apresentou foi a irmã de Frank, que era freira.

Darrell is a matchmaker. This means that Van Johnson has a supporting role, and this is one of his best appearances on film. As a lead he doesn’t always convinced me, but as a sidekick – or even as a singer, because he was a hit on “The Music Man” in the London theater – he did.  The real Helen and Frank, though, had a different matchmaker: the person who present one to the other was Frank's sister, who was a nun.
Lucy é a melhor em cena. Ela é hilária em muitos momentos que demandam comédia física, como no bar irlandês, em que ela tem problemas com os cílios postiços e com o vestido, e no primeiro jantar com os filhos de Frank, que é o ponto alto da performance de Lucy. O grande conflito no filme é a aceitação por parte dos filhos de Beardsley de Helen como uma verdadeira mãe. Sim, alguns dos filhos dela reagem com rebeldia ao fato de Frank ser o “novo pai” deles, mas ao menos um deles, Phillip, fica muito feliz com a novidade.

Lucy is the best in the film. She is hilarious in many scenes that demand physical comedy, like in the Irish bar, where she has trouble with her fake eyelashes and her dress, and in the first dinner with Frank’s kids, which is the high point of her performance. The greatest conflict in the film is the Beardsley children accepting her as a true mother. Yes, some of the North children react badly to having Frank as their new father, but at least one of them, Phillip, is more than happy with the news.
Alguns outros filmes, e especialmente séries de TV, lidaram com a vida familiar nos anos 60. A família em “Já Fomos Tão Felizes” parece minúscula se comparada com a de “Os Seus, Os Meus, Os Nossos”. No filme de Doris Day e David Niven, há apenas quatro filhos, e o conflito deles é focada na readaptação após a mudança da cidade grande para o interior, onde uma vez mais a mãe de família pode sonhar com o estrelato nos palcos. Para Helen North, não há espaço para sonhar – ela só pode focar em assuntos práticos.

Some other movies, and especially TV shows, dealt with family life in the 1960s. The family in “Please, Don't Eat the Daisies” (1960) seems tiny when compared with the “Yours, Mine and Ours”. In the Doris Day / David Niven movie, there are only four kids, and their conflict is focused on readapting to life when moving from the big city to the countryside, where the mother can once again dream with stage stardom. For Helen North, there is no room for dreaming – she can only focus on practical issues.
Há piadas mais modernas em “Os Seus, Os Meus, Os Nossos”, algumas delas envolvendo duplo sentido, contraceptivos e a juventude louca por sexo. Mas não se engane: tudo isso pode funcionar e ser discutido no momento do namoro, mas a vida real e diária depois do casamento não é assim. Frank quer deixar o trabalho e ficar em casa com toda a família, algo que Helen não deixa que ele faça. Afinal, ficar em casa é uma atividade para mulheres, enquanto trabalhos intelectuais são para homens. Helen se sacrifica muito mais que Frank pela enorme família, embroa Frank tenha seus momentos emocionantes. No final, nada mudou no seio familiar. No final dos ano 60, nada havia mudado em Hollywood.

There are more “modern” jokes in “Yours, Mine and Ours”, some of them involving innuendo, contraception and sex-crazy youth. But don’t be fooled: all this mighty work and be discussed in the dating part, but the real, daily life of a married couple, is not like this. Frank wants to leave his work to stay home with the whole family, something Helen doesn’t let him do. After all, staying home is an activity for women, while intellectual jobs are for men. Helen sacrifices much more for her huge family, even though Frank has his emotional moments. At the end of the day, nothing has changed in the familiar scene. At the end of the 1960s, not much had changed in Hollywood.

This is my contribution to the Van Johnson blogathon, hosted by Michaela at Love Letters to Old Hollywood.

