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sábado, 21 de outubro de 2017

O Bígamo / The Bigamist (1953)

Na era clássica de Hollywood, havia poucas mulheres diretoras. Obviamente, havia algumas mulheres fazendo filmes experimentais, mas dentro dos estúdios, com acesso a um bom elenco, equipe e orçamento, havia apenas duas: Dorothy Arzner e Ida Lupino. Arzner trabalhou nos anos 30 e 40, e Lupino veio logo depois, trabalhando nos anos 50 e 60. Ida Lupino dirigiu 41 filmes e episódios de séries e TV entre 1939 e 1968. Hoje falaremos de um de seus mais conhecidos filmes, “O Bígamo”, de 1953.

In the classic Hollywood era, there were very few female directors. Sure, there were some doing experimental work, but inside the big studios, with access to a good cast, crew and budget, there were only two: Dorothy Arzner and Ida Lupino. Arzner worked in the 1930s and 40s, and Lupino came next, working in the 1950s and 60s. Lupino directed 41 movies and TV episodes between 1939 and 1968. Today we’ll talk about one of her most famous movies, 1953’s “The Bigamist”.

Harry Graham (Edmond O’Brien) e sua esposa Eve (Joan Fontaine) querem adotar uma criança. Eles vão até uma agência de adoção e preenchem a papelada. O próximo passo é uma rápida investigação sobre a vida do casal, levada a cabo pelo senhor Jordan (Edmund Gwenn). Harry se mostra relutante e desconfortável com a investigação. O casal Graham vive em San Francisco, mas Harry viaja com frequência para trabalhar em Los Angeles. O senhor Jordan segue Harry até LA, e descobre que ele tem uma segunda família, completa com um filho bebê e uma esposa, Phillys (a própria Ida Lupino).

Harry Graham (Edmond O'Brien) and his wife Eve (Joan Fontaine) want to adopt a child. They go to an adoption agency and fill in all the forms. The next step is a quick investigation about their lives, made by Mr Jordan (Edmund Gwenn). Harry is reluctant and uncomfortable about this investigation. The Grahams live in San Francisco, but Harry travels often to Los Angeles to work. Mr Jordan follows Harry until LA, and finds out he has another family there, complete with a baby son and a wife, Phyllis (Ida Lupino herself).

Depois de descobrirem que não podem ter filhos, Harry e Eve começam a trabalhar juntos na área de vendas, e ela rapidamente dobra os lucros dele. Ela fica cada vez mais interessada no trabalho. Ele fica cada vez mais frustrado com o novo interesse dela. Quando vai para Los Angeles para uma viagem entediante, ele faz um passeio de ônibus e conhece uma mulher igualmente entediada – Phyllis. Com o tempo, o relacionamento deles se desenvolve.

After finding out they couldn't have children, Harry says Eve started working with him in the sales business, and quickly doubled his sales. She becomes more and more invested in working. He becomes more and more bummed by her new interest. When he goes to a boring business trip to Los Angeles, he takes a bus tour and meets an equally bored woman – Phyllis. With time, they get involved.
Há traços do noir em “O Bígamo”? Claro. Primeiro, você tem uma história contada em flashback. E várias escolhas estilísticas são puro noir: a inclusão de lâmpadas no enquadramento e as muitas sombras que têm origens em cortinas, janelas e paredes, por exemplo. Entretanto, não é um noir, não é um drama familiar, não é de maneira alguma um romance. Mas é real, e é uma golfada de ar fresco no sistema de estúdio, que na maioria das vezes trabalhava como uma linha de produção.

Are there noirish traces in “The Bigamist”? Sure. First, you have a story told in flashback. Also, many stylistic choices scream noir: the inclusion of lamps in the frame and the many shadows cast by curtains, windows and walls, for instance. However, it's not a noir, it's not a family drama, it's not a romance at all. But it's real, and it's a blow of fresh air in the studio system, that more often than not worked like an assembly line.
Não era a primeira vez que Joan Fontaine interpretava uma personagem com problemas conjugais – quem pode se esquecer de seu trabalho em “Rebecca” (1940), como a segunda senhora De Winter? Sim, Harry até tenta confessar para Eve que a está traindo quando a traição ainda nem havia sido consumada, mas ela muda de assunto. Neste exato momento do filme, vemos como Eve é insegura. Infelizmente, Joan Fontaine não tem muito mais o que fazer a não ser mostrar algumas expressões faciais significativas perto do final.

It was not the first time Joan Fontaine played a character with marital problems – who can forget her work in “Rebecca” (1940), as the second Mrs De Winter? Sure, Harry does try to tell Eve about his cheating when it wasn't even cheating yet, but she changes the subject. In this exact moment in the film, we see how insecure Eve is. Unfortunately, Joan Fontaine doesn't have much more to do than to showcase some meaningful facial expressions near the end.

