} Crítica Retrô: Nick Charles

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Wednesday, January 3, 2018

Meu Querido Maluco (1941) / Love Crazy (1941)

Há pouco mais de sete anos, eu me formei no ensino médio e fiz a melhor escolha da minha vida: decidi não ir à formatura e passar a noite vendo dois filmes clássicos na TV. Um desses filmes era o peculiar faroeste “Johnny Guitar” (1954). O outro filme era “A Ceia dos Acusados” (1934) – e foi ele que me apresentou Myrna Loy e William Powell.

A little over seven years ago, I graduated high school and made the best decision of my life: I decided to not attend prom and watch two classic films on TV instead. One of these films was the unusual western “Johnny Guitar” (1954). The other film was “The Thin Man” (1934) – the one that introduced Myrna Loy and William Powell to me.
Os fãs de cinema clássico não podem negar que Powell e Loy são, especialmente quando interpretam Nick e Nora Charles, um exemplo de casal 20. Juntos, eles fizeram 14 filmes, e é uma árdua tarefa escolher o melhor deles. “Meu Querido Maluco”, de 1941, certamente fica entre os 5 melhores porque trata de um assunto que ninguém relaciona com Powell e Loy: o divórcio.

Classic film fans can’t deny that Powell and Loy, especially when playing Nick and Nora Charles, are #relationshipgoals. Together, they made 14 films, and it’s hard to choose the best of the bunch. And “Love Crazy”, from 1941, is among the TOP 5 because it deals with a subject you wouldn’t associate with Powell and Loy: divorce.
É o quarto aniversário de casamento de Steve (Powell) e Susan Ureland (Loy). Eles têm um jeito tradicional de comemorar a data, mas decidem fazer tudo ao contrário... até que a situação foge do controle. Primeiro a mãe de Susan (Florence Bates) chega com um tapete como presente e uma carta para Steve enviar.

It's Steve's (Powell) and Susan Ireland's (Loy) fourth wedding anniversary. They have a traditional way to celebrate, but decide to do it backwards... until everything goes out of control. First Susan's mother (Florence Bates) arrives with a rug as a gift and a letter for Steve to send.
Depois Steve encontra uma velha conhecida, Isobel (Gail Patrick), no elevador, e descobre que eles moram no mesmo andar do prédio – e também descobre que, mesmo sendo casada, Isobel ainda está interessada em conquistar Steve.

Then Steve meets an old acquaintance, Isobel (Gail Patrick), at the elevator, and finds out they now live in the same floor – oh, and also that, even though she is married, Isobel is still interested in pursuing Steve. 
A mãe de Susan, como é de se esperar, é a primeira a reparar que há algo estranho no comportamento de Steve durante e depois do jantar. Quando Susan precisa sair por algumas horas para pegar uma tia na estação de trem, Steve precisa fazer companhia para a sogra. Seguindo o velho estereótipo, ela se mostra uma mulher insuportável, e Steve mente dizendo que vai ver um amigo, mas na verdade sai com Isobel.

Susan's mother, as expected, is the first one to point out that something in Steve's behavior during and after dinner is weird. When Susan has to go out for a couple of hours to get her aunt at the train station, Steve has to stay with his mother-in-law. Following the old trope, she proves to be an unbearable woman, and Steve lies saying he'll meet a friend, but in fact he goes out with Isobel.
Quando Susan descobre como Steve passou a noite, ela fica furiosa. O que se segue é uma sequência muito engraçada envolvendo uma confusão de identidades, e finalmente Susan decide pedir o divórcio. Para que a decisão do tribunal demore o máximo possível, Steve finge ter enlouquecido.

When Susan finds out how Steve spent the evening, she gets mad. A very funny follow-up with a few mistaken identities follow, and finally Susan decides to file for divorce. In order to postpone the divorce from going to court, Steve pretends to be insane.
William Powell está simplesmente perfeito como Steve. “Meu Querido Maluco” é um dos pontos altos de sua longa carreira – Powell trabalhou no cinema de 1922 a 1955, em diversos gêneros. Ele era charmoso, às vezes assustador, e tinha um timing especial para a comédia. Neste filme ele tem falas divertidíssimas e, bem, este momento:

William Powell is nothing but delightful as Steve. “Love Crazy” is a highlight in a long career – Powell worked in films from 1922 to 1955, in several genres. He was charming, sometimes scary, and had a special timing for comedy. In this film he has wonderfully funny lines and, well, this moment:
Já falamos o suficiente sobre Myrna e Bill – vamos falar agora sobre os coadjuvantes. Logo no começo do filme, fique com os olhos bem abertos e você verá que o jovem ascensorista é ninguém menos que Elisha Cook Jr. Jack Carson é Ward Willoughby, morador do mesmo prédio em que Steve, Susan e Isobel vivem. Lá pela metade do filme, você verá que a matrona dona da festa, Mrs. Bristol, é interpretada por Kathleen Lockhart, que era esposa de Gene Lockhart e mãe de June Lockhart. Vladimir Sokolof, ator russo que também trabalhou na Alemanha, interpreta um médico, e outro membro da equipe médica é interpretado por Edward Van Sloan, que fez Van Helsing em “Drácula”, de 1931. A secretária ajudando os médicos é May McAvoy, antiga protagonista de filmes mudos, como “Ben-Hur” (1925).

