John Garfield, uma
das maiores estrelas da década de 1940, completaria 100 anos no dia 4 de março.
Ele, porém, não viveu nem metade desse tempo: morreu aos 39 anos em 1952. Quase
desconhecido das plateias modernas, mas ainda lembrado e elogiado pelos fãs de
cinema clássico, Garfield mantém sua presença e seu legado vivos na película.
Seu primeiro filme,
“Four Daughters” (1939), já lhe garantiu a indicação ao Oscar de Melhor Ator
Coadjuvante. Durão, rebelde, de origem simples, Garfield, rebatizado de John
por Jack Warner, adicionou aos personagens tão comuns a Cagney ou a Edward G.
Robinson uma sensualidade inédita. Magnético, talentoso e decidido, ele lutou
contra os estereótipos e os roteiros ruins que garantiam sucesso, mas não
desafiavam suas habilidades. Foi um dos pioneiros nessa luta, juntamente com
Bette Davis. Com a estrela também esteve nos esforços da Hollywood Canteen,
ajudando os soldados durante a Segunda Guerra Mundial. Também vendeu bônus de
guerra e estrelou em diversos filmes feitos para angariar fundos para o
conflito e dar esperanças ao país.
Nascido Jacob Julius
Garfinkle em Nova York, filho de imigrantes russos judeus, o menino perdeu a mãe
aos sete anos e passou de casa em casa, acabando por juntar-se a uma gangue,
como fazem os meninos Matt e Tom Powers em “Inimigo Público” (1931). Pequeno
para sua idade, porém inteligente e habilidoso imitador, Julie, como seus
amigos o chamavam, tornou-se o líder da gangue, mas depois de contrair febre
escarlate e se envolver em algumas confusões, ele acabou matriculado numa
escola para crianças difíceis, onde teve suas primeiras aulas de teatro. Disse
que, se não fosse ator, teria se tornado o inimigo número um da América, o que
sem dúvida também lhe traria fama.
Antes de sua estreia
elogiada, em 1932, Julie se rendeu a seu espírito aventureiro e fez um longo
trajeto, vivendo às vezes na miséria, carregando toras de madeira, colhendo
frutas ou trabalhando no nordeste do Pacífico. O relato dessas aventuras
inspirou o diretor Preston Sturges a criar sua obra-prima “Contrastes Humanos /
Sullivan’s Travels” (1941). De volta ao teatro, Garfield recusou propostas de
estúdios como a Warner e a Paramount em meados da década de 1930, pois queria
ter tempo para dedicar-se aos palcos.
Amigo de grandes
nomes do método de interpretação desenvolvido por Stanislavski, como Lee
Strasberg, Garfield teve de pedir mutias vezes para entrar em “O grupo”,
pequeno grupo de teatro criado por esses atores. Depois de várias negativas,
ele foi aceito como aprendiz, e seu sucesso integrou-o à equipe. No entanto, o
desencanto ao não ser escolhido para o papel principal da peça “Golden Boy”,
escrita especialmente para ele, deixou-o chateado, e o fez dar mais uma chance
a Hollywood, para nossa alegria.
Os descendentes
diretos de seu estilo de atuação são os conhecidos filhos do Método: Marlon
Brando e James Dean, num primeiro momento; Montgomery Clift e Paul Newman, nas
ocasiões em que interpretavam personagens rebeldes; Al Pacino e Robert De Niro,
nas últimas décadas. O próprio Brando galgou sua carreira em fracassos de
Garfield: ficou com o papel do ator na peça “Um bonde chamado desejo”, após um
desentendimento deste com a produtora, e também se tornou protagonista de
“Sindicato de Ladrões / On the waterfront” com a morte de John Garfield.
| Com Lana Tuner em "O destino bate à porta / The postman always rings twice" (1946) |
John concordou em ser
coadjuvante com cachê de estrela no filme “A luz é para todos / Gentlemen’s
Agreement” (1948), pelo fato de a película tratar do polêmico tema do antissemitismo.
Sendo judeu, Garfield sentiu isso na pele e sabia como era importante tocar
neste assunto. Seu personagem, também judeu, vislumbra a oportunidade de uma
vida melhor quando uma mão amiga lhe é estendida ao final do filme, mas não foi
isto que aconteceu na vida do ator. Assim como outra atriz do filme, Anne
Revere, responsável por um discurso profético e utópico sobre “o século de
todos”, ele foi chamado para depor frente ao Comitê de Assuntos Antiamericanos
(HUAC).
A paranoia comunista
pegou John. Pelo simples fato de ter pertencido ao “Grupo” de teatro, uma
companhia tão ímpar, ele já era suspeito, e somou-se a isso o fato de sua
mulher, Roberta Seidman, ter pertencido ao partido comunista. Um liberal, fã de
Roosevelt, John explicou-se, mas se recusou a nomear outros prováveis
comunistas na indústria do cinema. Isso acabou com sua carreira. Colocado,
retirado e colocado novamente na lista negra, John voltou ao teatro apenas para
interpretar o papel que lhe fora negado mais de uma década antes: o de
protagonista de “Golden Boy”.
Sofrendo do coração
desde jovem, John Garfield sucumbiu em 21 de maio de 1952. Depois de seu
episódio com a caça aos comunistas, tentou de todo jeito mostrar seu amor pelo
país e revirou montes de documentos que provavam que era um bom cidadão. Bebia
muito e dormia pouco, e o stress da situação foi demais para ele. Sua herança
de sangue para o cinema foram seus dois fihos que chegaram à idade adulta (a
mais velha, Katherine, morreu após uma reação alérgica aos seis anos). David
(1943 – 1994) tornou-se ator de teatro e, em seus poucos trabalhos como ator ou
mesmo editor no cinema, apereceu creditado como John Garfield Jr ou John David
Garfield. Julie Garfield (1946) também se aventurou pelos palcos, e trabalha
muito em televisão. Apareceu também no filme “Os bons companheiros / Goodfellas”
(1990), como a personagem Mickey.
Seus filhos não tiveram o mesmo sucesso que ele,
mas John Garfield, seu charme e seu talento continuam a ser admirados por
milhões de pessoas. Prova disso são os vários sites dedicados à filmografia, à
personalidade ou mesmo ao mapa astral do ator, além da blogagem coletiva em
homenagem a seu centenário, realizada por Patti em They Don't Make 'Em Like They Used To.