E é muito interessante saber que Ida Lupino e Joan Fontaine foram quase rivais de verdade na vida amorosa. A história não é tão surpreendente ou patética quanto a do filme: o roteirista Collier Young, sócio de Lupino na produtora independente The Filmakers, foi casado com Ida Lupino entre 1948 e 1951. Um ano depois, ele se casou com Joan Fontaine, com quem ficou até 1961. A situação não criou um clima ruim nos bastidores de “O Bígamo”, e com frequência os dois casais socializavam – Collier e Joan, Ida e seu novo marido, Howard Duff.

And it’s extra interesting to know that Ida Lupino and Joan Fontaine were almost romantic rivals in real life. The story is not nearly as salacious or pathetic as the one in the film: screenwriter Collier Young, Lupino’s partner in the independent film production company The Filmakers, was married to Ida Lupino from 1948 until 1951. The next year, he married Joan Fontaine, and the two remained together until 1961. The situation didn’t interfere with the mood during filming “The Bigamist”, and the two couples frequently had fun together – Young and Fontaine, Lupino and her new husband Howard Duff.
Collier Young, Joan Fontaine, Ida Lupino
Esta não é uma lição de moral. “O Bígamo” não tem a intenção de ensinar algo ao espectador, nem de julgar seus personagens. Há um dilema moral, sim, mas Harry não é retratado como mulherengo e Phyllis não é retratada como destruidora de lares. E devemos isso a Ida Lupino.

This is not a cautionary tale. “The Bigamist” is not supposed to teach something to the viewer, and not even to judge its characters. There is a moral dilemma, sure, but Harry is not portrayed as a womanizer and Phyllis is not portrayed as a home wrecker. And we owe this to Ida Lupino.

Ida Lupino era uma boa diretora, mas eu bem que gostaria que ela fosse mais ousada e inovadora. Para ser aprovada pelos censores do código Hays, “O Bígamo” tinha de ser incrivelmente cuidadoso – o próprio assunto do filme era muito ousado. Por isso há muitos eufemismos para que finalmente seja revelado que Phyllis está grávida de um filho de Harry. Eu entendo completamente por que Ida teve de fazer isso.

Ida Lupino was a good director, but I wish she was more daring and groundbreaking. To be approved by the Hays Office, “The Bigamist” had to be extra cautious – the subject matter in itself was very bold. That's why there is a lot of euphemisms to finally tell that Phyllis is pregnant with Harry's child. I completely understand why Ida had to do this.
Mr Jordan (Edmund Gwenn)

Ida Lupino era uma mulher fazendo um filme centrado num personagem masculino. Eu adoraria ver as duas esposas contando as versões delas da história, compartilhando seus pensamentos e sentimentos. Eu adoraria se Ida tivesse dado voz a estas mulheres. Eu sei que seria bem difícil, considerando a época, mas também seria incrível e histórico.

Ida Lupino was a woman directing a picture centered in a man. I'd love to see the two wives telling their versions of the story, sharing with us their thoughts and feelings. I'd love if Ida had given those women a voice. I know it'd be quite hard for the time period, but it'd also be amazing and historic.

Infelizmente, mesmo tendo Ida Lupino muito jeito para aos negócios, “O Bígamo” não foi um sucesso de bilheteria. Ida Lupino e Collier Young decidiram distribuir o filme de maneira independente, o que certamente afetou a performance na bilheteria. Ida Lupino se dedicou à televisão, e só voltaria a dirigir outro filme 13 anos depois. Isso é uma pensa, porque “O Bígamo” é um filme interessante – e, se no final nós não nos importamos com o destino de Harry e suas duas esposas, isso é um trunfo de Ida Lupino e seu gosto por histórias diferentes.

Unfortunately, even with Lupino’s great brains for business, “The Bigamist” didn’t do well at the box office. Lupino and Young had decided to distribute the picture in an independent way, and it certainly hurt the performance. Ida Lupino started directing more television, and only directed another movie 13 years later. This is too bad, because “The Bigamist” is an interesting flick – and, after all, if by the end we don’t really care about which wife wants Harry back, it’s because of Ida Lupino’s taste for unique stories.

This is my contribution to the Joan Fontaine Centenary blogathon hosted by Virginie at The Wonderful World of Cinema and Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

The Spencer Tracy Legacy: a tribute by Katharine Hepburn (1986)

Em 1986, um documentário feito para a TV celebrou “o legado de Spencer Tracy” – e foi maravilhosamente apresentado por sua companheira dentro e fora das telas, Katharine Hepburn. Katharine é muito franca o tempo todo, mesmo ao abordar o vício em bebida de Spencer. Você pode ver em seus olhos, olhos de 79 anos de idade, um brilho especial, e perceber que o que havia entre Kate e Spence era amor verdadeiro.

