} Crítica Retrô: Jean Arthur

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Friday, December 30, 2022

Lost in Translation: odd classic film titles in Portuguese - screwball comedy edition

 

Here we are again, at yet another edition of the beloved - at least by me - series “Lost in Translation”. This time we talk about one of the most cherished film genres, that produced movies that made people laugh and forget their troubles. Many screwball masterpieces were also a box-office failure when they were first exhibited, but they stood the test of time and are now considered some of the best movies ever made by critics, filmmakers and cinephiles.

One curious tidbit is that there is no direct translation of “screwball comedy” in Portuguese. We either refer to the original term or try an approximation - I usually say “zany” or “wacky” comedies whe talking about screwball. Now let’s see some fun titles in Brazilian Portuguese:    

“Bombshell” (1933) received the title “Mademoiselle Dynamite” (“Mademoiselle Dinamite”)

“The Thin Man” (1934) is here “The Accused’s Supper” (“A Ceia dos Acusados”)

“Mr Deeds Goes to Town” (1936) got the title “The Dashing Mr Deeds” (“O Galante Mr Deeds”)

“My Man Godfrey” (1936) became “Irene, the Stubborn” (“Irene, a Teimosa”)

“Libeled Lady” (1936) is here “Married to my Fiancée” (“Casado com Minha Noiva”)

“Easy Living” (1937) received the title “Lucky Girl” (“Garota de Sorte”)

“The Awful Truth” (1937) is known as “Cupid is a Stubborn Brat” (“Cupido é Moleque Teimoso”)

“Bringing Up Baby” (1938) received the title “Mischievous” (“Levada da Breca” is a hard-to-translate slang)

“You Can’t Take It with You” (1938) was translated as “From the World You Take Nothing” (“Do Mundo Nada se Leva”)

“The Philadelphia Story” (1940) got the title “Wedding of Scandal” (“Núpcias de Escândalo”)

“His Girl Friday” (1940) is known as “Fasting of Love” (“Jejum de Amor”)

“The Lady Eve” (1941) became “The Three Nights of Eve” (“As Três Noites de Eva”)

“Sullivan’s Travels” (1941) received the title “Human Contrasts” (“Contrastes Humanos”)

“The Palm Beach Story” (1942) is known as “A Real Woman” (“Mulher de Verdade”)  

“The Man who Came to Dinner” (1942) received the title “Satan Dines with Us” (“Satã Janta Conosco”)

“The More the Merrier” (1943) is here “Original Sin” (“Original Pecado”)

“Arsenic and Old Lace” (1944) became “This World is a Loony House” (“Este Mundo é um Hospício”)

“Christmas in Connecticut” (1945) got the title “Indiscretion” (“Indiscrição”)

Friday, October 16, 2020

O Homem que Nunca Pecou (1935) / The Whole Town's Talking (1935)

 

Algumas coisas realmente me fascinam. Uma delas é o conceito de doppelgänger e a ideia de que há outras pessoas no mundo que são fisicamente (quase) iguais a mim. Eu não sou a única pessoa interessada nessa ideia, porque diversos filmes já foram feitos a partir deste conceito. Um deles é “O Homem que Nunca Pecou”, uma comédia de 1935 que é um ponto fora da curva nas filmografias do seu protagonista e do seu diretor.

Some things really fascinate me. One of them is the concept of a doppelgänger and the idea that there are other people in the world that look (almost) exactly like me. I’m not the only person who is interested in this idea, because there have been several movies built around the concept. One of them is “The Whole Town’s Talking”, a 1935 comedy that is an unusual entry in the filmographies of its lead and its director.

Arthur Ferguson Jones (Edward G. Robinson) nunca chegou tarde ao trabalho, onde está há mais de oito anos. Mas um dia isso acontece, e este é o dia que muda a vida dele para sempre. Seu chefe recebeu a ordem de aumentar o salário de Jones e demitir a primeira pessoa que chegar atrasado naquele dia. Jones chega atrasado mas, como é a primeira vez, o chefe o perdoa e demite a segunda pessoa que chegou atrasada: a despreocupada Miss Clark (Jean Arthur). Ela aceita bem a situação e tenta aproveitar seu último dia no escritório.

