} Crítica Retrô: gângster

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Friday, October 16, 2020

O Homem que Nunca Pecou (1935) / The Whole Town's Talking (1935)

 

Algumas coisas realmente me fascinam. Uma delas é o conceito de doppelgänger e a ideia de que há outras pessoas no mundo que são fisicamente (quase) iguais a mim. Eu não sou a única pessoa interessada nessa ideia, porque diversos filmes já foram feitos a partir deste conceito. Um deles é “O Homem que Nunca Pecou”, uma comédia de 1935 que é um ponto fora da curva nas filmografias do seu protagonista e do seu diretor.

Some things really fascinate me. One of them is the concept of a doppelgänger and the idea that there are other people in the world that look (almost) exactly like me. I’m not the only person who is interested in this idea, because there have been several movies built around the concept. One of them is “The Whole Town’s Talking”, a 1935 comedy that is an unusual entry in the filmographies of its lead and its director.

Arthur Ferguson Jones (Edward G. Robinson) nunca chegou tarde ao trabalho, onde está há mais de oito anos. Mas um dia isso acontece, e este é o dia que muda a vida dele para sempre. Seu chefe recebeu a ordem de aumentar o salário de Jones e demitir a primeira pessoa que chegar atrasado naquele dia. Jones chega atrasado mas, como é a primeira vez, o chefe o perdoa e demite a segunda pessoa que chegou atrasada: a despreocupada Miss Clark (Jean Arthur). Ela aceita bem a situação e tenta aproveitar seu último dia no escritório.

Arthur Ferguson Jones (Edward G. Robinson) has never arrived late to work in over eight years. But one day he does, and it is the day that changes his life forever. His boss has received orders to raise Jones' wage and fire the first person who arrives late that day. Jones arrives late but, since it's his first time, the boss forgives him and fires the second person who arrived late: the carefree Miss Clark (Jean Arthur). She takes the situation well and tries to enjoy her last day at the office.

Ao ler o jornal, Miss Clark percebe que Mannion, o inimigo público número 1 da cidade, se parece muito com Jones. E a semelhança é realmente inegável porque, quando Jones e Miss Clark vão almoçar num bar, um homem o vê e chama a polícia. Jones é preso como se fosse Mannion, e Miss Clark também é levada à delegacia como sua cúmplice.

While reading the newspaper, Miss Clark realizes that Mannion, the public enemy number 1 in town, looks a lot like Jones. And the resemblance is really uncanny, because, as Jones and Miss Clark are having lunch in a bar, a man sees him and calls the police. Jones is arrested as if he were Mannion, and Miss Clark is also taken to the police station as his accomplice. 

Depois de muitos questionamentos, os policiais percebem que as impressões digitais de Jones não batem com as de Mannion e ele é liberado, junto com Miss Clark. De volta ao escritório, Jones é chamado por seu chefe, que lhe faz uma proposta: um ghost-writer escreverá a história de vida de Mannion, e o jornal quer que Jones assine os artigos. Jones aceita e toma uns drinks com o chefe.

After many questions, the police officers realize Jones' fingerprints don't match Mannion's and he is freed, alongside Miss Clark. Back at the office, Jones is called by his boss and is presented with an opportunity: a ghost-writer is going to write Mannion's life story, and the newspaper wants Jones to sign the articles. Jones accepts and drinks with his boss.

Quando ele chega em casa, encontra seu gato e seu pássaro de estimação, ambos batizados com nomes retirados da literatura, e também o próprio Mannion, que quer chantagear o homem que se parece com ele. Ele quer o documento que a polícia deu a Jones garantindo que ele não é Mannion – se usar o documento durante a noite, Mannion poderá andar por aí cometendo crimes sem problemas.

When he arrives home to his pet cat and bird with literary names, Jones finds Mannion himself wanting to blackmail the man who looks like him. He wants the document that the police has given to Jones attesting that he isn't Mannion – by having it during the nights, Mannion can walk around and commit crimes without any problems.

Edward G. Robinson interpreta muito bem dois papéis muito diferentes. Como Mannion, ele é o gângster que conhecemos de filmes como “Alma no Lodo” (1931). Como Jones, ele é tão bondoso e educado que é capaz de oferecer uma xícara de chá a dois visitantes mesmo quando está vestindo apenas uma camisa e – imaginamos – roupa de baixo, porque Mannion havia acabado de roubar suas roupas.