In 1986, a documentary made for television celebrated “The Spencer Tracy Legacy” – and it was beautifully presented by his companion in an off-screen, Katharine Hepburn. Katharine is very candid all the time, even about Spencer’s drinking problem. You can see her 79-year-old eyes sparkle, and realize that what Kate and Spencer had was true love.
Com depoimentos curtos de diretores, produtores e outros atores, o documentário consegue condensar a carreira de Spencer, que durou 37 anos, em menos de uma hora e meia. O simples, mas emocionante, documentário ganhou dois Emmys e me ensinou muitas coisas incríveis sobre Spencer Tracy:

With short interviews with directors, producers and other actors, the documentary manages to condensate Spencer’s career, one that lasted 37 years, in less than one hour and a half. The simple yet heartfelt documentary won two Primetime Emmys and taught me some cool things about Spencer Tracy:
- Foi John Ford que viu Spencer em uma peça de teatro e o levou para Hollywood. Tipo, dá para imaginar o que é ser descoberto por John Ford- que àquela altura, em 1930, já trabalhava há 13 anos no cinema?

- John Ford was the one that saw Spencer on a play and took him to Hollywood. I mean, can you imagine being discovered by John Ford - who in 1930 had already been working for 13 years in the movie business?
- Assim como muitos outros, Tracy ficou insatisfeito com os roteiros que recebia da Fox em 1935. Isso o levou a se comportar mal de propósito, sendo em seguida despedido do estúdio... e ele ficou desempregado por apenas duas horas: após ouvirem que ele havia sido mandado embora, executivos da MGM logo foram atrás de Tracy e o contrataram.

- Just like many others, Tracy became dissatisfied with the scripts he received at Fox by 1935. This led him to misbehaving on purpose, being fired from the studio... and his unemployment lasted only two hours: after hearing about his firing, he was quickly approached by and signed with MGM.
- Spencer estava no hospital quando ganhou o primeiro Oscar – por isso quem recebeu a estatueta foi sua esposa.

- Spencer was in the hospital when he received his first Oscar - that is why the statue was actually collected by his wife.

- Spencer deu seu Segundo Oscar ao padre Flanagan, o religioso que inspirou a história do filme “Com os Braços Abertos / Boys Town” (1938).

- Spencer gave his second Oscar to Father Flanagan, the priest who inspired the movie “Boys Town” (1938).
- Eu sabia que Katharine Hepburn queria Spencer para um dos papéis de “Núpcias de Escândalo” (1940), mas eu não sabia que ela era fã dele desde que o viu no teatro, em 1930, na mesma peça que impressionou John Ford.

-I knew Katharine Hepburn had wanted Spencer for a role in “The Philadelphia Story” (1940), but I didn’t know she had been a fan of his since she saw him in the theater, back in 1930, in the same play that impressed John Ford.
- Spencer só conseguiu um papel em “A Mulher do Dia” (1942) – o primeiro filme que ele fez com Kate – porque as gravações de uma versão de “The Yearling” na Flórida foram canceladas devido a um ataque de insetos.

- Spencer was only cast in “Woman of the Year” (1942) - the first film he did with Kate - because a production of “The Yearling” on location in Florida had to be called off due to a mosquito attack.

- Spencer parecia sempre estar se divertindo no set, Segundo Elizabeth Taylor. Sua simplicidade era admirada por Frank Sinatra e Richard Widmark.

- Spencer seemed to be was always enjoying his time and work on set, as Elizabeth Taylor says. His simplicity was admired by Frank Sinatra and Richard Widmark.
- O primeiro filme mencionado na década de 1930 foi “Glória e Poder” (1933), que eu vi recentemente. Eu gostei em especial do comentário de Joanne Woodward, que disse que Spencer interpretou o personagem em sua velhice da mesma maneira que ele próprio envelheceu: com muita força e energia.

- The first film from the 1930s mentioned is “The Power and the Glory”(1933), one that I watched recently. I especially liked Joanne Woodward’s comment that Spencer played the older character in the same way he aged: with a lot of strength and energy.
- Eu adorei descobrir um pouco sobre os passatempos de Spencer – por exemplo, jogar polo – e ver seus filmes caseiros.

- I loved to learn about Spencer’s hobbies - like playing polo - and seeing some home movies.

- Spencer esteve envolvido em causas sociais, como a cura da poliomielite e tratamento e educação para surdos, por causa de seu filho, que nasceu surdo.

- Spencer was an advocate for polio cure and deafness treatment and learning, because of his son, who was born deaf.
- Há um momento com a filha de Spencer, Susan Tracy, mostrando cadernos nos quais o pai fazia anotações entre 1937 e 1942. Foi bonito ver a curta nota que ele escreveu no dia da morte de Jean Harlow: “grande garota”.