Arthur Ferguson Jones (Edward G. Robinson) has never arrived late to work in over eight years. But one day he does, and it is the day that changes his life forever. His boss has received orders to raise Jones' wage and fire the first person who arrives late that day. Jones arrives late but, since it's his first time, the boss forgives him and fires the second person who arrived late: the carefree Miss Clark (Jean Arthur). She takes the situation well and tries to enjoy her last day at the office.

Ao ler o jornal, Miss Clark percebe que Mannion, o inimigo público número 1 da cidade, se parece muito com Jones. E a semelhança é realmente inegável porque, quando Jones e Miss Clark vão almoçar num bar, um homem o vê e chama a polícia. Jones é preso como se fosse Mannion, e Miss Clark também é levada à delegacia como sua cúmplice.

While reading the newspaper, Miss Clark realizes that Mannion, the public enemy number 1 in town, looks a lot like Jones. And the resemblance is really uncanny, because, as Jones and Miss Clark are having lunch in a bar, a man sees him and calls the police. Jones is arrested as if he were Mannion, and Miss Clark is also taken to the police station as his accomplice. 

Depois de muitos questionamentos, os policiais percebem que as impressões digitais de Jones não batem com as de Mannion e ele é liberado, junto com Miss Clark. De volta ao escritório, Jones é chamado por seu chefe, que lhe faz uma proposta: um ghost-writer escreverá a história de vida de Mannion, e o jornal quer que Jones assine os artigos. Jones aceita e toma uns drinks com o chefe.

After many questions, the police officers realize Jones' fingerprints don't match Mannion's and he is freed, alongside Miss Clark. Back at the office, Jones is called by his boss and is presented with an opportunity: a ghost-writer is going to write Mannion's life story, and the newspaper wants Jones to sign the articles. Jones accepts and drinks with his boss.

Quando ele chega em casa, encontra seu gato e seu pássaro de estimação, ambos batizados com nomes retirados da literatura, e também o próprio Mannion, que quer chantagear o homem que se parece com ele. Ele quer o documento que a polícia deu a Jones garantindo que ele não é Mannion – se usar o documento durante a noite, Mannion poderá andar por aí cometendo crimes sem problemas.

When he arrives home to his pet cat and bird with literary names, Jones finds Mannion himself wanting to blackmail the man who looks like him. He wants the document that the police has given to Jones attesting that he isn't Mannion – by having it during the nights, Mannion can walk around and commit crimes without any problems.

Edward G. Robinson interpreta muito bem dois papéis muito diferentes. Como Mannion, ele é o gângster que conhecemos de filmes como “Alma no Lodo” (1931). Como Jones, ele é tão bondoso e educado que é capaz de oferecer uma xícara de chá a dois visitantes mesmo quando está vestindo apenas uma camisa e – imaginamos – roupa de baixo, porque Mannion havia acabado de roubar suas roupas.

Edward G. Robinson plays two very different roles very well. As Mannion, he is the gangster we know from films like “Little Caesar” (1931). As Jones, he's so kind and polite that he is able to offer a cup of tea to two visitors even though he's wearing only a shirt and – presumably – underwear, because Mannion had just stolen his clothes.

Infelizmente, Jean Arthur tem pouco a fazer no filme. Ela é crush e musa de Jones, pois ele escreve histórias olhando para uma foto dela. Ela é doce e decidida, mas Jones e Mannion são os focos do filme – Miss Clark literalmente desaparece do filme depois de ser raptada pelos capangas de Mannion, junto com a velha tia de Jones, uma personagem que é completamente desnecessária. Entretanto, foi ao ver este filme que Frank Capra ficou interessado em trabalhar com Jean. Sobre Jean Arthur, Edward G. Robinson escreveu em sua autobiografia: “Ela era excêntrica sem ser tola, única sem ser maluca, uma personalidade teatral que não era uma pessoa teatral. Era um prazer trabalhar e conviver com ela.”