Edward G. Robinson plays two very different roles very well. As Mannion, he is the gangster we know from films like “Little Caesar” (1931). As Jones, he's so kind and polite that he is able to offer a cup of tea to two visitors even though he's wearing only a shirt and – presumably – underwear, because Mannion had just stolen his clothes.

Infelizmente, Jean Arthur tem pouco a fazer no filme. Ela é crush e musa de Jones, pois ele escreve histórias olhando para uma foto dela. Ela é doce e decidida, mas Jones e Mannion são os focos do filme – Miss Clark literalmente desaparece do filme depois de ser raptada pelos capangas de Mannion, junto com a velha tia de Jones, uma personagem que é completamente desnecessária. Entretanto, foi ao ver este filme que Frank Capra ficou interessado em trabalhar com Jean. Sobre Jean Arthur, Edward G. Robinson escreveu em sua autobiografia: “Ela era excêntrica sem ser tola, única sem ser maluca, uma personalidade teatral que não era uma pessoa teatral. Era um prazer trabalhar e conviver com ela.”

Unfortunately, Jean Arthur has little to do in the film. She’s Jones’ crush and muse, as he writes stories while looking at a picture of her. She’s sweet and resolute, but Jones and Mannion are the focuses of the film – Miss Clark literally disappears from the picture after she’s kidnapped by Mannion’s men, alongside Jones’ old aunt, a character who is completely unnecessary. However, it was after seeing this film that Frank Capra got an interest in working with Jean. About Jean Arthur, Edward G. Robinson wrote in his autobiography: “She was whimsical without being silly, unique without being nutty, a theatrical personality who was an untheatrical person. She was a delight to work with and to know.”

Donald Meek rouba a cena como Hoyt, o homem que chamou a polícia no bar e por causa disso fica obcecado com a recompensa de 25 mil dólares pela informação. De acordo com o site do TCM e com o próprio Robert Osborne, Lucille Ball é figurante na sequência do banco perto do final do filme, mas é quase impossível identificá-la.

Donald Meek steals the scene as Hoyt, the man who called the police at the bar and because of that he's obsessed with getting a 25,000 dollar reward for the information. According to the TCM website and Robert Osborne himself, Lucille Ball was an extra in the bank sequence near the end of the film, but it’s almost impossible to identify her.

O Homem que Nunca Pecou” foi dirigido por John Ford – mas o filme se parece muito com um filme de Frank Capra! Ele foi feito pela Columbia, então estúdio onde Capra trabalhava, um dos roteiristas foi Robert Riskin, um colaborador frequente de Capra, e tem como protagonista feminina Jean Arthur, que fez três filmes com Capra. O filme tem até uma montagem com manchetes de jornal, uma marca registrada de Capra.

The Whole Town's Talking” was directed by John Ford – but the picture looks a lot like a Frank Capra film! It was made by Columbia, then Capra’s studio, co-written by Robert Riskin, a constant Capra collaborator, and its female star is Jean Arthur, who worked with Capra in three films. There is even a montage of newspaper healines, something that is a Capra distinctive mark.

Há no filme, entretanto, algo vergonhoso presente em muitos dos filmes de John Ford dos anos 20 e 30: uma piada racista. Ela é muito breve, mas nos incomoda: um porteiro negro é retratado como um bobo, olhando para as pessoas com os olhos arregalados, um traço comumente usado como estereótipo racista. Outro filme de Ford do mesmo período com um pouco mais de conteúdo racista é “E o Mundo Marcha” (1934).

There is in the film, however, something shameful present in many of John Ford's films from the 1920s and 1930s: a racist joke. It is very brief, but it bothers us: a black doorman is portrayed as silly, looking at people with his eyes wide open, a trait commonly used as a racist stereotype. Another Ford film with more racist content is “The World Moves On” (1934).

Como uma mistura de comédia screwball com uma subtrama de gângsters, “O Homem que Nunca Pecou” tem momentos hilários e momentos tensos. Um filme único para John Ford e Edward G. Robinson, ele é prova de que ambos eram mais versáteis do que comumente lhes damos crédito.