- There is a moment with his daughter, Susan Tracy, showing notebooks with notes her dad took from 1937 until 1942. It was sweet to see his short entry on the diary on the day Jean Harlow died: “grand girl”.
- Você vai chorar com a carta de Kate no final. Não há dúvida.

- You’ll cry with Kate’s letter in the end. There is no doubt about it.

This is my contribution to the Spencer Tracy and Katharine Hepburn blogathon, hosted by my pal Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.

sábado, 14 de outubro de 2017

José Ferrer: o tesouro de Porto Rico / José Ferrer: the treasure of Puerto Rico

No primeiro episódio da série da Netflix “Um Dia de Cada Vez”, o público que assistia à gravação vai à loucura quando Rita Moreno aparece pela primeira vez, de trás de uma cortina. Eles tinham razão para ficarem animados: Rita é uma lenda, e foi a primeira latina a ganhar o EGOT – Emmy, Grammy, Oscar e Tony. Antes da grande conquista de Rita, outro porto-riquenho ganhou um Oscar e três Tonys, abrindo o difícil caminho até Hollywood e a Broadway para os latinos. Seu nome era José Ferrer.

In the first episode of the Netflix sitcom “One Day at a Time”, the live audience goes crazy when Rita Moreno makes her first appearance from behind a curtain. They have reason to be excited: Rita is a legend, being the first Latina to win an EGOT – Emmy, Grammy, Oscar, Tony. Before Rita’s great accomplishment, another Puerto Rican got his Oscar and three Tonys, paving the hard way to Hollywood and Broadway for Latinos. His name was José Ferrer.
José Ferrer nasceu em Porto Rico em 1912. Seu avô foi advogado e um dos defensores da independência de Porto Rico da Espanha. Uma de suas irmãs é minha xará – Letícia – e Ferrer também deu à sua primeira filha o nome de Letícia – o que é algo bem legal, diga-se de passagem.

José Ferrer was born in Puerto Rico in 1912. His grandfather was a lawyer and one of the advocates of Puerto Rico's independence from Spain. One of his sisters had the same name as me – Leticia – and Ferrer also named his first daughter Leticia – which is a very cool connection, may  I say.
Ferrer estudou na Universidade de Princeton, se formou em 1934, e em 1935 fez seu primeiro papel de coadjuvante na Broadway. A reputação de Ferrer na Broadway só cresceu a partir de 1940. Ele foi o vencedor do primeiro prêmio Tony de Melhor Ator da história, em 1947, pelo seu papel mais famoso: Cyrano de Bergerac – na verdade, houve empate na premiação, sendo o outro vencedor Fredric March. Em 1952, Ferrer ganhou novamente o prêmio de Melhor Ator, e também o de Melhor Diretor por três peças diferentes que ele dirigia ao mesmo tempo.

Ferrer attended Princeton University, graduating in 1934, and in 1935 he had his first supporting role on Broadway. Ferrer made a reputation for himself on Broadway starting in 1940. He was the winner of the first Tony for Best Actor ever awarded, in 1947, for the role that is more often associated with him: Cyrano de Bergerac – it was actually a tie, and the other awarded actor was Fredric March. In 1952, Ferrer won again the Best Actor prize, and also the Best Director one for directing three stage plays at the same time.
Ferrer and Rosemary Clooney, who he married... twice
Billy Wilder queria que Ferrer fosse o protagonista de “Farrapo Humano” (1945), mas o estúdio se recusou a financiar o projeto com um protagonista quase desconhecido. Foi difícil encontrar um ator que aceitasse interpretar um alcoólatra, mas quando Ray Milland finalmente aceitou o papel, foi recompensado com um Oscar. Ferrer faria sua estreia no cinema três anos depois, quando ele interpretou o Delfim Carlos em “Joana D’Arc” (1948). Ferrer foi indicado ao Oscar como Ator Coadjuvante.

Billy Wilder intended to have Ferrer as the lead in “The Lost Weekend” (1945), but the studio refuse to finance the project without a bankable film star attached. It was hard to find an actor who would accept the role of an alcoholic, but when Ray Milland finally did it, he won an Oscar. Ferrer would make his film debut three years later, when he played the Delphin Charles in “Joan of Arc” (1948). Ferrer was nominated for the Best Supporting Actor Oscar for his performance.
Não foi surpresa alguma quando Ferrer foi escalado para o papel de Cyrano de Bergerac quando a história foi adaptada para o cinema. Cyrano é um homem sábio, culto, corajoso, porém inseguro. Ele se acha feio por causa de seu nariz grande, e por isso nunca disse à prima Roxane (Mala Powers) que a ama. E ele não quer desapontá-la, por isso promete proteger o homem que ela ama, e inclusive ajuda o concorrente a parecer mais inteligente e romântico.