Unfortunately, Jean Arthur has little to do in the film. She’s Jones’ crush and muse, as he writes stories while looking at a picture of her. She’s sweet and resolute, but Jones and Mannion are the focuses of the film – Miss Clark literally disappears from the picture after she’s kidnapped by Mannion’s men, alongside Jones’ old aunt, a character who is completely unnecessary. However, it was after seeing this film that Frank Capra got an interest in working with Jean. About Jean Arthur, Edward G. Robinson wrote in his autobiography: “She was whimsical without being silly, unique without being nutty, a theatrical personality who was an untheatrical person. She was a delight to work with and to know.”

Donald Meek rouba a cena como Hoyt, o homem que chamou a polícia no bar e por causa disso fica obcecado com a recompensa de 25 mil dólares pela informação. De acordo com o site do TCM e com o próprio Robert Osborne, Lucille Ball é figurante na sequência do banco perto do final do filme, mas é quase impossível identificá-la.

Donald Meek steals the scene as Hoyt, the man who called the police at the bar and because of that he's obsessed with getting a 25,000 dollar reward for the information. According to the TCM website and Robert Osborne himself, Lucille Ball was an extra in the bank sequence near the end of the film, but it’s almost impossible to identify her.

O Homem que Nunca Pecou” foi dirigido por John Ford – mas o filme se parece muito com um filme de Frank Capra! Ele foi feito pela Columbia, então estúdio onde Capra trabalhava, um dos roteiristas foi Robert Riskin, um colaborador frequente de Capra, e tem como protagonista feminina Jean Arthur, que fez três filmes com Capra. O filme tem até uma montagem com manchetes de jornal, uma marca registrada de Capra.

The Whole Town's Talking” was directed by John Ford – but the picture looks a lot like a Frank Capra film! It was made by Columbia, then Capra’s studio, co-written by Robert Riskin, a constant Capra collaborator, and its female star is Jean Arthur, who worked with Capra in three films. There is even a montage of newspaper healines, something that is a Capra distinctive mark.

Há no filme, entretanto, algo vergonhoso presente em muitos dos filmes de John Ford dos anos 20 e 30: uma piada racista. Ela é muito breve, mas nos incomoda: um porteiro negro é retratado como um bobo, olhando para as pessoas com os olhos arregalados, um traço comumente usado como estereótipo racista. Outro filme de Ford do mesmo período com um pouco mais de conteúdo racista é “E o Mundo Marcha” (1934).

There is in the film, however, something shameful present in many of John Ford's films from the 1920s and 1930s: a racist joke. It is very brief, but it bothers us: a black doorman is portrayed as silly, looking at people with his eyes wide open, a trait commonly used as a racist stereotype. Another Ford film with more racist content is “The World Moves On” (1934).

Como uma mistura de comédia screwball com uma subtrama de gângsters, “O Homem que Nunca Pecou” tem momentos hilários e momentos tensos. Um filme único para John Ford e Edward G. Robinson, ele é prova de que ambos eram mais versáteis do que comumente lhes damos crédito.

As a mix of screwball comedy with a gangster subplot, “The Whole Town's Talking” has hilarious moments and tense moments. A unique film for John Ford and Edward G. Robinson, it's proof that both were more versatile than we usually give them credit for.

This is my contribution to the 120 “Screwball” Years of Jean Arthur blogathon, hosted by Virginie at The Wonderful World of Cinema.


Saturday, June 6, 2020

Do Mundo Nada se Leva (1938) / You Can’t Take It With You (1938)

Nenhum homem que tem amigos é um fracasso. Essa é a lição aprendida por James Stewart como George Bailey em “A Felicidade Não se Compra” (1946), de Frank Capra. Entretanto, a mesma lição havia sido ensinada em outro filme de Capra estrelado por James Stewart e Lionel Barrymore: “Do Mundo Nada Se Leva”, um filme que também traz a melhor e mais excêntrica família do cinema.

No man is a failure who has friends. This is the lesson learned by James Stewart as George Bailey in Frank Capra's “It's a Wonderful Life”, from 1946. However, the same lesson had been taught in another Capra movie starring James Stewart and Lionel Barrymore: “You Can't Take It With You”, a film that also brings the best and most eccentric family to ever grace the screen.

