} Crítica Retrô: Rio de Janeiro

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Wednesday, July 15, 2015

A Caminho do Rio / Road to Rio (1947)

O ano é 1947. Desde 1944 Bing Crosby detinha o título de ator com maior sucesso de bilheteria. Em uma situação muito confortável, ele fez com seus parceiros Bob Hope e Dorothy Lamour o quinto dos sete filmes da série “Road to...”, que misturavam comédia, romance e musical em cenários exóticos. Desta vez os três astros iriam para o Rio de Janeiro, e o resultado, além de um filme divertidíssimo, é a imagem mais fiel do Brasil pintada pela era de ouro dei Hollywood.
É como Crosby, junto com as Andrews Sisters, canta sobre o Brasil: não é preciso entender a língua para compreender o que acontece aqui. Bastam a lua, o céu e uma garota nos seus braços. Aí é só olhar fundo nos olhos dela e as palavras serão supérfluas. Mas o riso é garantido.
Scat Sweeney (Bing Crosby) e ‘Hot Lips’ Barton (Bob Hope) estão atrás de mulheres. A busca da dupla já terminou com tiros e homens irados em diversos estados dos Estados Unidos, e a nova empreitada deles também é um fracasso: eles fazem, literalmente, um circo pegar fogo. Na fuga desesperada, eles entram como clandestinos no navio “Queen of Brazil”.

No navio viajam Lucia Maria de Andrade (Dorothy Lamour), sua tia / guardiã / hipnotizadora Catherine Vail (Gale Sondergaard) e mais uma galeria de personagens com alto potencial cômico, incluindo uma banda. Metade do filme se passa neste trajeto que por vezes fica lento, mas nunca cansativo.
Eles são recebidos no Brasil com a mesma música que recebeu o pato Donald cinco anos antes: “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso. A música, só instrumental, sem letra, também acompanha os créditos iniciais, quando os nomes do trio protagonista aparecem dançando sobre a paisagem de Copacabana.

Felizmente, não há os absurdos costumeiros que vemos quando o Brasil é mostrado no cinema de Hollywood. Não há macacos nem papagaios nas ruas e as pessoas não falam espanhol. Bing Crosby, para surpresa geral, pronuncia até muito bem algumas frases em português. É incrível pensar que cenários tão realistas, como a roda de samba, o hotel e a mansão que aparece no final do filme, foram todos construídos nos estúdios Paramount, mas, obviamente, com boa pesquisa prévia. Observe as roupas dos músicos, os instrumentos e até os cartazes em português! 
E são os Wiere Brothers, também falando um pouco de português, que roubam a cena. Os três irmãos Wiere nasceram na Europa, durante as muitas viagens teatrais dos pais, e foram para os Estados Unidos na década de 1930, mas fizeram poucos filmes. Os palcos continuaram sendo sua morada.
A maioria das piadas vem de diálogos espirituosos, mas há duas longas sequências mudas: na primeira, Hope e Crosby se passam pelo barbeiro e pelo engraxate do navio, e destroem o bigode de um passageiro; e na segunda há uma confusa troca de chapéus, no melhor estilo comédia pastelão / slapstick comedy.

Talvez “Road to Rio” não seja um filme realmente especial. Mesmo assim, foi o sexto maior sucesso de bilheteria de 1947, arrecadando o equivalente a 4,5 milhões de dólares. É uma comédia excelente, do tipo que não é mais feito na atualidade, e que consegue ser ao mesmo tempo um pouquinho apimentada e inteligentemente inocente. Porque é essa mágica que o Rio de Janeiro fez com Crosby, Hope e Lamour.

This is my contribution to the 1947 blogathon, hosted by Karen at Shadows and Satin and Kristina at Speakeasy. 

Friday, August 29, 2014

Feitiço do Rio / Blame it on Rio (1984)