It was no surprise that Ferrer got the part when Cyrano de Bergerac was adapted to the screen. Cyrano is a wise, cultured, brave, but insecure man. He is actually very self-conscious about his big nose, and this prevents him from telling his cousin Roxane (Mala Powers) that he loves her. And he doesn't want to disappoint her, that's why he promises to take care of the man she loves during battle, and even helps him look more intelligent and romantic.
Como o maior espadachim segurador de vela da história, Ferrer ganhou o Oscar, tornando-se o primeiro ator hispânico a receber o prêmio. E ele certamente mereceu a vitória: com uma voz poderosa e uma tonelada de carisma, Ferrer nos faz rir e chorar como Cyrano, e é a força motriz de um filme com poucos rostos familiares.

As the biggest third-wheel swashbuckler in history, Ferrer won the Oscar, becoming the first Hispanic actor to do so. And he certainly deserved the win: with a powerful voice and a ton of charisma, Ferrer makes us laugh and cry as Cyrano, and is the powerhouse in a movie with few familiar faces.
Judy Holliday and Gloria Swanson celebrate Ferrer's win at the Oscars
Assim como outro ator hispânico da era de ouro de Hollywood, Anthony Quinn, Ferrer também interpretou personagens de diversas nacionalidades diferentes. Em seus dois filmes mais famosos, ele interpretou personagens franceses – Cyrano, e o pintor Henri de Toulouse-Lautrec em “Moulin Rouge”, de 1952.  Ele foi um turco em “Lawrence da Arábia” (1962), do Oriente Médio em algumas ocasiões, russo, espanhol e até americano. Seu último filme foi feito em Hong Kong. Ele interpretou figuras históricas como o Rei Herodes e até mesmo Josef Stalin.

Like another Hispanic actor of the Classic Hollywood, Anthony Quinn, Ferrer also played characters from a plethora of nationalities. In his two most famous movies, he played Frenchmen – Cyrano and the painter Henri de Toulouse-Lautrec in 1952’s “Moulin Rouge”. He was Turkish in “Lawrence of Arabia” (1962), from the Middle East a few times, Russian, Spanish and even American. He did his last film in Hong Kong. He played historical figures like King Herodes and even Josef Stalin.
Ferrer fez muitos trabalhos no cinema, TV e nos palcos. Ele foi narrador de alguns filmes e séries, e até participou da Vila Sésamo. Ele dirigiu sete filmes entre 1955 e 1962. Ferrer era fluente em inglês e espanhol, e tinha conhecimentos de italiano e francês. Ele era também um bom pianista e cantor de ópera. Ele foi o primeiro ator da história a ganhar uma Medalha das Artes do presidente, em 1985. José Ferrer faleceu em 1992. Para homenageá-lo, em 2005 a Organização Hispânica de Atores Latinos deu ao seu famoso prêmio o nome de Prêmio Téspio José Ferrer. Não é de se espantar que ele seja o orgulho de Porto Rico.

Ferrer worked a lot in film, TV and on the stage. He did some narration for films and TV series, and even appeared on Sesame Street. He directed seven movies from 1955 to 1962. Ferrer spoke English and Spanish fluently, and had a good knowledge of Italian and French. He was also a fine pianist and opera singer. He was the first actor ever to be awarded a presidential Medal of the Arts in 1985. José Ferrer passed away in 1992. To honor him, in 2005 the Hispanic Organization of Latin Actors renamed its prestigious award as José Ferrer Tespis Award. No wonder why he is the pride of Puerto Rico!
Porto Rico é uma das três partes que não estão diretamente conectadas ao país, mas são território dos Estados Unidos – as outras duas são Alasca e Havaí. Nas últimas semanas, Porto Rico foi devastado pelo furacão Maria... e não recebeu ajuda do governo norte-americano. Então, para homenagear a terra de José Ferrer e tornar possível o surgimento de mais talentos ali, eu te convido a fazer uma doação para Porto Rico. ¡Gracias!

Puerto Rico is one of the three parts that are not connected directly to the country but are US territories – the other two being Alaska and Hawaii. In the last few weeks, Puerto Rico was strike by Hurricane Maria… and it received no help from Washington. So, in order to honor José Ferrer’s land and make it possible for more talents to blossom there, I invite you to make a donation for Puerto Rico. ¡Gracias!
Click to go to UNICEF's website


This is my contribution to the Hollywood’s Hispanic Heritage Blogathon 2017, hosted by Aurora at Citizen Screen. You can find more posts with the hashtag #DePelicula.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

My Man Godfrey: the 1957 remake

Você acredita que há uma crise de criatividade em Hollywood e que esta é a razão de existirem tantos remakes? Você sente falta dos bons e velhos tempos da velha Hollywood, quando todas as ideias eram originais? Então eu estou aqui para desapontá-lo: remakes são tão velhos quanto o próprio cinema. Os primeiros cineastas, como os Lumières, Alice Guy e Thomas Edison, estavam sempre refazendo os filmes de 50 segundos de seus concorrentes, de acordo com as demandas dos mercados mais próximos. E o remake se tornou uma grande tradição cinematográfica.