As a mix of screwball comedy with a gangster subplot, “The Whole Town's Talking” has hilarious moments and tense moments. A unique film for John Ford and Edward G. Robinson, it's proof that both were more versatile than we usually give them credit for.

This is my contribution to the 120 “Screwball” Years of Jean Arthur blogathon, hosted by Virginie at The Wonderful World of Cinema.


Thursday, November 7, 2019

A Águia Azul (1926) / The Blue Eagle (1926)


Há filmes mudos de todos os tamanhos e durações. Além disso, não é regra que, quando um diretor começa a fazer longas-metragens, ele pare de fazer filmes mais curtos. Veja John Ford, por exemplo. Ford começou como diretor em 1917 e, em 1926, ele já havia dirigido dezenas de filmes, incluindo o impressionante épico “O Cavalo de Ferro”, de 1924, que tem mais de duas horas de duração. Ford não teve vergonha de voltar a fazer filmes menores e mais intimistas, e foi exatamente isso que ele fez em 1926 com “A Águia Azul”.

Silent film comes in all shapes and sizes. Furthermore, it’s not a rule that, once a director graduates to feature films, he never comes back to shorter films. Take John Ford, for instance. Ford started directing movies in 1917 and, in 1926, he had already directed dozens of films, including the impressive epic “The Iron Horse”, from 1924, that is over two hours long. Ford wasn’t ashamed to go back to more intimate films, made in a smaller scale, and this was exactly what he did in 1926 with “The Blue Eagle”.


George Darcy (George O'Brien, completamente lambuzado com óleo para parecer que está suando) e Big Tim Ryan (William Russell, igualmente lambuzado com óleo) estão servindo no mesmo navio na Primeira Guerra Mundial, mas eles são rivais na cidade natal. Juntos na guerra, eles vivenciam as batalhas, a adrenalina e a perda de companheiros. Mas assim que a guerra acaba, a velha rivalidade ressurge.

George Darcy (George O’Brien, completely covered in oil to look like he’s sweating) and Big Tim Ryan (William Russell, equally covered in oil) are shipmates during World War I, but back at home they’re rivals. Together at war, they experience the battles, the adrenaline and the loss of shipmates. But once the war is over, the old grudge comes back.


Darcy e Ryan vivem perto das docas, em um bairro pobre dominado por gangues rivais, algo que também pode ser visto em “Anjos de Cara Suja” (1938) e “Sindicato de Ladrões” (1954). Darcy e Ryan pertencem a gangues rivais – Darcy aos Terriers e Ryan aos Rats – e ambos estão apaixonados pela mesma mulher, Rose Kelly (Janet Gaynor), filha do policial Sargento Kelly (Lew Short). No bairro deles, problemas com drogas estão crescendo, e o Padre Joe (Robert Edeson), também ex-marinheiro, decide pedir para Darcy e Ryan ajudarem a polícia a prender os traficantes.

Darcy and Ryan are from the waterfront – a rather poor neighborhood dominated by rival gangs, something that can be seen in films like “Angels with Dirty Faces” (1938) and “On the Waterfront” (1954). Darcy and Ryan belong to rival gangs – Darcy’s Terriers and Ryan’s Rats – and they both are in love with the same woman, Rose Kelly (Janet Gaynor), daughter of police Sergeant Kelly (Lew Short). In their neighborhood, problems with drugs are on the rise, and Father Joe (Robert Edeson), also a former Marine, decides to ask both Darcy and Ryan to help the police arrest the smugglers.


Num mundo em que traficantes têm um SUBMARINO e gangues são formadas apenas para intimidar parte de um bairro, é de se esperar que haja uma mistura de gêneros, algumas subtramas que não vão a lugar algum – qual a importância dos irmãos gêmeos de Rose na narrativa? - e conclusões rápidas. Afinal, “A Águia Azul” tem menos de uma hora de duração!

In a world where drug dealers have a SUBMARINE and gangs are formed only to intimidate part of a neighborhood, it's expected a mix of genres, a few subplots that go nowhere – what is the use of Rose's twin brothers in the narrative? - and quick conclusions. After all, “The Blue Eagle” is less than one hour long!