Wednesday, August 3, 2011

Lucille Ball: a ruiva inesquecível


Em pesquisa feita pela imprensa americana, Lucille Ball foi a celebridade morta mais lembrada e elogiada pelo público. Tal honraria se deve, em grande parte, por ter estrelado a primeira sitcom da história, “I Love Lucy”, e várias séries dela derivadas. Outro bom motivo é o carisma e a irreverência dessa ruiva determinada que começou em musicais e descobriu na comédia seu porto seguro.
Nascida Lucille Desiree Ball em 06/08/1911, pisou o palco pela primeira vez aos 12 anos. Aos 15 matriculou-se em uma escola de interpretação, estudando com Bette Davis. Foi recusada por não ter talento. Tornou-se modelo e teve a breve carreira interrompida por uma crise súbita de artrite reumatoide. Recuperada, voltou a fazer algumas propagandas, pequenos shows e uma curta turnê do espetáculo “Rio Rita” como Ziegfeld Girl.
Foi então que a sorte aparentemente sorriu para ela: foi contratada pela RKO, estúdio em que trabalhou por dez anos. Em um de seus primeiros trabalhos para o cinema,”Roman Scandals”(1933), a morena natural teve os cabelos pintados de louro e as sobrancelhas raspadas. O que se seguiram foram papeis como extra em musicais de Fred e Ginger, um filme dos Três Patetas e outro dos Irmãos Marx. Seu maior papel foi em “Stage Door”(1937), ao lado de Katharine Hepburn e Ginger Rogers. Quando chegou o seu momento de brilhar, restaram-lhe apenas protagonistas de filmes de baixo orçamento, o que lhe garantiu o apelido de “Rainha dos Filmes B”, antes atribuído à Fay Wray (King Kong, 1933).
A ida para a MGM traria pequenas, mas significativas mudanças. Logo em “Du Barry was a Lady”(1943), tingiu o cabelo de ruivo, tornando-o sua marca registrada. Teve a oportunidade de trabalhar com astros como Bob Hope e Gene Kelly. Mas ainda não viam nela potencial para uma grande estrela.

Sua salvação estava no rádio. A exemplo do que fizera em outros momentos da carreira, correu para a rádio CBS. Seu programa “My Favorite Husband” era sucesso de público e de crítica, despertando a atenção de um meio de comunicação recém-nascido, mas já muito esperto: a televisão. A proposta era criar um programa em que Lucille repetisse o papel de dona-de-casa divertida. Ela aceitou, com algumas condições: que seu marido Desi Arnaz fosse seu protagonista e que a série fosse gravada em Hollywood com a tecnologia usada no cinema. Embora relutantes, os executivos da rede CBS aceitaram.
Não poderiam ter feito melhor: tinham nas mãos uma pérola, um show que inventaria todo um método de se fazer televisão. “I Love Lucy” durou seis temporadas (1951-1957) e lançou as hoje tão comuns gravações com plateias e utilizando três câmeras, técnica trazida pelo diretor de fotografia Karl Freund, que já havia trabalhado com Fritz Lang (Metropolis, 1927) e F. W. Murnau (Aurora / Sunrise, 1927).


Lucy Ricardo era uma dona-de-casa comum que virava e mexia sonhava com o estrelato e tentava alcançá-lo. Depois de várias confusões, cabia a seu marido músico Rick trazê-la de volta ao conforto do lar, ao qual ela realmente pertencia e do qual nunca devia ter saído. Essa é a moral de “I Love Lucy”. Misógina, sim, mas ao mesmo tempo um modo de não alimentar as esperanças das moças americanas. Na década de 1930 era o star-system que tornava as estrelas intocáveis e acima das pessoas comuns, na década de 1950 era Lucy que mostrava e aprendia que o sonho hollywoodiano não era alternativa para qualquer uma.
Mas o sonho era real para Lucille: naquela década teve seus dois filhos (com mais de 40 anos!) após sofrer três abortos, lucros astronômicos com a série, viu o sucesso de sua produtora Desilu, ganhou quatro prêmios Emmy. Alguns percalços surgiram também, como a investigação junto ao comitê anticomunista que descobrira seu envolvimento, incentivada pelo avô, com o Partido Comunista. Ao contrário de outros casos, o depoimento da agora grande estrela correu sigiloso e em nada resultou.
Depois do fim da sitcom no auge, seu formato foi modificado para que os episódios tivessem uma hora de duração. “The Lucy-Desi Comedy Hour” sobreviveu por mais três anos, acabando junto com o casamento de vinte anos dos atores. Ela faria mais três investidas: “The Lucy Show” (1962-1968), “Here’s Lucy” (1968-1974) e “Life with Lucy” (1986). Todas com atrapalhadas protagonistas de mesmo nome e sobrenome com as letras AR juntas (Ricardo, Barker, Carmichael e Carter), por superstição. Trabalharia ainda na Broadway e em alguns filmes de razoável sucesso, falecendo em 1989.
Carismática e empreendedora, a rainha das segundas-feiras na CBS continua parecendo a mulher comum, ou “the girl next door”. Lucille hesitou antes de aceitar a ideia de “I Love Lucy”. Querendo dar mais estabilidade ao casamento, aceitou-a. Mas disse em uma entrevista que o motivo de ter topado foi que Carole Lombard apareceu em seu sonho e disse para ela dar uma chance ao programa. Verdade ou mentira, mais uma vez Lucy mostrou-se insuperável na sagacidade.   
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