O Sr Kirby (Edward Arnold) quer controlar toda a indústria de munição, e para isso ele precisa construir uma fábrica ao redor do negócio de seu concorrente. Entretanto, há um problema: a fábrica não pode ser construída enquanto um terreno não for comprado. O teimoso proprietário deste terreno é um cavalheiro chamado Vanderhof.

Mr Kirby (Edward Arnold) wants to control the whole ammunition industry, and to do this he needs to construct a factory around his competitor’s business. However, there is one problem: the factory can’t be built if one lot isn’t sold. The stubborn owner of this lot is a gentleman called Vanderhof.

Martin Vanderhof (Lionel Barrymore) é uma figura. Em vez de solucionar seu problema sobre o terreno com o senhor Blakely (Clarence Wilson), que trabalhar para o Sr Kirby, ele apenas faz com que o Sr Poppins (Donald Meek), um contador que estava na empresa havia 20 anos, abandone o emprego para seguir seu sonho de construir brinquedos. Vanderhof leva Poppins até sua casa, que é, obviamente, um lar peculiar.

Martin Vanderhof (Lionel Barrymore) is quite a guy. Instead of solving the issue about his lot with Mr Blakely (Clarence Wilson), who works for Mr Kirby, he only makes Mr Poppins (Donald Meek), an accountant who had been working there from 20 years, abandon his job and follow his dream of manufacturing toys. Vanderhof takes Poppins to his house, and, of course, it is a peculiar household.

A filha de Vanderhof, Penny (Spring Byington), é uma dramaturga amadora. Seu genro, Paul Sycamore (Samuel S. Hinds), faz fogos de artifício. Sua neta mais nova, Essie (Ann Miller), sonha em ser bailarina. Enquanto isso não acontece, ela faz bombons para o marido, Ed (Dub Taylor), vender. Alice (Jean Arthur), a neta mais velha, trabalha como datilógrafa.

Vanderhof’s daughter, Penny (Spring Byington), is an amateur playwright. His son-in-law, Paul Sycamore (Samuel S. Hinds), makes fireworks. His younger granddaughter, Essie (Ann Miller), dreams about being a ballerina. While this doesn’t happen, she makes candy for her husband, Ed (Dub Taylor), to sell. Alice (Jean Arthur), the older granddaughter, works as a stenographer.

E aqui as coisas ficam mais interessantes: Alice trabalha como datilógrafa no escritório de Tony Kirby Jr (James Stewart). Eles estão apaixonados e Tony pede Alice em casamento – sem saber que o avô dela é dono do terreno que o pai dele tanto cobiça.

And here things get more interesting: Alice works as a stenographer at the office that belongs to Tony Kirby Jr (James Stewart). They are in love and Tony asks Alice to marry him – without knowing that her grandfather owns the lot his father wants to buy so badly.

Vanderhof tem um motivo sentimental para não vender a casa: as memórias de sua falecida esposa ainda estão lá, em cada canto. Ele conta isso a Alice em uma cena comovente. A cena deve ter sido particularmente difícil de gravar porque Lionel havia perdido a esposa na véspera de Natal de 1936.

Vanderhof has a good sentimental reason to not sell the house: the memories about his late wife are still there, in many corners. He tells this to Alice in a very moving scene. The scene must have been particularly difficult to shoot because Lionel had just lost his wife on Christmas Eve, 1936.

Vanderhof e sua família só fazem o que gostam. Se eles estão se divertindo, estão felizes. Não importa se eles não estão enriquecendo nem seguindo regras da sociedade: eles simplesmente VIVEM intensamente. Eles entendem que a vida não é uma lista de tarefas que temos de completar de todas as maneiras – a vida é outra coisa. Talvez um presente, uma bênção ou mesmo uma maldição, mas com certeza algo tem de ser feito com ela. Então por que não viver uma vida feliz?

Vanderhof and his family only do what pleases them. As long as they’re having fun, they’re happy. It doesn’t matter if they aren’t getting rich nor following societal rules: they simply LIVE to the fullest. They understand that life isn’t a to-do list that we must complete no matter what – life is something else. Maybe a gift, maybe a blessing, maybe a curse, but certainly something has to be done with it. So why not live a happy life?