Do you think there is a creativity crisis in Hollywood and that’s why there are so many movies being remade? Do you miss the good old times of Classic Hollywood, when all the ideas were fresh? Then I’m here to disappoint you: remakes are as old as the film industry itself. The first filmmakers, like the Lumières, Alice Guy and Thomas Edison, were always making the same 50-second movies their counterparts did, in order to show it in the closest interested market. And the remake became a long cinematic tradition.
Em 1957, alguém dos estúdios da Universal pensou que era uma boa ideia fazer o remake de “My Man Godfrey” – ou “Irene, a Teimosa” – a comédia perfeita de 1936. Eles tinham um grande desafio pela frente: escalar dois atores que fossem melhores, ou ao menos tão bons quanto, a dupla original, Carole Lombard e William Powell. A ideia inicial era que o filme fosse estrelado pelo talento recém-importado Otto Wilhelm ‘O.W.’ Fischer. Otto desistiu do filme devido a problemas de memória, e o papel de Godfrey foi dado a David Niven.

In 1957, someone at Universal Studios thought it was a good idea to remake “My Man Godfrey”, the flawless 1936 comedy. They had a mighty hard challenge: cast a couple of actors who would be better, or at least as good as, the original starring duo Carole Lombard and William Powell. The initial idea was to use the film as a vehicle for recently imported talent Otto Wilhelm ‘O.W.’ Fischer. Otto dropped out of the production when he started having memory problems, and the role of Godfrey was given to David Niven.
Você provavelmente já conhece a história: a rica e despreocupada Irene Bullock (June Allyson) encontra Godfrey, o mendigo, nas docas durante uma caça ao tesouro. Irene leva Godfrey até o local do evento de caça ao tesouro e ganha o primeiro prêmio. Depois, ela oferece a ele um emprego como mordomo na casa da família Bullock. Em pouco tempo ela se apaixona por Godfrey, que talvez não seja realmente um mendigo.

You probably already know the story: Rich and carefree Irene Bullock (June Allyson) finds Godfrey, the tramp, in the docks during a scavenger hunt. Irene takes Godfrey to the scavenger event and is pronounced the winner. Then, she offers him a job as a butler at the Bullock house. Soon she becomes smitten with Godfrey, who may not be a tramp after all.
Este é quase um remake feito cena a cena, com algumas novas piadas – e a presence de um novíssimo aparelho de TV em uma cena. Infelizmente, na nova versão Godfrey não coloca Irene embaixo do chuveiro, e há mais tomadas externas. A personagem Cornelia, irmã de Irene, aqui interpretada por Martha Hyer, é menos interessante que a Cornelia de 1936, interpretada por Gail Patrick.

This is almost a shot-by-shot remake, with a few new jokes – and the presence of a brand-new TV set in a scene. Unfortunately, in the new version Godfrey doesn’t put Irene in the shower, and there are more scenes shot outdoors. The character Cornelia, Irene’s sister, here played by Martha Hyer, is less interesting than the 1936 Cornelia, played by Gail Patrick.
A ótima e peculiar família Bullock não muda muito entre as versões. Na de 1957, temos a chance de ver a coadjuvante Jessie Royce Landis em muitas cenas excelentes, destaque que lhe foi negado em seus dois filmes com Hitchcock. O nome do amante de Angelica Bullock muda – de Carlo, passa a ser Vincent aqui. E também temos uma participação especial de Eva Gabor como a mulher que conhece o passado de Godfrey – na versão de 1936, é um homem que já havia se encontrado, em outro contexto, com Godfrey.

The delightful and odd Bullocks are very good in both versions. In the 1957 version, we have the chance to see character actress Jessie Royce Landis in many good scenes, something she wasn’t given in her two films with Hitchcock. The name of Angelica Bullock’s lover is changed, here, from Carlo to Vincent. We also have here a special appearance by Eva Gabor, as the woman who knows about Godfrey’s past – in the 1936 version, it’s a man that has met Godfrey before, somewhere else.
Claro, a versão de 1957 de ‘My Man Godfrey” – chamada de “O Galante Vagabundo” é filmada em cores e tem figurinos e cenários decorados ao estilo dos anos 50, enquanto a versão de 1936 é filmada em preto e branco e conta com aqueles cenários maravilhosos ao estilo art déco. Mas é inevitável que a comparação chegue a este ponto: como os novos protagonistas estão em relação aos antigos e maravilhosos?

