Três anos atrás, em 2010, na roda-viva do fim do ensino médio, tive de
fazer uma redação sobre educação em casa (homeschooling) e educação a
distância. Eu fui a única da classe a defender ambas, dissertando com
entusiasmo sobre os cursos que podemos acessar sem sair de casa. Logo em
seguida eu entrei nesse mundo de cursos online. Hoje estou cada vez mais
apaixonada pelos MOOCs (Massive Open Online Courses, ou Cursos Online Abertos
em Massa), aquelas pérolas oferecidas por grandes universidades, totalmente
grátis. Um dos melhores MOOCs que eu fiz foi sobre, adivinha o quê?
Cinema.
O curso “The Language of Hollywood: Storytelling, Sound and Color”
chamou minha atenção por sua proposta de analisar as mudanças causadas pela
chegada do som e da cor através de filmes-chave, e nem sempre as películas escolhidas
eram as mais óbvias. O curso, oferecido pela Wesleyan University de
Connecticut, teve duração de seis semanas que passaram rápido demais para um
assunto tão interessante.
Com o curso pude ver filmes que há muito estavam na minha lista, como
“Scarface”(1932), e também assisti a outros que não conhecia, mas que se
tornaram favoritos logo nos primeiros minutos, a exemplo de “Aplauso /
Applause” (1929) e “A Filha do Bosque Maldito / The Trail of the Lonesome Pine”
(1936), que também é conhecido como "Amor e Ódio na Floresta". Pude prestar atenção a detalhes que em geral passariam despercebidos,
graças às lições longas mas proveitosas do professor Scott Higgins, sempre
divertido e claro em suas explicações. No escritório do professor, aliás, é
possível uma imagem de Judy Garland em “O Mágico de Oz” enfeitando uma estante.
As análises dos filmes, durando geralmente mais de meia hora, me deram
uma nova percepção deles. Como gosto de escrever e criar histórias, é
geralmente no roteiro que presto atenção. Pergunto-me se a história é
convincente, bem elaborada e se é desenvolvida com maestria. Raramente outros
detalhes chamam a minha atenção, a não ser nos raros casos em que eles são
demasiado exóticos (ex.: roupas de Carmem Miranda). Observando cenas
congeladas, foi possível ver muito além do roteiro, e percebi como tudo é
milimetricamente pensado no cinema: às vezes um assobio ou um risco em um mapa
dão dicas valiosas para o andamento e desfecho do filme. Cada segundo do rolo
de filme é precioso, por isso cada imagem deve ser escolhida com uma
finalidade. E foi assim que também passei a dar mais importância às pessoas que
ganham o Oscar de Melhor Direção de Arte (categoria que até 1946 era chamada de
Melhor Decoração de Interiores).
| George Raft e Ann Dvorak em Scarface |
Os grandes temas do curso eram o som e a cor, e como a chegada dessas
novas tecnologias sacudiu o mundo do cinema. Assim foram analisados alguns dos
últimos e melhores filmes mudos (“Anjo das Ruas / Street Angel” e “Docas de
Nova York”, ambos de 1928) e os primeiros filmes falados de qualidade. Aliás,
algo que eu já sabia, o silêncio é excelente recurso para criar os mais diversos
efeitos. E se há alguém que entende de silêncio, é Harpo Marx. Por isso um dos
filmes analisados foi “Os Quatro Batutas / Monkey Businnes” (1931), sobre o
qual eu aprendi muito.
| Muitas anotações... e Groucho Marx |
E quem disse que todos os cenários eram construídos em estúdio? Eles
podiam ser reaproveitados (como em “O Navio Fantasma / The Ghost Ship”, 1941)
ou mesmo pintados em vidro e fotografados pelas câmeras (como em “Tudo que o
céu permite / All that heaven allows”, 1957). E as filmagens em locação também
podem criar maravilhas, como em “Trail of the Lonesome Pine”, em que vemos
Sylvia Sidney, Henry Fonda e Fred MacMurray jovens e lindos, no início de suas
carreiras e sempre usando roupas que condizem com suas mudanças de humor.
Com o curso descobri o que é “motif” (para quem não sabe, é um
elemento simbólico que se repete ao longo do filme, como uma música, um gesto
ou objeto), o que é o “Borzagian shot” (veja a pose de Janet Gaynor e Charles
Farrell abaixo) e percebi alguns temas recorrentes nas filmografias de Henry
Hathaway e Val Lewton. A avaliação foi muito fácil, com algumas perguntas para
recapitular o conteúdo no final de cada vídeo e um teste final com 20 perguntas
que podia ser refeito até 100 vezes. Assim como eu, outros estudantes ficaram
animados e sugeriram outros cursos online sobre cinema, incluindo temas como
noir, cinema mudo, musicais, Hitchcock e Truffaut. Uma coisa é certa: se houver
outro MOOC sobre cinema, eu estarei lá!
A Victoria do blog Girls Do Film está fazendo uma resenha de cada
filme analisado no curso, destacando os pontos importantes de cada um. Veja no blog!