George O'Brien foi um galã popular na década de 1920 e estrela de faroestes nos anos 30, e seu filme mais famoso é a obra-prima “Aurora” (2927), também com Janet Gaynor. Foi através do filme “O Cavalo de Ferro” de Ford que O'Brien alcançou o estrelato – embora ele desejasse, quando chegou em Hollywood, ser operador de câmera!

George O'Brien was a popular leading man in the 1920s and western star in the 1930s, and his most famous film is the masterpiece “Sunrise” (1927), also with Janet Gaynor. It was through Ford's “The Iron Horse” that O'Brien achieved stardom – although his only wish when he went to Hollywood was to become a cameraman!


As aventuras anteriores de George O'Brien ajudaram-no muito em “A Águia Azul”: ele serviu na Marinha norte-americana durante a Primeira Guerra Mundial, e foi condecorado por bravura, e depois da guerra ele se tornou campeão de boxe. Ele se alistou novamente na Marinha durante a Segunda Guerra. O título do filme “A Águia Azul” vem do fato de os marinheiros norte-americanos serem conhecidos como “águias azuis”. George O'Brien tinha orgulho de seu serviço na Marinha e deste filme em particular porque, mais tarde, lhe foi perguntado que filme ele queria que fosse exibido em uma mostra retrospectiva de sua carreira, e ele escolheu “A Águia Azul”.

George O'Brien's previous life adventures helped him a lot in “The Blue Eagle”: he had been in the US Navy during World War I, and was decorated for bravery, and after the war he became a boxing champion. He re-enlisted in the Navy during World War II. The title of the film “The Blue Eagle” comes from the fact that the US Marines are often referred to as Blue Eagles. George O'Brien was fond of his time at the Navy and of this film in particular because, later in his life, he was asked which film he wanted to see showed in a career retrospective festival honoring him, and he chose “The Blue Eagle”.


John Ford também teve uma ligação íntima com a Marinha, mas apenas depois de fazer “A Águia Azul”. Durante a Segunda Guerra Mundial, Ford trabalhou com a Marinha fazendo documentários de guerra. Um destes documentários é “A Batalha de Midway” (1942), ganhador de um Oscar. Ford foi uma testemunha ocular do Dia D em 1944, mas a maioria das imagens que ele filmou do Dia D foi considerada forte demais para ser exibida para o público.

John Ford also had a close link with the Navy, but only after making “The Blue Eagle”. During World War II, Ford worked with the Navy Department doing war documentaries. One of these documentaries is “The Battle of Midway” (1942), that won an Oscar. Ford was an eyewitness of the D-Day in 1944, but most of his footage shot on D-Day was considered too gruesome to be released to the public.


Janet Gaynor também fez outro filme com John Ford em 1926, “A Folha do Trevo”. Este é mais um pequeno filme que mistura comédia, drama e esporte – desta vez, corrida de cavalos. Com Janet Gaynor em um papel mais substancial e também um pouco de racismo, “A Folha do Trevo” é considerado o primeiro filme de John Ford que se passa na Irlanda.

Janet Gaynor also appeared in another John Ford film from 1926, “The Shamrock Handicap”. This is another small scale film that mixes drama, romance and sports – this time, it’s horse race. With Janet Gaynor in a more substantial role and also a bit of racism, “The Shamrock Handicap” is considered  the first John Ford film set in Ireland.
 
The Shamrock Handicap
Dois personagens muito importantes – aqueles que convencem Darcy e Ryan a declararem uma trégua – são o irmão deficiente de Darcy, Limpy (Philip Ford, sobrinho de John Ford), e o amigo bobão de Ryan, Dizzy (David Butler). Tanto Ford quanto Butler tiveram carreiras curtas como atores e mais tarde se tornaram prolíficos diretores.

Two very important characters – the ones that convince Darcy and Ryan to declare a truce – are Darcy’s handicapped brother, aptly named Limpy (Philip Ford, John Ford’s nephew), and Ryan’s good and dumb friend Dizzy (David Butler). Both Ford and Butler had brief careers as actors and later became prolific directors.