Sure, the 1957 “My Man Godfrey” is shot in color and has 1950s clothes and interior design, while the 1936 version is shot in black and white and has those delightful art deco sets. But inevitably the comparison comes to this: how did the new leads compare to the masterful first ones?
June Allyson fala tão rápido quanto Carole Lombard e é competente o suficiente para ser a força motriz do filme. David Niven é charmoso, elegante e tão suave quanto William Powell, e certamente está bem como Godfrey. Os protagonistas se saem bem não porque têm química ou muito talento, mas sim porque têm carisma.

June Allyson talks as fast as Carole Lombard and is competent enough to be the force that drives the film. David Niven is classy, fancy and as cool as William Powell, and surely is a fine Godfrey. The two leads are able to deliver such a nice performance neither because of chemistry nor great talent, but because of charisma.
“O Galante Vagabundo” é um ótimo exemplo de que um filme perfeito não precisa ser refilmado. June Allyson e David Niven eram populares, talentosos e carismáticos do jeito deles, mas não eram Carole Lombard e William Powell – estes, sim, uma dupla preciosa.

“My Man Godfrey” is good to make the point that a perfect movie must not be remade. June Allyson and David Niven were popular, talented and charismatic in their own ways, but they were no Carole Lombard and William Powell – those were, yes, a mighty precious duo.


This is my contribution to the June Allyson Centenary blogathon, hosted by Simoa at Champagne for Lunch.

domingo, 1 de outubro de 2017

Duelo ao Sol / Duel in the Sun (1946)

Eu amo a velha Hollywood. Eu amo cinema clássico. Eu fico animada ao ler, nos créditos iniciais, nomes como Joseph Cotten, Jennifer Jones, Gregory Peck, Lillian Gish, Herbert Marshall, Lionel Barrymore e Butterfly McQueen. Mas graças a Deus eu também sou uma mulher moderna, ilustrada e progressista e sou capaz de ver um filme clássico não com viés de nostalgia e um senso de que aquela é uma obra intocável, e assim eu posso perceber quando um filme clássico pisa na bola.  

I love old Hollywood. I love classic film. I get goosebumps reading, in the opening credits, names like Joseph Cotten, Jennifer Jones, Gregory Peck, Lillian Gish, Herbert Marshall, Lionel Barrymore and Butterfly McQueen. But thanks God I'm also a modern, woke, progressive woman and I'm able to look at classic film not with nostalgia and a sense of flawlessness, but with criticism, and then I can see when a classic film screws up.
Pearl Chavez (Jennifer Jones) é uma mestiça, filha de pai branco e mãe índia. Numa noite, a mãe dela está dançando em um bar e deixa o local com um homem após um breve jogo de sedução. O pai de Pearl (Herbert Marshall) os segue e os mata a tiros. Ele se declara culpado pelo assassinato, e diz que o primeiro crime que cometeu foi se envolver com uma índia. Ele é enforcado e envia Pearl para viver com a prima de segundo grau, Laura Belle (Lillian Gish).

Pearl Chavez (Jennifer Jones) is a half-breed, that is, the daughter of a white father and an Indian mother. One night, her mother is dancing at a bar and leaves the place with a man who she had seduced. Pearl's father (Herbert Marshall) follows them and shoots them. He pleads guilty for murder, and says that the first guilty thing he did was getting involved with an Indian. He is hung and sends Pearl to live with his second cousin, Laura Belle (Lillian Gish).
O marido de Laura Belle é chamado por todos – inclusive pela própria Laura – de Senador McCanles (Lionel Barrymore). Laura tem também dois filhos: o mais velho e sensato Jesse (Joseph Cotten) e o mais novo e mulherengo Lewton (Gregory Peck). O mais recente problema na imensa propriedade dos McCanles no Texas é a chegada de uma ferrovia, que trará aquilo que o Senador considera pior que uma praga: IMIGRANTES!

Laura Belle has a husband, who everybody – including herself – calls senator McCanles (Lionel Barrymore) and two sons: eldest and sensible Jesse (Joseph Cotten) and younger and womanizer Lewton (Gregory Peck). The latest problem in the mammoth property the McCanles family has in Texas is the arrival of a railway, that will bring something the senator considers worse than a plague: IMMIGRANTS!
Além da questão da ferrovia, a chegada de Pearl aumenta a rivalidade entre os irmãos. Num primeiro momento, Pearl gosta mais de Jesse, porque ele a trata melhor, e Lewton vê esta preferência como um desafio – Lewton tentará conquistá-la com brutalidade, mesmo não querendo nada sério com ela.