Tony fica fascinado com a maneira como a família Vanderhof-Sycamore vive. Ele diz que é preciso muita coragem para ignorar as expectativas dos outros e só fazer o que você gosta. E ele se enche de coragem para levar sua família para jantar na casa de Alice não no dia combinado, mas um dia antes para pegar todos à vontade em casa. O problema é que todos estão muito à vontade – e isso inclui o senhor DePinna (Halliwell Hobbes), que também faz fogos de artifício mas no momento está posando para uma pintura, e Kolenkhov (Mischa Auer), o professor russo de balé de Essie que acha que tudo é um lixo. O que realmente será um lixo será a relação do relaxado Vanderhof e do ambicioso Sr Kirby.

Tony is marveled at how the Vanderhof-Sycamore family lives. He says it takes a lot of courage to ignore everybody else’s expectation and just do what makes you happy. And he is full of courage when he takes his family to have dinner at Alice's house not on the scheduled day, but one day earlier to catch everybody comfortable at home. The problem is that everybody is too comfortable – and this includes Mr DePinna (Halliwell Hobbes), who also makes fireworks but is currently posing for a painting, and Kolenkhov (Mischa Auer), Essie's Russian ballet teacher who thinks everything stinks. What will really stink is the relationship between fun-loving Mr Vanderhof and money-hungry Mr Kirby.

“Do Mundo Nada se Leva” era originalmente uma peça, escrita por George S. Kaufman e Moss Hart. Vanderhof foi interpretado, na peça, por Henry Travers, que mais tarde ensinou uma lição de amizade para George Bailey. A peça de sucesso ganhou o Prêmio Pulitzer e deu origem ao filme, que ganhou dois Oscars: Melhor Diretor e Filme. “Do Mundo Nada se Leva” é a primeira de apenas duas peças que ganharam o Pulitzer e mais tarde o Oscar de Melhor Filme – a outra é “Conduzindo Miss Daisy”.

 “You Can't Take It With You” was originally a play, written by George S. Kaufman and Moss Hart. Vanderhof was played, in the play, by Henry Travers, who later taught George Bailey a lesson in friendship. The successful play won the Pulitzer Prize and originated the film, that went on to win two Oscars: Best Director and Best Picture. “You Can't Take It With You” is one of only two plays to win both the Pulitzer and later the Best Picture Oscar – the other one is “Driving Miss Daisy”.

A Peça / The Play
A Peça / The Play

Robert Riskin, colaborador constante de Frank Capra, adaptou a peça para o cinema e adicionou seu toque inspirador – na verdade, muito do que mais tarde foi considerado “Capracorn” veio da mente de Riskin, como a mensagem alegre, o conflito da cobiça contra a ingenuidade, o homem comum contra o sistema e muito mais. É possível encontrar várias semelhanças entre “Do Mundo Nada se Leva” e outros filmes de Capra e Riskin do final dos anos 30, como “O Galante Mr Deeds” (1936) e “A Mulher Faz o Homem” (1939), indo da Cinderela em fuga até a mensagem de que dinheiro não traz felicidade.

Capra's constant collaborator Robert Riskin adapted the play to the screen and added his inspirational touch – in fact, much of what was later considered “Capracorn” came from Riskin's mind, like the feel-good message, the greed versus naïveté conflict, the common man against the system and many more. You can find many similarities between “You Can't Take It With You” and other Capra-Riskin films of the late 1930s, like “Mr Deeds Comes to Town” (1936) and “Mr Smith Goes to Washington” (1939), from the runaway Cinderella to the lesson that money doesn't buy happiness.

Algumas mudanças foram feitas na peça, em especial no terceiro ato. O personagem Poppins não existia, nem o conflito principal do Sr Kirby querer comprar a casa de Vanderhof. Algumas cenas com muitos extras foram adicionadas, num restaurante, fora da casa de Vanderhof e numa cadeia, e este último cenário trouxe uma deliciosa participação de Harry Davenport como um juiz.