“A Águia Azul” tem atrativos para todos os públicos: romance, ação na guerra, drama urbano, um pouco de humor e até uma luta de boxe. Além disso, amantes de belos cenários, prestem atenção às luzes da cidade quando os personagens estão no cais. Infelizmente, as cenas com as batalhas navais ainda estão perdidas, o que torna o filme menos emocionante de ver hoje do que foi quando estreou. Mesmo assim, o filme nos traz o mais próximo que temos de um filme de gângster de John Ford, e por isso já merece ser visto.

The Blue Eagle” has something for everyone in the audience: romance, war action, urban drama, a bit of humor and even a boxing match. Also, lovers of beautiful scenery, pay attention to the city lights when the characters are on the waterfront. Unfortunately, the scenes with the sea battles are currently lost, which makes the film less exciting to see today than when it was originally released. Nevertheless, it brings the closest we have from a John Ford gangster picture, and for this alone it is worth a watch.

This is my contribution to the Send in the Marines blogathon, hosted by Gill and J-Dub at RealWeegieMidget Reviews and Dubsism.


Sunday, July 7, 2019

Taverna Maldita (1955) / Pete Kelly's Blues (1955)

A história começa em 1915 em Nova Orleans, onde um membro de uma família negra está sendo enterrado no campo, à margem do rio. Depois do funeral, uma corneta cai no chão. A linha do tempo pula para 1919, Jersey City, onde a mesma corneta, agora velha e amassada, é o prêmio ganho em um jogo de dados por Pete Kelly (Jack Webb). Nossa próxima parada é Kansas city, 1927, e Pete está tocando com sua banda num bar – ele toca, obviamente, a corneta.

The story starts in 1915 in New Orleans, where a member of a black family is being buried in the field, by the river. After the funeral, a cornet falls on the ground. We jump to 1919, Jersey City, where the same cornet, now old and smashed, is won in a dice game by Pete Kelly (Jack Webb). Our next stop is Kansas City, 1927, and Pete is playing with his band in a bar – he is playing, obviously, the cornet.




Entretanto, a banda de Pete não é um sucesso. Eles tocam em um speakeasy e não recebem nada do dono do lugar, que está mais interessado em contrabandear bebida do que em patrocinar a banda. Por isso ele não se importa quando um gângster – e estamos falando de um grande e influente gângster – tenta extorquir a banda. Frank McCarg (Edmond O'Brien) oferece proteção em troca de 25% dos ganhos da banda – e ele não aceitará um não como resposta.

However, Pete's band is not a success. They play in a speakeasy and receive nothing from the owner of the place, who is more interested in smuggling booze than in funding the band. So he doesn't care when a gangster – and we're talking about a big, influent gangster – tries to extort them. Frank McCarg (Edmond O'Brien) offers protection over 25% over the band's earnings – and he won't accept no as an answer.




Enquanto isso, uma garota festeira chamada Ivy Conrad (Janet Leigh) se apaixona por Pete e se mostra insistente na conquista. Outro problema surge quando o clarinetista de Pete, Al (Lee Marvin), diz a ele que está infeliz e que acha que a banda não tem futuro.

Meanwhile, a party girl called Ivy Conrad (Janet Leigh) falls in love with Pete and she is insistent about it. Another trouble arises as Pete's clarinetist, Al (Lee Marvin), tells him he's unhappy and how he thinks the band is going nowhere. 
 



Mais tarde Pete descobre que McCarg só está interessado em ter a banda para acompanhar a namorada dele, a cantora alcoólatra Rose Hopkins (Peggy Lee) – Pete não quer uma cantora, mas McCarg está disposto a PAGAR a banda para que ela cante. E então um policial chamado George Tenell (Andy Devine) pede que Pete colabore para que ele possa prender McCarg.

Later Pete learns that McCarg is only interested in having a band to accompany his girlfriend, alcoholic singer Rose Hopkins (Peggy Lee) – Pete doesn't want a singer, but McCarg is willing to PAY the band to have her. And then a cop named George Tenell (Andy Devine) asks for Pete's collaboration to get McCarg arrested. 
 



