} Crítica Retrô: Louis Jourdan

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Wednesday, July 19, 2017

Julie (1956)

Nós estamos acostumados a ver Doris Day feliz – e às vezes um pouco irritada com Rock Hudson. Por isso, a maioria das pessoas nunca imaginaria que ela fez um filme noir – mas ela fez, e em sua própria produtora. Com orçamento apertado, mas grande impacto, “Julie” é um filme em que, assim como em “A Teia de Renda Negra” (1960), Doris está em perigo, e o perigo está mais próximo do que ela imagina.

We're used to seeing Doris Day happy – and sometimes playfully angry with Rock Hudson. So, most people would never imagine that she did a noir – but she did, and in her own production company. Made cheaply but with a good impact, “Julie” was a film in which, just like in “Midnight Lace” (1960), Doris is in danger and the danger is nearer than she thought.
Você sabe que um relacionamento é tóxico ao passar dois minutes com o casal e ver a mulher reclamando que o homem fica com ciúmes quando ela conversa com outros homens, e a reação dele é pisar no acelerador e fazer com que o carro que ela dirija dispara em alta velocidade pela estrada. Ele toma o volante, para o carro, ela sai correndo, ele corre atrás dela e diz que sente muito. Eles se beijam. E é assim que somos apresentados a Julie (Doris Day) e Lyle Benton (Louis Jourdan).

You know a relationship is toxic when, spending two minutes with the couple, you see the woman complaining that the man is jealous because she was talking to other men, and his reaction is to step in the accelerator and make the car she is driving go dangerously fast through the road. He grabs the wheel, stops the car, she runs, he runs after her and says he's awfully sorry. They kiss. This is how we're introduced to Julie (Doris Day) and Lyle Benton (Louis Jourdan). 
Julie é viúva. Seu primeiro marido, Bob, cometeu suicídio por causa de problemas financeiros. Mas o amigo de Julie, Cliff Henderson (Barry Sullivan) acredita que o corpo de Bob tenha sido movido para criar uma cena de suicídio – ele pode ter sido estrangulado e só então uma corda foi colocada em seu pescoço.

Julie is a widow. Her first husband, Bob, killed himself because of financial troubles. But her friend, Cliff Henderson (Barry Sullivan) believes Bob's death may have been staged to look like a suicide – he could have been strangled and then a rope was put in his neck. 

De maneira cínica, Lyle confessa durante a noite que matou Bob, e que não pensaria duas vezes para matar Julie. Ela foge na manhã seguinte, e chega a uma delegacia em uma cidade vizinha – porque o casal Benton vive à beira-mar. Lá, os policiais dizem que uma esposa não pode testemunhar contra o marido – uma lei bizarra que ainda existe hoje nos EUA –, que se todas as ameaças que os maridos fazem às esposas fossem considerados crimes, as cadeias teriam de ser gigantescas, e ainda dizem a Julie e Cliff que acreditam que Julie é apenas uma esposa histérica em busca de vingança, sem evidências para o que acusa. São todas falas machistas, mas que infelizmente ainda hoje são repetidas.

In a cynical way, Lyle confesses during the night that he killed Bob, and he wouldn’t think twice to kill Julie. She runs away the next morning, and arrives to a police station in a neighboring town – because the Bentons live by the seashore. There, the policemen remind her that a wife can't testify against her husband – which is still a thing in 2017 –, that if all threats against wives were considered crimes, the prisons would have to be huge, and tell Julie and Cliff that they believe Julie is just a hysterical wife looking for revenge without evidences. All very sexist statements, but unfortunately they are still repeated today.
Ninguém pode negar que Louis Jourdan é charmoso – mas com seus olhos sem vida e parados no filme, ele é sinistro. Um motif recorrente é a música que Lyle toca ao piano. Depois de sua discussão com Julie, a música se torna mais macabra e é tocada com mais força. Mais tarde, ele grava a música para atormentar Julie.

Nobody can deny that Louis Jourdan is handsome – but with his lifeless, crazy eyes in this film, he is more of a creeper. One recurring motif is the piano music Lyle plays. After his first argument with Julie, his music becomes more macabre and it’s played with more strength. Later, he records the song in order to torment her.
O filme grita noir. Nós temos a fotografia em preto e branco, cheia de sombras e contrastes e a narração  - desta vez feita pela própria Julie, e devemos nos lembrar de que mulheres como narradoras no noir era coisa rara.