Enough about Myrna and Bill – let’s talk about the supporting cast. In the beginning of the movie, keep your eyes sharp and you'll realize the elevator boy is no other than Elisha Cook Jr.. Jack Carson is Ward Willoughby, also a resident of the building Steve, Susan and Isobel live in. By the middle of the movie, you'll see the matron at the party, Mrs. Bristol, played by Kathleen Lockhart, who was Gene Lockhart's wife and June Lockhart's mother. Vladimir Sokoloff, Russian actor who also worked in Germany, plays a doctor and you'll also find a doctor played by Edward Van Sloan, who was Van Helsing in 1931's “Dracula”. The secretary helping the doctors is May McAvoy, former leading lady in silents like “Ben-Hur” (1925).


Steve e Susan têm tradições e atitudes peculiares, assim como Nick e Nora. Talvez um hipotético divórcio de Nick e Nora se parecesse muito com o que vemos em “Meu Querido Maluco” – embora eu duvide que Nora possa ser tomada pelos ciúmes. Na verdade, Nora provavelmente riria da ideia de que o marido a traiu, pediria um Martini para si e outro para Nick, e continuaria curtindo a vida.

Steve and Susan are as peculiar in their traditions and actions as Nick and Nora. Maybe a Charles vs. Charles divorce would be just like the one in “Love Crazy” – although I doubt that Nora Charles could be consumed by jealousy. Actually, Nora would laugh all the suspicions off, ask a Martini for her, another for Nick, and would keep on enjoying life.
Meu Querido Maluco” é mais uma das comédias sobre divórcio que – você já deve estar imaginando – não termina em divórcio. Claro que não poderia terminar assim: Powell e Loy tinham muita química, e o apelido de Loy era “A Esposa Perfeita”. Mais uma vez ela teve de provar que era uma nas telas, mostrando como uma esposa deve confiar no marido e aceitar as esquisitices e até criancices dele.

Love Crazy” is another divorce comedy that – I bet you already know – doesn’t end in divorce. Of course it couldn’t: Powell and Loy had great chemistry, and Loy’s nickname was “The Perfect Wife”. Once again she proved she was one onscreen, showing how a wife must trust her husband and keep up with his shenanigans or even childishness.
Meu Querido Maluco” deveria figurar entre as melhores comédias já feitas – em muitos momentos, o filme me fez rir mais do que “Cupido é Moleque Teimoso” (1937). Além de ter uma dupla perfeita e um ótimo grupo de coadjuvantes, ainda há as falas engraçadas e uma boa quantidade de comédia física. Mesmo que tenham se passado mais de 75 anos de sua estreia, podemos dizer que “Meu Querido Maluco” ainda é adorável, amalucado e muito divertido.

Love Crazy” should be among the best screwball comedies ever made – some moments made me laugh harder than I did with “The Awful Truth” (1937). It not only has the perfect duo and a great supporting cast, but also very funny lines and a good amount of physical comedy. Even if more than 75 years have passed after its initial release, we can say something: “Love Crazy” is still lovely, zany and extremely funny.

This is my contribution to the Bill and Myrna New Year’s blogathon, hosted by Emily and Laura at The Flapper Dame and Phyllis LovesClassic Movies.

Friday, October 14, 2016

Como ser blasé / How to be blasé

Blasé: Que manifesta tédio ou indiferença em relação a tudo” (definição do dicionário Caldas Aulete)

Blasé: “Unimpressed or indifferent to something because one has experienced or seen it so often before.” (taken from the Oxford Living Dictionaries)
Eu venho de uma família com um longo histórico não-blasé. Meu avô se preocupa com absolutamente tudo. Minha avó também, mas ela foca seus esforços de preocupação no clima e nas tarefas domésticas. Minha mãe também é relativamente preocupada. E durante muito tempo eu também fui perfeccionista, controladora, obcecada com boas notas e com que tudo saísse bem. Por isso, meu desejo sempre foi ser mais blasé.

