O cinema clássico está cheio de tesouros. Tesouros são aqueles filmes,
atores, atrizes e diretores que por um motivo ou outro ficaram esquecidos no
tempo, e o público atual franze a testa quando eles são citados. Aqui temos
dois grandes esquecidos: Miriam Hopkins, loira e sedutora, e o sempre
maravilhoso Paul Muni (faça um favor a si mesmo e veja dois grandes filmes de
Muni: “Scarface”, de 1932” e “O Fugitivo / I am a Fugitive from a Chain Gang”,
de 1933).
![]() |
| O filme é conhecido por dois títulos: "The Woman I Love" e "The Woman Between" |
Sabemos que é possível perder o amor da sua vida durante um
bombardeio, mas que tal encontrá-lo pela primeira vez numa situação destas? É
durante um bombardeio em um teatro que o tenente Jean Herbillion (Louis
Hayward) conhece Denise (Miriam Hopkins). Ela até desmaia durante o ataque
aéreo, mas logo se recupera e os dois jantam juntos e dançam. Denise é
misteriosa, e não quer que Jean a siga até em casa, mas ela vai se despedir quando
ele vai para a guerra.
São necessários quase vinte minutos para Paul Muni aparecer com uma
barba sexy. Ele é o tenente Claude Maury, metódico, valente e... amaldiçoado. Seus
observadores, colegas de missão no avião que ele pilota, morrem como moscas.
Ninguém quer lutar com Maury. Ou melhor, ninguém queria lutar com Maury até
Herbillion chegar e se tornar amigo do piloto maldito.
Agora melhores amigos, Jean Herbillion e Claude Maury dividem as
missões, as alegrias, os desafios, confidências e memórias... E você já deve
estar imaginando certo: dividem também a mesma mulher! “Denise” é na verdade
Helene Maury, esposa de Claude, que agora está confusa em Paris pensando em
seus dois homens: aquele que ela ama (Claude) e aquele por quem está apaixonada
(Jean). Sim, vai dar xabu.
Há uma montagem espetacular: dezenas de rostos tristes de mulheres,
crianças, velhos e jovens são mostrados conforme parte da estação o trem que
está levando os soldados para a guerra. É uma sequência linda e que
infelizmente ainda se repete na vida real, mas que no cinema tem sua emoção
multiplicada e compartilhada.
O irmão mais novo de Jean, Georges (Wally Albright) rouba todas as
cenas em que aparece. Tagarela, inteligente, precoce, ele vive falando com
animação sobre a guerra e sobre as proezas do irmão do amigo Philipe, que é
soldado. Wally participou da série de curtas-metragens Our Gang e também do
filme “Treze Mulheres” (1932).
Jan não se mostra muito surpreso ao descobrir que Denise é Helene.
Talvez um ator melhor que Louis Hayward expressasse suas emoções com mais
convicção e arte. Não podemos, entretanto, reclamar de Miriam Hopkins, tão sutil
em seu sofrimento que é impossível julgá-la como uma leviana, ou de Paul Muni,
sempre espetacular. Muni é passivo durante quase todo o filme, e fico
imaginando que seria uma boa ideia trocar de personagem com Louis Hayward... ou
que tal substituir Hayward por, por exemplo, Fredric March? Aí sim, o filme
ficaria fantástico.
Os espectadores de 1937 concordaram comigo, e o filme deu prejuízos ao
estúdio RKO. Mas não foi todo mundo que ficou no prejuízo: Miriam Hopkins se
casou com o diretor do filme, Anatole Litvak, divorciando-se dois anos depois. Muni não se preocupou com a bilheteria: no início de 1937, ele havia ganhado seu primeiro (e único) Oscar.
Então “Inferno entre Nuvens / The Woman I Love” (1937) é um filme
ruim? Muito pelo contrário! É melhor que 99% dos filmes que chegam às telas de
cinema atualmente. Paul Muni é a força vital do filme, que pulsa e pensa e age
na surdina. Aprecie o belo casal Hopkins e Hayward. Mas preste atenção na
genialidade de Muni.
This is my contribution to the Miriam Hopkins blogathon, hosted by Ruth at
Silver Screenings and newcomer Maedez at Font and Frock.