Não existe pecado do lado de baixo do Equador. Esta é a visão que Hollywood sempre teve do país em que eu vivo: o Brasil. Um lugar muito sensual, com praias, mulheres lindas, muita música, festas religiosas e alguns animais exóticos. Trinta anos atrás, quando Michael Caine visitou o Rio de Janeiro, a ideia era a mesma. Mas as roupas eram mais bregas.
Matthew (Caine) está em São Paulo (repare no sotaque fofo com que eles falam “São Paolo”) com sua família. A esposa dele, Karen (Valerie Harper), vai passar as férias na Bahia, enquanto Matthew, a filha Nikki (Demy Moore), o melhor amigo Victor (Joseph Bologna) e a filha do amigo, Jennifer (Michelle Johnson) vão todos para uma casa no Rio de Janeiro. Victor está no meio do processo de divórcio, Jennifer é uma aspirante a Lolita e Matthew está sem a esposa. Preciso falar o que acontece a seguir?
Bem, em pouco tempo Victor descobre que sua “garotinha” está apaixonada, e fica maluco, agredindo todos os homens que parecem demonstrar interesse por Jennifer. Ele mal imagina o que seu melhor amigo está escondendo...
O filme está cheio dos clichês sul-americanos, apresentando coisas que você NUNCA verá nas cidades brasileiras: casas com flores em todas as paredes, mulheres sem roupa na praia de Ipanema, aves exóticas na sala de estar e um lagarto do tamanho de um jacaré. Outro ponto muito explorado do Brasil, a mistura de religiões, também está presente. Há mães-de-santo que falam inglês perfeitamente e são responsáveis tanto por um casamento na praia quanto por um ritual para atrair a pessoa amada. E não, definitivamente não são todas as festas de casamento no Brasil que terminam com todo mundo correndo nu para o mar.
O Brasil pode parecer o paraíso dos sonhos de qualquer estrangeiro, mas se mostrou um pequeno inferno para as equipes de filmagem. “Blame it on Rio” foi o primeiro filme rodado sob as novas regras do cinema brasileiro, e o diretor Stanley Donen ficou decepcionado com o excesso de burocracia (e, Stanley querido, 30 anos depois nada mudou). Para piorar, a chuva atrapalhou as filmagens (ainda chove muito no verão) e houve atraso na chegada de vários produtos comprados (pontualidade nunca foi nossa maior característica).
"Fruta do conde afrodisíaca"
Michael Caine está muito diferente no filme, desconfortável até. Seus momentos de breve monólogo são muito diferentes do revolucionário “Alfie” (1966) “breaking the fourth wall”. Muitas vezes, suas neuroses (e sua aparência) o aproximam de um personagem de Woody Allen. Pensando bem, este seria um filme que bem poderia ter sido feito por Woody, em um caso irônico de vida (quase) imitando a arte.
Michelle Johnson tinha 17 anos quando fez o filme, o que tornou necessária uma autorização por escrito de seus pais para que ela pudesse mostrar seu (belo) corpo nas telas. Como muitas das atrizes que começam como sex-symbol absoluto (Sue Lyon em “Lolita”, 1962, e Mena Suvari em “Beleza Americana”, 1999), Michelle não teve muitos papéis de destaque, e não aparece em um filme desde 2004. Vendo “Blame it on Rio”, poderíamos pensar que ela teria uma carreira brilhante pela frente, mas foi a outra adolescente, Demi Moore, que conseguiu uma carreira mais sólida e duradoura.
Michelle em foto recente
Como estamos passando as férias no Brasil, não poderiam faltar... brasileiros! Além dos cantores e dançarinos que são apenas extras, há duas presenças importantes made in Brazil: Lupe Gigliotti (1927-2010), atriz e humorista que aparece brevemente no papel da senhora Botega, e o grande José Lewgoy (1920-1983). Lewgoy estudou atuação em Yale e participou de mais de cem filmes, geralmente interpretando vilões. Ele também trabalhou em "Fitzcarraldo" (1982), "O beijo da mulher aranha" (1985) e "Cobra Verde" (1987). Aqui ele é Eduardo Marques, o cicerone de Matthew e Victor no Brasil, e fala inglês com perfeição.
Este foi o último filme dirigido por Stanley Donen (provando que quem começou com “Um dia em Nova York / On the Town” em 1949 pode muito bem terminar a carreira com um fiasco), e em 1985 Donen se divorciou da quarta esposa, Yvette Mimieux, que o incentivou a fazer o filme como um remake da produção francesa “One Wild Moment” (1977). Ah, e para provar que Donen perdeu o talento que tinha com musicais, basta prestar atenção na música-tema, uma pseudo-lambada horrorosa. Mas há um momento musical que faz tudo valer a pena: a inserção de um trecho do filme “Voando para o Rio / Flying Down to Rio” (1933)... Valeu a pena ver um filme tão brega!
This is my contribution for the 1984-a-thon, hosted by Todd at Forgotten Films. Big Brother is watching, and so should you!
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