Fazer com que a corneta seja originária de uma família negra de Nova Orleans e seja o prêmio de Pete Kelly, então um soldado certamente voltando da guerra, é um artifício do enredo que envelheceu mal. Era para dizer que a musicalidade de Pete estava toda naquela corneta? Era para usar o mito do negro feliz que tem muito ritmo nas veias – e nos instrumentos musicais? É uma variação do estereótipo do “negro mágico”?  De qualquer forma, é estranho e desnecessário – e me fez ficar esperando  uma história como a do terno que passa de mão em mão em “Seis Destinos” (1942).

To have the cornet come from a black family in New Orleans and be won by Pete Kelly, then a soldier certainly coming home from the war, is a plot point that aged badly. Did they mean that Pete's musicality was all in that cornet? Did they mean to use the myth of the happy black person who has a lot of rhythm running in their veins – and in their musical instruments? Is this a brief twist of the “magical negro” trope? Anyway, it is odd and unnecessary – and left me waiting for a story like the one about the suit in “Tales of Manhattan” (1942).



Filmado em Warnercolor, “Taverna Maldita” usa a cor para ampliar os sentimentos em uma cena sempre que possível. Uma cena em um clube na qual filtros de cor se revezam para mostrar a mudança na iluminação é simplesmente uma festa para os olhos, e é o destaque visual de um filme bastante vivo – com cores mais vivas do que é de se esperar para um filme que se passa em 1927.

Filmed in Warnercolor, “Pete Kely's Blues” uses color to enhance the feelings of a scene whenever possible. A scene at a nightclub in which color filters change to show the change in illumination is simply a feast for the eyes, and is a visual highlight of a rather bright movie – brighter than expected for a film set in 1927.




Eu gostei muito dos figurinos de Janet Leigh, em especial do vestido prateado com sapatos vermelhos muito, muito lindos – eu certamente usaria aqueles sapatos! Embora ela seja a melindrosa chique, seu papel não é o de maior destaque: Peggy Lee tem o papel mais desafiador em “Taverna Maldita”. Há ainda duas mulheres notáveis: uma jovem Jayne Mansfield é uma vendedora de cigarros e Ella Fitzgerald é cantora e proprietária do bar Fat Annie's.

I really liked Janet Leigh's outfits, in special her silver dress and wonderful, wonderful red shoes – I'd certainly wear those shoes! Although she is the fancy flapper, her role isn't the most substantial one: Peggy Lee has the most challenging role in “Pete Kelly's Blues”. There are also two other ladies of notice: a young Jayne Mansfield as a cigarette girl and Ella Fitzgerald as the main singer and owner of a bar called Fat Annie's.




Além de ser a estrela de “Taverna Maldita”, Jack Webb também dirigiu o filme – e ele até sabia tocar corneta! Jack esteve envolvido com o projeto desde o início. No começo, “Taverna Maldita” foi um programa de rádio, protagonizado por Jack Webb, que foi exibido em 1951. Depois do filme, em 1959, Webb produziu a série de TV de “Taverna Maldita”, que durou apenas uma temporada.

Besides being the star of “Pete Kelly's Blues”, Jack Webb also directed the film – and he also knew how to play the cornet! Jack was involved with the project since the beginning. At first, “Pete Kelly's Blues” was a radio show, starring Jack Webb, that was broadcast in 1951. After the film, in 1959, Webb produced the TV show “Pete Kelly's Blues”, that lasted only one season.




Com uma mistura inovadora de música e elementos do subgênero gângster, “Taverna Maldita” é um filme agradável e pouco visto que demonstra os muitos talentos de Jack Webb, Ella Fitzgerald e, em particular, de Peggy Lee, que foi inclusive indicada a um Oscar de Atriz Coadjuvante.

With an innovative mix of music and gangster elements, “Pete Kelly's Blues” is an enjoyable and underseen film that showcases the many talents of Jack Webb, Ella Fitzgerald and, in special, Peggy Lee, who was even nominated for a Supporting Actress Oscar.

This is my contribution to the Janet Leigh blogathon, hosted by Michaella at Love Letters to Old Hollywood.

Thursday, May 2, 2013

Romance of the Underworld (1928)

Quem se lembra de Mary Astor? Normalmente ligada a seu papel mais famoso, Brigid O’Shaugnessy (um dos melhores nomes de personagem) em “O Falcão Maltês” (1941), Mary foi muito além, ou melhor, muito aquém: esta coadjuvante de luxo foi uma importante protagonista nos anos finais do cinema mudo, contracenando com nomes da importância de John Barrymore. Popular e talentosa, embora com alguns problemas familiares, Mary é a força motriz de “Romance of the Underworld”.


