Lillian Gish estava
no fim de sua carreira como queridinha do cinema mudo quando veio esta
colaboração com o diretor sueco Victor Sjöström. Ainda há um quê de melodrama,
talvez não à moda Griffith, mas ainda assim muito bem interpretado por Lillian.
Na época estava na moda ser vamp ou ter it, mas uma das rainhas do cinema mudo
mostrou que nunca perderia a majestade.
O filme conta a
história da virginal Letty Mason (Gish), moça que vai morar com o primo em um
local árido. O que ela não sabia era que ventava sem parar em seu novo lar, e o
vento, como prediz o vilão, é capaz de deixá-la louca. Para piorar, a esposa do
primo sente ciúmes dela e a obriga a se casar. Há dois pretendentes e, durante
um animado baile, os dois a pedem em casamento. Depois de feita a escolha sem
amor, ela se vê sozinha com o vento e, para piorar, reencontra o vendedor de
gado com más intenções.
Só de olhar bem fundo
em seus olhos já podemos sentir a loucura que vai tomando conta da personagem.
Se nos colocarmos em seu lugar, veremos que provavelmente também
enlouqueceríamos em situação semelhante. Lillian detestou trabalhar na
produção, sofrendo com o calor escaldante, a areia que voava e o enxofre que
era usado para criar as tempestades de areia. Além de queimaduras de sol, ela teve
lesões nos olhos.
| Gish no deserto |
Apesar de ser
relativamente curto, trata-se de uma grande produção. Obviamente, criar
tempestades de areia não foi tarefa fácil. Some a isso as gravações no Deserto
de Mojave e está feita mais uma história de bastidores tão interessante quanto
o filme em si. Os oito grandes ventiladores eram capazes de fazer verdadeiros
estragos no set de filmagem, e o calor escaldante não ajudava. A equipe precisava
usar roupas compridas e lenços em frente à boca e ao nariz para não serem
sufocados pela areia que voava, mas mesmo assim sofriam com o calor. Os rolos de filma eram congelados para não derreterem com o calor e depois descongelados para edição. A própria
Lillian se queimou ao colocar a mão em uma maçaneta de metal.
O cinema mudo estava
com os dias contados, Lillian já não fazia mais tanto sucesso e seu colaborador
D. W. Griffith raramente trabalhava. Além disso, ela tinha já 35 anos, o que
para uma estrela de cinema pode representar a idade de aposentadoria. Mas tinha
talento, e as atrizes talentosas sabem envelhecer sem perder a qualidade dos
papéis. Olhem que nesse filme ela é disputada por três homens!
Embora o galã seja o
longilíneo ator sueco Lars Hanson, o vento é o protagonista. Os perigosos
ventos do norte são retratados como um cavalo branco selvagem que bem poderia
puxar uma carruagem fantasma (desculpem, não pude resistir a uma piada sobre um
dos filmes mais conhecidos de Victor Sjöström). Outra que merece reconhecimento
é Dorothy Cumming, interpretando Cora, a esposa ciumenta do primo de Letty.
Como curiosidade, após o fim da era muda Dorothy passou a desenhar papéis de
parede.
Tudo na produção
partiu da iniciativa de Lillian: a ideia de adaptar o livro de 1925 escrito por
Dorothy Scarborough e publicado anonimamente; o pedido de autorização a Irving
Thalberg e a escalação de Victor e Lars, pois ela já havia trabalhado com ambos
em “A Letra Escarlate” (1926). Na época do lançamento o filme foi duramente
criticado, mas com o passar dos anos teve sua importância reconhecida.
O final do filme foi
modificado para algo mais positivo, decepcionando o elenco. Em minha opinião, o
final é belíssimo e também poderoso. Sendo o último filme mudo de Lillian e
Sjöström e um dos últimos da MGM, “Vento e Areia” permanece como uma obra-prima
do cinema mudo, lidando com a força da natureza, a situação da mulher, a
loucura e o poder que não sabíamos ter.
Depois do fim do
reinado dos filmes mudos, Lars Hanson fez mais alguns filmes e voltou para a
Suécia. Victor Sjöström (creditado em filmes americanos como "Seastrom") teve seu momento de glória na atuação ao interpretar o
professor Isak Borg na obra-prima de Ingmar Bergman, “Morangos Silvestres” (1957).
Lillian Gish dedicou-se ao teatro, escreveu livros, deu palestras e atuou em
outros filmes, como “Duelo ao Sol / Duel” (1946) e “Mensageiro do Diabo / Night
of the Hunter” (1955). Ela ainda é considerada a melhor atriz do cinema mudo e
com uma boa quantidade de filmes acessíveis a qualquer público.
This
post is part of both the Summer Under the Stars blogathon, hosted by Sittin’ on a Backyard Fence and ScribeHard on Film and the Speechless
Blogathon hosted by Eternity of Dream.