Some changes were made in the play, in special in the third act. The character Mr Poppins didn't exist, nor the main conflict of Mr Kirby wanting to buy the Vanderhof house. Some crowd scenes were added, in a restaurant, outside the Vanderhof house and in a jail, and this last set allowed for a delightful appearance by Harry Davenport as a judge.


Capra, o elenco e seus autógrafos / Capra, the cast and their autographs

Eu apenas considero de mau gosto a maneira como os personagens negros são tratados, em especial Donald (Eddie 'Rochester' Anderson), namorado de Rheba – Rheba (Lillian Yarbo) é a empregada da família. Donald é preguiçoso e não muito inteligente, e na oficina ele trabalha tendo como ajudante um corvo chamado... Jim Crow – em alusão às leis racistas de segregação da época. Aff.

I only find distasteful the way black characters are treated, in special Donald (Eddie 'Rochester' Anderson), Rheba’s boyfriend – Rheba (Lillian Yarbo) is the maid of the house. Donald is portrayed as lazy and not very bright, and in the workshop he works assisted by a crow named… Jim Crow. Ugh.

Embora “Do Mundo Nada se Leva” seja um filme adorável e divertido, as gravações não foram fáceis. Robert Riskin começou a acreditar que Capra estava levando crédito pelo trabalho dele, e o primeiro e único filme de Riskin como diretor havia fracassado recentemente. Lionel Barrymore, sofrendo com artrite e uma bacia recém-quebrada, estava usando muletas e tomando remédios para dor. Ann Miller, com apenas 15 anos, achava difícil fazer suas cenas de balé e constantemente chorava no set.

Although “You Can't Take It With You” is a lovely and funny film, shooting wasn't so easy. Robert Riskin started to believe that Capra was taking credit for his work, and Riskin's first and only film as a director had recently bombed. Lionel Barrymore, suffering from arthritis and a broken hip, was using crutches and taking painkillers. Ann Miller, at only 15 found it difficult to do her ballet scenes and constantly cried on set.

E, mesmo assim, nenhuma destas dificuldades transparece no filme. Talvez hoje, mais de 80 anos após a estreia, “Do Mundo Nada se Leva” traga uma mensagem difícil demais de seguir – você consegue se imaginar vivendo para seus hobbies? - mas ao mesmo tempo nos faz sorrir e acreditar que, com algumas palavras sábias e uma gaita, tudo é possível.

And, yet, none of those difficulties appear when we watch the film. Maybe now, over 80 years after it was released, “You Can't Take It With You” brings a message too difficult to follow  - can you imagine living for your hobbies? - but at the same time it puts a smile on our faces and makes us believe that, with a few wise words and a harmonica, anything is possible.

This is my contribution to the Third Broadway Bound blogathon, hosted by Rebecca at Taking Up Room.

Sunday, March 16, 2014

William Powell: nosso detetive favorito

Com seu cabelo preto repartido no meio, seu bigode impecável, seus olhos claros cristalinos na película e seu charme inconfundível, William Powell dominou a década de 1930. Ele foi um dos grandes abençoados com a chegada do som, pois sua voz foi prontamente considerada “afrodisíaca” pelo público feminino. Seu personagem mais famoso do período é o detetive movido a álcool Nick Charles, mas foi outro detetive que solidificou a carreira de Powell.

Assim como muitos homens da lei que foram da literatura para o cinema (I’m looking at you, Sam Spade), Nick Charles fez o mesmo caminho. O livro “A ceia dos acusados / The Thin Man”, de Dashiell Hammett, foi publicado em 1934. Antes disso, entretanto, surgiram as histórias do detetive Philo Vance, de autoria de S. S. Van Dine. Foram ao todo doze livros, publicados de 1926 a 1939, todos com o título genérico “The ? Murder Case”, em que a interrogação era sempre substituída por uma palavra de seis letras. O sucesso dos livros foi tanto que logo eles foram adaptados para o cinema.   


