Quem se lembra de Mary Astor? Normalmente ligada a seu papel mais famoso, Brigid O’Shaugnessy (um dos melhores nomes de personagem) em “O Falcão Maltês” (1941), Mary foi muito além, ou melhor, muito aquém: esta coadjuvante de luxo foi uma importante protagonista nos anos finais do cinema mudo, contracenando com nomes da importância de John Barrymore. Popular e talentosa, embora com alguns problemas familiares, Mary é a força motriz de “Romance of the Underworld”.
Judith “Judy” Andrews (Mary Astor) trabalha em um speakeasy, um bar que vendia bebidas e armas na época da Lei Seca e era frequentado por pessoas de reputação duvidosa (Judy é uma espécie de Sweet Charity de 1928). Logo após perder a mãe, ela decide abandonar o emprego e o namorado que lhe tira todo o dinheiro, Derby Dan Manning (Ben Bard). Embora ele próprio esteja mais interessado na garota do chefe, Champagne Joe (Oscar Apfel), ele não aceita ser abandonado. Joe é preso e Judy tenta ganhar a vida honestamente, estudando e trabalhando como passadeira e depois garçonete, mas seu passado volta sempre para atormentá-la, até mesmo quando ela conhece um homem rico e bondoso, Stephen Ransome (John Boles).
Um filme centrado no então presente momento, com a Lei Seca em vigor, era bastante oportuno. Antes da invenção oficial dos filmes de gângster, três anos depois, em 1931, com Edward G. Robinson em “Alma no Lodo / Little Ceasar” e James Cagney em “Inimigo Público / The Public Enemy”, este filme já apresenta um fora-da-lei memorável, que bem lemra o Tom Powers de Cagney, embora este não tenha uma moça boazinha como contraponto.
Em 1928 já havia filmes falados, poucos, é verdade, mas este sequer tem trilha sonora em sua versão online. Originalmente, havia alguns efeitos sonoros. Mary, estrela popular na época, ganhava 3750 dólares por semana durante as filmagens, uma pequena fortuna.
Mary Astor nasceu Lucile Vasconcellos Langhanke, filha de pai alemão e mãe de ascendência portuguesa e irlandesa. Assim como tantos pais de reality shows atuais, os pais de Mary começaram a inscrevê-la em diversos concursos de beleza, até que um deles teve como prêmio levar a linda menina de 14 anos para Hollywood. O ano era 1920 e os sonhos dos pais aproveitadores dela estavam para se tornar realidade.
O filme foi baseado em uma peça homônima de Paul Armstrong e é um remake. A primeira versão foi rodada dez anos antes. O próprio título, e aqui me refiro ao original e não à tradução para o português, talvez seja um pouco errôneo por o romance de maneira alguma se desenvolver no submundo, ou entre dois personagens do submundo. Algumas vezes, o filme também é chamado de "Romance and bright lights".
Seus colegas de cena não são muito conhecidos. Ben Bard, interpretando normalmente personagens obscuros, tem como trabalhos notáveis "Sétimo céu" (1927) e duas contribuições com o diretor Val Lewton na década de 1940. John Bowles contracenou com Shirley Temple e seu papel mais famoso é o do curioso Victor em "Frankenstein" (1931). Oscar Apfel, o gângster-mor da película, é o mais famoso, tendo sido um prolífico diretor no cinema mudo, cuja maioria de atuações não foi creditada. O próprio diretor, Irving Cummings, também havia sido ator anos antes.
A estrela do cinema mudo que não podia ser protagonista de sua própria história sobreviveu à chegada do som, mas passou a fazer papéis coadjuvantes, e entre eles destaco o de mãe de Judy Garland em “Agora seremos felizes / Meet me in St. Louis” (1944). Graças a sua amiga Bette Davis, foi escalada para o filme “The Great Lie” em 1943, pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Mary trabalharia até 1964. Em sua aposentadoria, escreveu uma autobiografia apenas sobre sua vida pessoal, um livro sobre seus filmes e cinco romances.
Esta pérola do último suspiro do cinema silencioso, além de mostrar a beleza e capacidade de Mary Astor, relativamente novas pra mim, fez também um grande favor, e espero que o faça a vocês também: lembrou-me de todas as maravilhas escondidas nos filmes mudos.
“Romance of the Underworld” (1928) está disponível no YouTube.
This is my contribution to the Mary Asthor blogathon, hosted by Dorian at Tales of the Easily Distracted and Ruth at Silver Screenings. Awesome job, gals!