This film screams noir. We have the shadowy black and white photography and the voiceover narration – this time by Julie herself, and we must remember that women as noir narrators were the exception.
Nos primeiros minutes, o filme me fez lembrar “Rebecca – A mulher inesquecível” (1940). “Julie” também tem um casal problemático vivendo em uma mansão isolada, e o primeiro marido Bob é como a primeira esposa Rebecca – sempre mencionado, nunca visto, e fundamental para a trama. A única diferença é que Bob é uma figura menos sinistra e enigmática que Rebecca.

In the first few minutes, this film reminded me of “Rebecca” (1940). “Julie” also has a problematic couple in a far-away mansion, and first husband Bob is like first wife Rebecca – always mentioned, never seen, and fundamental to the plot. The only difference is that Bob is a less sinister and enigmatic figure. 
O filme espelhava um pouco a vida de Doris Day. Ela estava reticente em aceitar o papel porque Lyle a lembrava de seus dois primeiros maridos. O problema é que seu terceiro marido, Martin Melcher, que também co-produziu o filme, mostrou o mesmo ciúme quando Doris conversava com Louis Jourdan nos intervalos das gravações. Além disso, ele não se importou com a saúde de Doris e, seguindo a doutrina da ciência cristã, disse para ela “ter fé” para ser curada de um mal-estar que depois foi descoberto ser um tumor maligno. 

The film mirrored Doris's real life a bit. She was reticent about accepting the part because Lyle reminded her of her two first husbands. The problem was that her third husband, Martin Melcher, who also co-produced the film, behaved with the same jealousy when Doris got along well with Louis Jourdan during shooting. Besides that, he didn't care for her sickness and, in Christian Science fashion, told her to “have faith” to be cured of an ailment that was later discovered to be a cancerous tumor.
Com toda a perseguição acontecendo na tela, há chances de que você não tenha visto o nome ‘Mae Marsh’, o último na lista de créditos iniciais. A donzela do cinema mudo Mae Marsh tem a honra de interpretar a ‘passageira histérica’ em “Julie”. Ela foi figurante em diversos filmes dos anos 40 e 50, e encontrá-la na tela se tornou um passatempo para mim.

With all the cat and mouse game going on onscreen, there are chances you missed the name ‘Mae Marsh’, the last one in the credits. Silent screen damsel Mae Marsh had the honor to play the “’hysterical passenger’ in “Julie”. She was an extra in several talkies from the 1940s and 1950s, and spotting her has become a favorite game of mine.
Julie” é um filme tenso, embora longo demais, e os últimos 15 minutos são um pouco chatos – ou assustadores, dependendo da sua experiência com aviões. Eu diria que os últimos 15 minutos são desnecessários, mas o filme é interessante e pode ser considerado um noir singular.

Julie” is a very tense film, although it is a bit too long and the final 15 minutes are kinda boring – or terrifying, depending on your experience with airplanes. I’d just say that the last 15 minutes are unnecessary, but the film is enjoyable as a singular noir.

This is my contribution to the ‘Till Death Us Do Part blogathon, hosted by Theresa at CineMaven’s Essays from the Couch.

Tuesday, August 6, 2013

Carta de uma desconhecida / Letter from an unknown woman (1948)

Difícil classificar um filme como “Carta de uma desconhecida”. Sim, ele é excessivamente dramático, mas não cai nos clichês lacrimejantes dos melodramas. Há um romance, entretanto o amor vem de um lado apenas. Noir, só na fotografia em preto e branco que é essencial ao filme. Talvez mais certo seria dizer que Max Ophüls, talentoso diretor alemão, deveria ser um gênero à parte.