Em “The Canary Murder Case”, Philo Vance aparece para investigar a morte da showgirl apelidada de Canary (Louise Brooks), embora seu nome verdadeira seja Margareth O’Doe. Ela havia anunciado seu noivado com o herdeiro de uma fortuna, Jimmy Spottswoode (James Hall) o que desagradou ao pai dele, Charles (Charles Lane) e aos vários amantes de Canary.

Este primeiro filme de Philo foi gravado como um filme mudo. Bill Powell fez sua estreia no cinema mudo, em 1922, e foi conseguindo papéis cada vez melhores, porém quase sempre como coadjuvante. Pouco antes do lançamento, os executivos da Paramount decidiram transformar a obra em um filme falado, e todo o elenco foi recrutado para dublar suas próprias falas. Louise Brooks não voltou para a dublagem, pois havia se mudado para a Europa, e a atriz Margaret Livingston foi contratada para o serviço. Embora seja difícil de notar que os diálogos foram dublados, pois a sincronização é muito bem feita, é verdade que a voz de Canary não combina muito com sua imagem de flapper interesseira (a pronúncia “dahling” em especial).


O segundo filme, também de 1929, é “The Greene Murder Case”. Aqui, Vance chega a uma casa que vê uma tragédia acontecer no ano novo: o patriarca é morto e uma de suas filhas, baleada. Ele havia acabado de ler seu testamento para os três filhos, a esposa inválida e o médico da família, disputado pelas duas irmãs, Ada (Jean Arthur) e Sibella (Florence Eldridge). Há também os excêntricos empregados, entre eles uma viúva alemã e uma mulher que anuncia o apocalipse. Este filme se destaca pelos incríveis travellings e tomadas aéreas.

Jean Arthur, cujo sobrenome verdadeiro era, por coincidência, Greene, esteve nestes dois primeiros filmes, tendo um papel de menor destaque em “The Canary...”. Além de William Powell, outra presença constante na série de Philo Vance é Eugene Pallette como o sargento Ernest Heath, um policial cheio de teorias ruins para os crimes, mas que sempre busca levar o crédito quando o mistério é solucionado. Isso não torna o personagem antipático, mas sim divertido. Aliás, a adaptação dos livros de S. S. Van Dine foi bem generosa ao tornar também Philo Vance mais simpático.

William Powell apareceu, em 1930, em um esquete de “Paramount on Parade” como Philo.

O terceiro filme não foi feito pela Paramount, mas sim pela MGM, que comprou os direitos de “The Bishop Murder Case” e transformou-o em filme em 1930, com Basil Rathbone como protagonista. Vale lembrar que Rathbone mais tarde faria 15 filmes como Sherlock Holmes. O terceiro da série com William Powell é “The Benson Murder Case”, que, infelizmente, só está disponível em um Box de DVDs.  Neste filme, o acaso faz com que Philo esteja na cena do crime quando um homem que trabalhava na bolsa de valores é assassinado.

A última vez que Powell encarnou Philo Vance foi em “The Kennel Murder Case”, de 1933. Aqui, Philo desiste de uma viagem à Europa com seu cachorro de estimação após saber que um colecionador de antiguidades, que ele vira na tarde anterior em uma competição de cães, cometera suicídio. Sem acreditar em suicídio, hipótese que o sargento Heath abraça de corpo e alma, Philo decide investigar o caso, que envolve inimigos dentro da família e a venda de vasos antigos. O filme conta com a excelente presença de Mary Astor e com a direção do ótimo Michael Curtiz (Malcolm St. Clair dirigiu o primeiro filme da série e Frank Tuttle, seu assistente, os outros dois). Este é considerado o melhor da série de Philo Vance, embora eu também tenha gostado muito de “The Greene Murder Case”.

“The Kennel Murder Case” marca também a tomada de território de William Powell na Warner Brothers, estúdio para o qual havia se mudado em 1931 e que continuaria a série de Philo Vance com Warren William e Eugene Pallette em uma última participação. Powell mudaria de estúdio mais uma vez, e encontraria um lugar ao sol na MGM, onde Nick Charles foi criado. Mas isso já é outra história...



This is my contribution to the Sleuthathon, hosted by the adorable Fritzi at Movies, Silently.
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