I come from a family with a long non-blasé history. My grandfather worries about absolutely everything. So does my grandmother, but she usually focuses her worries on the weather and house chores. My mother is also relatively worried. And for a long time I was also a perfectionist, control-freak, obsessed about good grades and overall peace. That's why my secret wish has always been to be more blasé.
Clark Gable, ou melhor, Rhett Butler, era o rei do blasé. Não existe frase mais blasé proferida na história do cinema que sua fatídica última fala em “E o Vento Levou” (1939). Eu não queria ser exatamente como Rhett, mas sim viver com menos amarras e preocupações, sem neuras, sem ansiedade desnecessária. E o cinema desde cedo me mostrava as lições para uma vida mais leve.

Clark Gable, or better, Rhett Butler, was the king of blasé. There is no other sentence in movie history more blasé than his infamous last lime in “Gone with the Wind” (1939). My wish was no to be exactly like Rhett, but to live with less troubles and worries, without unnecessary anxiety. And the cinema, since the beginning, taught me the lessons for a lighter life.
Eu nasci em 1993. Um ano depois, a Disney lançava uma animação de primeira qualidade: “O Rei Leão”. Nele, a simpática dupla Timão e Pumba ensina ao jovem Simba algo indispensável para a sobrevivência dentro e fora da selva: a comer insetos a não se preocupar. Esta é a lição da música mais memorável do filme, e um mantra que eu deveria ter adotado para a vida desde cedo: Hakuna Matata, ou “não se preocupe” em swahili.

I was born in 1993. The following year Disney  released a first-rate animation: “The Lion King”. In it, the cool duo Timon and Pumbaa teaches young Simba something mandatory to survive in and outside the jungle: to eat insects to not worry. This is the lesson taught by the most remarkable song in the movie, and aa mantra that I should have followed in my life since I was young: Hakuna Matata, or “do not worry” in swahili.
Vamos voltar 60 anos no tempo, diretamente para 1934, ano em que estreia “A Ceia dos Acusados”. Nick e Nora Charles, os protagonistas, são extremamente blasés. Sim, eles resolvem todos os problemas e crimes, mas só depois de tomar um ou dois (ou seis) martínis. Nick e Nora têm um ao outro e têm muito, muito senso de humor. Só assim para não se importar com o que está escrito nos tabloides e sempre ter uma frase espirituosa na ponta da língua.

Let’s go 60 years back in time, directly to 1934, the year when “The Thin Man” premiered. Nick and Nora Charles, the protagonists, are extremely blasé. Yes, they solve all the problems and crimes, but only after drinking one or two (or six) martinis. Nick and Nora have each other, and they have an awful lot of good humor. Only with good humor they can care nothing about what is written in the tabloids and always think about great comebacks.
E eis que vem a Disney de novo com uma lição. Sim, eu esperei 13 anos por “Procurando Dory” e fui animadíssima ao cinema (tenho a mesma capacidade de concentração de Dory). E ali estava meu novo ídolo, o personagem mais blasé do século XXI: Geraldo, o leão-marinho. Aquele que ouve vários “nãos”, que é escorraçado, mas faz cara de paisagem, não fala nada e tem um plano na cabeça. Silenciosamente, ele coloca o plano em prática e consegue o que quer. Sempre com ar blasé, claro.

And then Disney teaches me one more lesson. Yes, I waited 13 years for “Finding Dory” and I went, ecstatic, to the movies (Dory and I have the same attention span). And there was my new idol, the most blasé character of the 21st century: Gerald, the sea lion. The one who hears several “no’s”, the one who is bullied and humiliated, but acts like nothing happened, says nothing and plans revenge his action. Silently, he works on his plan and gets what he wants. Always with a blasé attitude, of course.
Acho que consegui ser mais blasé. Deixar a vida me levar, ser mais leve. E, mais uma vez, devo tudo isso ao cinema.

I think I succeeded in being more blasé. In letting things flow in life, in being lighter and living with less pressure. And, once again, I owe all this to the movies.

This is my contribution to the Things I Learned from the Movies Blogathon, hosted by Ruth and Kristina at Silver Screenings and Speakeasy!

Sunday, March 16, 2014

William Powell: nosso detetive favorito

Com seu cabelo preto repartido no meio, seu bigode impecável, seus olhos claros cristalinos na película e seu charme inconfundível, William Powell dominou a década de 1930. Ele foi um dos grandes abençoados com a chegada do som, pois sua voz foi prontamente considerada “afrodisíaca” pelo público feminino. Seu personagem mais famoso do período é o detetive movido a álcool Nick Charles, mas foi outro detetive que solidificou a carreira de Powell.