Besides the railroad problem, Pearl's arrival makes the rivalry between the brothers more intense. At first, Pearl likes Jesse better, because he's a more polite man, and Lewton sees her preference as a challenge – Lewton will try to conquer her with brutality, even if he doesn't want anything serious with her.
Não é nenhum segredo que Selznick queria fazer um filme ainda mais grandioso que “E o Vento Levou…”. E este foi seu erro: ao seguir à risca a fórmula de “E o Vento Levou...”, as comparações foram inevitáveis. Você tem um triângulo amoroso, uma história que se passa no passado, um ótimo elenco de coadjuvantes e até mesmo a paleta de cores é semelhante. Selznick inclusive repetiu os problemas dos bastidores e contratou seis diretores diferentes para seu novo épico! Mas “Duelo ao Sol” perde feito na comparação.

It's no secret that Selznick wanted to make a film that would be bigger and better than “Gone with the Wind”. And this was his mistake: by following the GWTW formula verbatim, the comparisons were unavoidable. You have a love triangle, a story set in the past, a great supporting cast and even the color palette is similar. Selznick even mimicked his on-set troubles and hired six different directors for his new epic! But “Duel in the Sun” is pale in comparison.
Pearl não é uma heroína tão marcante quanto Scarlett O’Hara. O primeiro erro de Selznick com a personagem foi escolher uma atriz branca para interpretar uma mestiça... com um sutil Brownface. Obviamente, a velha Hollywood nunca permitiria que uma índia autêntica fosse protagonista – e eu imagino que a Hollywood moderna também não faria isso. Além deste fato, Pearl não é complexa como Scarlett. Ela não é decidida, esforçada, corajosa e não algo pelo que lutar, como Scarlett tem Tara. Pearl age por luxúria e um estranho senso de moralidade – algo que pode ser interpretado como uma característica de sua origem mestiça.

Pearl is not as bold a heroine as Scarlett O'Hara. The first way Selznick screwed up with her character was by allowing a white woman to play a half-Indian… in brownface. Of course, classic Hollywood would never have an authentic Indian as a leading lady – and I imagine modern Hollywood wouldn't as well. Besides this, Pearl is not as complex as Scarlett. She isn't industrious and brave and she doesn't have something to fight for like Scarlett has with Tara. Pearl is moved by lust and a weird sense of morality – something that can be interpreted as a characteristic of her ‘half-breed’ origin.
Gregory Peck não é nenhum Clark Gable. Claro, Peck ainda estava no começa da carreira, e se pensarmos em seus papéis posteriores, é estranho vê-lo como vilão. Mas Peck convence como Lewton – eu o odiei para valer em muitos momentos. Lillian Gish e Lionel Barrymore estão simplesmente fantásticos, em especial na última cena juntos. Butterfly McQueen interpreta Vashti, o mesmo tipo de criada pouco esperta e de voz esganiçada que ela interpretou em “E o Vento Levou...”. Laura Belle inclusive diz que Vashti não pode ser treinada – sim, treinada como um cão.

Gregory Peck is no Clark Gable. Sure, Peck was still in the beginning of his career, and if we think about his later roles, it's weird to see him as a villain. But Peck is very convincing as Lewton – I truly hated him in many moments. Lillian Gish and Lionel Barrymore are simply outstanding, especially in their last scene together. Butterfly McQueen plays Vashti, the usual kind of empty-headed, high-pitched maid she played in “Gone with the Wind”. Laura Belle even says that Vashti can't be “trained” - yes, trained like a dog.
1939
1946
A fotografia é sem dúvida o melhor elemento do filme, mesmo que muitas cenas com silhuetas pareçam copiadas de “E o Vento Levou...”. As cenas exteriores são em geral fotografadas em tons de vermelho, o que me fez pensar em “Legião Invencível”, de 1949, de Jon Ford – com a diferença que o filme de Selznick foi filmado no Texas, e o de Ford no Arizona.

The cinematography is without a doubt the best thing in the movie, even though many scenes with silhouettes look like copies of “Gone with the Wind”. The exteriors are mostly photographed in red tones, something that made me think of John Ford's “She Wore a Yellow Ribbon”, from 1949 – with the difference that Selznick's movie was filmed in Texas, and Ford's in Arizona.
Como faroeste, “Duelo ao Sol” funciona bem. Temos dois duelos perto do fim, e o mais inesperado é o melhor deles. O filme não é um épico como “E o Vento Levou...”, e é mais datado que o predecessor feito em 1939, especialmente na caracterização da criada Vashti e na visão muito, muito errada acerca da miscigenação.

As a western, “Duel in the Sun” works well. We have actually two duels near the end, and the most unexpected is the best one. It's no epic like “Gone with the Wind”, and it is more dated than the Civil War era movie made in 1939, especially in the portrayal of maid Vashti and the very, very wrong take on miscegenation.

This is my contribution to the Texas Blogathon, hosted by The Midnight Drive-In.
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