Lisa Berndle (Joan Fontaine) é uma garota morando em um prédio velho de Viena que se apaixona pelo novo vizinho. Até aí o enredo parece saído de um filme de adolescentes, mas então a mágica começa. Ela se encanta primeiro pelos instrumentos dele, um famoso pianista, e depois pela sua música. Quando ela finalmente o encontra, é amor à primeira vista. Stefan Brand (Louis Jourdan), entretanto, é mais velho que ela e troca de companhia feminina noturna como quem troca de roupa.
Os anos passam, mas a paixão de Lisa não diminui. Ela se muda com a mãe e o padrasto, mas volta a Viena depois de recusar um pedido de casamento de um tenente. Mais uma vez ela observa Stefan de longe, até que em uma noite ele a nota. E essa certamente é a noite mais maravilhosa da vida de Lisa.
Fica impossível fazer um resumo sem spoilers de “Carta de uma Desconhecida” se eu for mais além no enredo. Cada minuto ocorre uma nova surpresa, quase nunca boa. Isso já deveria ser esperado de uma adaptação de um conto de Stefan Zweig, que também virou filme na França, na China e na Mongólia, e ópera na Rússia. Na história, a menina se apaixona por um escritor, não um pianista, chamado apenas de “R”. Tornar o personagem homônimo ao autor foi uma ideia que ocorreu só quando Howard Koch adaptou o conto para o cinema, com Zweig já morto. Stefan Zweig suicidou-se com a mulher em 1942, no Brasil. Outra obra de referência do autor é “Brasil, o país do futuro”, um slogan não exatamente elogioso. É impressionante como, vivendo por apenas um ano no Brasil, ele conseguiu captar tão bem a essência do país.
Na batalha das irmãs, fico com Olivia de Havilland. Os papéis mais conhecidos e Joan Fontaine deixam-na na condição de mulher indefesa, impossibilitada de reagir frente aos seus problemas e procurar a felicidade. Em “Rebecca” (1940), ela é atormentada pela lembrança constante da falecida esposa de seu marido Maxim de Winter (Laurence Olivier) e pela tortura psicológica da governanta Mrs Danver (Judith Anderson). Em “Suspeita / Suspicion” (1941), que lhe deu o Oscar de Melhor Atriz, ela é a herdeira que tem motivos para acreditar que seu marido (Cary Grant) quer matá-la. Aqui, por mais que seja difícil de acreditar nas cenas em que ela é adolescente (Joan tinha mais de 30 anos quando fez o filme), o problema da personagem é saber que a relação idealizada não se concretizará devido ao caráter de Stefan. E, como uma boa mulher do século XVIII, ela deve sofrer em silêncio.
Nos bastidores
Louis Jourdan, dez anos antes de “Gigi”, está excelente como o boêmio que sofre ao receber a carta no começo do filme e reviver a história que é contada em flashback. É impossível não se apaixonar por Jordan, lindo em seu segundo filme em Hollywood, aonde chegou logo depois de fazer parte da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Como os créditos fazem questão de frisar, ele foi emprestado para a Universal graças à bondade de David O. Selznick.
Além dos protagonistas, dois coadjuvantes saltam aos olhos: John (Art Smith), o mordomo mudo de Stefan, e Marie (Carol Yorke), a amiga de infância de Lisa. Enquanto John aparece no filme todo, Marie está na tela por poucos minutos, e é a vida de Carol Yorke que chama a atenção. Este foi o único filme da moça, então com 18 anos. Ela estava em êxtase por contracenar com Joan Fontaine, uma atriz que ela admirava. Assim como Lisa, entretanto, o sonho de Carol durou pouco. Ela nunca voltou a um estúdio, mas teve uma carreira de sucesso como colunista em jornais, além de um envolvimento com o mundo da moda. Carol faleceu no mesmo ano em que Joan se aposentou do cinema, 1967, vítima de leucemia, com apenas 38 anos. As informações surpreendentes sobre Carol Yorke foram encontradas neste fórum do IMDb.   
Carol Yorke comendo uma maçã
Só pude falar uma coisa ao final do filme: uau. Não gosto de melodramas, mas este não é nada exagerado nem ao menos cansativo. Não se vê o tempo passar, de tão envolvidos que estamos com a trajetória de Lisa. Sem dúvida, Douglas Sirk, conhecido por seus melodramas que não exatamente me agradam, se inspirou nesta obra-prima.
Os ângulos de câmera são espetaculares, em especial ao mostrar a suntuosa ópera ou, focalizando de cima para baixo, a escada do prédio onde vive Stefan. Todo esse deslumbramento, entretanto, não foi suficiente para impressionar o público americano. Embora os europeus tenham gostado do filme, este foi um fracasso de bilheteria nos Estados Unidos. Nenhuma indicação ao Oscar foi o resultado. Mas, como em outros tantos casos, este foi mais um exemplo de filme à frente do seu tempo, que foi revisto e apreciado com o passar dos anos. Joan Fontaine, apesar do fracasso inicial, considera este seu filme favorito. E com razão.

This is one of my contributions to the Summer Under the Stars Blogathon, hosted by Jill at Sittin’ on a Backyard Fence and Michael at ScribeHard on Film. August is a happy month for blogging!
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