Assim como muitos homens da lei que foram da literatura para o cinema (I’m looking at you, Sam Spade), Nick Charles fez o mesmo caminho. O livro “A ceia dos acusados / The Thin Man”, de Dashiell Hammett, foi publicado em 1934. Antes disso, entretanto, surgiram as histórias do detetive Philo Vance, de autoria de S. S. Van Dine. Foram ao todo doze livros, publicados de 1926 a 1939, todos com o título genérico “The ? Murder Case”, em que a interrogação era sempre substituída por uma palavra de seis letras. O sucesso dos livros foi tanto que logo eles foram adaptados para o cinema.   


Em “The Canary Murder Case”, Philo Vance aparece para investigar a morte da showgirl apelidada de Canary (Louise Brooks), embora seu nome verdadeira seja Margareth O’Doe. Ela havia anunciado seu noivado com o herdeiro de uma fortuna, Jimmy Spottswoode (James Hall) o que desagradou ao pai dele, Charles (Charles Lane) e aos vários amantes de Canary.

Este primeiro filme de Philo foi gravado como um filme mudo. Bill Powell fez sua estreia no cinema mudo, em 1922, e foi conseguindo papéis cada vez melhores, porém quase sempre como coadjuvante. Pouco antes do lançamento, os executivos da Paramount decidiram transformar a obra em um filme falado, e todo o elenco foi recrutado para dublar suas próprias falas. Louise Brooks não voltou para a dublagem, pois havia se mudado para a Europa, e a atriz Margaret Livingston foi contratada para o serviço. Embora seja difícil de notar que os diálogos foram dublados, pois a sincronização é muito bem feita, é verdade que a voz de Canary não combina muito com sua imagem de flapper interesseira (a pronúncia “dahling” em especial).


O segundo filme, também de 1929, é “The Greene Murder Case”. Aqui, Vance chega a uma casa que vê uma tragédia acontecer no ano novo: o patriarca é morto e uma de suas filhas, baleada. Ele havia acabado de ler seu testamento para os três filhos, a esposa inválida e o médico da família, disputado pelas duas irmãs, Ada (Jean Arthur) e Sibella (Florence Eldridge). Há também os excêntricos empregados, entre eles uma viúva alemã e uma mulher que anuncia o apocalipse. Este filme se destaca pelos incríveis travellings e tomadas aéreas.

Jean Arthur, cujo sobrenome verdadeiro era, por coincidência, Greene, esteve nestes dois primeiros filmes, tendo um papel de menor destaque em “The Canary...”. Além de William Powell, outra presença constante na série de Philo Vance é Eugene Pallette como o sargento Ernest Heath, um policial cheio de teorias ruins para os crimes, mas que sempre busca levar o crédito quando o mistério é solucionado. Isso não torna o personagem antipático, mas sim divertido. Aliás, a adaptação dos livros de S. S. Van Dine foi bem generosa ao tornar também Philo Vance mais simpático.

William Powell apareceu, em 1930, em um esquete de “Paramount on Parade” como Philo.

O terceiro filme não foi feito pela Paramount, mas sim pela MGM, que comprou os direitos de “The Bishop Murder Case” e transformou-o em filme em 1930, com Basil Rathbone como protagonista. Vale lembrar que Rathbone mais tarde faria 15 filmes como Sherlock Holmes. O terceiro da série com William Powell é “The Benson Murder Case”, que, infelizmente, só está disponível em um Box de DVDs.  Neste filme, o acaso faz com que Philo esteja na cena do crime quando um homem que trabalhava na bolsa de valores é assassinado.

A última vez que Powell encarnou Philo Vance foi em “The Kennel Murder Case”, de 1933. Aqui, Philo desiste de uma viagem à Europa com seu cachorro de estimação após saber que um colecionador de antiguidades, que ele vira na tarde anterior em uma competição de cães, cometera suicídio. Sem acreditar em suicídio, hipótese que o sargento Heath abraça de corpo e alma, Philo decide investigar o caso, que envolve inimigos dentro da família e a venda de vasos antigos. O filme conta com a excelente presença de Mary Astor e com a direção do ótimo Michael Curtiz (Malcolm St. Clair dirigiu o primeiro filme da série e Frank Tuttle, seu assistente, os outros dois). Este é considerado o melhor da série de Philo Vance, embora eu também tenha gostado muito de “The Greene Murder Case”.

“The Kennel Murder Case” marca também a tomada de território de William Powell na Warner Brothers, estúdio para o qual havia se mudado em 1931 e que continuaria a série de Philo Vance com Warren William e Eugene Pallette em uma última participação. Powell mudaria de estúdio mais uma vez, e encontraria um lugar ao sol na MGM, onde Nick Charles foi criado. Mas isso já é outra história...



This is my contribution to the Sleuthathon, hosted by the adorable Fritzi at Movies, Silently.
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