Judith “Judy” Andrews (Mary Astor) trabalha em um speakeasy, um bar que vendia bebidas e armas na época da Lei Seca e era frequentado por pessoas de reputação duvidosa (Judy é uma espécie de Sweet Charity de 1928). Logo após perder a mãe, ela decide abandonar o emprego e o namorado que lhe tira todo o dinheiro, Derby Dan Manning (Ben Bard). Embora ele próprio esteja mais interessado na garota do chefe, Champagne Joe (Oscar Apfel), ele não aceita ser abandonado. Joe é preso e Judy tenta ganhar a vida honestamente, estudando e trabalhando como passadeira e depois garçonete, mas seu passado volta sempre para atormentá-la, até mesmo quando ela conhece um homem rico e bondoso, Stephen Ransome (John Boles).
Um filme centrado no então presente momento, com a Lei Seca em vigor, era bastante oportuno. Antes da invenção oficial dos filmes de gângster, três anos depois, em 1931, com Edward G. Robinson em “Alma no Lodo / Little Ceasar” e James Cagney em “Inimigo Público / The Public Enemy”, este filme já apresenta um fora-da-lei memorável, que bem lemra o Tom Powers de Cagney, embora este não tenha uma moça boazinha como contraponto.
Em 1928 já havia filmes falados, poucos, é verdade, mas este sequer tem trilha sonora em sua versão online. Originalmente, havia alguns efeitos sonoros. Mary, estrela popular na época, ganhava 3750 dólares por semana durante as filmagens, uma pequena fortuna.

Mary Astor nasceu Lucile Vasconcellos Langhanke, filha de pai alemão e mãe de ascendência portuguesa e irlandesa. Assim como tantos pais de reality shows atuais, os pais de Mary começaram a inscrevê-la em diversos concursos de beleza, até que um deles teve como prêmio levar a linda menina de 14 anos para Hollywood. O ano era 1920 e os sonhos dos pais aproveitadores dela estavam para se tornar realidade.
O filme foi baseado em uma peça homônima de Paul Armstrong e é um remake. A primeira versão foi rodada dez anos antes. O próprio título, e aqui me refiro ao original e não à tradução para o português, talvez seja um pouco errôneo por o romance de maneira alguma se desenvolver no submundo, ou entre dois personagens do submundo. Algumas vezes, o filme também é chamado de "Romance and bright lights".

Seus colegas de cena não são muito conhecidos. Ben Bard, interpretando normalmente personagens obscuros, tem como trabalhos notáveis "Sétimo céu" (1927) e duas contribuições com o diretor Val Lewton na década de 1940. John Bowles contracenou com Shirley Temple e seu papel mais famoso é o do curioso Victor em "Frankenstein" (1931). Oscar Apfel, o gângster-mor da película, é o mais famoso, tendo sido um prolífico diretor no cinema mudo, cuja maioria de atuações não foi creditada. O próprio diretor, Irving Cummings, também havia sido ator anos antes.
A estrela do cinema mudo que não podia ser protagonista de sua própria história sobreviveu à chegada do som, mas passou a fazer papéis coadjuvantes, e entre eles destaco o de mãe de Judy Garland em “Agora seremos felizes / Meet me in St. Louis” (1944). Graças a sua amiga Bette Davis, foi escalada para o filme “The Great Lie” em 1943, pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Mary trabalharia até 1964. Em sua aposentadoria, escreveu uma autobiografia apenas sobre sua vida pessoal, um livro sobre seus filmes e cinco romances.

Esta pérola do último suspiro do cinema silencioso, além de mostrar a beleza e capacidade de Mary Astor, relativamente novas pra mim, fez também um grande favor, e espero que o faça a vocês também: lembrou-me de todas as maravilhas escondidas nos filmes mudos.

“Romance of the Underworld” (1928) está disponível no YouTube.


This is my contribution to the Mary Asthor blogathon, hosted by Dorian at Tales of the Easily Distracted and Ruth at Silver Screenings. Awesome job, gals!
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